Apresentação
Fale Conosco
Veja Também:
Capítulo LXXV UMA RISADA CONHECIDA Tiago: Mas, Maria, pelo amor de Deus, como vamos acreditar numa coisa dessa? Maria: Pode crer, era ele, tenho certeza! Como não vou reconhecer meu filho Jesus? Madalena: E eu também o vi, caramba! Marcos: E o que eu estou vendo é que vocês duas estão mais malucas que o rei Saul! O sol daquele primeiro dia da semana começava a esquentar os telhados da cidade de Davi e a pintar de ouro as muralhas orientais. Jerusalém ainda dormia, cansada de festa e de vinho, depois do grande Sábado de Páscoa. Nós, escondidos na casa de Marcos, naquele sótão escuro, fomos sobressaltados pelas mulheres que disseram que o sepulcro de Jesus estava aberto e vazio. E para cúmulo de tudo, depois chegou Maria, de Magdala, e também Maria, a mãe de Jesus, dizendo que o haviam visto vivo, que haviam falado com ele... Tiago: Muito bem, muito bem, já chega! Chega de histórias. Temos que ir o quanto antes para a Galiléia e não há tempo a perder. Felipe: Eu apóio Tiago. Que cada um pegue seu bastão e seu alforje e vamos embora! Pedro: Pois eu digo que não podemos ir assim, companheiros, sem saber o que aconteceu. Tiago: É que não aconteceu nada, Pedro, será que você não entende? Não vai me dizer que você engoliu a história desse par de malucas? Madalena: Era Jesus, não podia ser outro! Eu o vi e falei com ele! Marcos: Cale a boca, menina. Parece um papagaio repetindo sempre a mesma coisa! Pedro: Escutem, companheiros, seja o que for temos que averiguar. João, venha comigo. Vamos dar um pulinho até o sepulcro para ver o que aconteceu. Vocês, esperem-nos aqui. Que ninguém se mexa e não abram a porta nem para o profeta Elias, se ele aparecer!... João, coloque um trapo na cabeça para ninguém nos reconhecer... João: Deixe de covardias, Pedro, não deve haver ninguém na rua a uma hora dessa... Pedro: Não importa. Depois do que aconteceu eu não confio nem na minha sombra... Vamos, depressa! Pedro e eu atravessamos o pátio e saímos para as ruas ainda solitárias do bairro de Sião... Ao fundo, atrás do aqueduto, brilhavam os mármores brancos do Templo... Ao seu redor, um formigueiro de casas onde milhares de peregrinos, passadas as festas, começariam dentro de poucas horas a pôr-se em movimento para regressar às suas aldeias do interior... João: Escute, Pedro... Pedro: Diga, João... João: Pedro, você acha que... que...? Pedro: Bobagem, João. Quem vai acreditar em histórias de mulheres? João: Mas... e se fosse verdade? Pedro: Se fosse verdade, se fosse verdade! Rá!...Se minha sogra tivesse pavio, seria uma lamparina!... Não João, quem morreu, morreu. Essa é a única verdade... Vamos correr, não percamos tempo! Saímos correndo rua abaixo. Passamos pela pequena praça dos fruteiros e do mercado, deixamos para trás o palácio de Herodes e atravessamos a primeira muralha... Pedro: Demônios, João, não corra tanto, espere-me...! Eu sempre levava vantagem de Pedro. Sem voltar o rosto, cruzei a porta do Ângulo e saí para o Gólgota. Atrás daquela colina, redonda e pelada como uma caveira, ficava o sepulcro de José de Arimatéia, onde na sexta-feira, ao entardecer, havíamos posto o corpo destroçado de Jesus... A pedra redonda da entrada, que eu mesmo havia empurrado, estava agora ao lado da entrada, como as mulheres haviam dito... Eu me aproximei, mas não me atrevi a entrar sozinho na boca negra e úmida da gruta... Poucos segundos depois, Pedro chegou resfolegando... Pedro: Diacho, João, você corre mais que um coelho! João: Psst!... Não grite... Olhe, pedrada... As mulheres tinham razão... Abriram a tumba... Pedro: É mesmo... Quem será que fez isso...? João: Não se vê uma alma viva por estas bandas, nem mesmo os guardas... Pedro: Bah, eles devem estar dormindo por causa da bebedeira de ontem... João: O que você acha, Pedro?... Descemos...? Pedro: Puff!... Não sei... João: Você tem medo dos mortos? Pedro: Dos mortos não. Dos vivos... Ei!... Tem alguém aí em baixo?... Quem está aí?... Está ouvindo alguma coisa, João? João: Nada. Pedro: Bem, então... vai