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Capítulo LXXXIII UM DIA COMO OUTRO QUALQUER João: E Jesus aprontava muita confusão quando menino, Maria? Maria: Confusão?... Mais que todos os cavalos juntos de Nabucodonosor... Santo Deus! Não parava quieto um momento sequer... José dizia que ele era feito de rabo de lagartixa... Certa noite, na casa de Marcos, Maria recordava em voz alta seus primeiros anos de casada, em Nazaré, aquele povoadozinho galileu, pobre e pequeno, onde Jesus passou quase toda sua vida... Maria: Um tomate se parece com outro tomate, não é mesmo? Pois com os dias em Nazaré acontecia a mesma coisa: todos eram muito parecidos... Quando os galos cocoricavam o terceiro canto, a casa inteira se remexia como uma caneca de leite fervendo... Maria: Bem, está começando outro dia... Jesus: Vovô, vovô, abre os olhos que a noite já acabou...! Já acabou a noite, vovô! Avó: Valha-me Deus com esta criatura!... Acorda mais fresco que a chuva... Jesus: Vovô, vovô, vamos... Maria: Jesus, filho, deixe o vozinho dormir mais um pouco... Jesus: Não, ele prometeu que ia me ensinar a fazer nós... Avó: Olhe que lhe faço um nó é nessa língua... Diacho de cachorro que se mete em toda parte!... Jesus, tire-o daí! Jesus: Mas esse é o lugar dele dormir, vovó... Maria: Éramos muitos em casa: os pais de José, o tio Lolo, que estava doente e quase não podia se mexer... Tínhamos que fazer tudo para ele, pobrezinho... Duas sobrinhas de José, que haviam ficado órfãs ainda pequenas, e nós três... Ah, e o Mocho, um cachorro que Jesus havia encontrado na rua... Era como um irmão com rabo... Dormia com ele, comia com ele, ia com ele para todo lugar... Preto, com uma orelhinha branca, ainda me lembro... Uma prima: Tia, quero leite! Outra prima: Eu quero um ovo! Maria: Esperem um pouquinho... Tenham paciência, olhem que ela foi uma boa companheira para Jó... Bem, não foi tão boa assim com o pobre coitado, mas... Jesus, filho, traga-me um jarro de água para lavar o tio Lolo... Jesus: O tio Lolo está bem ruinzinho não é, mamãe? Maria: Sim, filho, ele está bem ruinzinho. Jesus: Ele nunca brinca comigo. Maria: Mas é por isso, filho, porque ele está muito mal... Ui, mas veja só seu pai, ainda está dormindo... José, levante, homem, vamos!... Eu não sei como consegue dormir com essa balbúrdia... Vamos, que o sol já saiu! José: Ahummmm...! Sabe o que eu estava sonhando, Maria? Que consegui um trabalho. E adivinha quanto iam me pagar? Cinco denários por dia! Sim, sim, é o que você ouviu...! O que você acha, heim?... Maria: Pois... eu acho que foi só um sonho... mas que nos faria muito bem, não acha? José: Bom, você vai ver como hoje aparecerá alguma coisa... Vou agora mesmo a Caná... Até mais, preciosa! Maria: Mas, como você vai assim, sem tomar nada quente? José: Tomarei alguma coisa por aí... Com as tripas vazias a gente caminha mais ligeiro... Deseje-me sorte, Maria... Maria: Que Deus te dê, José... José: Voltarei pela tarde... Tchau, filho! Jesus: Dê um beijo também no Mocho, papai, se não, ele fica com inveja... José: Está bem, tchau, pateta! Prima: Tia, quero leite! Outra prima: Eu quero um ovo! Jesus: Mamãe, como essa prima é malcriada, não? Maria: Pois se parece com alguém que eu conheço... Jesus, meu filho, vai ver se as galinhas puseram algum ovo... Traga um para a menina, ande... Jesus: Lá vou eeeeuuuu...! Vamos, Mocho, ande... vamos!... Maria: Deus aperta mas não afoga... E assim vamos indo... Maria: No meio da manhã, nós mulheres nos reuníamos na fonte para lavar a roupa... Éramos todas amigas, umas mais chatas que as outras, mas todas sempre dispostas a dar uma mãozinha... Vizinha: E José... já encontrou trabalho? Maria: