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Capítulo LXXXII UM VELHO COM ESPERANÇA A esplanada do Templo de Jerusalém estava repleta de vendedores. Desde muito cedo as ovelhas baliam, as pombas revoavam e os peregrinos, que iam chegando aos milhares à capital para celebrar a festa de Pentecostes, subiam a escadaria para oferecer suas primícias diante do Senhor... Lembro que naqueles dias de espera, Maria, a mãe de Jesus, nos contou quando José e ela, também subiram ao Templo levando o recém-nascido, segundo o costume de meus conterrâneos de consagrar a Deus todos os primogênitos... Maria: Como a criança nasceu menino, era preciso cumprir a lei de oferecê-lo a Deus, porque assim é que devia ser... Resultado, que aos quarenta dias do parto, voltamos a viajar para o sul... Eu já conhecia aquele caminho de olhos fechados... Depois de três jornadas chegamos a Jerusalém, que então não estava tão moderna e com tanto barulho... Descansamos em uma pousada que pertencia a alguns galileus, acho que por Siloé, e depois fomos ao Templo... Um vendedor: Troco moeda, troco moeda! Grega ou romana, eu troco! Outro vendedor: Deliiiicia de pastel!... Deliiiicia de pastel! Vendedor: Água benta, para limpar ferida grande e mancha pestilenta! Vendedor: Ei, comadre, não vá embora, venha e olhe, que olhar não paga nada! Maria: Ai, José, olhe só esses lenços, que bonitos... Vendedor: É de lã finíssima, experimente, moça, e vai ver como lhe cai bem... Maria: Você gosta, José? José: Eu não, mas se ele lhe agrada... Diga lá, camelô, quanto custa este lenço? Vendedor: Baratinho, baratinho... Sinta só, amigo, é pura lã de Damasco! José: Eu perguntei quanto custa...! Vendedor: Um denário, e a senhora já o leva ao pescoço. José: Um o quê?... Um denário por este trapo velho? Mas você acha que nós temos cara de otários? Vamos, Maria, tire isso e vamos embora... Maria: Ai, José, mas ele é tão bonito...! Vendedor: Presenteie sua amada, pois acredite que com um lenço assim, o rei Davi conquistou a Betsabé. José: Pois a minha já está conquistada e não preciso disso... Deixe disso, ande, e pegue a criança... Diacho de mulheres, querem tudo o que vêem...! Maria: Segundo a lei de Moisés devia-se oferecer todos os primogênitos ao Senhor. E vocês sabem que o preço do resgate era uma ovelha ou um bezerro se os pais fossem ricos. E, se eram pobres como nós, dois pombos... José: Vamos lá, meu velho, preciso de dois pombos. Simeão: Pois aqui os tem, meu rapaz. Não procure mais. Maria: Era um velho de mais ou menos cem anos. Lembro-me que não tinha sobrancelhas nem dentes e já estava muito enrugado, como a folha da figueira no outono... Junto a uma coluna, trazia amontoadas várias gaiolas de pombas... José: Dê-me aquelas duas... Sim, a preta e a outra... Isso mesmo... Quanto lhe devo, meu velho? Simeão: Dois pombos, quatro asses. José: Quatro o que? Simeão: Dois pombos, quatro asses. José: Ao diabo, vocês da capital! Acham que porque viemos do norte podem nos esfolar desse jeito? Maria: Ai, José, pelo Deus bendito, não comece outra vez! José: Começo sim, Maria, são esses trapaceiros que querem se aproveitar de um pobre camponês como eu... Simeão: Mas, repare bem, meu rapaz, são umas pombas muito bonitas... José: Pombas bonitas! Rá! Esta sem penas e aquela com sarna... Vamos lá, velha raposa, tome um asse e eu levo as duas!... Simeão: O que você disse? Um asse? De jeito nenhum. Dois pombos, quatro asses. José: Mas o que é isso, meu velho, eu... Maria: José, eu lhe suplico, não discuta tanto! Dê o dinheiro a ele e vamos que já está ficando tarde... José: Mas como você é tonta, Maria! Nunca que vou pagar quatro asses por esses passaricos! Como eu me chamo José, não subo mais que um asse! Simeão: Como me chamo Simeão, não abaixo de quatro asses! José: Pois então, até logo, velho ladrão, e enfie seus pombos...! Maria: José, por favor! José: ... que os enfie de novo na gaiola, é isso. Até logo! Simeão: Espere, conterrâneo, não vá embora... Diacho com esses galileus, que gênio terrível!... José: O que você quer agora? Simeão: Você não precisa ficar assim, homem... Olhe, porque você tem uma linda mulherzinha, vamos lá, pegue, leve mais um pelo mesmo preço... José: Como