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Capítulo LXXX UMA NOITE DE DÚVIDAS Abarrotada de peregrinos, Jerusalém esperava com alegria a festa da colheita, já próxima. Os onze do grupo e as mulheres, reunidos por aqueles dias na casa de Marcos, escutávamos Maria, a mãe de Jesus, que ia tirando lembranças de sua memória, como quem tira de seu baú coisas novas e antigas. Maria: ... Povoado pequeno, inferno grande, assim se dizia. E é verdade. Porque em Nazaré não se podia tossir que todo mundo ficava sabendo do resfriado. Claro, vocês bem podem imaginar, éramos apenas umas vinte famílias... E embora minha mãe tivesse me mandado para a outra ponta do país para evitar os fuxicos, a língua dos vizinhos não ficou quieta... Uma vizinha: Você ainda não soube? Ai, menina, está andando nas nuvens?... A filha do Joaquim!... Sim, sim, a Mariazinha, que parecia ser tão mosquinha morta... Outra vizinha: E o que aconteceu com ela, vamos, conte-me? Vizinha: O que aconteceu? Aconteceu o mesmo que com o pão!... Jogaram fermento e a massa está crescendo...! Vizinha: Senhor Bendito, que escândalo, que pouca vergonha!... E veja que o Zezinho também não perdeu tempo, heim? Vizinha: Não, menina, desse aí a gente tem é que ter pena.... “Se lhe põem os cornos, lararó, larari”. Um vizinho: É, eu sempre disse que essa moreninha era alegre demais... Muito riso, muita dança, muita brincadeira ... e claro, depois vem a outra brincadeira! Ai, compadre, a juventude de agora está perdida, pode crer! Outro vizinho: E o que eu digo a você é que se fosse filha minha lhe dava uma surra de vara que a deixava com o traseiro mais corado que o Mar Vermelho! Isso já está virando um relaxo, compadre!... No nosso tempo, uma menina decente não chegava perto da janela nem tirava o véu do rosto... Pois veja você, agora essas danadas ficam mostrando até o tornozelo... depois não querem que aconteça o que aconteceu! Vizinho: É assim mesmo!... E eu pergunto, compadre, o que o noivo disse? Porque, pelo que tenho ouvido, essa barriga não é dele. O que José vai fazer?... Já estará juntando pedras, não é mesmo? Vizinho: Bom, primeiro ele tem que saber. O pobre rapaz está em jejum. Sim, sim, pelo que ouvi... o José ainda não sabe de nada... José: Mas, o que está acontecendo aqui? Por acaso estou com lepra para que todo mundo me evite?... Vou andando e todos viram a cara. Vou ao trabalho e uma se ri e a outra cochicha... Diacho, que diabos está acontecendo comigo? Vizinho: Com você nada, rapaz. A coisa é com ela, com sua noiva. José: Com Maria?... O que há com a Maria? Fale. Diga. Vizinho: Sinto muito, José, mas tenho que lhe dizer... O assunto fede mais que queijo rançoso, e quanto mais tempo passa, pior... José: Sem rodeios. Fale claro. Vizinho: Bom, é que... ela está esperando um filho. José: O que você disse...? Vizinho: Que ela está prenha. Sim, é isso mesmo que você está ouvindo... E como todos suspeitamos que você não semeou essa roça... aí ... José: Mas isso não é possível... não é possível... Eu não posso acreditar que Maria tenha feito uma coisa dessa... Vizinho: Pois acredite, rapaz. Se Noé não tivesse acreditado no dilúvio, os peixes o teriam comido... Boliche: Bem a tempo, José! E então, companheiro? Já lhe contaram a rasteira que sua querida noivinha lhe deu? Ah, caramba, são todas iguais!... A que não manca de um pé, manca dos dois! Rá, rá, rá...! José: Cale a boca, Boliche! Boliche: Mas não se preocupe, homem, aprontaram essa até para o pobre Oséias e, veja só, chegou até a profeta!... Rá, rá,raí...” José: Se você não se mandar agora mesmo, eu lhe quebro o nariz! Boliche: Está bem, homem, está bem... “Se lhe põem os cornos...” José: Vai pro diabo, desgraçado! Boliche: E que ele o acompanhe!... Rararai...! Maria: Que mal pedaço o José teve de passar!... Cada vez que me lembro disso, me dá como que um remorso...! Ele me contou depois que nesse dia se trancou em casa e não quis comer nem falar com ninguém... Mãe: José, filho, você não vai comer nada...? José... José: Não quero nada! Vão todos para os quintos dos infernos e deixem-me em paz! Maria: Estava desesperado... Atirou-se sobre a esteira, fechou os olhos e tratou de dormir... José: