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Capítulo LXXXI OUTRAS NARRAÇÕES DA INFÂNCIA DE JESUS Foi em Jerusalém e na casa de Marcos, uns dias antes da grande festa de Pentecostes, quando Maria retomou suas recordações de Belém, o povoado onde havia nascido Jesus... 1. Não sabemos exatamente o ano em que Jesus nasceu. A referência que faz o evangelho de Lucas a um censo ordenado por Roma nos dá uma pista aproximada. Segundo estes dados, tudo parece indicar que Jesus veio ao mundo nos anos imediatamente anteriores à anexação definitiva da Palestina ao império romano ou muito pouco depois. Durante aquele período foi quando se ordenou um censo, embora não se saiba com certeza quanto tempo durou e as datas exatas. O recenseamento era um instrumento de controle empregado por Roma em seus domínios. O que foi realizado em Israel, segundo Lucas, foi ordenado por Públio Sulpício Quirino, legado de Roma na província da Síria. O censo compreendia duas etapas: o registro e a arrecadação. A primeira etapa consistia em levantar o cadastro de pessoas e propriedades em todo o país. A segunda etapa tratava de assinalar a cada um os impostos correspondentes e começar a cobrá-los. A segunda etapa – que alguns pesquisadores chamam simplesmente de “censo” – parece que aconteceu pelo ano 6 depois de Jesus. Se admitirmos esses dados, o nascimento de Jesus teria ocorrido durante a primeira etapa: a de registro. Em todo caso, Lucas se interessou particularmente por este fato histórico e político, uma vez que as viagens de uma região para outra, provocadas pelo censo em todo o país, justificam a ida de José e Maria a Belém. Nascendo Jesus em Belém, a cidade de Davi, podia estabelecer entre ele e o grande rei de Israel uma relação não só simbólica, mas muito mais, familiar. O censo foi recebido pelos homens e mulheres de todo o país com verdadeira indignação. Aquela lei consagrava formalmente a submissão do povo e da nação ao império romano. A partir do censo, a Palestina se constituiu em província de Roma. Conforme a organização imperialista, a partir daquele momento se reconhecia aos israelitas unicamente o direito ao usufruto da propriedade (para trabalhá-la e administrá-la) reservando-se a Roma a propriedade sobre ela. Para o povo aquilo era não só uma forma de dominação política e econômica, mas uma autêntica blasfêmia. Para Israel a terra era santa, Deus era seu único dono e era de sua vontade que ninguém se apossasse permanentemente dela. As leis sociais de Israel apontavam neste sentido. Já desde o começo da dependência do império, alimentou-se com essas medidas uma surda e inflamada resistência contra as tropas e funcionários ocupantes. As classes dirigentes nacionais (sacerdotes, teólogos) também ficaram incomodadas mas, no geral, reagiram tratando de tornar “aceitáveis” pelo povo aquela nova ordem. Com isso não procuravam outra coisa que conservar seus postos de privilégio e poder diante das novas autoridades estrangeiras. Uma viagem como a que José, Maria e outros muitos conterrâneos seus se viram obrigados a fazer por causa do censo – de Nazaré a Belém – pode ter durado uns cinco dias de caminho. Belém era uma cidade importante quando Jesus nasceu. Estava situada a uns 10 quilômetros de Jerusalém, pelo sul da capital, em terras da família Efrat (por isso se diz “Belém de Éfrata”). O nome Belém significa “casa do pão”. Em Belém nasceu Davi, o rei mais amado dos israelitas. Era pastor e nos campos daquela cidade cuidava de suas ovelhas quando foi ungido como rei de seu povo (1Sam 16, 1-13). Também o profeta Miquéias havia anunciado que de Belém sairia o futuro rei de Israel, um novo Davi que pastorearia o povo (Miq 5, 1-5). Tanto Lucas como Mateus, apresentam Jesus como herdeiro da linhagem de Davi e que se cumpre nele a profecia de Miquéias, anúncio do lugar de origem do Messias esperado. Com isso fazem catequese, explicando