você disse? Simeão: Que lhe faço três pombos pelos quatro asses que você ia dar. José: Mas, que negócio é esse? E para que demônios eu quero três pombos? Eu preciso somente de dois para oferecê-los no Templo. Simeão: Com o terceiro você faz uma sopinha para o menino, que é muito saborosa, não é mesmo, moça? Claro que sim, isso é o que eu faço quando não os vendo... José: Olhe aqui meu caro, não falemos mais nisso. Tome dois asses e dê-me os pombos. De acordo? Simeão: Nem para você, nem para mim! Fica tudo por três asses. José: Vai pro diabo! Acima de dois não subo! Simeão: E de três não abaixo! José: Dois! Simeão: Três! José: Dois!! Simeão: Três!!! Maria: Ai, pelo Santo Deus, parem com isso, que o menino vai se assustar com tanto grito!... Não é nada, meu benzinho, não é nada... José: Escute bem, velho sovina, se eu tivesse dinheiro não estaria aqui comprando pombas, está entendendo? Simeão: Grande piada! E se eu tivesse dinheiro, tampouco estaria aqui vendendo! José: Você não passa de um sanguessuga que se aproveita da necessidade alheia! Simeão: Eu? Sanguessuga eu, que nem sangue tenho mais na pele? Olhe, olhe só como estou, meu filho... meio morto, está vendo? José: Pois você vai morrer inteiro quando vier o Messias e agarrar o chicote e espantar suas pombas e lhe dar um belo pontapé no traseiro, está ouvindo? Maria: José, não falte ao respeito com um ancião... Simeão: Comigo? Você acha que o Messias vai fazer isso comigo? José: Sim, com você mesmo, matusalém, com você e com todos esses bandidos que negociam com as coisas de Deus! Simão: Comigo não, filho, comigo não. Eu vendo pombas no templo como se vendesse berinjelas na praça ou o que aparecer para poder viver. Veja bem... eu sou um infeliz... E não tenho medo do Messias, está sabendo? Porque o Messias terá piolhos na cabeça como eu. E não terá comido uma comidinha quente há sete dias, como eu. E não terá onde reclinar a cabeça, como eu. Você não acha que eu e o Messias poderemos nos entender muito bem? José: Bom, meu velho, aí sim você tem razão... Simeão: E você e eu também podemos nos entender muito bem, rapaz. Porque veja só, nós dois somos uns mortos de fome, não é mesmo? Então por que ficar brigando, diga-me? Maria: Era isso que eu queria dizer já faz um bom tempo... Simeão: Guarde a chibata para os outros, rapaz, para os que estão refestelados em seus palácios... Esses é que farão guerra com o Messias quando ele vier... Venha cá, olhe bem, está vendo todas aquelas mesas de moedas, e os currais das vacas e todo esse gado? É tudo da família do Beto!... “Os filhos do Beto, tão religiosos, tão piedosos...” Com a boca cheia de Deus e os bolsos cheios daquilo que roubam de nós... Ai, meu filho, se eu lhe contasse... Mas chegará, chegará o dia da verdade, eu acredito que chegará! José: É isso mesmo, vovô, é assim que se fala! Maria: Parem com esse alvoroço, caramba, que por aqui há muita gente que a gente não conhece! Simeão: Pois eu grito e não me importo! Olhe este templo, rapaz! Faz vinte anos que o safado do Herodes o está enfeitando, colocando mármores e forrando-o de ouro. E, diga-me você, para quê? Para que Deus fique mais acomodado? Não, Deus não precisa de nada disso. Pois quando o Senhor ia pelo deserto com Moisés lhe bastava uma tenda de campanha! Todo esse luxo é para eles, os que levantam as mãos para Deus, mas logo depois dobram os joelhos para o bezerro de ouro! Maria: Vocês acordaram o menino com tanta gritaria, diacho com vocês! Simeão: Pobrezinho, pobrezinho... É que a gente se emociona quando topa com jovens como vocês que têm a mente clara... Ah, caramba, no meu tempo as coisas eram diferentes... Nós jovens falávamos do Messias, discutíamos, brigávamos para ir conhecer os filhos dos Macabeus... Agora não. A juventude de agora só quer se divertir e só pensa em passar bem... se vêem uma roupa nova, dão até os olhos para poder compra-la... José: Essa é para você, Maria... Simeão: Alguns passam por aqui e me dizem: “Deixe disso, velho, esse mundo não tem mais jeito. Você vai morrer e tudo continuará a mesma droga”. E eu digo que isso é o que eles querem, fazer engolir essa história de que as coisas não podem mudar. Claro que podem! Com jovens como