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Capítulo LXXII EM UM SEPULCRO NOVO Pilatos: Está bem. Digam a esses condenados sacerdotes que entrem, caramba! Já nem se pode tirar uma sesta em paz! Um sacerdote: Governador Pilatos, é quase a hora nona. Dentro de pouco tempo, a estrela da tarde anunciará que entramos no Grande Sábado... Pilatos: Rá! Que estrela que nada! Desde que amanheceu não pára de chover. O céu está mais fechado que um túmulo... e vocês ainda querem ver uma estrela! Outro Sacerdote: Vossa Excelência tem razão. Mesmo assim, faltam só algumas horas para o Grande Sábado da Páscoa... Pilatos: Isso vocês já disseram. O que é que estão querendo? Sacerdote: Trata-se dos três rebeldes crucificados no Gólgota, governador. Não podem continuar lá quando a festa começar... Nossa tradição o proíbe... Seria uma grave impureza... Pilatos: Então, onde querem que eles fiquem...? Sacerdote: Na vala, excelência. Debaixo da terra. Bem mortos e bem enterrados. Pilatos: Ainda não me informaram se eles já morreram... Sacerdote: Não, claro que não, mas, por que não economiza a esses malditos uma agonia longa? Afinal, já purgaram todas as suas rebeldias. Seus corpos ainda se retorciam de dor cravados nas cruzes. Jesus já havia morrido, mais ou menos às três da tarde. Dimas e Gestas, os rebeldes zelotas que haviam sido crucificados com ele, menos torturados do que Jesus, resistiram o tormento por mais tempo. Perto deles, as mães dos revolucionários esperavam a morte com os olhos avermelhados... Junto ao madeiro onde estava pendurado o cadáver ainda quente de Jesus, as mulheres e eu, sentados sobe o chão molhado da colina, nos apoiávamos uns nos outros e chorávamos... Maria: João, filho... o que será que agora vão fazer com Jesus...? João: Não sei, Maria, não sei... não sei de nada... Madalena: Olhe, Maria, palavra de madalena, não vou deixar que joguem Jesus na vala... Nós o enterraremos... como a um grande senhor! Maria: Mas, menina, de que jeito se a gente não tem nem um pedaço de terra para a sepultura... nem os denários para um lençol decente... Não sei o que vamos fazer... A colina do Gólgota estava semeada de troncos de cruzes empapados de sangue. Ao redor, escavadas nas rochas nuas, havia várias valas profundas onde se jogavam os corpos dos justiçados... João: Não sei... Talvez, se falássemos com aquele Nicodemos... Ele era amigo de Jesus... É um sujeito de muita influência... Se esse maldito Pilatos lhe desse o corpo para enterrá-lo em outro lugar... Madalena: É isso, João, é isso mesmo! Não podem jogá-lo na vala, por Deus! Pegados às muralhas, sem se atreverem a dar um passo para se aproximarem, estavam Pedro, André e alguns outros do grupo. Depois da morte de Jesus muito pouca gente havia ficado nos arredores do Gólgota. Faltavam só algumas horas para começar o Grande Sábado da Páscoa e muitos, cansados, depois de um dia de chuva tão longo e tão triste, voltaram para a cidade e fecharam-se em suas casas... Túlio: E então, eles já morreram? Soldado: O nazareno sim. Os outros dois ainda não. Olhe só para eles! Pela porta de Efraim apareceram três soldados com porretes e lanças. Subiram a passos largos pelas rochas nuas da colina... Túlio: É preciso acabar rápido com isso. Ordens do governador. A festa do judeus começará quando o sol se pôr e eles não podem ficar aqui. Soldado: E o que vamos fazer? Túlio: Vamos quebrar as pernas deles dois para que morram de uma vez. Soldado: Bem pensado, caramba! Estou até o gargalo com tanta chuva e tanta lágrima...! Eu não ganho para isso! Túlio: Ei, fora daqui, mulheres, afastem-se das cruzes! Mulheres: Assassinos, assassinos! Túlio: Vão embora daqui, já disse, vão! Dois soldados se aproximaram das cruzes onde Dimas e Gestas lutavam com a morte e levantando seus grossos porretes descarregaram vários golpes, com violência, sobre os joelhos e as pernas, macerando-lhes os ossos... Uma mulher: Acabe logo com esse inferno, meu Deus!... Acabe logo! A morte não demorou a chegar. Os corpos daqueles rapazes, ao perderem o apoio que