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Capítulo LXXVIII UM MENINO VAI NASCER Sete semanas depois da Páscoa celebra-se em nosso país a festa das primícias, a do início da colheita. E os onze e as mulheres fomos a Jerusalém para celebrá-la. Chegamos à cidade de Davi uns dois dias antes, quando as ruas já começavam a se encher de peregrinos tostados pelo sol da cega, enfeitados com coroas de espigas e flores. Como das outras vezes, nos hospedamos na casa de Marcos... Lembro que naqueles tempos, depois que Deus havia levantado Jesus dentre os mortos, nasceu em nós um grande desejo de saber mais coisas sobre sua vida... Foi numa daquelas noites anteriores à festa de Pentecostes quando Maria foi buscar nas lembranças que guardava em seu coração os primeiros anos da história de seu filho... Maria: O que eu me lembro?... Mas, como vocês são curiosos, caramba!... Vamos ver... Tanto tempo, tantas coisas... Elas se confundem na minha cabeça e... Bem, está bem, está bem, temos que começar por José... Sim, é por ele que temos que começar... José: Bom dia, Maria!... Felizes os olhos que a vêem...! E mais felizes se esses olhos forem os meus! Maria: Lá vem você com essa conversa... Ai, José você não tem jeito mesmo...! José: E como vou tê-lo se é você que me deixa assim?... Olhe, garota, se eu fosse de cera me derreteria todo só com um olhar seu... E mesmo que fosse de pedra, aconteceria o mesmo... quantas vezes você quer que eu repita isso...? Maria: Mas, você já me disse isso umas setecentas vezes e ainda não derreteu... Vai, continue seu caminho, loroteiro... José: Mas, é claro que vou continuar... vou continuar dizendo que você é o luzeiro das minhas noites, o curativo das minhas feridas, sandálias do meu caminho, fonte do meu deserto, farinha do meu pão, água da minha garganta...! Ahh...! Maria: Mas, o que está acontecendo hoje com você, José? Está ficando maluco? José: Maluco de pedra! E a culpa é da nazarena mais linda deste país! Maria: Nazaré era um povoadinho de nada... Menor que uma noz... Que eu me lembre, naquele tempo devia haver quatro jovens casamenteiros... E moças, éramos três... Eu gostava muito de José, aquele rapazote que tanto pregava uma porta quanto pisava uvas no lagar, ou colocava ferraduras numa mula... Desde criança havíamos brincado juntos. Depois, quando fomos crescendo, começamos a nos amar. Eu me lembro que, no começo, ficávamos acalorados quando nos encontrávamos no campo e então ele soltava a língua e começava a dizer-me coisas e ria muito... E eu ria mais ainda... Meu pai, Joaquim também gostava de José, porque era muito trabalhador... Por isso, um dia ele foi ver o pai dele... Iam fazer o trato para o casamento... Compadre: Bom, compadre Joaquim, nem precisa ter dois olhos na cara para ver que esses nossos moços estão que estão... Você não acha? Joaquim: Eu acho, compadre. Penso que as tâmaras estão no ponto de madurar e os moços de amar, como dizia o falecido Rubem. Compadre: Não é por nada, compadre, mas o meu José, mesmo parecendo meio maluco como todos os jovens de hoje, é muito honrado... Sua menina vai ganhar um homem e tanto... Joaquim: Pois veja, compadre, eu não fico atrás... Minha filha também tem seus méritos, como tantas outras, mas ela é mais direita e mais alegre que uma flauta... e cheia de graça como nenhuma outra! Compadre: Então, compadre Joaquim, por mim está tudo dito... Joaquim: E por mim, não há mais nada a dizer. Trato feito? Compadre: Trato feito! E que Deus arranque os bigodes de quem não cumpri-lo! Joaquim: Agora é preciso que esse casal de pombinhos tenha muitos filhos e encha a casa de netos, você não acha? Compadre: Claro que sim! E, por falar nisso, suas ovelhas já pariram, compadre? Porque as minhas já estão no ponto... Maria: Poucos dias depois ficamos noivos. Eu tinha quinze anos e José, dezoito... José: Agora sim é que você não me escapa mais, Maria! Larararará...! Estou mais contente que um arco-iris. Lararari...! Maria: Depois da festa do compromisso, a vida continuou mais ou menos igual... José procurava