desde o começo do evangelho “quem” era Jesus e qual seria sua missão. Belém é hoje em dia uma formosa cidade árabe, com casas pequenas e brancas que se amontoam sobre uma colina. Entre todas elas destaca-se a Basílica da Natividade, construída há uns mil e quinhentos anos e ainda de pé. É uma das igrejas mais antigas do mundo. Muito grande, não tem mais que uma estreita e baixíssima porta de entrada, pois quando foi construída eram tempos de guerra. Não fazendo outras portas além desta, evitava-se que cavaleiros armados entrassem no templo. Em seu interior – já gasto pelo tempo e pela fumaça das velas, e pelos passos dos milhares de peregrinos – existe uma gruta que recorda o lugar onde nasceu Jesus. No chão, uma estrela assinala – mais piedosa que historicamente – o lugar do nascimento. Há uma inscrição: “Aqui nasceu Jesus de Maria Virgem”. Bem perto, uma escavação na gruta é venerada como presépio. São lugares que provocam viva emoção em qualquer crente. Ao longo dos séculos, milhares de cristãos se reuniram nesta gruta para celebrar a eucaristia e para cantar os tradicionais cantos de Natal. Centenas de anos de tradição, de imagens, canções, poemas, estatuetas de argila e outras riquíssimas expressões da arte popular, fizeram do Natal a festa mais arraigada entre os cristãos e também entre os não-cristãos em países influenciados pela cultura ocidental de cristandade. Também o Natal é a festa religiosa que se “vê” mais. Mas, por uma interpretação literal do texto evangélico, ou por causa do peso de muitas tradições artísticas, temos “visto” Jesus em seu nascimento como um menino que nasce “misteriosamente”: sozinho e no silêncio da noite, afastado de todos. Sem negar a beleza e a história acumulada nestas representações, poderia ser útil “ver” o Natal de outra forma. A visão tradicional “separa” José e Maria de seus conterrâneos, que estariam nas mesmas condições que eles durante os dias do censo. E “separa” o menino que nasce, fazendo dele um menino “único”, diferente dos demais. Esta visão falseia algo essencial do mistério da encarnação. Deus quis que Jesus fosse um de tantos outros e que seus pais fossem também uma de tantas outras famílias galiléias. Se Jesus nasceu para todos, é importante, já desde o começo de sua vida, vê-lo nascer no meio de todos. Pois foi no meio de nós, que ele quis vir montar sua tenda (João 1, 14). Em Belém, como toda cidade de relativa importância na Palestina, haviam pousadas, grandes hospedarias para os que estavam de passagem para Jerusalém ou outras cidades. A história de que “não havia lugar” para José e Maria num daqueles grandes “caravasares” (lugar para as caravanas, onde se alojavam tanto pessoas como animais: cavalos, camelos, burros...) não teria sido por “maldade” dos hospedeiros que recusavam o Filho de Deus já antes de nascer. Não havia lugar porque aqueles espaços já estariam ocupados ou, certamente, porque os preços estariam tão altos que José e Maria não conseguiriam pagar. Os comerciantes, com toda a certeza, se aproveitavam do censo para cobrar mais pela hospedagem. Em todo caso, quando os galileus iam à Judéia procuravam alojar-se juntos e manter-se unidos. Não é de estranhar que fizessem acampamentos coletivos, mais ainda em circunstâncias tão especiais como as daquela forçada viagem. Maria pariu Jesus. Seu bebê não apareceu “milagrosamente” sobre as palhas. Jesus nasceu como todos nós, fruto do esforço e das dores de sua mãe. É totalmente lógico que ela fosse ajudada por suas conterrâneas, mais experientes que ela naquela questão. Quando o bebê nascia, se lhe cortava o cordão do umbigo, ele era lavado e enfaixado.Também havia o costume de esfregá-lo com sal (Ez 16, 4). A primeira coisa era sempre avisar o pai para que a comunidade o felicitasse. Não sabemos se Jesus nasceu nos meses do inverno ou nos do verão, nem muito menos em 25 de dezembro. Esta data, que tem