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Capítulo LXXI A CAMINHO DE GÓLGOTA / ATÉ A MORTE NA CRUZ 1. O caminho que Jesus percorreu até o Calvário, sua via-crucis, ia desde a saída da Torre Antônia, ao lado do Templo, atravessava a cidade pelos bairros do norte, e chegava até à porta de Efraim, pela qual se saía fora dos muros, onde estava o Gólgota. Atualmente, uma longa e retorcida rua de Jerusalém, empinada como todas as da velha cidade, chama-se Via Dolorosa. Acaba na Basílica do Santo Sepulcro. Torna-se difícil hoje assegurar que o traçado desta rua corresponda ao percurso exato feito por Jesus há dois mil anos. No entanto, peregrinos do mundo todo a percorrem na procissão de Sexta-feira Santa todos os anos. Ao longo de toda esta Via Dolorosa, diferentes lugares e igrejas recordam as 14 estações ou passos que a tradição, desde muitos anos, fixou como momentos-cume no caminho de Jesus até à cruz. Algumas destas estações têm base nos textos do evangelho e outras – a da Verônica, o encontro com Maria, as três quedas – têm sua origem na tradição popular, muito apegada ao exercício piedoso da via-sacra. Era costume romano que o réu que ia ser justiçado levasse até o lugar do suplício não a cruz inteira (como aparece nas imagens), mas só o pau transversal, chamado de “patibulum”. Este madeiro era colocado atrás da nuca e devia ser sustentado pelos braços, que eram amarrados a ele. O lenho era colocado sobre os ombros como se fosse um jugo. Para um homem que havia sido torturado, aquela posição se tornava dolorosíssima. Isso explica a enorme fadiga sentida por Jesus e que levou os soldados a pedir a ajuda de Simão de Cirene. Dois revolucionários zelotas foram levados com Jesus para serem crucificados. Não se tratou de ladrões ou gatunos, mas de réus políticos. A palavra grega empregada no evangelho é “lestai”, a mesma que era usada para designar os militantes deste grupo guerrilheiro. Os nomes de Dimas e Gestas não são históricos, a tradição é que os chamou assim. Os madeiros que aqueles três condenados levaram nos ombros recenderiam o sangue de muitos outros condenados. Jesus não foi o único crucificado da história. Nem sequer naquele dia seu caso foi excepcional. Sobre uma tabuleta branca escrevia-se a razão pela qual se condenava o réu à cruz. Esta tabuleta (o “título”) era levado por um pregoeiro à frente do condenado ou era pendurado ao pescoço deste. Atravessar as ruas da cidade com o patíbulo nos ombros e o título no pescoço era a última humilhação a que era submetido o réu antes da sua morte. Isto era feito assim para servir de escarmento e advertência a possíveis futuros agitadores. A via-crucis era realmente mais um ato de força da repressão estabelecida. A tabuleta de Jesus, escrita por Pilatos, assinalava a razão de sua condenação: “Jesus o Nazareno Rei dos Judeus”. A acusação última contra Jesus foi, pois, de tipo político. Seria como dizer: Este homem está sendo justiçado por pretender ser o representante deste povo. Nesse “rei” dos judeus lia-se “o Messias”. De qualquer forma, o “rei” dos judeus era César e pretender qualquer liderança popular à margem desta realidade, era atentar contra o império. O título era escrito em três línguas: hebraico, latim e grego. Na língua de sua pátria, na língua do império e na língua dos gregos, estrangeiros presentes durante as festas. Para Roma era importante que esta tabuleta fosse compreendida pelos milhares de visitantes que estavam em Jerusalém; devia ficar bem claro para todos com que poder Roma castigava os agitadores. O INRI que aparece em tantos crucifixos é a abreviatura da condenação em Latim: “Iesus Nazarenus Rex Iudeorum”. Para ajudar Jesus a chegar até o final e impedir que morresse pelo caminho, os soldados pediram ajuda a um curioso, um tal Simão de Cirene. Cirene era uma região da África, situada onde hoje está a Líbia. Naquela colônia estrangeira que havia sido grega e depois província romana, moravam muitos judeus. Alguns vinham para as festas da Páscoa e outros, nascidos lá, residiam em Jerusalém habitualmente. O evangelho de Marcos (Mc 15, 21) refere que Simão de Cirene era pai de Alexandre e Rufo. Seguramente estes dois rapazes faziam parte das comunidades cristãs para as quais se escreveu este evangelho. Em uma de suas cartas, Paulo menciona um tal Rufo que poderia ser o filho deste Simão (Rm 16, 13). As damas de Jerusalém formavam uma espécie de confraria beneficente. Dedicavam-se a diferentes formas de beneficência. Além de dar esmolas, tinham entre outras, a obrigação de rezar pela conversão dos condenados à morte e de levar-lhe ao patíbulo vinho misturado com incenso – que agia como narcótico – para atenuar suas dores. Durante sua atividade, Jesus havia dito a seus companheiros que anunciar a boa notícia era estar disposto a “carregar a cruz” (Mc 8, 