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Capítulo VIII NO BAIRRO DOS PESCADORES O grande lago da Galileia estava rodeado de planícies e colinas semeadas de pomares e de trigo, de vinhedos e de hortas. Em suas margens apinhavam-se muitas vilas de pescadores. Tiberíades, a cidade maldita, onde o rei Herodes tinha seu palácio. Magdala, famosa por suas mulheres. Betzaida, que significa “a casa dos pescados” onde todos nós havíamos nascido. E a mais buliçosa, Cafarnaum, “a cidade do consolo”, onde agora vivíamos e trabalhávamos sob as ordens de meu pai, Zebedeu. Zebedeu: Por hoje já está bom, caramba! E muito mais do que mais que bom! Tiago, diga à sua mãe que separe os dourados maiores para a sopa... Já fazia tempo que não tínhamos uma pescaria tão boa. E pelas tripas da baleia do profeta Jonas, a gente tem de celebrar isso! Tiago: Você me deixará provar essa sopa, não é, velho? Zebedeu: Sim, homem, venha com a sua mulher. E diga àquele velhaco do Pedro que apareça também. Se pescamos juntos, juntos vamos comer, sim senhor! Meu pai, o velho Zebedeu, aprendeu a remar antes de caminhar. Passou toda sua vida pescando no lago da Galileia. Conhecia aquelas águas melhor que a palma de sua mão. Às vezes penso que meu velho tinha escamas na pele e espinhas em vez de ossos... Com Jonas, o pai de Pedro e André, e outros dois pescadores, havia formado uma cooperativa. Zebedeu era o chefe. Tínhamos em comum os barcos e as redes. Todos trabalhávamos juntos e, ao final de cada jornada, repartíamos os lucros, que não eram muitos. Zebedeu: Chegará o dia, e esses olhos hão de ver, em que haverá sopa de peixe para todos e trabalho para todos e justiça para todos os pobres! Eia, vamos para casa, João, que já estou com mais fome do que Adão debaixo do pé de maçã! Quando o sol se escondia atrás do monte Carmelo, o lago ficava em silêncio. As gaivotas, que durante todo o dia revoavam sobre a água, voltavam a seus ninhos. As barcaças se apertavam com suas velas já dobradas no embarcadouro de Cafarnaum, esperando a nova manhã de trabalho. E em todas as casas dos pescadores amontoadas junto à margem, começava-se a acender os fogões... Zebedeu: Como vai esta sopa, mulher? Salomé: Não vai demorar nada, velho, não seja impaciente! Zebedeu: Não se esqueça de jogar dentro algum ouriço! Isso é que dá o sabor! Salomé: Deixe-me em paz. Eu não me meto com seus barcos, você não se mete com minhas panelas... Minha mãe, Salomé, era uma mulher baixinha e magra. Forte como a raiz de uma árvore e tostada pelo sol. Já estava velha, mas ainda não tinha um só cabelo branco. Essa era sua única vaidade. Gostava do trabalho da casa tanto quanto de ir bater papo com as vizinhas. Sabia fazer tudo muito depressa para poder estar em todas as partes. Ela sempre me lembrou esses peixes voadores que às vezes brincam no lago: rápidos como uma faísca. E espertos. Nunca conseguimos agarrá-los. Zebedeu: Escute, André, e seu irmão Pedro, que aconteceu? Não vem hoje por aqui? André: Ele virá mais tarde. Esse não perde um guisado da Salomé por nada nesse mundo! Acontece que a sogra dele continua doente e Rufina foi buscar umas ervas lá no Jairo. E Pedro ficou com as crianças... Virá logo... Enquanto minha mãe cozinhava, o cheiro do pescado ia tomando conta da casa. André, Tiago e eu jogávamos dados... Tiago: E lá vão cinco!... Sua vez, André... André: Quatro e dois! Tiago: Você, João... João: Continuo no sete. Tiago: Ganhei outra vez! Vamos lá, João, pode pagar, que você já me deve duas vezes. E você também, André. André: Poxa, que cara mais sortudo! Não me resta mais nada, nem um centavo. Estou pelado. João: Tiago, eu acho que você fez alguma trapaça... Tiago: Trapaceiro, eu? Vai pro inferno, eu joguei limpo! João: Cabelo de fogo, você trapaceou... André: Deixa pra lá, João, ele sempre faz isso... Tiago: O que é que você está dizendo, ô