sido a data do Natal há mais de mil e quinhentos anos, tem sua origem na grande Festa do Sol Invencível que se celebrava em Roma e em todo o império com enorme alegria popular. Os primeiros cristãos mudaram o sentido original da festa e começaram a celebrar neste mesmo dia o nascimento de Jesus. Talvez porque viam nele a luz que os orientava, porque seu nascimento significou o amanhecer de um mundo novo, porque Jesus havia vencido a morte entregando sua vida e recebendo de Deus como resposta a luminosa alegria da ressurreição. (Lucas 2, 1-7) Jerusalém, como uma mulher prometida, se enfeitava para a próxima festa de Pentecostes. Nas ruas, colocavam-se ramos e flores, nas muralhas se acendiam tochas, e os filhos de Israel separavam suas primícias para oferecê-las no Templo, agradecendo a Deus pela nova colheita... Já passou muito tempo e nenhum de nós esqueceu as coisas que Maria nos contou naqueles dias... 2. Os arredores de Belém eram local apropriado para o pastoreio. Naqueles mesmos campos Davi havia apascentado suas ovelhas antes de tornar-se rei de Israel. No entanto, hoje os pastores árabes conduzem seus rebanhos por amplas terras que rodeiam Belém. Fora da cidade, no chamado atualmente “campo dos pastores”, uma igreja em forma de tenda de beduíno recorda aqueles pastores belemitas que celebraram com tanto entusiasmo o menino Galileu recém-nascido em suas terras. Os pastores de Belém, como de qualquer outro lugar de Israel, não eram “ternos, encantadores e doces”, como geralmente os pintam os contos de Natal. Não só eram homens da mais baixa classe social, como também eram considerados elementos “perigosos”. O pastor era um autêntico marginalizado daquela sociedade. Via-se nele um delinqüente, um ladrão e um trapaceiro. Embora não houvessem provas eram sempre suspeitos de levar seus animais para propriedades alheias e de roubar parte do produto de seus rebanhos. Algumas comunidades de pessoas “religiosas” estavam proibidas de comprar deles a lã, o leite ou cabritos. Prescindindo de alguns textos importantes do Antigo Testamento, que representam Deus e seu Messias como pastores, ou das tradições que fazem de Moisés e de Davi pastores de ovelhas antes de tornarem-se líderes do povo, a literatura de Israel, especialmente a do tempo de Jesus, está cheia de juízos muito críticos contra os pastores. Se o evangelho de Lucas apresenta os pastores como os primeiros conhecedores do nascimento de Jesus, estaria nos dando não só um dado histórico mas, principalmente, nos aportaria um dado teológico. Não é uma casualidade ou apenas um detalhe poético, mas é uma forma de deixar bem claro, desde o começo do evangelho, quem esteve próximo de Jesus, entre quem ele nasceu e para quem veio aquele menino. A boa notícia, a alegre notícia que se anuncia aos pastores e que eles entendem a seguir é que têm um libertador. Aqueles homens pobres e desprezados resumem em seu ofício o povo a quem Jesus anunciará o evangelho. Aqueles “pobres de Javé” que nada tinham a não ser esperança em Deus e desejo de serem libertados de uma opressão de séculos. Como no texto da anunciação à Maria, Lucas volta a empregar nesta narração os anjos mensageiros desta notícia de libertação. Quando na linguagem bíblica se usa a figura de um anjo é porque se quer revestir de solenidade aquele momento, se quer dar muita importância ao acontecimento que se narra. E é tão importante que o Messias esperado nasça entre os pobres e chame à sua comunidade, como os primeiros, a estes “últimos” que “é necessário” que apareçam anjos. Mateus, o outro relator da infância de Jesus, que quer ressaltar este aspecto da universalidade da mensagem de Jesus – frente ao nacionalismo de seus conterrâneos – dirá que vieram a Belém, uns orientais que eram magos (que tinham outra religião). Com isso indica que Jesus não veio para libertar somente Israel, mas todos os povos da terra, que