34). Geralmente, tomamos estas palavras como um convite para suportar pacientemente o que Deus nos manda. Esta é uma interpretação mais que tíbia do que Jesus quis dizer. Tampouco serviria para interpretar o “carregar a cruz” como o simples estar disposto ao martírio, pois não se trata somente de uma disposição que talvez algum dia se concretize com uma morte violenta. Jesus não nos convida a um ato isolado mas a uma atitude. Carregar a cruz é atrever-se a empreender um caminho no qual se saboreia o fracasso, a amargura, o ridículo. Os poderosos que decretam a condenação humilham, hostilizam, insultam o réu até o lugar de seu suplício. Isto Jesus percebeu, isto ele sofreu. O caminho cristão é duro. Manter-se nele até o fim é a prova de nossa fidelidade ao compromisso com a justiça. (Mt 27, 31-32; Mc 15, 20-21; Lc 23, 26-32; Jo 19, 17) 2. O Gólgota (palavra que significa “crânio”) ou Calvário (lugar da caveira) era uma pequena colina situada fora das muralhas de Jerusalém. Era costume realizar ali as crucificações. Os arredores daquele lugar serviam de cemitério. Havia várias tumbas particulares – em uma delas enterraram Jesus – e outras eram valas comuns para os corpos dos justiçados. A porta de Efraim, aberta na parte noroeste das muralhas, dava para o Gólgota. Como o lugar era um tanto elevado, da cidade podia-se ver as cruzes e nelas os crucificados. As execuções eram públicas. As autoridades procuravam fazer disso escarmento para todos os cidadãos. No caso de Jesus tentaram a todo custo evitar um amotinamento popular. Na Jerusalém atual o lugar mais importante para os cristãos é a basílica do Santo Sepulcro, um enorme edifício que abarca o espaço onde esteve a colina do Gólgota e a sepultura de Jesus, muito próxima a ela. No interior da basílica, hoje excessivamente carregada, com muitos altares, imagens, capelas, pode-se ver parte da autêntica pedra do Gólgota. Diante do altar da crucificação pode-se inclusive tocar essa rocha, que foi impregnada com o sangue de Jesus. O lugar é de plena autenticidade histórica. A morte na cruz foi usada pelos persas, pelos cartagineses e, em menor medida, pelos gregos. Foram os romanos que mais a empregaram, por considerá-la o suplício mais cruel que existia. Reservavam-no para os estrangeiros e somente em raras ocasiões se crucificava cidadãos romanos. Era a pena de morte sofrida pelos escravos. Os homens livres podiam ser crucificados por crime de homicídio, roubo, traição e, sobretudo, por subversão política. Era costume desnudar os crucificados para assim aumentar sua humilhação. Era no chão que se lhes pregavam os braços ao pau transversal que eles mesmos deviam carregar até o local do suplício. Os cravos eram introduzidos nos pulsos, entre os dois ossos do antebraço. Se fossem cravados nas palmas das mãos, o corpo se desprenderia do patíbulo por falta de sustentação. Quando os braços estavam pregados, içava-se os réus com cordas para colocar a trave horizontal sobre a vertical, que já estava plantada no chão. Então eram pregados os pés, introduzindo-se os pregos no vão dos ossos dos tornozelos. A dor era indescritível. Finalmente, pregava-se a tabuleta de acusação no alto da cruz para que fosse lida por todos. A cruz não era alta, como algumas que se vêem nas imagens. Era bem mais baixa. Os pés do justiçado ficavam a muito pouca distância do chão. Entre as pernas o madeiro tinha uma espécie de saliência para sustentar o corpo, que ficava assim meio sentado. Tentava-se com isso evitar o desmoronamento do réu para baixo. E isso não por piedade, mas para prolongar o mais possível seu tormento. Muitos crucificados permaneciam dias inteiros agonizando sobre a cruz à vista dos curiosos, rodeados de aves de rapina. Se Jesus morreu tão depressa foi porque ao chegar ao suplício, já estava desfeito pelas torturas. Geralmente, a morte dos crucificados acontecia por asfixia. A tensa e insuportável posição de todo o corpo ia dificultando cada vez mais a respiração e a circulação do sangue, até que chegasse inexoravelmente pela imobilidade a que estava submetido o moribundo. Recolhendo os testemunhos dos quatro evangelistas, temos as “sete palavras” de Jesus na cruz, que foram suas últimas palavras nesta terra. A primeira delas - “Pai, perdoa-os...” – refere-se a um costume religioso de Israel. Por entender que toda morte tinha um valor de expiação (de perdão, de resgate), os delinqüentes eram ainda exortados antes de morrer a pronunciarem o chamado “voto expiatório” com uma fórmula que dizia “Que minha morte sirva de expiação de todos os meus pecados!” (Que Deus me perdoe). Jesus não diria isso. Reivindicou até o último momento sua inocência e não por orgulho ou cabeçudisse. Por isso, subverteu esta fórmula: Que Deus perdoe os assassinos, são eles que estão em pecado. Eles não sabem o que fazem. Neste episódio, a