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Capítulo LXXXVIII NEM EM TODOS OS LIVROS DO MUNDO Em pouco tempo, os grupos dos que queriam seguir o caminho de Jesus foram se espalhando por todos os bairros de Jerusalém e por outras cidades do nosso país. E àqueles que não haviam conhecido Jesus, chegava a Boa Notícia do Reino de Deus que com ele havia começado... Bom, vocês bem sabem que ao ir de boca em boca a notícia se equivoca... Marcos: Pedro!... Pedro!... Pedro: O que foi agora, Marcos? Marcos: Escute, Pedro, é verdade que Jesus disse “Felizes os que têm paciência, mesmo que não consigam nada”? Pedro: O que você disse? Marcos: Perguntei se Jesus disse que a primeira coisa mais importante é a paciência e a segunda também. Pedro: Mas, de onde você tirou isso, Marcos? Marcos: Eu não, atira-pedras. Foi o pessoal do grupo do bairro de Ofel. Dizem que o moreno repetia sempre: “Paz e paciência!... Paz e paciência!”. Pedro: Mas, estão loucos? Quem disse essa besteira? Marcos: Você. Pedro: Eu? Marcos: Dizem que você lhes ensinou isso. Pedro: Mas, como vou ser eu, maluco, se faz quatro meses que nem mostro o nariz para este grupo? Marcos: Vai ver que é por isso mesmo. Ninguém os orienta... e assim a coisa vai indo! Sabe também o que dizem? Que quando Jesus estava pendurado na cruz, piscou um olho para você e disse: “não se preocupe... no domingo a gente se vê!” Pedro: Mas, que disparates são esses...? Vou agora mesmo falar com eles... Puff... Já não agüento mais... Já estou sem saliva na boca... Passo o dia correndo por aqui e por ali... ai, caramba, como se vivia tranqüilo em Cafarnaum com uma barca e umas redes... Assim era a nossa vida naqueles primeiro anos. Pedro e Felipe e o magricela André e todos os que havíamos andado com Jesus desde que se batizou no Jordão até o dia em que Deus o ressuscitou, nos reuníamos com os grupos e lhes contávamos todas as coisas que havíamos vivido com ele... Pedro: Ei, Marcos, o que você está fazendo aí com essas penas e esses papéis? Marcos: Aprendendo a escrever, Pedro. Pedro: A escrever? E para que você quer saber de letras agora nessa idade? Marcos: Porque no passo que nós vamos... Sabe da última que aconteceu com o pessoal do bairro do Sião? Que quando Jesus era bebê não mamava no seio esquerdo... para fazer penitência! Pedro: Mas onde já se viu uma coisa dessa?... Marcos: Mas fique tranqüilo, Pedro. Eu tomei uma decisão. Vou pôr por escrito o que Jesus disse e fez. Por escrito, está entendendo? Assim, nossos netos terão algo seguro entre as mãos. Heim, o que você acha da idéia? Pedro: Não sei, Marcos, isso é muito difícil. Há coisas que não vê com os olhos nem se ouve com o ouvido e que também teria de ser contadas. Falar de Jesus é algo tão grande... não cabe em um livro... Marcos: E cabe menos ainda na língua de um punhadindo de homens. Temos que dar um jeito nisso, Pedro. As palavras o vento leva. O escrito, escrito fica. Pedro: Está bem. Comece então a escrever, eu vou contando tudo, tintim por tintim. Marcos: E também sem aumentar as coisas, atira-pedras... Olhe que nos conhecemos bem, heim? Pedro: Ah, é? Não tem confiança em mim? Marcos: Sim, eu tenho confiança. Mas também confio no Felipe e no Natanael e na avó Rufa, que tem mais memória que Salomão e se lembra muito bem de tudo o que aconteceu... Pedro: Pois então vai a Cafarnaum e faça suas investigações e escreve depois tudo o que quiser. Bom, tudo não... Marcos: Como, tudo não? Pedro: Quero dizer que há coisas que não é preciso tirar para fora... Por exemplo... O que você vai dizer de mim? Marcos: De você? Vejamos... que você foi um dos primeiros a entrar para o grupo e... Pedro: Nem lhe passe pela cabeça dizer que neguei três vezes o moreno, está ouvindo? Marcos: Tenho que pôr, Pedro. Pedro: E por que você tem que pôr isso, diga?... Marcos: Porque foi o que aconteceu. Ou