Descarada, agora você vai saber quem sou eu!... Muitas palavras bonitas, muito carinho, sim... e agora isto!... Mas, prepare-se, porque eu vou agarrá-la pelas tranças, trazê-la aqui, arrastá-la pela aldeia... O que você está pensando? Diacho, eu vou repudiá-la, vou levá-la em cueiros até a frente da casa de seu pai e direi ao velho Joaquim: fique com ela, estou devolvendo, não quero lixo em minha casa!... Isso para que ela aprenda a ter respeito, que quando alguém dá sua palavra, dá pra valer... e eu lhe disse que queria me casar com você e você disse que também queria e agora... agora... Maria: José mordia a língua para que seus irmãos não o vissem chorar. Apertou os olhos com os punhos, mas as lágrimas lhe subiam à garganta como um rio salgado... José: Você arrebentou meu coração, Maria... partiu-o como a um vaso de oleiro e ele já não tem conserto... Por que você fez isso?... Por que se eu a amava tanto... se eu a amo desde quando ainda brincávamos na colina... se você era a única coisa que me dava vontade de viver... se eu nunca me interessei por nenhuma outra garota... só por você, Maria... E o que vou fazer agora?... Vou-me embora daqui, para onde ninguém saiba quem eu sou e... e então encontrarei outra mulher... O que você está pensando? Que é a única?... Pois olhe, há muitas outras garotas mais bonitas que você, está ouvindo? E que sabem cozinhar melhor, só para você ficar sabendo... Maria: José virou-se na esteira, enrolou-se na manta e tentou dormir... Mas o sono lhe fugia como água entre as mãos... José: Não, eu não posso ir embora sem vê-la antes... tenho que vê-la... mesmo que seja para você me dizer o que já sei... vamos seja corajosa, diga-me você mesma... olhando-me nos olhos... sim, sim, tenho que vê-la...! Maria: Ele sentou-se na esteira... Apesar da brisa da noite, tinha a fronte banhada de suor.... Mãe: O que acontece, filho? José: Nada, mamãe, nada... é que estou sem sono... Maria: Estava sufocado. Não cabia na casa. Cambaleando ele se levantou, jogou a túnica por cima e, sem despedir-se de sua mãe, abriu a porta e se foi... Não levou embornal nem bastão e o caminho era bem longo... Mas não lhe importava... Tinha que chegar o quanto antes a Ain Karem, onde eu estava vivendo naqueles meses... Depois de dois dias de estrada, chegou aos montes de Judá e viu ao longe a aldeia... Respirou fundo e apertou o passo até a casinha dos meus tios. José: Não é aqui que mora...? Maria: José! José: Maria! Maria: José ficou plantado na soleira da porta, diante de mim, com os olhos cravados em meu ventre já crescido... Maria: José, o que você faz aqui? José: Vim vê-la... Maria: Pois então... já está me vendo... José: Sim, estou vendo... estou vendo... Maria: Estou esperando um filho, José. José: E eu estou esperando uma explicação sua, Maria... Depois... depois vou embora e nunca mais você saberá de mim... Isabel: Você não vai a lugar nenhum! E antes de ficar tão carrancudo, cumprimente a gente!... Diacho de jovens de hoje! Chegam à sua casa e tratam a gente como se fosse um saco de farinha... E então? De visita por aqui? José: Bem, sim, senhora, eu... eu vim conversar um pouco com Maria... Isabel: Um pouco e muito. Mas para conversar vocês terão tempo depois. Agora venha lavar os pés e comer alguma coisa... José: Não, senhora, eu não quero incomodar, eu... Isabel: Vamos lá, rapaz, não precisa disfarçar, você está com umas olheiras maiores que as pregas da minha túnica... E não deve ter comido nada quente desde que saiu de Nazaré, não é mesmo?... Vamos, entre... Vou chamar meu velho agora mesmo... Zacarias! Venha aqui conhecer o noivo da Mariazinha... Vamos, boneco, sossegue... Joãozinho... Este é meu filho, sabia? Ontem completou um mês... E não é porque seja meu, mas diga, José, não é mais bonito que um querubim? Maria: Como minha tia Isabel se portou tão bem com José! Ela o fez entrar em casa, preparou um guisado para ele e o levou para descansar no quartinho do fundo... Depois, tio Zacarias lhe mostrou a horta e uma criação de galinhas que tinha junto ao poço... Eles dois se simpatizaram mutuamente... E depois, quando o sol ia se pondo, naquela hora da tarde quando tudo volta à calma, quando se