trabalho até debaixo das pedras, na fazenda de Dom Ananias ou mais longe, em Cana ou em Séforis... Deus lhe dava uma mão e, às vezes, ele tinha sorte. Queria economizar alguns denários para quando nos casássemos... Eu continuava fazendo o de sempre: ajudar com minhas duas irmãs maiores minha mãe, Ana, que estava meio doente então... Em casa havia muito que fazer, porque éramos muitos... Tudo continuava igual, mas para mim tudo havia mudado. Eu já não era uma menina. Tinha um noivo, logo iria sair de casa... Estava muito contente por aquele tempo... Uma moradora: Maria, você teve muita sorte... Esse José ama você mais que a menina de seus olhos... Não faz mais nada a não ser dizer coisas bonitas de você... Maria: Ele é um loroteiro, isso é o que ele é... Moradora: É um pouco feioso, mas o que tem de feio tem de honrado... Uma moça: Olhe só a idéia desta agora...! José, feio?... com aquelas costas que parecem uma muralha e aqueles olhos... Moradora: Tome cuidado, Maria, essa aí está a fim de lhe roubar o noivo... Rá! Escute aqui, Tina, não empurre, o poço não vai secar... Vai você, menina, é sua vez, e sua mãe já deve estar esperando... Maria: Eu me aproximei da borda do poço e comecei a puxar a corda para tirar a água... Nem me lembro bem o que aconteceu... Vi estrelinhas nos olhos e depois ficou tudo escuro... Moradora: Ei, essa menina desmaiou! Moça: Pegue o cântaro dela, Sara, e ajude-me a levá-la para casa!... Moradora: Abanem um pouco... É um enjôo... Também, pudera, com esse calor...! Maria: As semanas foram passando e eu continuei tendo enjôos. Não me sentia bem. As pernas ficavam bambas por qualquer coisa... Minha mãe me colocava emplastos de alfavaca na fronte e me dava chás de todo tipo de ervas. Mas tudo continuava na mesma. Um dia me dei conta do que estava acontecendo... Ai, caramba, de noite ficava dando voltas e mais voltas na esteira e amanhecia sem haver pregado um olho... Rezava sem parar para que Deus me ajudasse... Lembro-me que chorava muito... Queria falar com minha mãe, mas não me atrevia. Não sabia por onde começar... Meu Deus, estava muito assustada! Que angústia!... Um dia engoli em seco, fiz das tripas coração e fui ver meu avô Isaías... Creio que meu avô era o homem mais velho de Nazaré... Vivia numa casinha muito pequena, à saída do povoado. Apesar dos anos, estava mais forte que uma oliveira e tinha muito pouco pêlos brancos naquela barba tão comprida... Nunca usava sandálias. Trabalhava no campo o dia todo e ao cair da tarde sentava-se à porta de seu casebre, mastigando tâmaras e tomando ar fresco... Foi assim que o encontrei naquela tarde... Isaías: Mas, vejam só quem vem por aí...! Saudações, Maria!... Escute, menina, sua mãe me disse que você não anda bem, é mesmo? Você ainda é tão jovem... Ana está preocupada com você... Maria: Sim, um pouco... Isaías: Um pouco? Um muito. Vamos ver, mostre a língua... Maria: Ahhh... Isaías: É, não tem nada. E esses olhos?... Vamos ver... Vermelhos como uma maçã... Eu disse para Ana lhe dar casca de algaroba... São boas... Devo ter por aqui... Quer algumas? Maria: Bem... Maria: Mas meu avô não se levantou da pedra onde estava sentado. Cuspiu uma semente e sorriu para mim... Isaías: Conheço você, menina... Eu a vi nascer... Vamos lá, o que está querendo me contar?... Acho que você veio me dizer algo muito importante, não é mesmo? Maria: É, vovô, mas... Isaías: Diga o que está acontecendo. Você sabe que Deus fez a língua para se mexer... Maria: Vovô Isaías, eu acho que não estou doente, mas... Isaías: Claro, você está pensando demais no casamento, não é? Isso é natural, minha filha. Todas as moças se assustam quando chega a hora... Mas, tudo sairá bem, você vai ver... Maria: Não, vovô, não é isso... Bem, sim, sim é isso, mas... Maria: Puxa, como me custava dizer aquilo...! Vovô me olhava com seus olhos cinzentos e úmidos, como um céu em dia de chuva, e continuava a sorrir... Isaías: O que acontece então, Maria? Está com vergonha de dizer, não é...? Maria: Sim, vovô. Isaías: Pois então, solte de uma vez, sem pensar... Maria: Vovô... eu... eu estou grávida! Isaías: O que você disse, filha? Maria: O que o senhor ouviu, vovô. Isaías: Maria, menina!... Estes jovens de hoje!... Por que você não lhe disse para esperar o casamento? Maria: Não, vovô, eu não... Eu não estive com José... Não é coisa dele... Isaías: Então, de quem é, filha?... O que aconteceu? Maria: Não sei, não sei... não entendo... Isaías: Mas, quem foi?... Timóteo... do Ezequias? Benjamim? Esses dois são uns grandes safados! Maria: Não, vovô, não foram eles... Não foi ninguém... Eu não... Não foi ninguém... Eu não... Pode crer, eu não estive com nenhum homem! Juro! Juro! Isaías: Está bem, menina, não chore... Vai ver você não meteu isso na cabeça, mas de fato não está grávida... Maria: Estou, vovô, estou... Eu sinto a criança aqui dentro. Tenho certeza. Isaías: Tem certeza mesmo, Maria? Maria: Sim, tenho... Isaías: E o que sua mãe disse? Maria: Ainda não contei para ela... Não me atrevi... Isaías: E para suas irmãs...? Maria: Também não, também não... O senhor é o primeiro a saber... Ajude-me, vovô, ajude-me...! Maria: Vovô colocou a mão em meus ombros e me aproximou dele... Isaías: Vejamos, Maria... Aqueles cameleiros que estiveram parando na casa de vocês, a caminho de Séforis... Será que não...? Isso já faz uns meses, não?... Digo isso porque esses homens... esses homens usam umas ervas esquisitas, que trazem não sei de onde... Fazem as pessoas dormirem com elas... Será que algum deles...? Maria: Não, não, eu não tomei nada... Estou bem lembrada... Bem, eu acho que não...! Ai, vovô, já nem sei o que eu acho...! Ajude-me, vovô!... O que José vai pensar de mim?... Não quererá mais se casar comigo... Vai me deixar... Ninguém quererá casar-se comigo se souberem... Eu não entendo isso, vovô, não entendo... Juro, juro que não fiz nada de mau, juro! Isaías: Eu acredito em você, Mariazinha, eu acredito... Vamos, fique calma... Maria: Mas ninguém vai acreditar em mim... Vão dizer que sou uma qualquer... Eu amo o José e ele vai me deixar... Não vai querer nem olhar na minha cara... E eu vou acabar ficando louca!... Por que está acontecendo isso?... Por que, vovô?... Quando minhas amigas souberem... Vão dizer para eu tirar a criança, matá-la... para que ninguém fique sabendo... O que eu vou fazer?... O que eu vou fazer, vovô? Maria: Eu chorava sem consolo, sufocada pelo peso daquela criança que levava dentro... Através das minhas lágrimas, levantei o rosto, buscando em meu avô uma resposta. Ele não dizia nada, mas me olhava sereno, contente, com um sorriso que não esqueci mais em tantos anos... Era o mesmo rosto com que hoje penso que Deus nos olha quando estamos sozinhos, quando não sabemos de nada... Depois ele me levantou do chão, me pegou pelos ombros e me pôs de pé... Eu senti sua força e sua esperança... Isaías: Alegre-se, Maria!... Alegre-se, não chore assim, pois Deus está com você!... Ninguém morreu, menina. Pelo contrário, um menino vai nascer, você terá um filho... Não existe alegria maior que esta, Maria... Cada criança que vem a esta terra é como se Deus começasse o mundo outra vez... Alegre-se, Maria, não tenha medo! Maria: Era como se aquelas palavras viessem de longe, de muito longe, atravessando os montes e as colinas que abraçam Nazaré... Haviam esperado muito tempo para serem ditas... Maria: Mas... mas como isso é possível se não estive com nenhum homem? Isaias: Para Deus tudo é possível, menina. Ele sempre traz suas surpresas... Vai saber o que ele estará querendo de você e desta criança... Lembre-se de Sara... Com as entranhas secas, com a esperança morta, com tantos anos em cima... E Deus a fez rir e lhe deu Isaac de presente... Lembre-se da mãe de Samuel e de Sansão... Eram terra que não dava fruto. E Deus se lembrou delas e lhes pôs uma criança nos braços... Deus é grande, Maria, e faz coisas maravilhosas... E não só nos tempos antigos, mas agora também... Você não ficou sabendo da sua tia Isabel, velha como está, e anda esperando um filho...? Maria: Então, vovô... O senhor acha que Deus está no meio disso? Isaías: Claro