tinham nas pernas, desmoronaram, sufocando-os logo. Seus rostos ficaram contraído pela horrível dor do último momento... Túlio: E esse outro aqui? Tem certeza que está morto...? Soldado: Tenho. Ele deu um grito e ficou hirto já faz um tempo... Túlio: Estranho. Então morreu bem depressa... Soldado: Do jeito que chegou aqui, até que durou bastante... Chegou feito um trapo... Maria: Por favor, não façam mais nada... Ele já está mesmo morto... Túlio: Saia daqui, mulher... É preciso comprovar esta morte... São ordens... Madalena: Maldição, deixem-no descansar em paz de uma vez! Túlio: Saia, rameira, já disse para irem embora! Um dos soldados agarrou fortemente a lança que havia trazido e a dirigiu contra o cadáver de Jesus... Com um golpe certeiro atravessou-lhe o coração... O último sangue que ainda restava naquele corpo destroçado escorreu lentamente pelo peito... Túlio: Agora sim. Serviço concluído. Mas que dia foi esse, heim? O soldado puxou a lança e com a beirada de seu velho manto vermelho limpou o sangue da ponta... Soldado: Sabe de uma coisa, Túlio? Este sujeito, sei lá... Eu sempre digo que é na hora da morte que de fato a gente conhece as pessoas... Este era um homem bom... Para mim ele era inocente... Túlio: Pare de se preocupar, rapaz... Você não ficou com a roupa dele?... Então, deixe de sensibilidades... Que eles sejam despregados logo e jogados e mais logo ainda jogados na vala. Nós temos que voltar ao quartel e prestar contas ao governador. A gente se vê por lá! Dizem que esta noite teremos um bom vinho no jantar! Soldado: Venha cá, você, vamos descê-los! Maria: João, filho, vá correndo procurar esse tal Nicodemos... Veja se consegue alguma coisa... João: Não, madalena, você fica aqui! Eu voltarei logo! João: Até que enfim o encontrei, Nicodemos... Nicodemos: Já sei que ele morreu, já sei... Eu vi da muralha... Já faz um tempo que estou dando voltas como um imbecil... Maldição! Por que não conseguimos impedir isso? João: Agora precisamos de sua ajuda, Nicodemos... Trata-se do corpo de Jesus. Nicodemos: José, os amigos do nazareno precisam de nós... Você tem boas relações com o governador. Ele conhece muito sua mulher, não é?... Pois então vai e diga para ele lhe dar o corpo para ser enterrado como se deve. José de Arimatéia: Fique sossegado, Nicodemos, irei ver Pilatos agora mesmo. Pilatos: Mas, como? Esse homem já morreu? Soldado: Sim, governador. Está tão morto quanto eu estou de pé aqui. Eu atravessei o coração dele com uma lança. Pilatos: Está bem, pode ir... Soldado: Pois não, governador... Pilatos: E você, José de Arimatéia... desde quando você é um dos que iam atrás desse profeta maluco...? José de Arimatéia: Loucos fomos nós que não soubemos defendê-lo. Pilatos: O quê?... Remorsos?... Ora, sossegue, homem, que a coisa não é para tanto... O que você quer? O corpo? Pois pode pegar. Se é para satisfazer um capricho seu, tem minha permissão. José de Arimatéia: Dê-me a autorização por escrito, governador. Pelas ruas de Jerusalém não se ouvia falar de outra coisa que do acontecido no Gólgota. Àquelas horas da tarde, a chuva começou a amainar e o sol esquentava timidamente os telhados das casas... As pessoas, com o coração triste, tentando sepultar tudo no esquecimento, faziam os preparativos da festa para o grande descanso sabático... Nicodemos: Já não falta mais nada... Não se preocupe pelo dinheiro, nem pelo lugar. Já falei com meu amigo José e vocês podem enterrá-lo no sepulcro novo que ele tem para sua família e fica perto de lá... ande, volte para junto das mulheres, não as deixe sozinhas... Eu irei em seguida com tudo o que é necessário. Já vão fechar as lojas e temos que agir depressa... Quando voltei à colina do Gólgota, já haviam despregado Jesus e um dos zelotas e estavam descendo outro...o corpo de Jesus, com os braços esticados, conservava ainda a forma da cruz e descansava no chão, sobre o manto de Maria, que o contemplava em silêncio, agachada junto a ele... As mulheres, de pé, choravam mordendo-se os lábios... Mateus e outros mais haviam se