ele romperá as fronteiras entre as nações. Para exprimir isso, inspira-se nas profecias de Isaias (Is 49, 12 e 22-23; 60, 3-6). E se fala de uma estrela é porque está recordando, ao escrever seu evangelho, de uma velha profecia de um estrangeiro, que no início da história israelita, viu surgir uma estrela que anunciava a chegada de um rei, que governaria a partir de Israel todas as nações da terra (Números 24,15-19). Em todas as culturas o nascimento de um menino era motivo de festa. Ao redor deste fato há uma infinidade de costumes populares. Enterrar a placenta num terreno de cultivo para pedir a Deus fertilidade, ou jogar nos sulcos gotas de leite da mãe recém-parida para que houvesse boa colheita, são alguns dos muitos ritos que acompanham o acontecimento do parto em alguns povos. O Natal, festa mais profundamente arraigada na tradição cristã, deve procurar raízes populares profundas, se quiser se aproximar das origens de Jesus. O consumo desmedido e artificial, o desperdício que costuma acontecer nesses dias, pouco ou nada tem a ver com o nascimento daquele menino, rodeado sim de muita alegria e muita festa, mas de nenhum luxo supérfluo. Lucas põe na boca dos anjos um anúncio que é canto da aclamação tradicional entre os cristãos: “Glória a Deus no céu e paz na terra aos homens que ele tanto ama”. Isto é em síntese o que significa o nascimento de Jesus para a humanidade. A “glória” de Deus ao longo da Bíblia é a revelação de sua autoridade, de sua santidade. Neste menino pobre, nascido como tantos outros, no meio de um grupo de conterrâneos alegres, está toda a glória de Deus, sua revelação definitiva. A partir de agora é aí, no meio do povo, que se deve buscar a Deus, porque ele quis revelar-se aí. O nascimento de Jesus também significa “paz”. A paz (“shalon”, em hebraico) tinha, por exemplo, 25 formas de ser traduzida ao grego. Paz é saúde, salvação, alegria, vida feliz, digna, vida íntegra, plena. Bem estar, prosperidade material e espiritual para cada um e para a comunidade. Tudo isso é o que vem anunciar aquele menino nascido em uma gruta de ovelhas, a quem os pastores de Belém festejaram com tanta alegria. (Lucas 2, 8-20) Faltavam poucos dias para Pentecostes, a grande festa da colheita. Sentados no chão, no andar de cima da casa de Marcos, ouvíamos Maria, a mãe de Jesus, enquanto ela rebuscava em sua memória e nos contava os primeiros momentos da vida de seu filho... 3. A circuncisão consistia em cortar o prepúcio (tecido que cobre a glande do membro masculino). Era feita com uma faquinha de pedra afiada. Este costume foi praticado e ainda se pratica em muitíssimos povos. É possível que Israel o aprendera do Egito no começo de sua história como povo. Até hoje o povo judeu o continua praticando. Em muitos povos se circuncida na adolescência, como um rito de iniciação à vida sexual. Em Israel é, sobretudo, um símbolo da aliança feita entre Deus e o povo e um sinal de que o israelita se incorpora à comunidade de que faz parte como filho de Abraão (Gn 17,1-27). No tempo de Jesus circuncidava-se o menino aos oito dias de nascido e nesse momento se lhe impunha o nome. Para Israel, como para todos os povos orientais e para a maioria das antigas culturas, o nome não é só o que distingue uma pessoa da outra, mas é um elemento essencial da mais profunda personalidade do indivíduo. O nome faz a pessoa, indica quem é, qual é seu destino. Impor um nome a uma criança tinha, por isso, uma enorme importância. Não era um mero trâmite nem um puro gesto social. Este modo de entender o que é um nome explica a reverência que os israelitas tinham ao simples fato de pronunciar o nome de Iahweh, o nome de Deus. Porque acreditavam que, de alguma forma, com o nome se faz presente quem o leva. Também se entendia que dizer a outra pessoa o próprio nome era sinal de grande confiança. Por isso não se dizia no início do estabelecimento de