não? Pedro: Bom... bom, está bem, escreve se quiser. Mas escute bem, pedaço de intrometido, se puser isso, tem de pôr também que eu... que eu amei Jesus tanto quanto a minha Rufina, modo de dizer! Marcos: Não se preocupe, narigudo. Deixe isso por minha conta! E Marcos, o amigo de Pedro, começou a pôr por escrito a Boa Notícia do Reino de Deus. E aquelas primeiras páginas iam de grupo em grupo e muitos irmãos que não haviam conhecido Jesus em pessoa, começaram a conhece-lo ouvindo os relatos de sua vida, de como o mataram e de como Deus o levantou dentre os mortos. Um tempo depois,Mateus, que havia sido cobrador de impostos, e que tinha experiência com a tinta e com as letras, teve uma idéia parecida à de Marcos... Felipe: Mas, o que você faz aqui fechado Ma-ma... Atchim!... teus? Mateus: Estudando, Felipe, estudando e escrevendo. Felipe: Porcaria, quanto pó há por aqui!... Atchimm!... Você vai acabar ficando amarelo como esses papéis velhos!... Mateus: Nestes pergaminhos, seu burro, estão as palavras dos profetas e dos sábios de Israel... Escute, Felipe, veja só o que diz aqui: “Eu o vejo, mas não para agora; eu o percebo, mas não muito próximo: de Jacó sai uma estrela, e pousa sobre Israel”... Está percebendo? Felipe: Sim, sim, não estou percebendo nada. Mateus: A estrela, Felipe! A estrela que o profeta Balaão viu há mil anos era o Messias. E o Messias era Jesus. Compreende agora? Felipe: Não muito, mas... Mateus: Escute esta outra... Ouça: “Virão a ti os reis de todas as nações, uma caravana de ouro e de incensos”... E então, o que você me diz dessa? Felipe: Não sei aonde você quer chegar... Mateus: A gruta de Belém. Quando Jesus nasceu lá em Belém, uma estrela brilhou no céu e foi guiando os reis do oriente que vieram render homenagem ao Messias de Israel! Felipe: Que eu me lembre, Maria disse que só vieram alguns pastores, e não acredita que cheirassem a incenso... Mateus: O que lhe falta é poesia, companheiro! Felipe: E o que lhe sobra é fantasia. Mateus: Não, Felipe. Nossos profetas escreveram sobre Jesus. Todas as profecias de antigamente se cumpriram agora entre nós. Felipe: Não, não, você está trapaceando, Mateus.Você sabe que não veio nenhum rei do oriente nem nada disso. Mateus: Não, trapaças eu fiz antes quando cobrava impostos lá na alfândega de Cafarnaum. Agora não. Felipe: Agora também. Porque essa história de estrela não é verdade. Mateus: A verdade é como uma escada. E você fica no primeiro degrau. Felipe: E quantos degraus você já subiu, heim? Mateus: Não sei, Felipe, mas eu penso que a verdade mais verdadeira está por trás das letras... E é essa que eu quero escrever. Olhe, na melhor das hipóteses, com esses meus relatos muitos conhecerão Jesus e se animarão a lutar como ele e sentirão que uma estrela brilha no meio da noite... quer uma verdade maior que essa...? E Mateus continuou fechado naquele quartinho com sua pena de escrever e seus dedos manchados de tinta, garatujando pergaminhos, escrevendo para nossos compatriotas judeus, que dão tanta importância às profecias antigas, a notícia nova de Jesus, filho de Davi, filho de Abraão. Pouco tempo depois de começar o trabalho em Jerusalém, começaram também as perseguições. Os governantes, os grandes senhores de Israel, os grandes mestres da Lei, não queriam saber coisa alguma de nossos grupos. Havia um deles, um homem baixinho e careca, que se assanhou contra nós. Minha mãe, que sujeito aquele!... Fez guerra contra nós, nos arrastava aos tribunais, queria acabar com todos os cristãos, pois foi assim que começaram a nos chamar em Antioquia, e depois esta palavrinha pegou em toda parte... Como estava dizendo, aquele homem tornava nossa vida impossível. Mas pouco tempo depois, quando Deus o derrubou do cavalo e lhe abriu os olhos, o tal Paulo – era assim que chamavam o sujeito – pôs toda sua energia a serviço do