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Capítulo LXXVI PELO CAMINHO DE EMAÚS 1. Naquele primeiro dia da semana, os moradores de Jerusalém, apesar da festa de sábado, despertaram tristes, perplexos, sem poder acreditar no que havia acontecido na sexta-feira na colina do Gólgota. Em quase todas as casas da cidade ainda se falava daquilo e do azar de Jesus, o profeta de Nazaré, assassinado pelos governantes da capital... Nós estávamos escondidos por medo dos guardas que continuavam vigiando as ruas... Desde a primeira hora, nosso sobressalto foi maior quando Pedro e as mulheres chegaram dizendo que o sepulcro estava vazio e que haviam visto Jesus... Todos os relatos da Páscoa recolhidos no evangelho deixam ver com clareza que os discípulos resistiram em crer na realidade da ressurreição de Jesus. Certamente, no pensamento religioso de Israel não existiu nada similar a uma ressurreição “dentro da história” como acontecimento que se pudesse experimentar já no presente. Se uns cento e cinqüenta anos antes de Jesus se falou de “ressurreição dos mortos” entendia-se como uma promessa para o final dos tempos, mas não como algo acontecido dentro da vida daqui de baixo. E é isso que os textos nos referem que eles experimentaram: que Jesus vivia dentro da sua própria história, que estava na comunidade, que os acompanhava pelo caminho, como no caso dos discípulos de Emaús. Emaús era uma aldeia que ficava a uns 30 Km de Jerusalém, na Sefelá, extensão ampla de terreno plano, situada entre os montes de Judá e as planícies costeiras. Durante a guerrilha de Judas Macabeu, foi lugar de acampamento dos israelitas (1 Mac 3, 57). Atualmente, não se sabe com exatidão onde se encontra a Emaús do evangelho. Em uma pequena aldeia árabe, El-Qubeibeb, há uma igreja que recorda esse relato de Páscoa. Na aldeia conservam-se restos de uma calçada romana do tempo de Jesus. Outra aldeia próxima, Amwas, também pretende ser o lugar onde ocorreram os fatos. A esperança do Messias que durante séculos havia alentado o povo de Israel foi se concretizando de maneiras diferentes com o tempo. Depois da ressurreição, os discípulos reconheceram em Jesus aquele Messias esperado. A vida e a morte de Jesus lhes mostrou que ele se identificava com o Servo da justiça do qual o profeta Isaias havia falado (Is 42, 1-4; 49, 1-6; 50, 4-9; 53, 1-12), mais do que com um rei triunfante, uma personagem celestial misteriosa ou o profeta vingativo que outros haviam imaginado. Compreenderam então que a libertação que este Messias trazia exigia estar disposto a entregar a vida. Mas Jesus ressuscitado vinha dizer-lhes que a dor nunca seria a última palavra, porque no final haveria vida e vitória para os que se comprometeram. Os discípulos reconheceram Jesus “ao partir o pão”. Em Israel nunca se partia o pão com faca. E todas as refeições se iniciavam com este gesto de partir o pão, feito por quem presidia a mesa. Jesus deve ter tido uma forma particular de fazer isso quando comia com seus companheiros e este foi o sinal através do qual identificaram quem era o peregrino desconhecido. Neste texto, Lucas está nos apresentando além de um relato pascal uma cena eucarística. A aparição de Emaús é uma catequese desenvolvida na qual se descreve o que eram e o que significavam as reuniões eucarísticas das primeiras comunidades cristãs. Através da Palavra (simbolizada aqui pela conversa de Jesus com os caminhantes, na qual lhes interpreta as Escrituras) e através da fração do Pão (na comunhão da mesa), Jesus ressuscitado se faz presente entre seus discípulos. (Mc 15, 12-13; Lc 24, 13-35) O QUE VIMOS E OUVIMOS 2. Amanheceu e entardeceu aquele primeiro dia da semana. Os moradores de Jerusalém dormiam depois de uma buliçosa jornada de despedida: pelas doze portas da cidade de Davi, saíram as caravanas levando de volta milhares de peregrinos. As festas de Páscoa haviam terminado. Tudo voltava à normalidade. Todos regressavam às suas casas. Todos, menos nós... O relato do evangelho sobre a incredulidade e o ato de fé de Tomé está repleto de dados “materiais”: especifica-se que Jesus comeu mel e peixe, que Tomé tocou nas feridas feitas pelos cravos nas mãos e pela lança no peito... Assinalam-se estes aspectos para que não imaginemos nunca que Jesus ressuscitou como um fantasma, um espírito etéreo, alguém “não-material”. Como cristãos, quando falamos da ressurreição “da carne”, da ressurreição “dos corpos”, estamos proclamando a unidade do