uma relação, mas somente quando já havia um certo conhecimento e afeto. Acreditava-se também que quem conhecia o nome de outro tinha poder sobre ele. Quando Deus revela seu nome a Moisés está lhe revelando quem ele é, e quando no último livro da Bíblia se nos promete para o Reino de Deus um “nome novo” (Ap 2,17), nos está sendo dito que seremos “homens novos”. E somente então chegaremos a ser quem realmente somos. As crianças em Israel recebiam nomes de tipo profano ou religioso. Os profanos eram nomes de animais (Raquel = ovelha), (Débora = abelha), de coisas (Rebeca = laço), que indicavam a alegria dos pais pela criança (Saul = o desejado), (Noemi = minha delícia), que faziam alusão a alguma qualidade do pequeno (Ajab = semelhante a seu pai), (Esaú = peludo), (Salomé = sadia). Os nomes religiosos combinavam várias palavras para indicar como os pais crentes representavam a relação que Deus iria ter com a criança ou o que de Deus esperavam para ele. São nomes que reconhecem a ação de Deus (Jeremias = Deus consola), indicam agradecimento (Matatias = presente de Deus), proclamam como Deus é (Eli = Deus é grande) etc. Esses nomes usados durante séculos pelo povo de Israel, expressam muito bem a fé da comunidade ou das pessoas individualmente. Jesus é a forma grega do nome hebreu que soava Yeshua e que, primitivamente, teve a forma de Yehoshua. Significa “Deus liberta”. Foi um dos nomes pessoais mais populares entre os israelitas, durante séculos. Teve o mesmo nome Josué, o líder que substituiu Moisés quando ele morreu, e que entrou com o povo na Terra Prometida. O mesmo aconteceu com o autor do livro do Eclesiástico, Jesus Bem-Shirá. E muitos outros israelitas conhecidos e desconhecidos tiveram este nome. Em Jesus de Nazaré indica sua missão libertadora. Através de sua palavra, de sua vida, e especialmente de sua morte e ressurreição, Deus nos liberta de todas as escravidões. Desde uns quinhentos anos antes de Jesus, depois da época do exílio, foi adquirindo importância em Israel o poder demonstrar que se era israelita legítimo. Durante o exílio ocorreram muitos casamentos entre pagãos e, quando da volta à Palestina, considerava-se que os que tivessem antepassados limpos podiam ser o fundamento para reconstruir o país arrasado. Assim, foi importante o uso das genealogias (árvores genealógicas). Em geral, todo israelita conhecia de ouvido quem eram seus antepassados, várias gerações para trás. No entanto, para realizar um casamento – especialmente com um sacerdote – era necessário demonstrar por escrito que a genealogia era pura, ao menos em cinco gerações. Os candidatos a postos públicos deviam ter também esta prova da legitimidade de sua origem. Não é de se estranhar, portanto, que tanto Mateus como Lucas tenham assinalado em seus evangelhos qual foi a genealogia de Jesus. Lucas a faz, partindo de Jesus para cima, até chegar ao próprio Adão. Mateus escreve de forma inversa e começa com Abraão. Pela genealogia, cada família israelita indicava a qual das doze tribos pertencia sua linhagem. Assim demonstrava em qual ramo estava entroncada no povo de Deus. A relação com a tribo de Judá foi a que deu maior número de árvores genealógicas. E ainda mais, dentro da tribo de Judá, a da família de Davi. Isso é compreensível, porque aquele rei havia marcado a história do povo. Até uns cem anos antes de Jesus, se escolhia sempre entre os membros dessa família o chefe civil do Senado. Por outro lado, a esperança messiânica estava ligada aos descendentes da família de Davi e quem tivesse sangue de sua família real procurava demonstrar esta destacada origem. No tempo de Jesus eram muito abundantes os descendentes da família de Davi dentro da tribo de Judá. Tanto Mateus quanto Lucas escreveram as genealogias para mostrar a origem davídica de Jesus e dar com isso uma prova “histórica” de que ele era o Messias. A genealogia era sempre