Evangelho de Jesus. Pedro: Mas, Paulo, compreenda, temos de ir com calma... Paulo: Que calma coisa nenhuma! O Reino de Deus tem pressa! Abram os olhos, caramba!... Vocês aqui trabalhando com uns grupinhos mixurucos de judeus, e por aí há milhares de gregos que querem ver Jesus, que querem conhecê-lo... Convertem-se em turmas... Batizam-se... e depois não há quem os oriente no Caminho!... Acham que não? Pois vão a Éfeso, vão a Tessalônica, a Chipre, a Filipos, a Corinto, a Atenas... O mundo é grande, companheiros, e Cristo é maior que o mundo! João: Diga-me uma coisa, Paulo. Esses novos cristãos de seus grupos conhecem a lei de Moisés?... Estão circuncidados? Paulo: Quero mais é que o prepúcio se dane! Não, não estão circuncidados e nem faz falta! Pedro: Mas, Paulo... Paulo: Nem mas nem meio mas! Já é hora de romper com essa casca e ir para fora. Jerusalém não é o umbigo do mundo! João: Nem Roma tampouco! Paulo: Claro que não! O mundo é maior que tudo isso! E nós temos que semear a semente de Jesus em todos os sulcos. O evangelho é para todos, não percebem? Para os de perto e para os de longe, para os judeus e para os gregos! Pedro: Está bem, Paulo, está bem, mas acalme-se, por favor...! Paulo: Não, Pedro, não vou me acalmar! Pelo contrário, sabe o que eu vou fazer? Vou falar com um amigo meu que entende muito de letras e vou dizer a ele que escreva as palavras de Jesus, mas que as escreva em grego, para que os gregos a leiam, que escreva o evangelho para os que não sabem um pepino de Moisés, mas que amam a Deus e o buscam. E Lucas, aquele médico jovem amigo de Paulo, recém convertido à nossa fé, depois de falar com todos nós e de recolher muitos dados, por aqui e por ali, escreveu seu livro para que os pagãos também pudessem escutar e ler a Boa Notícia de Jesus... Lucas: “Outros antes de mim escreveram estas coisas, tal como as ouviram contar das primeiras testemunhas. Eu também, depois de haver investigado tudo cuidadosamente, me decidi a escrevê-las a ti, que amas a Deus e o buscas...” Passaram uns tantos anos. E então eu estava na cidade de Éfeso, Havíamos formado ali um grupo de cristãos bastante lutadores. Nós nos reuníamos para partilhar o pão, para partilhar o bolso e para ir abrindo os olhos das pessoas. A mim sempre pediam que contasse coisas de Jesus, de como era, de como falava... A mim e a Maria, sua mãe, que desde alguns anos vivia ali comigo... Maria já estava bem velhinha... Teria mais ou menos uns oitenta anos... Maria: João, filho, por que há tanta algazarra lá fora? João: Ninguém está fazendo algazarra, Maria. Maria: Mas, meus ouvidos estão zumbindo. João: Está acontecendo com você o mesmo que com os caracóis. Ainda que tirem do mar, guardam dentro o ruído das ondas. Você está aqui na Grécia, Maria... mas seu coração anda por lá, pelo mar da Galiléia, por Cafarnaum, por sua aldeiazinha de Nazaré... Maria: Ai, João, filho!... o que você quer? São tantas recordações! João: Pois olhe, falando de recordações... sabe o que o pessoal da comunidade me pediu? Que escreva. Dizem que se não for assim, as coisas que Jesus fez acabam caindo no esquecimento. Maria: Pois eu me lembro de tudo como se fosse ontem. João: Sim, Maria, você sim! E eu também. Mas eles não. Eles não conheceram seu filho. E perguntam, e querem saber... Além disso, quando nós faltarmos, quem vai dizer a eles o que foi e o que não foi? Maria: É, nisso você tem razão, João, pois eu já estou com um pé do outro lado... Olhe, tenho uma dor cravada aqui nas costas... João: E então, vai me ajudar? Maria: Ajudar em que, João? João: A escrever as coisas de Jesus. Maria: Ai, filho, mas como se hoje estou de um jeito que nem sei como me chamo...! Esta minha cabeça...! João: Mas, Maria, você não acabou de dizer que se lembrava de tudo? Maria: Nós velhos dizemos muitas coisas... Vai, comece você, João, comece você a