Hoje foi a Caná... Vamos ver se arranja alguma coisa... É aquilo de sempre, hoje ganha um não e amanhã um talvez... Vizinha: Você vai ver, tudo se arranja, mulher... Ei, Nuna, passe-me a pedra! Maria: É que você nem imagina o que é cuidar de Jesus... Já está esticando e tem uma fome... Claro, está crescendo... Vizinha: Crescendo e agitando... Sempre anda aprontando alguma... Esse menino lhe saiu bem arteiro... Maria: Uff!, nem me diga...! Sabe Deus onde andará metido agora...! Maria: Jesus andava com seus amigos em um barranco atrás do povoado... Jesus: Agora é você, vamos ver quem consegue dar mais pulos seguidos. Dentro desta lama...! Ei, dentro desta lama...! Primeiro você, Nenê...! Um menino: Só três, que lixo!... Agora você vai ver... Nenê: Cinco!... Você é o rei! Jesus: Espere, ainda falta eu!... Vou dar sete! Menino: Você não vai dar nem dois, Jesus, nem dois sequer... Você vai ver! Jesus: Fique aí, Mocho, e veja o que eu consigo fazer... Vai ver! Nenê: Cinco...! Empatados! Menino: Tem que desempatar entre Jesus e eu! Nenê: E como desempatamos...? Jesus: Bom... bom... vamos ver quem mija mais longe!... Esse ganha... Menino: Aponte para o lado de lá, não me molhe!... Jesus: É três, é dois, é um!... Vou ganhar!, vou ganhar! Menino: Ei, olhem, as meninas estão chegando... Jesus: Escondam-se, escondam-se... Vamos dar um susto nelas!... Jesus: Ei, mamãe, o que tem para comer? Maria: O de todos os dias. Lentilhas e ... mas, por Deus santo, Jesus, de onde você vem assim? Jesus: Brincamos e eu me sujei. O Mocho também sujou as patas, mas já não está... Maria: Já não está... E você está, não é mesmo?... Embarreado dos pés à cabeça... Parece Adão no paraíso... Jesus: Que Adão, mamãe? Maria: Pergunte ao rabino esta tarde... E ande, ande, tire logo esta roupa... Jesus: E ficar só de cueca? Maria: Menino, como vai ficar só de cueca? Ponha, nem que seja uma túnica do seu pai... Jesus: Mas ela fica arrastando! Maria: Vou acabar é arrastando você pelas orelhas. Ande logo! Maria: Sentamo-nos sobre o chão de terra, com o caldeirão de lentilhas no meio e que sempre era pequeno. Éramos muitas bocas para comer... Jesus: Mamãe, eu quero mais... Maria: Mas, não há mais, filho... Avó: Dê-lhe um ovo. Dizem que endurece os ossos. Quando os meninos estão crescendo, é a melhor coisa. Prima: Eu também quero um ovo! Jesus: Esta parece uma galinha, está sempre cacarejando... Tome, galinha! José: Já estou de volta... Maria: Mas, José, você não disse que viria lá pelo fim da tarde...? José: Pois cheguei agora, você está vendo... Maria: E aí? José: Nada. Maria: Nada...? José: Nada, nada, o que quer que lhe diga? Nada. Não há trabalho em toda a Galiléia. Avó: E como vai haver se ele se juntou todo nesta casa? José: Deixe as lorotas para outro dia, velha. Maria: Venha, José, sente-se e coma alguma coisa... José: Não tenho fome... Vou ver o Boliche. Ele esteve em Naim. Vamos ver se encontrou alguma coisa por lá... Porcaria de vida esta!... Jesus: Papai está triste, Mocho... Não é mesmo, mamãe? Maria: Sim, Jesus. Para se poder comer ovos e lentilhas tem que trabalhar... Os ricos, não... Eles não trabalham e têm sempre a barriga cheia, mas nós... Maria: Passamos temporadas assim em que José não encontrava trabalho... Eu me arranjava como podia... a sopa se esticava com água e as dores se espantavam cantando, o que íamos fazer...? Maria: A massa já está pronta, não, sogra? Avó: Sim, filha...Pelo menos, que não nos falte o pão... Escute, onde Jesus se meteu agora? Maria: Na sinagoga. Assim ele fica um pouco sentado... Avó: Com certeza ele foi com o Mocho. Maria: Claro que sim, vovó. Você não sabe que o Mocho também tem que aprender as Escrituras? Jesus