estabelecida em relação com os antepassados do pai e não com os da mãe. José é que pertencia à família de Davi, e não Maria. Estas duas genealogias apresentadas pelos evangelhos correm paralelas desde Abraão até o rei Davi, mas depois são diferentes. Mateus a continua por Salomão e Lucas por Natã. Os dois foram filhos de Davi. Em alguns pontos voltam a coincidir. No entanto, não devemos buscar em todos os antepassados dessas genealogias dados estritamente históricos. Há nelas erros e omissões. E também, teologia. Inclusive no número das gerações contadas há símbolos numéricos. É o estilo próprio dos evangelistas que, mais do que fazer história, conforme entendemos hoje, preocupavam-se em dar uma catequese a seus leitores. A genealogia que oferece Mateus é a que segue o rabino Manasses neste episódio. Procura principalmente – e nisto coincide com a de Lucas – fazer ver que Jesus não é um Messias descido do céu, alguém estranho à história. Jesus foi um homem inserido na história do povo de Israel e, através deste povo, solidário da história humana. Como cada um de nós que, através de uma família, de alguns antepassados, de um povo, de uma nação, fazemos parte dessa família imensa que é a humanidade. É importante destacar que Jesus foi um israelita, um judeu e que, por isso, todo ódio contra os judeus, todo o desprezo por esta raça, todo o ataque contra as tradições desse povo se volta contra o próprio Jesus, contra Maria, José, os apóstolos e praticamente todos os personagens que conhecemos pela Bíblia. Na genealogia de Mateus aparecem várias mulheres (nenhuma na de Lucas). Ao incluí-las, como ao incluir outros antepassados, Mateus está fazendo de uma vez história e teologia. Jesus aparece assim como membro de uma história “impura” quanto à raça, ao sangue e à origem. Há estrangeiros, mulheres de moral “duvidosa”... A ascendência de Jesus se inicia com Abraão, um idólatra convertido e passa por todas as classes sociais: patriarcas, nômades, escravos no Egito, reis, soldados, gente sem nenhum destaque, Tamar – mulher astuta e hábil – (Gn 38,6-26); Rute, a estrangeira imigrante (Livro de Rute), Raab, a prostituta (Js 2, 1); Betsabé, adultera com Davi (2 Sm 11, 4)... Uma história cheia de descaminhos , de “manchas”, de saltos. Esta foi a história de Jesus, como costuma ser a história de cada um de nós. Não há, pois, em Jesus, por mais que fosse descendente da família real de Davi, nenhum “sangue azul” mas o sangue vermelho como a todos os mortais. (Mateus 1,1-17; Lucas 2,21; 3, 23-38) Mateus, que havia sido publicano, não perdia uma só das palavras de Maria, e as ia guardando cuidadosamente em sua memória. Alguns anos mais tarde, quando tomou da pena para escrever seu evangelho, pegou emprestadas aquelas histórias antigas de nosso povo, e falou de Jesus como de um novo Moisés, o filho que Deus havia chamado do Egito para libertar seus irmãos. 4. Quando Jesus nasceu, embora a influência romana se deixasse sentir cada vez com mais força na Palestina, Herodes, o Grande ainda governava o país. Herodes não era de sangue judeu. Seu pai era indumeu, mordomo da corte do sumo sacerdote, e sua mãe era filha de um xeique árabe. Sua astúcia para conseguir o favor de Roma lhe permitiu chegar ao trono e pouco a pouco apoderar-se de todo o país. Governou durante quarenta anos, e durante seu reinado as classes ricas de Jerusalém e sua própria corte viveram em um ambiente de luxo e dissipação até então desconhecidos no país. Os impostos davam anualmente a Herodes, o Grande, a soma de 1.000 talentos (uns dez milhões de denários – o denário era o salário de um dia de um operário ou camponês). Mas seus luxos pessoais, os de sua família, os de seus amigos de corte eram tais que aquilo não era suficiente. Sabe-se que sua fortuna pessoal era imensa. O reinado de Herodes, o Grande, se distinguiu pela quantidade de construções realizadas em todo o país. A