descendo você, João... e... eu espero você aqui... João: Não, homem, entre você primeiro. Eu... eu cubro a retaguarda. Pedro: A retaguarda, não é mesmo?... Está bem. Eu vou à frente. Mas não se afaste de mim. E segure bem o punhal... a gente nunca sabe... Vamos! Descemos tateando as escadas úmidas do sepulcro... Com os primeiros raios de sol que chegavam timidamente até o fundo vimos que a gruta estava vazia... João: Olhe só, Pedro, o sudário e os lençóis estão aqui... mas roubaram o corpo... Veja... Pedro: Aqui tem dente de coelho... Que imbecil eu sou! Como não me dei conta antes? João: Pedro, Pedro, o que foi, o que foi? Pedro: João, vamos para fora, depressa! João: Sim, é melhor avisar os outros para virem aqui e... Pedro: Não, João. É isso que eles querem! Para pegar rato põem um pedaço de queijo, para nos pegar, deixam o túmulo vazio! Ouça bem o que lhe digo: isso é uma armadilha! O que lhes interessa não é o morto, mas nós que estamos vivos... Você não percebe? João: Você acha mesmo, Pedro? Pedro: Tenho certeza! Isto é uma emboscada!... E se não sairmos rápido daqui, no mínimo esse pessoal rola a pedra e nos enterram vivos!... Fuja, João, vamos! Cheios de medo, subimos de quatro os degraus escorregadios e saímos à toda pressa da gruta... Pedro: Espere, João... não me deixe sozinho...! João: Espero você na casa de Marcos, pedrada! Tchau! Pedro: Vai pro inferno...! Eu saí correndo sem olhar para trás e me perdi nas vielas de Jerusalém... Pedro, atrás de mim, tentava me alcançar, mas não conseguiu... Pouco depois, parei de correr. Estava cansado. Continuei caminhando devagar, esperando Pedro... Já perto da casa de Marcos eu o percebi atrás de mim... Vinha como um flecha e nem se deu conta quando passou ao meu lado... João: Ei, pedrada, de onde você saiu...? O que aconteceu com esse narigudo?... Que abelha o terá picado? Ei, Pedro, espere...! Apertei o passo e minutos depois cheguei até à casa. Pedro, que havia levado vantagem sobre mim na última hora, estava sentado no chão do sótão, resfolegando e rodeado por todos do grupo. Susana e Salomé o abanavam com um pedaço de pano... Tiago: Vamos lá, João, conte... O que aconteceu? João: Eu não sei, Tiago! Eu não sei de nada...! Susana: Mas você não estava com ele, rapaz? João: Bem... Pedro se atrasou e depois pegou um galope que nem os que saíram do Egito iam tão depressa... O que aconteceu? Eu não sei... Felipe: Pois se você não sabe, nós muito menos, porque este aí, desde que chegou não para de rir... como se estivessem fazendo cosquinhas nele... Tiago: Até que enfim, Pedro, você já está bem!... Qual é a piada, pode-se saber?... Que raios aconteceu com você? Pedro: Companheiros... escutem, eu... eu pensei que era uma emboscada... então saímos correndo... eu ia atrás, à toda, mas este condenado sempre ganha de mim... Então eu me encostei na parede de uma casa para tomar fôlego... E quando estava ali, com a língua de fora, viro a cabeça e vejo um sujeito em outra rua... um sujeito esquisito, olhando para mim... Felipe: E quem era, Pedro? Pedro: E como eu ia saber, Felipe?... O que eu fiz foi sair andando como se nada fosse comigo... mas com as orelhas bem atentas... então, logo percebi os passos do sujeito atrás de mim... caminhei mais depressa e ele também apertou o passo... Fui mais devagar, ele fez o mesmo... Maldição, ele estava me seguindo! Susana: E o que você fez então, Pedro? Pedro: O que fiz? Não cheguei à esquina da rua, virei, saí correndo e me entrei no primeiro quintal que vi... Psst! Então me agachei perto de uns barris e fiquei esperando... Depois saí na ponta dos pés, pulei a cerca sem fazer barulho e fui caminhando na direção contrária, até à rua dos oleiros... Olhei de um lado e de outro... ninguém à vista... Continuei caminhando, cheguei à esquina, vou atravessar... quando nisso sinto uma mão em meu ombro!... Santo Deus, se me arrepiaram todos os pelos, até os do sovaco...! E lá estava de novo o sujeito diante de mim! Marcos: E você, o que você fez, Pedro? Pedro: O que eu iria fazer? Dei um pulo, mas