vocês se pode sacudir a floresta! José: Com a gente e com os que vêm empurrando atrás, vovô... Veja só esse moreninho... Sabe que nome lhe pusemos? Jesus, nome de valente. E vamos criá-lo com leite de camela para que saia teimoso como Moisés diante do faraó, não é mesmo, meu garoto, não é mesmo?... Simeão: Jesus... Bonito nome... e mais bonito ainda o menino... E se parece com os meus quando estavam assim pequenos... Maria: Você tem filhos, vovô? Simeão: Tive dois, moça. Um morreu ainda muito jovem... Pegou uma febre danada e eu não tinha um cêntimo para pagar o médico... O outro mataram... Quando já tinha idade, meteu-se com os grupos da Peréia. Os guardas de Herodes o pegaram e... Ahhh... Prepare-se, moça, que se você criar esse menino como um lutador, um dia uma espada lhe partirá o coração... como aconteceu comigo... Maria: Ai, vovô, por Deus, não diga uma coisa dessas... José: Vamos lá, meu velho, não vá ficar triste agora, porque com o calor que está fazendo, pode pegar uma febre braba! Maria: Simeão, aquele velho vendedor de pombas, com os olhos marejados, me pediu para segurar o menino... Simeão: Que menino mais bonito você teve, moça! Que o Deus de Israel o abençoe do alto do cocoruto até o dedinho do pé! Maria: Ai, sim, que Deus o ouça! Simeão: E que você possa criá-lo bem, que o veja crescer e tornar-se um homem... José: E que você também o veja, vovô... Simeão: Ai, filho, eu já estou com um pé na sepultura e o outro quase pela metade... Esses olhos já viram muita coisa... Vi todo tipo de violência que se comete debaixo do sol... Tanto choro de inocentes esperando um consolo que não chega... Tanta risada de sem-vergonhas sem que ninguém ajuste as contas com eles... Lá se vão cem anos esperando a libertação do meu povo... Mas, vejam, quando ouço vocês falarem, é como se uma luzinha se acendesse no meio da noite... Sim, eu tenho certeza. Deus não faltará à sua promessa. Nosso povo será livre algum dia... Maria: O velho Simeão deu um beijo no menino e o devolveu a mim... Simeão: Pegue-o, moça. Eu já posso morrer tranqüilo. Neste menino e naqueles que virão depois está a salvação de Israel e a esperança de tantos povos que sofrem igual ao nosso. Sim, sim, logo seremos livres, sinto no coração! O Messias está perto, muito perto de nós! Maria: Ó, meu velho, por Deus, não grite!... Há uma mulher andando por aí, com uma cara meio esquisita... Eu acho que já faz um bom tempo que ela está nos espreitando... Simeão: Quem? Essa velha?... Não, filha, essa é de confiança... Ana, venha cá! Maria: Ela tinha o mesmo nome da minha mãe e era uma velha gorda, toda vestida de preto, com uma cara redonda e risonha... Ana: O que é agora, Simeão? Simeão: Nada, mulher, estamos aqui dando com a língua nos dentes com esse casal de galileus que veio apresentar seu menino... Ana: Deixe-me ver... Ai, que molequinho mais lindo... nhãnhã!... Ensine-o a rezar, menina, que é de pequenino que se torce o pepino... Simeão: Isso é a única coisa que você sabe dizer, reza que reza, como se tanta oração fosse embromar Deus... Ana: Pelo menos, mantenho minha boca entretida, sabem? Assim a gente se esquece da fome... José: E o que você pede a Deus, vovó? Ana: E o que vou pedir, meu filho? Lá se vão oitenta e quatro anos pedindo sempre a mesma coisa. Desde que fiquei viúva, e isso já faz muito tempo, eu digo a Deus: “Escolhe: ou me manda outro marido ou me manda o Messias para que me faça justiça, porque desse jeito não há quem agüente...!” E eu lhes juro que Deus vai se cansar de ouvir essa ladainha, antes que eu desista de repeti-la! Simeão: Pois, sabe de uma coisa, Ana?... Eu acho que Deus já está ouvindo você. Com jovens como esses iremos pra frente... Nós já estamos indo pra trás, Ana. Mas a tocha de Israel não se apagará...! Vamos lá, rapaz, pegue seus dois pombos e ofereça-os por este menino!... E vão logo, antes que lhes fechem a porta! José: Espere um pouco, vovô, olhe, tome... os quatro asses que me pediu antes... Simeão: Não, meu rapaz, eu os dou de presente... Isso mesmo, são seus... José: Não, vovô, o senhor tem que comer... tome os quatro asses... Simeão: De jeito nenhum, já disse que é um presente! Maria: Valha-me Deus, agora é a briga ao