aproximado, vencendo o medo. Ninguém reconhecia naquele rosto completamente desfigurado, coberto de crostas de sangue, os traços tão queridos de nosso companheiro... Pedro: Isso é um pesadelo, João, um pesadelo... João: Venha, Pedro, vamos falar com os soldados. Temos autorização para enterrá-lo aqui perto... Enquanto Pedro e eu falávamos com o centurião, mostrando-lhe permissão, Maria recostou a cabeça ferida de Jesus sobre seu regaço e, com o lenço empapado pela chuva, começou a limpá-lo... Maria: Você parece outro, Jesus... Olhe só como deixaram você, meu filho... Bem que eu dizia que estava com medo... Quando você foi para Cafarnaum eu lhe disse: “Não se meta em confusão, filho”... Mas você nem ligou e ainda me arrastou atrás de vocês... Você dizia: “Mamãe, você sempre foi uma lutadora valente”... Não, filho... Você é que foi um valente... Até o final, Jesus, até o final... Como seu pai... Se José tivesse visto você... Parece até que o ouço: “Mulher, que nosso garoto cresça direito para que sempre dê a cara a tapa pelos outros. É isso que temos de ensiná-lo, é isso que Deus quer dele”... E você aprendeu, filho, você aprendeu muito bem... Agora, é voltar a Nazaré, trabalhar a terra, buscar água no poço, e ganhar mais calos nas mãos... “Comadre Maria, o moreno está chegando!”... Mas você já não voltará, filho... Não voltará nunca mais... E o que eu vou fazer sozinha... sem José e sem você?... Por que você não me escutou, filho? Jerusalém é malvada, não vá a Jerusalém... Eu tinha muito medo... você bem sabia... Mas estou orgulhosa de você, de tudo o que você fez... O que você dizia ficava dando voltas e voltas no meu coração... quando você estava longe, em Cafarnaum... Sim, filho, eu também creio que Deus presenteia seu reino aos pobres... aos que choram... não agüento, filho, não agüento... Meu filho... João: Vamos, Maria, já está ficando tarde... Sem tempo para lavar direito o corpo de Jesus, nós o ungimos apressadamente com uma mistura de perfume de mirra e aloés que Nicodemos trouxe, conforme o costume dos meus conterrâneos para enterrar os mortos. Depois o envolvemos num lençol grande e fino que José de Arimatéia havia comprado... Ninguém dizia uma palavra. Tínhamos muita pressa e muita tristeza... A chuva havia parado e um vento fresco inflava nossas túnicas molhadas... Pedro e eu carregamos o corpo de Jesus. Bem perto da colina do Gólgota havia um horto onde José de Arimatéia tinha um sepulcro novo no qual ainda ninguém havia sido enterrado. Dentro daquela gruta profunda, escavada na rocha, colocamos o cadáver de Jesus. Fechamos a entrada com uma pedra redonda e grossa como uma roda. João: Vamos embora, Maria... O Sábado está começando... Durante alguns momentos Maria apoiou sua fronte contra aquela pedra úmida... Depois segurou meu braço para não escorregar e se pôs a caminho. Voltamos com ela para Jerusalém... A tarde morria sobre as muralhas e as trombetas do Templo anunciavam que estávamos entrando no descanso do Grande Sábado. Jesus morreu na sexta-feira da semana da Páscoa, que era para os judeus “dia de preparação”, já que no dia seguinte, sábado, não se podia trabalhar. Era o dia de descanso imposto pela Lei. Por se tratar do Grande Sábado da Páscoa, aquele sábado era ainda mais solene que os demais do ano. O grande sábado começava ao cair da tarde, quando as primeiras estrelas apareciam no céu. Os cadáveres dos justiçados eram “impuros” e, conforme a Lei, não deviam manchar com sua presença a festa daquele dia. Isso explica a urgência com que terminou a execução e o efetuar-se o enterro de Jesus. Alguns crucificados permaneciam pendurados no madeiro dias inteiros, em uma agonia sem fim. As leis romanas previam as formas de acelerar a morte: quebrando a golpes os ossos das pernas. O desmoronamento que se produzia em todo o corpo provocava a asfixia final. Este método brutal foi aplicado nos revolucionários zelotas. No caso de Jesus não foi necessário quebrar nenhum osso. Havia morrido muito depressa. O golpe de lança do soldado era uma forma de assegurar-se