Apresentação
Fale Conosco
Veja Também:
Capítulo IX OS CINCO PRIMEIROS Enquanto os galos de Cafarnaum ainda dormiam, nós pescadores nos levantávamos. Um a um, com os olhos pregados de sono, íamos saindo de nossas casas. Desenrolávamos as redes e nos reuníamos no pequeno cais da cidade, onde ancorávamos nossas barcas de pesca e onde a cada dia os mais velhos do grupo distribuíam o trabalho... Zebedeu: Boa madrugadona, rapazes!... Brr... Que frio está fazendo!... Vamos, vamos, aviem-se que há vento das montanhas e a pesca será boa... Jonas, camarada, vai até lá com o seu pessoal... Mellizo, você e eu nos distanciaremos até aquela curva... E vocês, para as barcas!...Ânimo, rapaziada, que hoje será um dia de sorte!... Os remos se afundavam nas águas tranquilas do lago e o vento norte se ocupava de enfunar as velas de nossas barcas. Lá no fundo, lançavam a rede grande para pegar os melhores peixes. Outro grupo ficava na margem com cestas e linhadas, para pegar os peixes pequenos, os dourados e as enguias. Jonas: Essa rede!... Estique essa rede, animal!... Entre mais, Pedro, não se desvie. Pra lá!... Pra lá!... Temos um cardume de dourados à esquerda. Ânimo, rapazes!... Já fazia uma semana que Jesus estava conosco em Cafarnaum. Durante o dia procurava trabalho no povoado e à noite nos reuníamos em minha casa para bebermos vinho e contar histórias. Era um bom amigo esse Jesus. Logo pegamos confiança nele, como se ele fosse mais um da família... Naquela manhã, quando acordou, já fazia um bom tempo que nós estávamos lutando com as ondas do lago... Jesus atravessou o bairro dos pescadores, deixou para trás as palmeiras que rodeavam o embarcadouro e saiu a andar pela margem... Jonas: André, vai dar uma mão pro Pedro!... E você também, cara de sapo!... Vamos moleques, todos juntos!... Um, dois, três!... Jáááá! Marinheiros: Jááá!... Jonas: Outra vez! Marinheiros: Jááá!... Jonas: Vamos lá, marinheiroooos! Marinheiros: Jááá!... Jonas: Aí, valentes do Tiberíades! Marinheiros: Jááá!... Jonas: É isso aí, forçudos de Betzaida! Marinheiros: Jááá!... Jonas: Onde estão os machos de Cafarnaum?!... Marinheiros: Jááá!... Jonas: Já, já, já, já! Marinheiros: Já, já, já, já!... Pedro: Porcaria de rede, os nós estão podres! Uff! André: Ei, Pedro, aquele que vem vindo pela margem, não é Jesus? Lá em baixo, olhe!... Pedro: Sim, é ele mesmo!... Até que enfim mostra as orelhas o moreno de Nazaré!... Pelo que se vê, esses camponeses do interior não gostam muito de madrugar. Ei, você de Nazaré!... Espere aí que já vamos sair da água!... Jonas: Pedro, aonde vai?!... André, seu estúpido, não solte a corda ainda!... André: A rede vem vazia, nem dourados nem nada!... Pedro: Temos um hóspede, vamos recebê-lo! Jonas: Pros diabos, vocês e seu hóspede!... Desde que esse sujeito chegou não fazem outra coisa do que bater papo... Charlatães!... Jesus: Pois olhem, dormi como um tronco. Estou indo lá pra casa da comadre Rufina que está com a casa meio derrubada. Se eu levanto a parede e prego o teto, dá pra ganhar um par de denários. Pedro: Deixa isso pra depois. Pra trabalhar sempre há tempo. Olhe, vamos lá até aquela curva, procuramos os filhos de Zebedeu e assamos uns bons dourados no cais, o que acha? Topa? Jesus: Espere aí, Pedro, vocês estão trabalhando e... Pedro: Bah, não se preocupe com isso, Jesus. Já estou até aqui de ficar lançando a rede nessa enseada. André: Esse é Jonas, nosso pai, e tem a cabeça mais dura que uma pedra de moinho. Pedro: “Um cardume de dourados! Um cardume de dourados!”... E você se cansa de lançar a rede e não pega nem caranguejo! Jesus: Esse negócio de lançar rede deve ser difícil, não? Nesses dias fiquei olhando como vocês fazem... André: Ih, rapaz, não é tudo isso não! É só uma questão de se acostumar a trabalhar em grupo. Enquanto um estica as boias, o outro puxa as amarras, o outro se vira com os cestos... e assim vai. Você irá aprender. Pedro: Magrão! Pra este aqui, primeiro tem de ensinar a nadar, porque esses camponeses nem isso sabem. Jesus: Tem razão, Pedro! Digamos que a água e eu não nos damos muito bem... André: Mas então, Jesus... Você pensa em ficar alguns dias mais aqui por