homem, o todo do homem. Também de seu corpo, da matéria pela qual seu espírito se expressa. Deus se interessa pela carne do homem, enquanto o homem vive – e por isso o evangelho é para a vida terrena – e quando o homem morre, tanto se interessa que ressuscitará também nosso corpo. A mentalidade de Israel entendeu sempre a pessoa humana como uma unidade. Nunca considerou separadamente alma e corpo, como os gregos fizeram. Não há na tradição de Israel desprezo pelo corpo, pelo material. Para o israelita, o homem é “basar” (“carne” enquanto debilidade física, limitação intelectual ou pecado) e é também “nefesh” (“alma” enquanto sua abertura para todos os valores espirituais e para Deus). O homem em sua unidade é inspirado pelo “ruah”, o Espírito de Deus. Não se trata, pois, de separar o material do espiritual, a alma do corpo, mas de considerar o homem inteiro como débil ou como cheio de possibilidades, de vê-lo como instrumento de morte ou como doador de vida etc. Quando São Paulo fala de que ressuscitar é o passo de um homem “carnal” para um homem “espiritual” está se referindo precisamente a isto: através da morte, o homem transforma seu ser limitado em um ser sem limitações (1 Cor 15, 35-49). De qualquer forma, é praticamente impossível para nós, neste mundo, captar totalmente esta realidade da ressurreição que esperamos pela fé. É como explicar a uma criança no ventre de sua mãe como é a vida de fora, o que é respirar, o que são as cores. Em sua existência fetal, fechada, escura e flutuante, ela seria absolutamente incapaz de imaginar. Os relatos pascais, por mais esquemáticos que sejam, nos dão a entender que os discípulos não experimentaram a ressurreição de Jesus como um ato singular do poder de Deus no curso da história, mas que iria continuar a partir daquele momento como até então. Eles experimentaram algo mais: que com a ressurreição começava “o fim”, ou mais exatamente, “o começo do fim”. A guerra contra o sistema de pecado já estava ganha, faltava vencer algumas batalhas, mas vendo Jesus ressuscitado já viam para onde se orientava a história humana. Foram testemunhas, por aquela experiência pascal, da entrada de Jesus naquele Reino de Deus anunciado. Os testemunhos dos discípulos, dos primeiros cristãos e das comunidades de base primitivas que começaram a se formar desde então, dão a entender que para aqueles homens e mulheres “crer” era já viver naquele mundo de Deus, saborear o triunfo definitivo por antecipação, adiantar o que o final dos tempos traria: a chegada da justiça de Deus. Esta fé, experimentada e vivida, nos salva. Quando dizemos que Jesus nos salva, que é nosso salvador, estamos afirmando que, por sua ressurreição, ele se transformou na pista que nos pode orientar para que nossa vida tenha sentido, seja “salva” do absurdo, do egoísmo, do fatalismo, da passividade e, finalmente, da morte. Isto é, nós nos “salvamos” quando seguimos o caminho de Jesus: compromisso, generosidade, desinteresse, amor aos demais, luta pela justiça, sentido comunitário, fraternidade, igualdade entre os homens. Esse caminho é “salvador” da vida humana. Ressuscitando Jesus, Deus creditou a validade deste caminho. Caminhar por ele é arriscado, pois os valores do evangelho não são os valores do mundo. Pois bem, quando a morte se interpuser como preço do compromisso cristão, Deus nos diz na Páscoa que a vida dos que vivem como Jesus não terminará nunca. Tem tal qualidade, tal força, que vencerá a morte. Jesus venceu a morte e sua ressurreição é penhor de que depois dele, seguindo seus passos, nós também poderemos superá-la. Jesus ressuscitado nos liberta da morte. Mas também nos liberta do medo de morrer. Esta é uma questão crucial para a fé cristã. A autenticidade de nossa fé se mede pela atitude que tenhamos diante da morte. Enquanto a virmos como uma derrota, ficaremos paralisados pelo medo do injusto que a causa ou pelo fatalismo diante das limitações que a existência humana tem. Esta falta de liberdade nos impedirá de dar o pleno testemunho de compromisso a favor da vida que caracteriza o que é ser cristão. Vendo a morte como fracasso, não veremos no Jesus crucificado um salvador, mas uma vítima a mais do sistema. Não creremos na ressurreição. Visto desta forma, Jesus não é mais que um “exemplo” do passado. Enquanto que, ao nos libertarmos do medo de morrer transforma-se em fonte de vida. (Mc 16, 14-18; Lc 24, 36-49; Jo 20, 19-29)
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