que está, menina! Ande, diga sim a esta criança, Maria. Traga-o para a vida... Diga sim a Deus... Seja o que for, tudo dará certo... Maria: E tremendo, eu disse sim. E o sopro de Deus, a força de seu espírito se derramou sobre o meu corpo, como no começo do mundo. Vovô tinha os olhos marejados quando se despediu de mim... Eu voltei para casa repetindo uma a uma suas palavras... Naquele dia floresceram em Nazaré as primeiras amendoeiras... Alegre-se, filha de Sião! Alegre-se e solte gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Porque o Senhor teu Deus está em ti, o Rei de Israel, um poderoso Salvador! Contar os fatos da infância de Jesus no final de sua vida não é só um recurso literário. É uma pista para entender melhor a origem que tiveram esses relatos nos evangelhos de Mateus e Lucas. Nem Marcos nem João contam absolutamente nada da infância de Jesus. É preciso saber que os evangelhos não foram escritos em ordem de capítulos como os lemos hoje. O relato da paixão e da morte de Jesus foi o primeiro a ser escrito. Depois foram se acrescentando os acontecimentos pascais – cada evangelista escolheu alguns. Considerava-se que na passagem de Jesus da morte para a vida estava a essência da fé cristã. Além disso, era o que havia ficado na lembrança de um maior número de pessoas. Posteriormente foi se estruturando uma vida de Jesus com base nas diferentes etapas de sua atividade profética: na Galiléia, em Jerusalém, frases, discursos, curas... Esta estrutura não é a mesma em nenhum dos evangelistas. Somente no final da redação, tanto Mateus quanto Lucas acrescentaram a esta história de Jesus adulto alguns relatos para ilustrar sua infância. Isto é, o que lemos primeiro nestes dois evangelhos foi o último a ser escrito. É muito possível que os primeiros anos da vida de Jesus, de como ele era então, o que fazia, quase ninguém soubesse de nada. Nenhum dos discípulos de Jesus ou dos primeiros cristãos esteve próximo dele naqueles anos. E isto porque a vida de Jesus até que ele foi ao Jordão ver o profeta João Batista foi totalmente cinza, sem nenhum colorido especial, sem nada que a distinguisse da vida de seus conterrâneos naquele obscuro rincão Galileu que era Nazaré. No entanto, depois de seu anúncio do Reino de Deus e, sobretudo, depois de sua morte e da experiência de sua ressurreição, os discípulos compreenderam quem era Jesus, qual era o plano de Deus sobre a história humana, o que era realmente a boa notícia que ele havia anunciado aos pobres. Isso os levaria a interessar-se em conhecer mais coisas sobre aquele em quem Deus lhes havia falado de uma forma tão definitiva. Ao chegar a esse ponto, é possível que só Maria, a mãe de Jesus, soubesse responder a essa curiosidade em saber das lembranças antigas. Por isso, neste relato, é Maria que narra a infância de Jesus, ela, que guardou em seu coração todas as coisas de seu filho. À luz dos acontecimentos da Páscoa, tanto Lucas como Mateus, quiseram refletir sobre os acontecimentos da infância, não tanto fatos históricos mas, logo de saída, indicar ao leitor qual seria o destino daquele menino que, com o tempo, encheria de esperança o povo de Israel e daria um impulso tão decisivo na história humana. Para isso, valeram-se de recursos literários tipicamente orientais e bíblicos. Há anjos, há sinais, há profecias que se vão cumprindo, há estrelas, há magos... Há todo um cenário “maravilhoso” pelo qual se quer orientar os leitores a compreenderem quem era Jesus já desde sua origem. No entanto, cairíamos num sério erro se tomássemos ao pé da letra estes textos que, mais que história, são teologia construída em base, sobretudo, de esquemas do Antigo Testamento. Em todos os episódios da infância de “Um tal Jesus” há uma séria intenção de dar carne e sangue real a estes textos que contém dados válidos para reconstruir a história, mas tratando ao máximo de suprimir deles todos os adornos que poderiam nos confundir e fazer-nos ver um Jesus bem diferente daquele que foi. Os anos da infância, da adolescência, da juventude e praticamente