escrever e depois você me conta... Eu me reuni com os da comunidade, e rezando e pensando entre todos, fomos pondo por escrito nossa fé em Jesus... João: Vamos lá, Maria, abre bem as orelhas e escute isso, para ver o que você acha...! Já temos a primeira página. Maria: Vamos ver, João... Já estou curiosa por saber o que você escreveu... João: Ouça... Ranran... “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus. E aquele que é a Palavra estava no princípio com Deus.Tudo se fez por ele e sem ele nada se fez de quanto foi feito”. E então, o que você acha, heim? Maria: Repita outra vez, João... acho que me perdi... João: Ouça, Maria... “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus.” Maria: Mas, de que palavra você está falando, meu rapaz...? João: Maria, a Palavra é seu filho!... O Verbo, a Palavra que se fez carne, a Plenitude da Vida!... Compreende? Maria: Ai, João, filho, não lhe parece que isso está um pouco elevado demais...? João: Mas o que eu quis foi subir mesmo, Maria!... A vida do moreno foi tão grande, tão importante, tão...! Sabe o que acontece, Maria? É que não encontro palavras para dizer o que foi. Maria: Pois se não as encontra, não as ponha. João: Ah, é?... E ponho o que então?... Que Deus é bom, que temos que nos amar muito?... É isso que eu vou pôr? Maria: Sim, isso... o que falta mais? Quando você tiver minha idade, João, não lhe farão falta muitas palavras, você vai ver... João: Não, não, não. Eu quero escrever tudo o que aconteceu, desde aquele primeiro dia lá no Jordão, quando o magricela do André e eu conhecemos o moreno pela primeira vez e passamos a tarde inteira conversando com ele e contando piadas... Eu quero escrever tudo, Maria, e que todos os homens do mundo possam conhecer quem foi seu filho... Maria: Se você for escrever tudo, João, não vai acabar nunca... Quando o poço é profundo, sempre há água que beber. Sim, Maria tinha razão. Marcos e Mateus, Lucas e eu, escrevemos muitas coisas sobre Jesus. Mas se se escrevesse todas as que ele fez, os livros não caberiam no mundo! Enquanto que do apóstolo Paulo temos documentos escritos por ele mesmo que chegaram íntegros até nós, de Jesus não temos uma só linha escrita por sua mão. Já se haviam passado uns trinta anos depois da sua morte, quando alguns começaram a pôr por escrito o que Jesus havia dito. Durante todo esse tempo suas palavras e seus feitos foram passando de boca em boca. Eram comentados pelas comunidades que o haviam conhecido pessoalmente e estas, por sua vez, os transmitiam a outras pessoas, interessadas em saber alguma coisa daquele famoso profeta. Fora das fronteiras de Israel era indispensável traduzir para o grego as palavras de Jesus, pois era a língua mais comum em todo o mundo conhecido de então. Já é sabido que a cultura de um povo se expressa fundamentalmente em sua língua. Ao passar do aramaico par o grego, as palavras de Jesus sofreram algumas variações, naturalmente. Há palavras aramaicas que não se traduz exatamente em grego ou ao contrário. Tudo isso nos dá uma idéia de que tomar “ao pé da letra”, sem mais, tudo o que foi escrito nos quatro evangelhos como saído tal e qual da boca de Jesus é um erro histórico, que pode se tornar perigoso para a própria maturação da fé. Nos primeiros anos a tradição oral foi suficiente. Isto é, de boca se transmitia qual havia sido a boa notícia anunciada por Jesus e isso bastava. Pelo fato de os primeiros cristãos não serem gente “de letras”, não se pensou em escrever nada. Mas quando as comunidades foram se espalhando por outros países, ou quando foram morrendo os discípulos e outros homens e mulheres da primeira geração cristã, começou a se pensar que era urgente conservar o que eles haviam visto e ouvido de Jesus. Por isso nasceram os evangelhos. Foram escritos muitos outros além dos quatro que aparecem na Bíblia, mas alguns textos