estava encurralado... Fui de costas, grudei-me na parede como uma cola... mas o sujeito foi se aproximando... Engoli em seco e lhe disse: quem... quem é você?... O que quer de mim?... Eu tinha a língua colada no fundo da boca, bem na campainha... E agora estou rindo... Rá, rá, raí...! Pedro continuava no chão, rindo, encostado à parede do sótão... Todos nós, mordendo as unhas, o rodeávamos, presos à cada palavra que dizia... Susana: Afastem-se um pouco, caramba... vão sufocá-lo... Felipe: Continue, Pedro, continue... Pedro: ... Pois imaginem vocês, acontece que o sujeito se aproximou mais e me disse: “E você, quem é você?... O que faz por aqui?”... Então me dei conta de que ele falava como nós, com sotaque do norte... era um Galileu... Eu pensei que era um policial de Herodes, desses que andam disfarçados... Tiago: Tinha espada? Pedro: Espada não, o que ele tinha era uma voz que eu já havia ouvido em algum lugar... Susana: Acabe logo, Pedro, estamos todos no ar! Pedro: Era assim mesmo que eu estava, companheiros: no ar! Esperando que passasse alguém pela rua para gritar por socorro, mas não passou nem cachorro. O sujeito tornou a dizer: “quem é você, como se chama?”... E ele cada vez mais perto, e eu cada vez mais colado à parede... E ele, com os olhos cravados em mim e com um sorrizinho que me deixava nervoso... Então ele me disse: “Você não é Pedro, apelidado de pedrada, pescador do lago de Tiberíades?...”. Quando ele disse isso, fiquei gelado, o sangue me fugiu para os pés, companheiros, como à mulher de Lot. Haviam me descoberto. Tiago: E o que você disse? Pedro: Eu disse: “não, não, não sou quem você está pensando”. “É sim, é você mesmo”. E eu dizia não e ele dizia sim. Então eu falei: “Olhe, conterrâneo, você está enganado, eu sou Julião, o oleiro, e nem sequer conheço o mar”. Marcos: Mas você é mesmo um covarde, Pedro! Pedro: Foi isso mesmo o que ele disse: “Você é um covarde, Pedro!...”. E começou a rir! E quanto mais ele ria, mais eu ficava assustado! Susana: E então...? Pedro: Então fechei os olhos e me fingi de morto. Mas o sujeito ria e ria e continuava rindo... e a rua toda se encheu daquela risada... mas, diacho, onde eu a ouvira antes, onde?... Aí foi quando acendeu uma luz na minha moleira... Sabem quem era o sujeito que estava à minha frente? Vários: Quem, Pedro, quem? Pedro: Jesus! Era Jesus! Rá, rá, Raí...! Tiago: O que você disse...? Pedro: Que era Jesus! Aquela risada era a do moreno, não podia ser de outra pessoa! Marcos: Pedro, por favor... Pedro: Rá, rá... Sim, era a risada dele... Então eu lhe disse: “é você, moreno?...” E ele me disse: “Claro que sou eu, Pedro. Não está vendo? Deus sempre acaba ganhando, sempre ri por último...”. E quando ele disse isso, eu esfreguei os olhos para ver se não estava sonhando, mas não, estava mais acordado que Jeremias quando lhe pisaram no calo. Foi assim, companheiros. Aí, eu saí correndo e vim para cá contar para vocês! Tiago: Abre a boca, Pedro... estou dizendo para abrir a boca!... Você está bêbado, Pedro. Pedro: Rá! Bêbado eu?... Eu que não provo uma gota de vinho desde quinta-feira?... Não, não é isso... Maria tinha razão!... E Madalena também! Rá, rá, rai...! Madalena: Então era conversa de mulher, não é mesmo? Felipe: Mas, que tipo de coceira é esta que quando coça um coça cem? Pedro: Vocês não acreditam, não é mesmo? Pensam que estou louco, é isso? Pois nem estou louco nem com o juízo mole nem tendo visões! Quem eu vi foi Jesus, com esses olhos que tenho na cara! Felipe: Mas, Pedro, como você quer que acreditemos nessa baboseira? Pedro: Ra, rai! Está bem, eu não me importo! Se não querem acreditar, não acreditem... mas que eu vi, eu vi! Susana: Joguem água fria na cabeça dele para ver se raciocina um pouco! Pedro: Rá, rá raí...!Fria ou quente, dá no mesmo! Mas eu o vi!... Era Jesus!!... Era ele!!! Rá, rá, rai!!! Tiago: Cale essa boca, Pedro, desse jeito você vai acordar a cidade toda. Pedro: Pois que venham e fiquem sabendo!... Mas eu o vi!... Era Jesus! Era ele!... Pedro parecia um louco. Havia