mais importante foi a reconstrução do Templo. (É chamado de “segundo Templo”, pois o primeiro, construído por Salomão, foi arrasado pelos babilônios ao invadir o país, quinhentos e oitenta e sete anos antes de Jesus). A vida privada de Herodes (teve 10 mulheres), os enormes e crescentes impostos descarregados sobre o povo, sua crueldade e falta de escrúpulos, a dissipação contínua de sua corte, fizeram dele um rei temido e odiado por seus súditos. Em seu tempo, o país empobreceu e prosperaram principalmente as indústrias de artigos de luxo. À sua morte, com a divisão do reino em quatro partes (uma delas, a Galiléia, para Herodes Antipas, que aparece nos evangelhos), consumou-se a anexação definitiva da Palestina ao império romano. Herodes sabia de sobra que seus súditos o odiavam. Isso o fez viver em constante temor. Por isso criou uma guarda pessoal, que era o braço repressivo que mantinha a “segurança” daquele reino edificado sobre o sangue e o suor do povo. Quando Mateus escreveu seu evangelho, ao contar os primeiros anos da vida de Jesus, refere-se a Herodes e lhe impinge a matança dos inocentes, ligando este fato à chegada de magos orientais a Jerusalém e a fuga para o Egito de José, Maria e o menino. Estes três relatos, os reis magos, a matança dos inocentes e a fuga para o Egito, são esquemas teológicos. A crueldade de Herodes é histórica e o é também o fato de que naquele tempo havia no Egito cidades com importantes colônias de emigrantes e exilados judeus. O relato dos Magos do Oriente é uma forma de dizer que o evangelho não é uma mensagem só para o povo de Israel, mas para todos os povos da terra. Mateus proclama assim que Jesus veio para “os próximos e os distantes” (Is 57, 19; Ef 2, 14-17). Com as histórias da matança dos inocentes e da fuga para o Egito, põe Jesus em relação a Moisés, o grande libertador do povo. Assim como ao nascer Moisés, o Faraó havia decretado a morte de todos os meninos israelitas (Ex 1, 15-22), e assim como Moisés, já maior, teve de fugir para o sul do Egito, para dali voltar para libertar seus irmãos (Ex 2, 11-15), Mateus repete esses mesmos fatos na vida de Jesus. Em sua catequese o apresenta assim como “o novo Moisés”. Os tempos de Herodes, o Grande, foram tempos de grande enriquecimento dos poderosos e de dor para os pobres. Neste ambiente de repressão, angústia, pobreza e incertezas, este episódio situa o exílio de muitos israelitas contemporâneos de José e Maria. “Fugiam” da miséria e da perseguição. Por outro lado, entre Israel e Egito houve desde séculos antes de Jesus relações muito estreitas. As cidades egípcias de Elefantina e Alexandria eram sede de colônias importantes de emigrantes judeus. A “diáspora” (judeus no exílio) é calculada em mais de quatro milhões de pessoas, frente ao meio milhão que vivia dentro do território de Israel. Essa emigração, tão abundante, era nutrida por israelitas acossados pela necessidade provocada pelas periódicas carestias que afligiam o país ou pela exploração a que eram submetidos os camponeses e artesãos. Naturalmente, também emigravam grandes negociantes, pois queriam estar situados em cidades mediterrâneas que eram naquele tempo os mais importantes centros comerciais. O exílio é um mal pelo que traz de desraizamento para aquele que se exila e para sua família. O amor à própria pátria é um sentimento muito humano e dele, os homens tiraram sempre a força para trabalhar e lutar em favor de seus compatriotas. A dura hora do exílio pode talvez ajudar-nos a entender que o amor à pátria deve estar combinado com o internacionalismo, que apaga as fronteiras, que torna pátria o lugar onde se trabalha e que faz compatriotas todos os homens e mulheres justos. O internacionalismo (universalismo) é um sentimento que funda suas raízes na melhor essência do evangelho de Jesus. (Mateus 2, 13-18)
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