estavam cheios de histórias “maravilhosas” e estranhas, tratando de agigantar com isso a figura de Jesus e outros que não eram fiéis à tradição primeira, pois falseavam o que havia se passado, exageravam, mudavam tudo. Por isso as primeiras comunidades cristãs decidiram que de todos aqueles escritos eram válidos unicamente os quatro evangelhos que nós lemos hoje na Bíblia. “Evangelho” é uma palavra grega que em sua origem significou a gorjeta que se entregava ao mensageiro que trazia a alguém uma boa notícia. Mais adiante passou a significar a própria boa notícia. Os evangelhos (as boas notícias de Jesus) não são uma biografia, pois não pretendem contar simplesmente a vida de um homem importante, seus feitos, sua psicologia. Se tivesse sido essa sua intenção, seriam muito incompletos. Tampouco são livros de “memórias” para conservar viva a lembrança de um grande personagem. Tampouco são panfletos que procuram entusiasmar o público com a doutrina de um mestre, um mago ou um filósofo. Para este fim, seriam demasiado secos e repetitivos. Fundamentalmente, foram escritos para que as comunidades chegassem a ter fé em Jesus e para que, a partir dessa fé, se comprometessem com o mesmo caminho aberto por ele. São basicamente esquemas de catequese, de “evangelização”, baseados naturalmente no que Jesus disse e fez, mas que ressaltam o que possa ajudar mais a comunidade, silenciam o que não tem interesse para este objetivo e até “criam” episódios ou completam por sua conta alguns acontecimentos, baseando-se, mais que na letra, no “espírito” de Jesus. Isso explica porque os quatro evangelhos não são iguais, porque há histórias que só aparecem em alguns deles, porque alguns contam uma cena com um luxo de detalhes e outros não etc. Muito menos devemos pensar que foi uma só pessoa – Mateus, Marcos, Lucas, João – quem escreveu o texto integral de cada evangelho. O fato de se atribuir um evangelho a cada um deles, nos está indicando a qual tradição pertence cada texto, em que comunidade surgiu, qual foi a “escola”, o ensinamento que transmitiu aos leitores etc. É preciso levar em conta também que nenhum dos primeiros escritos chegaram até nós com a letra de quem foi seus autores. Os primeiros exemplares dos evangelhos foram escritos em papiro, papel feito com folhas de plantas aquáticas, que só se conservam em climas secos e quentes. Ao passar de mão em mão de país a país, esses papiros se estragaram e se perderam definitivamente. Entretanto, porém, foram tiradas mais e mais cópias (com possibilidade de se cometer erros), que são as que chegaram até nós. Quando depois de quatrocentos anos, começou-se a usar o pergaminho, papel feito com pele de animais, este problema foi bastante solucionado. Hoje em dia se conservam mais de setenta pedacinhos ou até páginas dos primeiros papiros. Dos pergaminhos há muitíssimos mais originais. O EVANGELHO DE MARCOS – É o mais antigo dos textos evangélicos. Desde o século II é atribuído a Marcos, o amigo de Pedro. E por isso se entendeu que Marcos está escrevendo neste texto a catequese que Pedro dava e as que depois ele fez de “intérprete”. Foi escrito entre trinta e cinqüenta anos depois da morte de Jesus em língua grega. Marcos utiliza um grego muito primitivo, menos adornado e mais simples que o dos outros. Seu texto é o mais espontâneo de todos, o menos “pensado”. O evangelho de Marcos serviu de base para o de Mateus e o de Lucas, mais cuidadosos e elaborados. Centra-se no relato da paixão, morte e ressurreição de Jesus, e todo o começo do evangelho é uma preparação para chegar a este ponto essencial. A vida de Jesus não aparece como a de um homem que tinha tudo planejado de antemão. E aí radica o dramatismo da história que se conta. O EVANGELHO DE MATEUS – Desde o ano 140 se atribui este texto a Mateus, o publicano, que cobrava impostos em Cafarnaum. Calcula-se