atravessado correndo as ruas de Jerusalém para trazer-nos a boa notícia de que Jesus estava vivo. E agora, ria sem parar, olhando todos nós com os olhos mais alegres que já havíamos visto... Que formosos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa notícia, que apregoa a salvação, que nos diz: chegou o Reino de Deus!... Comecem a rir e a cantar de alegria, ruínas de Jerusalém, porque o Senhor consolou seu povo, e o libertou de sua escravidão! A idéia de que os dirigentes judeus tivessem roubado o cadáver de Jesus – primeira interpretação que o grupo dá em face da notícia que as mulheres trazem de que o sepulcro estava vazio – era perfeitamente lógica. O fato de que Pilatos tivesse entregue o cadáver de um justiçado político para que recebesse um enterro digno surpreendeu as autoridades judaicas. Não era habitual. Por isso, não teria sido estranho que alguns deles tentassem levar a cabo sua última vingança, tirando o cadáver de Jesus da tumba para jogá-lo na vala comum, onde as leis do Sinédrio ordenavam que fossem parar os delinqüentes. A aparição de Jesus a Pedro está firmemente ancorada na mais antiga tradição cristã, embora o evangelho não conte como foi esse encontro. A confissão de fé conservada por Paulo (1 Cor 15, 1-5) o menciona especialmente e o primeiro canto de Páscoa destaca em particular este fato: O Senhor apareceu a Simão! (Lc 24, 34). Isto pode nos dar um pista para entender que as aparições narradas no evangelho não foram as únicas mas que com elas se quer resumir uma experiência de fé, que seguramente prolongou-se no decorrer de muito tempo. Nos relatos da aparições é contado na forma de narração o essencial dos sentimentos que a ressurreição provocou nos discípulos: esperança, surpresa, incredulidade, superação do medo, espírito comunitário etc. Jesus não voltou à vida para morrer novamente. Sua vida de agora é a definitiva, nova, acabada. Mas isso não quer dizer que haja uma ruptura entre a vida antes de morrer e a de agora, como se uma e outra nada tivessem a ver. Em Jesus ressuscitado há uma continuidade entre o passado e o presente. Por sua Páscoa, Jesus não é despojado de sua condição humana anterior. Ressuscitado, é o homem novo, tem uma condição humana levada à plenitude e assume na sua nova vida toda sua história passada. Por isso, Jesus continua sendo brincalhão, continua zombando de Pedro. É o mesmo de sempre, sua risada soa igual à que soava em Cafarnaum. A ressurreição leva sua vida e seu modo de ser à plenitude. O que é novo é que esta risada já não acabará. A risada de Jesus é o sinal da alegria de Deus ao perdoar, ao encontrar os pequenos, os pobres (Sf 3,17) e, também é sinal de que Deus ri dos homens injustos que maquinam planos de morte (Sl 2, 4; 59, 8-9; 37, 12-13). Ele ri deles porque sabe que eles rumam ao fracasso e que a vitória será dos humildes. Isso é a ressurreição de Jesus: um avanço do riso definitivo com que os homens verão concluir a história, um prenúncio do riso que Deus promete para esse final, no qual esperamos rir com ele em sua casa, sem temor de nenhum fracasso. Se todo o evangelho de Jesus é boa notícia para agora, para a história, sua ressurreição tem também um eco nesta sociedade que estamos construindo hoje. Depois da ressurreição, os que pretenderam ser os juízes, são os culpados, o condenado tinha toda a razão e, conseqüentemente, os que se atreveram a cometer semelhante injustiça foram definitivamente condenados por Deus. O final será a vida. Será através da luta e da morte, mas a última palavra será uma imensa e inacabável risada, da qual Jesus ressuscitado foi mensageiro (Is 52, 7-9). (Lc 24, 12; Jo 20, 3-10)
Capítulos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII XXIX XXX XXXI XXXII XXXIII XXXIV XXXV XXXVI XXXVII XXXVIII XXXIX XL XLI XLII XLIII XLIV XLV XLVI XLVII XLVII XLIX L LI LII LIII LIV LV LVI LVII LVIII LIX LX LXI LXII LXIII LXIV LXV LXVI LXVII LXVIII LXIX LXX LXXI LXXII LXXIII LXXIV LXXV LXXVI LXXVII LXXVIII LXXIX LXXX LXXXI LXXXII LXXXIII LXXXIV LXXXV LXXXVI LXXXVII LXXXVIII