magricela?! Eu joguei limpo! Tá escutando, tá escutando? Zebedeu: Vamos lá, rapaziada, não gastem os punhos brigando entre vocês, guardem para os romanos... Falando nisso, já faz tempo que ninguém do Movimento aparece por aqui. Isso está muito esquisito. É muita tranquilidade. João: Desde que agarraram João o batizador, as pessoas têm medo. Ninguém mostra as unhas. André: Os zelotas estão esperando pra ver o que vão fazer com ele... Tiago: O que vão fazer com ele, o que vão fazer com ele!... Temos de ver o que nós vamos fazer! Se isso continua assim e ninguém se mexe, vamos nos mexer nós mesmos sem esperar ordens, que diabos! Não vamos ficar aqui pensando na morte da bezerra!... Zebedeu: E o que vocês poderiam fazer, moleques! João: Nada, agora há romanos por todo canto. A Galileia inteira está tomada. E no quartel há mais soldados que nunca... Tiago: Pois isso é melhor, então... Se há tantos passarinhos soltos algum cairá na rede. Por que não aproveitamos para dar um bom susto neles? André: Pedro também falava disso, outro dia, mas... Tiago: Mas o quê, magricela, você está sempre colocando mas... André: Tiago, agora é o melhor tempo para pescar no lago. Se fizermos alguma coisa teríamos de nos esconder depois. Ou você não se lembra mais de como foi aquela confusão da Páscoa? E então, como fica o trabalho? João: O magricela tem razão... Nós, mortos de fome, sempre temos de pensar no estômago antes de mais nada. Jesus chegou a Cafarnaum quando a noite já havia se fechado sobre o lago. Atravessou o bairro dos artesãos e caminhou até o embarcadouro. De todas as casas saía um cheiro penetrante de comida recém-cozida que se misturava nas ruas com o fedor de peixe podre. Aquela era a hora mais viva e ruidosa de Cafarnaum... Depois de perguntar aqui e ali, encontrou nossa casa... Jesus: Posso entrar?... Zebedeu: Entre, amigo, quem é? João: Jesus! O que você faz por aqui, rapaz? Jesus: Pois é, vim fazer uma visita... Tiago: O moreno de Nazaré em Cafarnaum! Jesus: Tiago, que alegria ver você... André, seu magricela! Zebedeu: Bem, vejo que vocês já se conhecem muito bem... João: Olhe, desde aquela manhã em que você foi para o deserto, não ficamos sabendo mais nada de você! Pensamos até que os escorpiões haviam comido você! Tiago: Quando você soube do João? Precisamos fazer alguma coisa, Jesus! André: Agora mesmo estávamos falando sobre isso... Zebedeu: Maldição! Mas quem é esse homem? De repente aparece um sujeito, se abanca na minha casa e eu aqui feito um idiota... Tiago: Não fique assim, velho, é um amigo que conhecemos lá pelas bandas do Jordão. André: É de Nazaré. Chama-se Jesus... Zebedeu: De Nazaré? Porcaria de lugar... Então, um camponês que veio conhecer o mar...? Jesus: Seus filhos me convidaram para aparecer por aqui. Disseram que em Cafarnaum há muito trabalho. Em Nazaré as coisas andam difíceis. João: Jesus, este é Zebedeu, nosso pai. Conte os pelos que ele tem na barba e saberá em quantas embrulhadas ele já se meteu. Aí está: um velho revolucionário, com cicatrizes e tudo... Salomé: E aqui está a mãe desse par de sem-vergonhas! Tiago: Esta é Salomé, nossa mãe. Salomé: Seja bem-vindo, rapaz. Chegou na hora de tomar conosco uma boa sopa de pescado... Está cansado, não? Venha, venha, sente-se aqui... Pouco depois, chegou Pedro, mais alvoroçado que todos juntos. Estava feliz por voltar a ver Jesus. Com ele veio Rufina, sua mulher, e Simãozinho, um dos quatro filhos. Queriam cumprimentar aquele que havia chegado de Nazaré... Minha mãe teve de jogar mais água na sopa para poder chegar a todos... João: Lembra daquela tarde em que o magricela e eu estivemos conversando com você?... Vamos lá, Jesus, conta pra eles aquela piada da pulga, é muito boa!... Tiago: Nada de piadas agora, João. Você parece bobo. Não estávamos falando de fazer alguma coisa...? Pois então, vamos discutir isso