vê tudo com mais serenidade, José e eu nos sentamos para conversar, perto de uma oliveira verde do quintal... Maria: Pois então... não sei por onde começar... José: Muito... muito menos eu... Maria: O que ... o que andam dizendo de mim lá na aldeia? José: Bah, um monte de besteiras... só sabem bater a sem-osso... Maria: A quê...? José: A língua, Maria... Alalalá... Por isso se mexe tanto. Maria: Diga-me, José... Você confia mais no que eu lhe digo ou no que lhe disseram seus amigos? José: De... de quem é a criança? Maria: Eu não sei. José: Como não sabe...? Maria: Não sei... de verdade... Olhe esta árvore... Eu não sei quem a plantou, mas a quanta gente não terá dado sombra, não é mesmo? José: Se você não se explicar melhor... Maria: José, tampouco se pergunta a uma flecha de que arco ela saiu, mas aonde se dirige em seu vôo... Escute, antes de vir para cá, fui conversar com meu avô Isaias, e ele me disse que... Maria: ... E isso é tudo o que eu sei. José: Por que não me disse antes, Maria? Maria: Porque... porque tinha medo. Eu senti muito medo, José... José: E eu, muita raiva, sabia? Maria: Tia Isabel tem me ajudado muito... me aconselhou... José: Pois eu tive de engolir isso tudo sozinho... Maria: Diga-me, José, você acredita no que estou lhe dizendo? Você acredita? Maria: José pôs seus olhos sobre os meus, agarrou forte minhas mãos, e ficou um bom tempo assim, calado... Maria: Acredita, José? José: Eu a amo, Maria... Amo você e... se você diz que esse assunto está na mão de Deus, nós veremos logo aonde ele está nos levando. Olhe, Maria, seja o que for, você é minha noiva e eu me casarei com você e, que saia o sol por onde sair!... E essa criança, bem, será como se fosse minha, caramba! Maria: José, como você é bom! Isabel: Pode repetir isso, menina, que gente tão boa assim já não se vê por essas bandas! Maria: Tia, o que você está fazendo aí...? Isabel: Bom, afinal de contas, esta é minha casa. E pelo jeito teremos casamento, não? José: Pode crer, dona Isabel! Maria e eu vamos nos casar logo. Daí que já é hora de juntar as coisas que amanhã mesmo nos pomos a caminho rumo ao norte... Maria: A Nazaré? E o que irão dizer por lá quando nos virem chegar e...? José: Que digam o que quiserem, nós não temos nada com isso, não é mesmo, dona Isabel? Isabel: É claro que sim, meu rapaz! Que gastem saliva! O que importa são vocês dois e essa criaturinha... Escutem, a propósito, que nome vocês vão pôr, Mariazinha? Maria: Pois eu não sei, na verdade, nem tínhamos pensado ainda... José: Bom, já que a outra coisa não fui eu, pelo menos me deixem pôr o nome!... Olhe, se for menina poremos como o seu, Maria... E se for um machinho, vamos pôr... Jacó. Isso, ele foi um grande valente... Não, melhor, Jesus, como aquele que entrou à frente do povo na terra prometida... Isso, Jesus, um nome de liberdade! Maria: No dia seguinte, cedinho, pusemo-nos a caminho para a Galiléia. Os vizinhos de Nazaré, quando nos viram chegar juntos, riam. Riam de mim e, sobretudo, de José. Mas José não se incomodou com isso e começou a preparar o casamento como se nada tivesse acontecido... Rabino: José, receba Maria como sua esposa, segundo a lei de Moisés. Ame-a, cuide dela, seja fiel à palavra que hoje você deu diante de todos nós e que o Senhor nosso Deus o abençoe com muitos filhos e que algum deles chegue a ser o Messias que tanto precisamos. Todos: Amém! Um vizinho: Que vivam os recém-casados! Uma vizinha: Que sejam felizes e tenham muitos filhos! Boliche: E que da próxima vez não tenham tanta pressa! Vizinho: Vamos lá, que comece a música, que comece o baile e que a festa dure até o amanhecer! Nos esponsais ficava formalizado o matrimônio, embora este não se houvesse consumado nem existisse ainda o contrato matrimonial, que só se estabelecia com o casamento propriamente dito. Mas o rapaz e a moça prometidos entre si – e este era o caso de José e Maria – eram considerados já esposo e esposa. A tal ponto que, se o jovem morresse, considerava-se viúva a mulher para efeitos legais. E se ela fosse descoberta em adultério, era condenada à morte por apedrejamento. Também, se o homem quisesse, podia repudiá-la apresentando contra ela o libelo do