contrário! Maria: E subimos pela escadaria que dá ao átrio das mulheres para cumprir a cerimônia da purificação e apresentar nosso filho diante do altar do Senhor... À saída do Templo, na esplanada, já não vimos mais o velho Simeão... No dia seguinte o procuramos, mas Ana, a rezadeira, nos disse que não tinha vindo porque estava doente... No ano seguinte, quando viajamos a Jerusalém, perguntamos por ele, mas ninguém soube nos dizer o que havia acontecido com o vendedor de pombas... As leis de Israel relativas à “pureza” consideravam que o parto deixava a mãe “impura” diante de Deus. Acreditava-se que o parto, como as regras da mulher ou o derramamento do sêmen do homem eram uma perda da vitalidade e que, para recuperá-la, deveriam ser feitos certos ritos e restabelecer com eles a união com Deus, fonte da vida. Se a mulher houvesse dado à luz um homem ficava impura durante quarenta dias e se houvesse tido uma menina, durante oitenta. Quando passasse esse tempo, devia apresentar-se no Templo para purificar-se, oferecendo um sacrifício de um cordeiro e uma rolinha. Se fosse pobre – e este era o caso de Maria – bastava oferecer duas rolinhas ou pombos (Lv 12, 1-8). As mulheres que esperavam para serem purificadas pelo sacerdote, se reuniam no Templo, na porta de Nicanor. Esta porta unia o átrio até onde podiam entrar as mulheres, com o átrio dos homens. Ali se purificavam também os leprosos que ficassem sãos e se faziam as provas das mulheres que fossem suspeitas de terem cometido adultério. Jerusalém era o mais importante centro comercial do país. À capital chegavam produtos de todas as regiões e também do estrangeiro. Havia vários mercados: de cereais, de frutas, de legumes, de gado, de madeira... Existia também um lugar para expor e vender escravos – estrangeiros sempre. Tudo era apregoado aos gritos para animar a clientela. Era preciso ter especial cuidado no momento de comprar, pois na capital se usava uma medida de peso diferente do restante do país e também usava-se moeda própria. Tudo ali era mais caro, especialmente a comida, o vinho e o gado. Se em Jerusalém se comprava três ou quatro figos por um asse, no campo se conseguia pelo mesmo preço dez ou até vinte figos. Perto dos grandes comerciantes havia pequenos negócios de tendeiros ou revendedores menores e muitíssimos vendedores ambulantes. As tendas para o comércio dos animais que se vendiam para os sacrifícios – cordeiros, cabritos, bezerros, pombas – estavam colocadas na enorme esplanada do Templo. Naquele átrio todos podiam entrar, mulheres e estrangeiros. Foi dito com freqüência que o velho Simeão era um sacerdote funcionário do Templo, mas o texto evangélico não dá base para tal tradição. Neste episódio ele aparece como um dos pequenos comerciantes que ganhavam a vida vendendo animais para os sacrifícios do Templo. A partir daquele posto de vendedor, Simeão seria um testemunho perene da atividade diária do Templo. Conheceria bem todos os que ali serviam aos grandes sacerdotes – negociantes e beneficiários máximos do que se vendia no Templo. Saberia também dos sentimentos religiosos do povo que se congregava naquele edifício suntuoso, deslumbrado por sua enormidade e riquezas. Este seria o ambiente diário do velho Simeão. Em meio a ele, soube manter acesa sua confiança no Deus libertador de Israel, sua esperança de mudança, seu anelo por justiça, seu desejo de que com a chegada do Messias, aquele Deus “preso” no Templo se aproximasse definitivamente dos pobres. Nesse ambiente, o velho Simeão teria também se convertido em um “desenganado”, em um cético. Sua velhice o havia tornado sábio, lhe havia tirado o entusiasmo pelo que não merecia e lhe havia aberto definitivamente os olhos. Como aquele Qoelet (capítulos 1-6 do Livro do Eclesiastes), que deixou nas Escrituras uma sabedoria tão profundamente humana, fruto de sua observação da vida e de seu anelo pela justiça de Deus. O velho Simeão e a velha Ana mantinham-se abertos à esperança de que o Messias iria vir. E naquele pobre e jovem casal com um menino recém-nascido nos braços, souberam alimentar essa esperança que sempre traz a vida que começa. (Lucas 2, 22-38)
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