da primeira maturidade de Jesus nos são realmente desconhecidos. Existem apenas lembranças históricas, comprováveis. A maior parte das poucas coisas que sabemos é deduzida de algum dado do evangelho e, sobretudo, do ambiente em que Jesus se criou, conhecidos por estudos sócio-culturais daquela época. É importante ter bem claro que Jesus foi um menino desconhecido, um rapaz como muitíssimos outros em seu tempo, um jovem que não deslumbrou ninguém nem por sua “sabedoria” nem por seu “poder”, que entra na “história” quando, impressionado pela pregação, se deixa batizar por João e responde ao chamado de Deus. A infância de Jesus deixa ver plenamente o que é o mistério da encarnação. Deus se nos revelou no mais humilde dos camponeses de uma misérrima aldeia de um lugar perdido em uma província mal-afamada de um país explorado pelo imperialismo mais poderoso daquela época. Jesus surgiu dentre os pobres. Como a deles, sua vida foi anônima até que iniciou sua missão. No tempo de Jesus e na maioria dos países do Oriente o pai era quem decidia com quem suas filhas deviam casar-se. No entanto, em Israel isso só era válido antes que a moça completasse doze anos. A partir dessa idade era necessário o consentimento da filha para acertar o compromisso. Em qualquer caso, o dote do casamento era sempre de responsabilidade do pai da moça. A quantidade variava muito de um lugar para outro e dependia das possibilidades da família. Os esponsais preparavam a passagem da moça do poder de seu pai para o de seu esposo. Às vezes era celebrado quando a noiva era menina de seis, oito anos. Mas a idade normal era aos doze, ou doze anos e meio. Nesta idade a moça já era considerada mulher adulta. Em Israel as mulheres se casavam muito jovens: treze, catorze anos eram idades muito freqüentes. Os homens, com alguns anos mais: dezessete, dezoito... Nas cidades aconteciam muitos casos de matrimônio entre parentes, pois como as mulheres viviam muito fechadas, era difícil que conhecessem com certa liberdade outros rapazes em idade de se casar. Isto não acontecia no campo. Mulheres e homens trabalhavam juntos desde pequenos na colheita, na semeadura e podiam travar amizade com mais normalidade. Além disso, a pequenez de Nazaré facilitava que todos se conhecessem. O matrimônio era sempre precedido dos esponsais, que não devemos confundir com um simples noivado, tal como entendemos hoje. Estar desposado era praticamente estar casado. Os desposados eram chamados de “esposo” e “esposa”. E a infidelidade da mulher durante este tempo era considerada já como adultério, embora a união entre os desposados não tivesse ainda se consumado. Os esponsais eram mais que uma palavra dada. Criavam uma relação jurídica e familiar muito forte. Isto explica a reação de Maria quando teme ser repudiada por José caso ele ficasse sabendo que poderia ter sido infiel. Não se sabe com exatidão o tempo que mediava os esponsais e o matrimônio. Ordinariamente era um ano, mas dependia dos lugares, dos costumes familiares, da época do ano etc. O evangelho dá pouquíssimos dados sobre José, o esposo de Maria. Mas os costumes da época e a vida de Nazaré nos permitem imaginá-los. Quando José desposou Maria, seria um moço jovem, forte, na plenitude da vida. Camponês, trabalhador, crente, como outros muitos jovens de então, que esperavam a libertação de seu povo e que viviam em sua própria carne a pobreza da classe social a que pertenciam. Contrariamente, a tradição nos tem mostrado um ancião de barba branca. José e Maria em sua convivência diária se compreenderam e se abriram cada vez mais a Deus. Daquela convivência cheia de carinho Jesus teria recebido nos primeiros anos de sua vida uma influência decisiva. Nazaré era uma aldeia insignificante perdida nos campos da Galiléia, na qual viveriam naquela época umas vinte famílias. Para suas casas, os camponeses aproveitavam as grutas escavadas na colina em que se assentava a aldeia. Na atual Nazaré – uma cidade bastante grande e muito povoada – brota ainda água do poço que havia nos tempos de Maria, onde ela