com Jesus também!... Pedro: Eu digo o mesmo que Tiago. E que viva o Movimento! Rufina: Pedro, eu lhe peço pelo Deus Altíssimo, não se meta mais em nenhuma baderna! Minha mãe está morrendo... Não me jogue outro castigo por cima!... Que homem mais louco este, santo Deus! Pedro: Ora, Rufi, também não é assim!... Tiago: E aí, Jesus, o que há por Nazaré? Judas, de Kariot, esteve por lá faz pouco tempo e nos contou que... Simãozinho: Escute, você sabia que eu vou ter uma irmãzinha? Tiago: Parece que todo o vale está muito vigiado. Jesus: Sim, é por causa de João. Em Caná também vi muitos soldados. Simãozinho: Escute, você sabia que eu vou ter uma irmãzinha? Tiago: Ai, cale a boca, ranhento, você já está estorvando? Não vê que isso é conversa de gente grande? Rufina: Simãozinho, venha cá, não atrapalhe... Simãozinho: É que eu vou ganhar uma irmãzinha! Jesus: Ah, é? E como você sabe que vai ser uma irmãzinha e não um irmãozinho, heim?... Como foi que adivinhou? Simãozinho: É que eu adivinho tudo! Rufina: Cale a boca, menino e venha cá... Jesus: Aha! Quer dizer que você advinha tudo, não é? Pois então escute, adivinhe isto: O que é que cai em pé e corre deitado? Simãozinho: Cai em pé e.... João: Isso é uma charada? Zebedeu: Cale a boca, João... Mas, o que foi que você disse...? Como é que alguma coisa pode correr deitada?!... Jesus: Sim, senhor, e corre ligeira em qualquer terreno... Pedro: Mas que bicho esquisito é esse, Jesus...? Qual é? Diga. Jesus: A chuva, caramba, a chuva! Jesus: Vamos ver essa outra: “todos o compram pra comer e ninguém come”. André: Pra comer e ninguém come... Jesus: O prato! Todos: É mesmo! João: Isto está ficando bom! Zebedeu: Calem a boca, e deixem-me ouvir, a próxima eu acerto!... Mande outra! Jesus: Escute bem: “um matrimônio muito unido, quando sai a mulher, fica o marido”. Salomé: Isto sou eu e o Zebedeu! Zebedeu: Feche o bico, tonta... Deixe-me pensar... Como é mesmo?... Um matrimônio muito unido... Sai a mulher e fica o marido... Puf, desisto! Jesus: A chave, homem, a chave e o cadeado! Todos: Mais uma! Mais uma! Simãozinho: Ei, você sabe muitas charadas? João: Esse moreno emenda uma história na outra... Vamos lá, Jesus conte uma bem comprida, aquela dos camelos, lembra?... Psst! Fiquem quietos pra ouvir... Jesus: Pois vejam vocês... Aconteceu que um homem tinha três camelos. Um dos camelos foi ao poço para beber. E quando chegou ao poço... Jesus começou a contar-nos histórias. Uma atrás da outra. A sopa havia se acabado e todos estávamos com sono, mas continuávamos escutando. Que boa língua ele tinha para falar as coisas... Todos o entendiam, desde a avó Rufa até o ranhento Mingo... Depois, quando começou a falar do Reino de Deus, continuou fazendo o mesmo, contando histórias e parábolas... Todos o entenderam em Cafarnaum e Jerusalém. Agora suas palavras correm de boca em boca e nós as proclamamos nas ruas e nas praças, certos de que o que começou num bairro de pescadores é boa notícia para todos os homens em qualquer lugar da terra. O lago da Galileia, por sua grande extensão, é chamado “mar” da Galileia. No Evangelho é também mencionado como lago de Tiberíades ou de Genesaré, fazendo referência a duas das cidades que se encontravam em suas margens. No Antigo Testamento lhe dão o nome de mar ou lago de “Kinneret” (de “kinnor” que, em hebraico, significa harpa). A lenda diz que o lago tem esta forma e que a suave voz de suas ondas lembra o som das cordas da harpa. De norte a sul, o lago mede 21 km. Sua maior largura é de 13 km. Está situado, como o Mar Morto, abaixo do nível do mar (212 metros) e chega a ter uma profundidade de 48 metros. Suas águas são doces e ricas em várias espécies de peixes. São conhecidas até 24 espécies diferentes. Nos tempos de Jesus, e ainda hoje, a pesca é a principal atividade nas cidades das margens. Junto ao lago foram sendo