divórcio. Tudo, como se já estivessem ligados pelo compromisso matrimonial. Ao receber a notícia da gravidez de Maria, vários caminhos se apresentavam a José. Repudiá-la – divorciar-se dela rompendo os esponsais – alegando qualquer razão das que a lei lhe oferecia (por exemplo, algum defeito que tivesse descoberto em Maria, físico ou moral). Denunciá-la como adúltera, infiel à palavra dada, com o que Maria poderia ser morta a pedradas pelos moradores de Nazaré. Fugir da aldeia, passando diante de seus vizinhos como covarde, por causa do estado de Maria, e converter-se no ridículo de todos os seus conterrâneos. Por amor a Maria, porque a queria profundamente, José escolheu outro caminho que não foi nem o legalista nem o da fuga. Aceitou o que havia acontecido, fiou-se na palavra de sua esposa e acolheu como sua aquela criança, protegendo assim Maria perante toda a aldeia, para que não murmurassem contra ela. Foi uma decisão inspirada no amor que tinha por ela. A decisão de um homem “justo”, como diz o evangelho. Justo em seu mais profundo sentido, que não é nunca o de quem age segundo a lei, mas segundo o espírito, de quem opera segundo os sentimentos mais profundos de carinho, solidariedade e confiança. Para resolver as terríveis dúvidas que José teve de experimentar, o evangelista Mateus faz intervir um anjo que, em sonhos, fala com ele e lhe devolve a paz e a força para tomar a decisão de aceitar Maria e o filho que ia nascer. Na Bíblia, o anjo é sempre um mensageiro de Deus. Neste caso, sua mensagem é de esperança. José não deve temer. Deus quer sempre a vida e lhe pede que aceite esta vida que começa a formar-se no ventre de sua esposa. Por outro lado, falar de um sonho é uma forma de indicar aos leitores que se deve relacionar este José de Nazaré com o patriarca José, um dos doze filhos de Jacó. José teve sonhos nos quais Deus lhe revelava o que ia acontecer a ele, a seus irmãos, a seu povo, naqueles anos em que começou a escravidão no Egito. Também interpretou os sonhos do Faraó (Gn 37, 5-11; 40, 1-15; 41, 1-36). A José de Nazaré se lhe anuncia em sonho a libertação definitiva de todas as escravidões através de Jesus, o filho que Maria terá. A relação entre esses dois José, homens justos e fiéis é decisiva para entender o que quer dizer o texto evangélico. Maria e José foram uma mulher e um homem que fizeram um caminho de fé com dúvidas, conflitos, tensões. Ao aceitar Jesus, os dois aceitavam a vida e ao Deus da vida que os presenteava com aquela criança. Aquele foi um ato de fé e de esperança, facilitado pelo carinho que os dois tinham entre si. Quando se casaram não sabiam o que seria daquela criança e deles mesmos. A Palestina daquele tempo era um território convulsionado por grandes tensões políticas e sociais, a vida dos camponeses era difícil, de muito trabalho e de muita pobreza. Eram os anos que precederam a incorporação definitiva de Israel como província do império romano. A insegurança era o patrimônio dos pobres. Apesar disso, apesar de todos os seus problemas pessoais, José e Maria acolheram a vida daquela criança a quem ambos começaram a aguardar desde então com esperança. Em ambientes camponeses, como o de Nazaré, as bodas eram acontecimentos dos quais participava todo o povoado e que duravam até sete dias. Cantava-se, bailava-se, bebia-se muito vinho, que era elemento central de qualquer boda. Passados estes dias, o mais comum era que os novos esposos fossem viver na casa da família do noivo. Sobre o que fizeram José e Maria não se tem nenhum dado. Conserva-se em Nazaré a parede de trás de uma gruta de pedra, que desde o século II se venera como a “casa de Maria”, onde talvez tenha vivido a família durante todos aqueles anos em Nazaré. Este pedaço da casa encontra-se no interior da Basílica da Assunção, amplíssimo templo edificado há pouco tempo em Nazaré. É uma lembrança de autenticidade histórica bem comprovada que mostra, ao simples olhar, a radical pobreza da qual surgiu Jesus. Perto deste lugar existe outra casa que se venera como a “da sagrada família”, embora esta não tenha nenhum valor histórico comprovado. (Mateus 1, 18-24)
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