teve de ir centenas de vezes com suas amigas e vizinhas. Ele se encontra no interior de uma bonita igreja ortodoxa grega, dedicada a Maria. Parte da água desta fonte foi canalizada a outra, construída mais recentemente em plena rua, onde os nazarenos bebem e enchem seus baldes de água. Todos o chamam “o poço de Maria”. Com seu relato da visita do anjo para anunciar a Maria o nascimento de Jesus, o evangelista Lucas quer nos dizer coisas muito importantes. E para isso utiliza umas imagens bíblicas que expressam isso com muita força. O anjo é sempre empregado na Bíblia para indicar que Deus vai agir. E o anjo é seu mensageiro. Neste caso, trata-se de Gabriel, o mesmo anjo que aparece no livro do profeta Daniel anunciando a chegada do dia de Deus, o fim dos tempos (Dn 8, 15-18; 9, 20-24). O aparecimento de Gabriel na anunciação quer dizer que com Jesus chega este dia esperado em que Deus manifesta sua justiça e seu amor, que com ele chega o “fim dos tempos” em que os injustos triunfam, porque Deus vai intervir a favor dos humildes. Este texto de Lucas está literariamente inspirado em várias profecias do AT: Sofonias 3, 14-18; Isaías 7, 14 e 9, 6. Ao longo de todo o Antigo Testamento aparecem crianças de nascem de forma surpreendente, pela “graça de Deus”, como um presente para suas mães, que eram estéreis ou velhas, sem esperanças de ainda gerar. É o caso de Isaac, patriarca do povo, filho da anciã Sara e de Abraão (Gn 18, 9-14). Sansão, grande juiz de Israel, filho de uma mulher estéril (Jz 13, 1-7). Samuel, primeiro rei israelita, filho de Ana, outra mulher estéril que pedia continuamente a Deus o presente de um menino (1 Sm 1-18). Já no Novo Testamento é o caso de João Batista. Diante da grande personalidade de homens como Isaac, Sansão ou Samuel, os relatores de suas vidas querem indicar, ao contarem sua origem, que foram uma “graça” de Deus para o povo, que foram um dom de Deus, mais que um ato de seus pais. Estas histórias também querem dizer que ali onde o homem e a mulher se vêem limitados, onde a esperança está se apagando, Deus é capaz de fazer surgir uma nova vida. Porque sempre é Deus o dono da vida, o que gera, o que torna fecunda a terra e o ventre da mulher. Quando Lucas escreve seu evangelho e nos conta sobre a anunciação, tem presente todas estas histórias do AT e faz um relato similar. Maria não conhece varão, é virgem e apesar disso vai ter um filho, que vem de Deus, que ele é a maior graça que Deus fez para a história humana, que supera tudo o que os próprios homens possam imaginar. Lucas nos diz que a origem de Jesus está na vontade de Deus, decidido a salvar a humanidade. De uma virgem Deus fará surgir um menino: da que nada pode, da que nada tem (a virgindade em Israel tinha esse sentido de carência), Deus fará surgir uma vida que inclusive chegará a vencer a morte. Só Deus pode fazer algo assim. Neste episódio, não aparece nenhum anjo. Mas sim uma Maria que pergunta, duvida e se surpreende com o que está acontecendo com ela. O mesmo que nos conta o texto evangélico. Receberá a esperança de seu avô, Isaías. Neste homem há um símbolo, igual ao que Lucas colocou no anjo ao chamá-lo de Gabriel. Isaías foi o profeta que oitocentos anos antes de Jesus anunciou um menino que traria paz e justiça para Israel, um menino que se chamaria “Emanuel”, que significa “Deus conosco” (Is 7, 13-14; 9, 5-6). O avô Isaías pede a Maria a mesma coisa que o anjo no relato de Lucas e a mesma coisa que Deus pede a toda mulher quando está grávida: que aceite a vida, que se alegre com ela, que a receba como um dom, que a acolha com a esperança de que se Deus começa uma obra, a levará a bom termo. Neste “sim” à vida, Maria começou um longo e nada fácil caminho de fé que a levaria até à cruz, onde Jesus perdeu aquela vida que sua mãe lhe havia dado. Esta fidelidade cada vez mais madura de Maria faz dela a nova e verdadeira “filha de Sião”, de quem os profetas também haviam falado como símbolo de todo o povo (Is 60, 1-2). (Lc 1, 26-38)
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