Cafarnaum? Jesus: Pois é, veja... Não sei... Depende. Pedro: Depende de quê? Jesus: Depende de vocês. Pedro: De nossa parte não há problema, não é mesmo, André? Na casa de Zebedeu ou na minha casa você pode ficar o tempo que quiser. Não lhe faltará nem pão nem um canto pra dormir. André: E como você já viu, trabalho sempre aparece. Ora é uma parede aqui, ora umas mesas ali... Jesus: Não. Não é bem por isso. Não estou pensando nisso agora... Pedro: O que acontece então? Jesus: Nada, é que... Sabem, quando estive no deserto, depois que nos despedimos lá no Jordão, se lembram, minha cabeça deu muitas voltas... Pedro: E aí? Ficou tonto com tantas voltas, não é isso? Jesus: Escute, Pedro. O profeta João continua preso. Já não há mais ninguém que reclame por justiça. Enquanto isso, nós... Está entendendo? O que fazemos, heim? Falamos muito, mas com os braços cruzados. Pedro: Era isso mesmo que eu estava dizendo ontem: muita história, muito batismo e muito palavrório. Mas, na hora da verdade, todos nós deixamos o profeta sozinho. Veja só: o que está pensando o Movimento? Por que os zelotas não planejam um resgate? André: O cárcere de Maqueronte está muito isolado entre as montanhas. Assaltar aquilo seria muito difícil... Pedro: O que é isso de difícil!... O que não podemos permitir é que a voz de João seja levada pelo vento. Acho que já está na hora da gente agir por própria conta, que caramba!... André: O que você anda pensando, Jesus? Tem algum plano? Jesus: Nada especial, André, mas... Não sei, vendo vocês lançando as redes, me ocorreu que... Vejam: por que não fazemos o mesmo que vocês fazem para pescar? Jogam a rede juntos, recolhem juntos. Por que não começamos a fazer alguma coisa, mas juntos? Pedro: É isso que eu digo. Falar menos e fazer mais. Para rachar cabeças de romanos não precisa de palavras, mas de pedradas. Gosto desta ideia de Jesus: trabalhar por nossa conta, sem esperar pelas ordens do Movimento. A gente faz as leis! Jesus: Deixe as pedradas e as leis pra lá, Pedro... O importante agora é nos unirmos. Formarmos um grupo, ou algo assim... Pedro: Eu lhe digo que gosto muito dessa ideia, sim senhor. Aonde vai um, vão todos. Corremos juntos o perigo e celebramos juntos a vitória. Isso está bem pensado: formamos um grupo e atacamos de surpresa. André: Espere aí, Pedro! Isso não está claro. Um grupo... pra fazer o que, Jesus? Jesus: Bom, André, para... Para continuar o trabalho do profeta João, para falar ao povo e dizer-lhe: Agora sim! Agora chegou a vez de Deus. Deus vai lançar as redes por esses mares e é preciso estar alerta. Porque Deus não gosta do jeito como vão as coisas. Chegou o tempo em que o peixe grande já não comerá o peixe pequeno. Pedro: Maravilha, Jesus! Quando começamos? André: Vamos com calma, Pedro. Isto que Jesus diz está muito certo, mas... mas temos de ir com cuidado. Aqui farejam qualquer conspiração bem de longe. Se organizarmos algo temos de medir bem os passos. Jesus: Está com medo, André? André: Medo não, Jesus. Mas também não quero que me cassem como a um rato. Jesus: E você, Pedro, tem medo? Pedro: Medo eu?... Você não me conhece, moreno. Medo?... Eu não conheço esse sujeito! Jesus: Pois eu tenho. No deserto compreendi que o que eu tinha era medo. Medo de arriscar o pescoço, compreendem? Mas Deus irá nos dando a força necessária para ir em frente, não acham? Pedro: Claro que sim, homem. Dos covardes não se escreveu nada até hoje. Venha, vamos falar com Tiago e João, pra ver o que dizem esses bandidos! Pedro, André e Jesus se puseram a andar pela margem do lago até a curva onde estavam as barcas de Zebedeu. Meu irmão Tiago e eu estávamos com nosso pai remendando umas redes velhas... Pedro: Lá estão eles... Aquele que está no meio, de ceroulas, é o Tiago... Jesus: Ei, você, Tiago... Venha cá, corre, cabelo de fogo, queremos falar com você! Pedro: Não está por aí o maluco do João? Jesus: Venha, João!... Deixe as redes e venha cá um momento! João: Já estamos indo, esperem! Zebedeu: Ei, ei, moleques, aonde vão?... Ainda não está na hora da sopa. Maldição com essa juventude! Juro que hoje vão dormir com o estômago vazio, par de vagabundos! Tiago: Companheiros, hoje