construídas várias cidades. Nos tempos de Jesus, uma das mais importantes era Cafarnaum (“cidade do consolo”, ou “cidade de Nahum”), nunca mencionada no Antigo Testamento. A cidade tinha um posto de alfândega, pois era fronteiriça entre a Galileia governada por Herodes, e a zona da Itureia e Traconítides que correspondiam a Felipe. Além disso, estava próxima a uma grande estrada romana que unia a Galileia com a Síria (a chamada “via maris”). Por sua importância estratégica, havia também na cidade uma guarnição romana com um centurião no seu comando. Em Cafarnaum aconteceu grande número de episódios da pregação de Jesus na Galileia. Ali viveu ao deixar Nazaré e Mateus chega a chamá-la “a cidade de Jesus” (Mt 9,1). Nos tempos evangélicos, Cafarnaum era uma cidade de uns três quilômetros de extensão e uns poucos mil habitantes. Além da pesca, a população se dedicava à agricultura: azeitonas, trigo e outros grãos. As casas eram construídas de pedras negras de basalto, com tetos de barro e palha, que tornavam mais suportável o calor, muito forte no verão, por causa da grande depressão que forma o mar da Galileia. Uns quatro séculos depois de Jesus, Cafarnaum foi destruída e somente no final do século XIX suas ruínas foram descobertas. Essas ruínas - alicerces de algumas casas, traçados de bairros e ruas da antiga cidade - são um dos maiores tesouros arqueológicos dos tempos evangélicos. Na Cafarnaum atual se conservam uma grande sinagoga, construída sobre a primitiva, e muitos objetos da época (lâmpadas de azeite, prensas, pedras de moinho, etc.). De todas as lembranças, a mais importante, sem dúvida, são os alicerces da casa de Pedro. As inscrições encontradas demonstram que os primeiros cristãos se reuniam ali desde o século I para celebrar a eucaristia. Está muito próxima do embarcadouro e faz parte, junto com outras pequenas casas, de uma espécie de pátio comum ou solar de vizinhos, compartilhado por várias famílias agrupadas, quase porta com porta. O traçado dessas casinhas mostra com toda a clareza a extrema pobreza em que viviam os amigos de Jesus. É provável que Zebedeu, com sua mulher, Salomé, e seus filhos, Tiago e João, e a família de Pedro e André, viveram juntos em um desses agrupamentos de casas, no bairro dos pescadores de Cafarnaum. Em todas as culturas camponesas ocorre a tradição oral: os vizinhos reunidos para escutar um de seus patrícios contar uma história mil vezes repetida e enfeitada; o pai que transmite a seus filhos o saber acumulado durante gerações, valendo-se de contos ou charadas; o avô ou avó especialistas em relatos... Jesus, camponês, foi herdeiro desta cultura. Por outro lado, o Oriente sempre foi berço fértil de histórias com moral, fábulas, parábolas, etc. A tudo isso, Jesus uniria - e os evangelhos são uma prova - uma maestria pessoal de conversador e narrador. De seu mundo familiar e camponês nascem praticamente todas as suas parábolas. Explicava-se muito melhor com imagens do que com ideias abstratas. E é um erro acreditar que fazia isso por “apostolado”, “adaptando-se” aos seus ouvintes pouco inteligentes para o entenderem melhor. Na sua linguagem, Jesus não tinha que rebaixar-se porque ele, como os que o escutavam, era do povo e como o povo se expressava. A Boa Notícia de Jesus começou a fermentar no bairro dos pescadores de Cafarnaum, um lugar absolutamente popular. Popularesco, pobre e trabalhador. É preciso resgatar essas origens do Evangelho, pois, muitas vezes identifica-se Jesus com um homem mais urbano que rural, de bons modos, embora condescendente - por misericórdia - com um auditório embrutecido. Não. Jesus foi um de tantos homens da classe mais baixa daquele pequeno país. Encontrava-se em seu ambiente no bairro, entre crianças sujas, mulheres de mãos calejadas e patrícios que riam e praguejavam em volta de uma jarra de vinho. (Mateus 4,13)