que ele estava realmente morto. Como um tiro de misericórdia. José de Arimatéia e Nicodemos, das classes dirigentes, que simpatizavam com Jesus embora o fizessem clandestinamente, atreveram-se no momento final a dar as caras para reclamar o corpo e poder enterrá-lo com certa dignidade. A imagem clássica e muito querida da piedade popular ao longo dos séculos, tem sido a de Maria com seu filho morto nos braços. É “A Pietá”, cantada pelos músicos e poetas, imortalizada em esculturas e quadros. O assassinato de Jesus foi a suprema prova de fé para Maria que, como seu próprio filho, não contava com a ressurreição. Maria que havia entendido confusamente os projetos de seu filho nos primeiros momentos, que depois havia tentado compartilhar com ele seus riscos e esperanças, teria sentido naquele dia uma infinita solidão, um profundo sentimento de fracasso, de tristeza, de inutilidade. Teria sentido também orgulho pela valentia demonstrada por Jesus. Para os israelitas, um enterro era algo de grande importância, a maior mostra de carinho pelo defunto. O de Jesus – pelas circunstâncias – também foi realizado com os mesmos requisitos tradicionais. Os cadáveres eram lavados e ungidos com azeite. O evangelho diz que em Jesus foi usada uma mistura de mirra e aloés. A mirra era uma resina aromática de muito valor, usada também para ungir os noivos no dia de suas bodas, e o aloés, uma essência cheirosa tirada da seiva de certas árvores da Índia Era empregado para dar perfume à roupa de cama, vestuários e mortalhas. Como mortalha era usado um lençol ou lenços em forma de tiras, embora não se saiba com exatidão eram colocados no corpo do defunto. Desde tempos muito antigos, Israel enterrava seus mortos em grutas naturais para não desperdiçar terreno cultivável. Jesus foi colocado em uma tumba particular, comprada por José de Arimatéia para sua família, e na qual ninguém tinha sido enterrado antes. Aproveitando a escavação natural da rocha, arrumava-se o local em forma de habitação, com uma ou várias mesas de pedra par colocar os cadáveres. Às vezes, eram escavados nichos ao longo das paredes. Em muitos casos, e um foi o do sepultamento de Jesus – esta habitação ou câmara sepulcral estava precedida por uma ante-sala ou corredor. A entrada da tumba era fechada por uma pesada pedra redonda, que girava como uma roda. Depois de dois mil anos ainda se conserva este banco de pedra onde foi depositado o cadáver de Jesus, o lugar exato onde ficava aquele jardim próximo ao Gólgota. Dentro da Basílica do Santo Sepulcro, no bairro árabe de Jerusalém, fica este lugar, transcendental para a fé cristã. Apesar da abundante decoração acumulada durante séculos, ainda se pode distinguir perfeitamente a estrutura daquela gruta: a ante-sala, o corredor e a câmara mortuária – bastante estreita, onde fica a mesa de pedra, recoberta hoje por um mármore branco. À entrada, um letreiro: “Não está aqui. Ressuscitou”. Desde que Santa Helena, mãe do imperador Constantino, por meio de escavações que mandou fazer nesta zona de Jerusalém onde esteve o Calvário, descobriu sua localização exata, os chamados Lugares Santos – inicialmente o Gólgota e o lugar da sepultura de Jesus – converteram-se em centro de peregrinação para os cristãos de muitos países vizinhos. Isso ocorreu depois de uns trezentos anos após a morte de Jesus. Os Lugares Santos também foram motivo de guerras cruéis. Uns mil e cem anos depois da morte de Jesus eles estavam em mãos dos muçulmanos. Homens de toda a Europa cristã envolveram-se em guerras, chamadas de Cruzadas, que além de outros importantes motivos políticos e econômicos, tentavam recuperar esses Lugares Santos. As Cruzadas duraram, com intervalos, duzentos anos. Não conseguiram seu objetivo de resgatar o Santo Sepulcro. O pior foi que em nome da cruz de Jesus foram cometidos saques e crimes de todo tipo contra os árabes, que também usaram de enorme violência contra os cristãos. (Mt 27, 51-61; Mc 15, 38-47; Lc 23, 47-56; Jo 19, 31-42)
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