que foi escrito entre os anos setenta e cinco e noventa depois da morte de Jesus. Analisando o texto se vê que foi redigido certamente por um judeu que conhecia bem a língua grega e que tinha formação em letras, um homem como Mateus deve ter sido. O texto foi escrito depois do de Marcos, e se baseia em grande parte nele. Aperfeiçoa o texto mais tosco literariamente de Marcos e acrescenta muito material novo. Mais da metade do que conta Mateus não aparece em Marcos. O grego em que foi escrito Mateus é muito mais culto e cuidado que o de Marcos, embora se note continuamente o recurso de frases aramaicas. Embora o original que conhecemos tenha sido escrito em grego este evangelho se dirige a comunidades de cultura judaica. Por isso Mateus cita amiúde textos do Antigo Testamento e dá tanta importância ao que haviam anunciado os velhos profetas de Israel. Todo o evangelho busca convencer os leitores de que Jesus é o Messias esperado pelo povo israelita durante séculos. Mateus é o que mais se interessa pelos temas “judaicos”: polêmicas com os fariseus e escribas, crítica ao nacionalismo judaico, à lei, aos ritos... Seu escrito é combativo contra o racismo e o legalismo de seus conterrâneos. É um texto muito catequético. Mateus se preocupa mais em contar o que aconteceu, explicar os ensinamentos que a comunidade podia tirar de cada acontecimento. Por isso procura sempre a “moral da história” e, com toda a liberdade, a acrescenta, colocando-a na boca de Jesus para dar ainda mais autoridade ao que quer ensinar aos cristãos que o liam. O EVANGELHO DE LUCAS – Por volta do final do século II já se atribuía este texto a Lucas, um médico amigo de Paulo (Cl 4, 14), que foi também o autor do livro dos Atos dos Apóstolos. O evangelho de Lucas foi escrito mais ou menos ao mesmo tempo do de Mateus. Não está dirigido aos judeus nem a pessoas influenciadas pela cultura judaica. É uma catequese escrita para os pagãos, para os estrangeiros, para pessoas com cultura e mentalidade gregas. Por isso Lucas deixa de lado alguns temas do ambiente judaico e ressalta muitos outros que tinham a ver com o que viviam as comunidades a que ele se dirigiu. A riqueza e seu vocabulário e a liberdade na construção das frases indica que dominava o grego muito mais que Mateus e Marcos. É um grande redator, tem um plano ao escrever, é o único que dá “razões” ao começar seu texto: Lucas 1,1-4 e Atos 1,1-2. Embora siga Mateus e Marcos, usa muito material que outros evangelhos não trazem. Lucas quis fazer uma “história da salvação”, e é o único que chama Jesus de “salvador”. Interessa-lhe, pois, ressaltar os elementos sociais e humanos que vão tornar possível, a partir de Jesus, uma história e um homem novos. Dá uma enorme importância à última viagem de Jesus a Jerusalém e faz dela o ser de todo o seu texto. Jerusalém aparece em seu escrito como um centro histórico e geográfico em que começa a história da Igreja. É o evangelho mais “social”. Os poderosos, os exploradores dos pobres, aparecem bem retratados no seu evangelho e são duramente condenados. O EVANGELHO DE JOÃO – Este evangelho sempre foi considerado à parte, pois é totalmente diferente dos outros três. Foi escrito mais ou menos no tempo do de Lucas e Mateus, entre setenta e cinco e noventa anos depois da morte de Jesus. Tudo parece indicar que seu autor foi uma testemunha muito direta da vida de Jesus, pela abundância de pequenos e exatos detalhes que só ele possui. A João, filho de Zebedeu, pescador de Cafarnaum, é atribuída com muita probabilidade a redação deste texto, embora possa ser também um discípulo estreitamente unido a ele. A tradição diz também que foi escrito em Éfeso, onde parece que João passou com Maria, a mãe de Jesus, seus últimos anos de vida. Em todo caso, o autor deste evangelho “pensa” em aramaico, embora escreva em grego. E os leitores a