seria um bom dia para mostrar a cidade ao nosso amigo. Desde que chegou não faz outra coisa que assentar tijolos e pregar pregos. Não, senhor, hoje vamos nos divertir. Olhe, Jesus, Cafarnaum tem fama de uma cidade alegre. E é verdade. Aqui nunca falta um baile nem uma jarra de vinho... nem muito menos mulheres. Agora está aqui pelo bairro uma tal Maria, de Magdala, que é uma belezura... aiaiaiiiii! André: Escute, cabelo de fogo, deixe isso pra lá e vamos falar de coisas sérias. Jesus tem um plano. Estivemos falando de formar um grupo sem contar com o Movimento... Nós cinco fomos caminhando até o cais, discutindo sobre o grupo e o que íamos fazer. Lá, no embarcadouro, juntamos lenha, fizemos fogo e pusemos sobre as brasas uns quantos dourados... Tiago: Pois eu digo que o que precisamos é de armas. Jesus: Armas para que, Tiago? Tiago: Como para que? Para matar romanos. Você não acaba de dizer que o peixe grande come o pequeno e que há que acabar com isso? Pois vamos liquidar uns quantos peixes grandes! Jesus: Espere, Tiago. Vocês mesmos me disseram que um bom pescador não faz muito barulho porque isso espanta os peixes. E é isso que precisamos fazer agora: começar reunindo os peixes pequenos para que se tornem fortes e não se deixem comer pelos peixes grandes, não acham? Deus também começou assim quando disse a Moisés que organizasse todos aqueles israelitas dispersos para que juntos desafiassem o faraó e escapassem de seus dentes... Pedro: Bem falado, Jesus. E eu acredito que há muitos que se unirão a nós se soubermos jogar bem as redes. André: Podemos falar com Felipe, o vendedor. João: E com o Natanael, de Caná! Jesus: E então? Decidimos fazer alguma coisa? O que você acha, Tiago? Tiago: Está bem, Jesus. Estou no grupo. Já veremos por onde começar. Mão com mão! Jesus: E você, João, caça-briga, está de acordo? João: Eu estou. Contem comigo! Jesus: E o que diz o magricela do André? André: O que já disse antes. Que sim. Mas com os olhos bem abertos. Mão com mão! Jesus: E você, Pedro-pedrada, está com a gente? Pedro: E você ainda pergunta, Jesus? Não dou um passo atrás nem pra pegar impulso! Eu digo três vezes: sim, sim, sim! Dê essa mão aí! E agora falta você, moreno. O que você diz? Está no grupo, Jesus? Jesus: Sim. Eu também ponho a mão neste arado e já não volto a olhar para trás. Mão com mão, companheiros! E assim, naquele cais de Cafarnaum, todos agachados junto ao fogo, esperando assar os dourados, começamos nosso grupo. Éramos apenas cinco. A pesca era o principal meio de vida em todas as cidades ou pequenas aldeias que rodeavam o lago de Tiberíades. Naqueles tempos, o ofício de pescador era próprio das pessoas das classes mais baixas, sem cultura, que não cumpriam com os deveres religiosos e estavam à margem de muitas outras pautas sociais de “boa educação”. Junto com os camponeses e outros estratos sociais pobres, formavam os chamados “amhaares” (primitivamente, “povo da terra, patrício”; mas depois, “pecadores, malditos sem lei”). Os pescadores das margens do lago eram trabalhadores dependentes de um patrão a quem tinham que entregar boa parte dos lucros, ou então independentes por grupos familiares e formando pequenas cooperativas com o que tentavam aliviar o grande aperto econômico em que viviam. Conservam-se ainda restos de pequenos embarcadouros do tempo de Jesus, em diferentes pontos do lago. Há que mencionar o de Tabgha, a uns 3 quilômetros de Cafarnaum, com escadarias de quase dois mil anos. O cais de Cafarnaum está em parte reconstruído. Entre pescadores, Jesus recrutou seus primeiros discípulos dos quais foi, antes de mais nada, um amigo. Com eles, em grupo, em comunidade, Jesus ia descobrindo sua vocação. E o próprio grupo, sua missão de anunciar o Reino de Deus naquele mundo em que tantas coisas tinham de mudar. Os cinco primeiros e, depois, aqueles doze incondicionais que acompanharam Jesus, vem a ser algo assim como a primeira comunidade de base. No início de qualquer obra humana ocorrem tentativas, imaturidades, buscas. Os planos nunca estão perfeitamente definidos nem tampouco se conhece exatamente a meta, onde tudo vai dar. Daí o risco. E por isso também