diz que os cachorros também cantam a Deus quando latem! Maria: Jesus ia à Sinagoga todas as tardes... Jesus: Rabino, minha mãe me disse que eu parecia com Adão. Rabino: Disse isso porque você é filho de Deus, como o primeiro homem que Deus fez... Jesus: Não, rabino, disse Adão ralhando comigo Rabino: Então é por você ser desobediente, Jesus. Jesus: Mas eu não desobedeci. Só estava sujo. Rabino: Já estou entendendo, garoto, porque sua mãe disse isso... Deus tirou Adão do barro. E com certeza você estava todo enlameado, não é isso, Jesus? Menino: Rabino, este menino cuspiu em mim! Rabino: Calma, calma... Agora é hora de escutar, não de cuspir... Vamos ler essa história de quando Deus criou o primeiro homem do pó da terra... Maria: A cada tarde o rabino Manasses, aquele velho cheio de paciência e já um pouco cego, o mesmo que havia circuncidado Jesus, desenrolava os livros santos e ensinava os meninos de Nazaré a ler neles. Rabino: Vamos lá, filho, achegue o livro mais perto que as letras estão dançando... Mais perto... Isso... Venha, Jesus, leia aqui... sim, aqui... Jesus: “Cagamos com fome”. Rabino: O que você disse, filho? Jesus: Cagamos com fome, é isso que diz aí. Rabino: Deixe-me ver... “Façamos o homem”. Vamos, continue... Jesus: “Sigam e baixem”... Rabino: Estou dizendo para continuar... Jesus: “Sigam e baixem”... Rabino: Mas, o que você disse?... “Segundo à imagem”... Traga aqui... “Segundo à nossa imagem”... Jesus: Segundo à nossa imagem... Rabino: E... Jesus: E... Rabino: Nossa... Jesus: Nossa... Rabino: se... Jesus: se... Rabino: seme... Jesus: seme... se meleca! Rabino: Quem se meleca? Jesus: É o que está aí, sei lá...! Rabino: Semelhança!... Mas, que menino! Menino: Jesus não sabe ler! Jesus não sabe ler! Jesus: E você muito menos! Rabino: Silêncio, garotos, façam um pouco de silêncio! Maria: As horas da tarde passavam mais tranqüilas. Quando caía o sol, os camponeses voltavam às suas casas, cansados da lida do dia. Lavavam-se os pés e iam jogar dados... Ao chegar a noite, a fresca do norte corria por Nazaré e dava vontade de conversar. Como todos já estavam dormindo, inclusive o Mocho, e a casinha era tão pequena que não dava nem para dar um passo, José e eu saíamos às vezes para fora e nos sentávamos na terra seca, recostados na parede da nossa casa... Maria: Ufff... estou moída... José: Olhe, Maria, hoje ao meio dia eu estava meio nervoso porque... Maria: Deixe pra lá, José... a gente já se conhece bastante... Como deixar de ficar nervoso depois de caminhar tantas milhas debaixo do sol...? Mas, conte-me, o que o Boliche disse do trabalho em Naim...? José: É bem capaz que vão contratar mais uma dezena de homens para a fazenda... Maria: Pois então... segure esse galho! José: E se não, vamos ter de comer vento... Maria: Não, homem, não seja tão pessimista... Deus não vai nos deixar na mão... Olhe, não está vendo como nosso garoto está crescendo tão sadio...? E assim, todos estamos indo adiante... E você e eu nos amamos tanto... O senhor precisa de mais alguma coisa...? José: Você tem razão, Maria... Ai, caramba, você sempre tem razão!... Ahh... Bom, um beijo e já para a cama, que amanhã temos de madrugar... Maria: Olhe só quem diz... o dorminhoco mais dorminhoco de Nazaré! Maria: Nossa vida era assim... Quase não há nada para contar sobre aqueles anos... Trabalhávamos muito, e nos amávamos ainda mais... E Jesus crescia e se tornava mais forte e mais alto e aprendia mais coisas... Deus estava com ele. Sobre o que foi a vida de Jesus durante os longos anos de sua infância, sua adolescência e juventude, o evangelho não diz nada. Só a cena do menino perdido no templo rompe esse silêncio. Isso indica que