quem se dirige são às vezes judeus que conhecem bem o ambiente da Palestina e às vezes a estrangeiros a quem é preciso explicar com detalhes o que de costumes judeus lhes era totalmente estranho. Neste evangelho não há, como nos outros três, diversidade de temas. Há um só, desenvolvido de diversas maneiras: em Jesus Deus se revela definitivamente. Jesus é o enviado de Deus, aquele que nos diz qual é o projeto que ele tem para a história humana e para cada homem concreto. Este evangelho ressalta o fim das antigas religiões, dos antigos cultos, das antigas idéias sobre Deus e o começo de algo totalmente novo, uma nova forma de relação entre Deus e o homem. É o evangelista que menos cita o Antigo Testamento, mas também o que está mais profundamente influenciado pelos textos da Escritura, pelos profetas e pela história do Êxodo. É um evangelho concentrado, no qual Jesus aparece fundamentalmente como fonte de Vida, capaz de superar a morte. As primeiras comunidades cristãs, nas quais surgiram este texto, viveram um processo, que parte da morte e da ressurreição de Jesus e que nós conhecemos precisamente através dos evangelhos. Um processo que deve se repetir, de uma forma ou de outra, em cada cristão. Em Jesus de Nazaré, filho de Maria, o profeta que anunciou a justiça de Deus e que por isso foi assassinado e a quem eles experimentaram vivo na comunidade, chegaram eles a Cristo, ao Messias (e por isso começaram a chamá-lo de Jesus Cristo), chegaram ao Filho de Deus. Naquilo que narram os evangelhos, aparecem mesclados esses dois planos: a “história” de Jesus e a “confissão de fé” da comunidade em Jesus Cristo. São Dois níveis que devemos saber diferenciar bem para que se repita em nós o processo que eles viveram, pois é nem mais nem menos que o processo de uma fé madura. Como chegaram os primeiros cristãos, que haviam comido com Jesus, que o haviam escutado contar piadas, que o viram dormir e cansar-se, que conheceram sua aldeia e conversaram com seus parentes, a ver nele a revelação definitiva de Deus que não se vê nem se toca? Foi um longo caminho. Primeiramente, nas palavras que ouviram de Jesus, descobriram uma mensagem importante. Depois, a morte de Jesus os desconcertou: sentiram então que ele havia sido um grande idealista, mas que havia “fracassado”, como tantos outros... Depois veio a experiência da Páscoa, mais desconcertante ainda. Viram Jesus, o experimentaram vivo, tiveram e mantiveram diante dos demais a certeza de que Jesus estava vivo. Discutindo entre si, confrontando essas experiências com outros, anunciando-a em outros países, foram descobrindo o que queria dizer tudo o que haviam vivido: Deus estava em Jesus. Aquele Deus em quem acreditavam, mas que nunca haviam visto, se revelava a eles em Jesus. Então, “confessaram” sua fé: Jesus é Senhor, é Messias, é Palavra de Deus, é seu Filho amado... Ao começarem a viver em comunidades todos esses valores do evangelho, e compartilhar e rezar juntos, experimentaram mais ainda que a vida de Jesus continuava neles e que, através deles, podia chegar a outros para enche-los de esperança. Começaram a lutar e a morrer pelo que Jesus lutou e morreu, em nome do Deus em que Jesus lhes ensinou a crer: o Pai. A fé daqueles pescadores começou assim a ser fermento na massa, sal na terra, luz nas trevas e começou a transformar o mundo. Voltar a essas origens do cristianismo é indispensável para que entendamos o que é a fé, vejamos qual foi a dos apóstolos e a dos primeiros cristãos. Nossa esperança é: que ele continua ressuscitando em cada um dos que se decidem a compartilhar e que ele ressuscitara novamente nos homens e mulheres novos que se sentarão um dia à mesa do banquete de Deus, já sem fome nem sede de justiça, porque haverá chegado o Reino que ele nos anunciou. (João 21, 24-25)
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