a confiança que se põe em Deus, ao se colocar em suas mãos a sorte da obra empreendida. Com o grupo de Jesus e seus amigos aconteceria o mesmo. No interior desse grupo, a liderança de Jesus não seria algo imposto ou dado desde o começo, mas que iria se fazendo, iria se construindo. Aqueles primeiros pescadores de Cafarnaum veriam pouco a pouco em Jesus o grande companheiro, o melhor amigo, o líder natural de vontade firme e atitudes generosas. E, finalmente, aquele que devia pastorear o povo e pôr-se à sua frente, o libertador que esperavam. O trabalho ao qual Jesus convida seus amigos é um trabalho fatigante e comunitário: lançar as redes. O Reino de Deus exige um trabalho de equipe. Também exige paciência, tempo, observação, estratégia, astúcia, como na pesca. Jesus lhes fala também que Deus vai lançar as redes, de um Deus pescador. É uma imagem recolhida na parábola da rede de arrastão (Mt. 13,47-50) que quer significar o juízo de Deus sobre o mundo: separam-se os peixes bons dos maus (naquele tempo se entendia por “peixes maus” os que não tinham escamas nem barbatanas, do tipo das enguias e que não eram bons para comer). Ao falar a esses primeiros discípulos, Jesus lhes diz que é chegada a hora desse juízo de Deus. O símbolo do peixe mau ou bom se substitui pelo peixe grande e o pequeno (Mateus 4,18-22; Marcos 1,16-20; Lucas 5,1-11). Felipe, de Betzaida da Galileia, se uniu ao nosso grupo. Não sabíamos então muito bem por onde começar nem o que fazer. Éramos só seis. E só tínhamos esperança e ganas de lutar. Existem poucos dados no Evangelho sobre o apóstolo Felipe. Era de Betzaida, uma aldeia situada ao norte do lago, na margem oriental do Jordão, que não pertencia politicamente à Galileia. “Betzaida” significa “Casa do Pescado”. Ali haviam nascido também os irmãos Pedro e André. No relato, Felipe é um mascate, vendedor de quinquilharias. Este era um ofício comum na época e estava classificado como “desprezível” junto a muitos outros ofícios populares que rebaixavam socialmente aqueles que os exerciam. Uma das razões para considerar o mascate como desprezível era que, por seu trabalho, tinha de relacionar-se com mulheres. Por isso, sem mais, suspeito de imoralidade. Os que exerciam este ou outros ofícios classificados nas listas públicas como desprezíveis não podiam ocupar nenhum cargo de responsabilidade comunitária. Jesus, como demonstra mais de uma vez o Evangelho, não se deteve diante das leis, das normas, das tradições, dos arraigados costumes do povo. Não discriminou ninguém. Como Deus que não se fixa nas aparências (I Sam 16,7). Em Jesus, Deus se revela mais uma vez, definitivamente, como o Deus que escolhe os humildes para confundir os orgulhosos, os que nada são para subverter os valores dos que se creem alguma coisa (I Cor 1,26-29). O Escolhido de Deus, seu filho, Jesus de Nazaré, é um camponês pobre e sem cultura. E aqueles que Jesus escolhe são os pobres, os de baixo, os “anawim” de Israel. A Igreja de Jesus está chamada a ser a comunidade dos pobres, um espaço de liberdade e de fraternidade, onde os homens não adorem ao deus dinheiro, nem valham mais nem menos por sua cultura, sua posição social ou seus títulos. Como Jesus lembra a Felipe, Israel se formou como povo a partir de um pequeno grupo de escravos famintos, desgastados por duros trabalhos, que puseram em Deus e em Moisés sua esperança. Quando os pobres despertam e se organizam, quando se põem em marcha e, sem se inferiorizar por suas limitações, se apoiam em Deus e na força de sua união, Deus se faz presente no meio deles. Em toda história de libertação do povo, Deus é aliado dos humildes e põe a cara por eles. Porque é através da ação, do compromisso e da esperança dos pobres que Deus transforma a história. (João 1,43-44)
Capítulos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII XXIX XXX XXXI XXXII XXXIII XXXIV XXXV XXXVI XXXVII XXXVIII XXXIX XL XLI XLII XLIII XLIV XLV XLVI XLVII XLVII XLIX L LI LII LIII LIV LV LVI LVII LVIII LIX LX LXI LXII LXIII LXIV LXV LXVI LXVII LXVIII LXIX LXX LXXI LXXII LXXIII LXXIV LXXV LXXVI LXXVII LXXVIII LXXIX LXXX LXXXI LXXXII LXXXIII LXXXIV LXXXV LXXXVI LXXXVII LXXXVIII