a vida de Jesus não teve absolutamente nada de especial durante este amplo período de tempo. Para imaginarmos como foi temos que conhecer o ambiente social e cultural de Nazaré daquele tempo, os costumes que tinham aos camponeses do lugar etc. Tudo o que dissermos desta etapa será sempre por aproximação, nunca o saberemos com exatidão. Para indicar a “normalidade” da vida de Jesus durante estes anos, Lucas diz que “o menino crescia em idade, em sabedoria e em graça”. Como cada um de nós, Jesus foi se desenvolvendo física, intelectual e espiritualmente com o passar do tempo. Aprendeu a caminhar, a falar, a rezar, a ler, a querer, a trabalhar. Foi aprendendo de tudo o que via e ouvia. Ele não nasceu com um pacote de sabedoria debaixo do braço. Teve que descobrir. Duvidou e se enganou muitas vezes. E ao mesmo tempo em que seu corpo ia crescendo e seus ossos e seus músculos se desenvolviam, também em seu conhecimento de Deus seu coração foi evoluindo. Cresceu “em graça”: foi compreendendo o que Deus queria dele, qual era sua vocação. Sua vida, como a de qualquer um de nós, esteve submetida a um processo de crescimento. Cresceu seu corpo, sua inteligência, sua vontade, sua fé, sua esperança... Igual em tudo a nós. O menino Jesus não fez “milagres” nem deslumbrou a ninguém por nada durante aqueles longos anos. Fazer dele um “menino modelo” que só obedece, cala e reza, é transformá-lo em alguém insuportável. Jesus teria brincado, feito travessuras, teria amigos, brigaria com eles, riria... Como qualquer menino sadio. Aprenderia através das preocupações de José e de Maria a dura realidade da vida, cheia de insegurança e problemas. Conheceria a bondade de Deus através do amor que lhe tinham seus pais e através do que ia aprendendo nas Escrituras que lia na sinagoga. A única escola que tinham os meninos de uma aldeia como Nazaré e de todas as cidades pequenas era a sinagoga. Ali, onde a cada sábado se reunia a comunidade para rezar e escutar as Escrituras, os meninos também aprendiam a ler. Não se considerava que as meninas tivessem necessidade de saber e só as famílias melhor situadas na capital recebiam alguma instrução. Os meninos aprendiam a ler nos textos da Bíblia. Por isso, o ensinamento não era só uma aprendizagem mecânica de unir palavras e frases, mas um modo de familiarizar-se com a tradição de seus ancestrais. E, através disso, um modo de transmitir-lhes a fé em Deus, contínuo protagonista das páginas daqueles livros. A idéia que às vezes se faz da “casinha de Nazaré” é totalmente falsa. Ela é descrita como uma casa pobre, onde Maria costura em paz e José em um quarto nos fundos serra madeira enquanto reza. É uma imagem irreal. As casas de Nazaré eram feitas aproveitando as grutas naturais da colina onde estava assentada a aldeia. Eram pequeníssimas, praticamente usadas só para dormir e o mais habitual era que vivessem dentro de cada uma muitas pessoas, pois as famílias eram numerosas e as obrigações dos filhos para com os pais, seus irmãos, seus primos, eram algo sagrado que todos respeitavam. O ambiente era de extrema pobreza. Vivia-se o dia com a agonia contínua para o pai de família em conseguir algum trabalho. As mulheres trabalhavam também, não só nas tarefas domésticas mas também nas lidas agrícolas ajudando seus maridos. Este foi o quadro onde Jesus se criou, onde cresceu, onde tomou consciência das necessidades e esperanças de seu povo, onde amadureceu sua fé em Deus. Nessa simplicidade, da qual quase nada se pode dizer, porque tudo carecia de destaque, forjou sua personalidade, na qual Deus se nos revelou de forma definitiva. (Lucas 2,39-40 e 51-52)
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