segunda palavra reflete a esperança que Jesus manteve até o último alento de sua existência, de que Deus iria intervir de uma forma desconhecida por ele, mas tão eficaz que o libertaria da morte. Jesus esperou no Gólgota a irrupção libertadora do Reino de Deus, pelo qual havia lutado durante sua vida. Não se resignou ao desalento, não admitiu que Deus pudesse lhe falhar e esperava contra toda a esperança. Esse “hoje” de que fala seu companheiro de tormento indica a imediatez com que ia se dar a mudança que ele esperava. Até o final, Jesus foi um homem amante da vida, crente na vida. Essa vida que ele reclamava e esperava de seu Pai no meio da agonia. A terceira palavra ele dirige a Maria sua mãe e a seu amigo João. É preciso ressaltar que no último momento, as mulheres foram mais fiéis a Jesus que os homens. Elas, as mais “frágeis” e as mais “covardes” segundo o dito machista, mantiveram-se em pé diante daquele torturado que agonizava, mostrando sua fidelidade a Jesus e arriscando-se à zombaria das autoridades, que o ridicularizaram até o último momento. A quarta palavra é conservada em grego pelos evangelistas e às vezes dão sua tradução, como que para causar maior impacto no leitor, para fazer com que ele se detenha especialmente nesta frase. Jesus se sente abandonado por Deus, já não espera mais nada, experimenta toda sua vida como um fracasso. “Eli, Eli lema sabaktani” é a frase em grego. (Marcos a encabeça com a forma aramaica “Eloi, Eloi”). Jesus não chama a Deus como o fazia habitualmente: “papai” (Abba). Chama-o Deus. Sente-o longe, distante, calado. Com essas mesmas palavras inicia-se o Salmo 22. Os evangelistas nos estão indicando que na cruz Jesus rezou com esse impressionante grito de angústia e abandono deste salmo. Lendo-o podemos descobrir quais foram os sentimentos que teve seu coração antes de se arrebentar por causa daquela cruel tortura. Jesus, como todo homem, experimentou em sua consciência uma evolução, um crescimento. Sua fé também teve um desenvolvimento e ele soube o que eram as dúvidas, os altos e baixos, os temores. Esta quarta palavra na cruz é um dos momentos mais significativos para se apreciar a profunda humanidade de Jesus, o caminho de sua fé e de sua esperança, caminho difícil e doloroso. A quinta palavra é um indicativo da sede espantosa que os crucificados sofriam e que era um dos maiores tormentos do suplício da cruz. A contínua hemorragia produzida pelos cravos desidratava o réu. Naquele momento ofereceram a Jesus uma droga para aliviar a dor. A sexta palavra – “Tudo se acabou” – indica a consciência que tinha da proximidade do fim. Jesus não perdeu a consciência. Embora extenuado pelas torturas, viu a morte chegar em plena lucidez. Sua última “palavra” neste mundo foi um grande grito (Mc 15, 37), expressão de uma dor suprema e também de sua suprema entrega nas mãos de Deus em quem confiava e a quem chamava de Pai. Para refletir esta fidelidade até o final, Lucas deu àquele grito inarticulado e terminal com que finalizou a vida de Jesus a forma de uma oração cheia de confiança (Lc 23, 46; Sl 31. 6). Jesus morreu. Morreu realmente. Sua vida terrena deixou de existir. E quando morreu não sabia nem imaginava que Deus o ia ressuscitar. Não o podia imaginar porque no quadro de idéias de sua fé nem mesmo entrava esta crença em uma ressurreição “individual e imediata”. Se Jesus tivesse morrido sabendo que em poucos dias viveria novamente, sua morte não teria sido real nem humana nem dolorosa. Quando põe sua sorte nas mãos de Deus, crê Nele, espera Nele com a mesma fé e a mesma esperança com que na morte fazem todos os crentes, o maior ato de fé e de esperança de toda sua vida. E fazem às cegas, no meio da dor terrível de que tudo se acabe. Na morte como na vida ele foi nosso irmão. Na morte, como na vida, experimentou a insegurança e pôs em Deus uma difícil e dolorida esperança para poder dar o salto final. Aquele em quem cremos é um crucificado. Séculos de história, de cultura e arte fizeram do crucificado uma jóia, um enfeite, um motivo decorativo. E a cruz não é outra coisa que um horrendo patíbulo. E o crucificado um amaldiçoado (Dt 21, 23). Precisamos ver na cruz um cruel instrumento de tortura. Ver em Jesus – um trapo ensangüentado pendurado num pau – a revelação de Deus é um escândalo. Não devemos nos acostumar, precisamos escandalizar-nos sempre. Isto é, sacudindo-nos se quisermos renovar em nossa própria experiência qual foi a origem da fé cristã. A morte na cruz significava, por si mesma, a exclusão da comunidade de Israel e da comunidade romana. Jesus foi assassinado fora dos muros de Jerusalém, amaldiçoado pela lei de seu povo, expulso e marginalizado pelo sistema do império. As instituições políticas, religiosas, econômicas o lançaram fora de seu seio. É nesse excomungado que nós cristãos acreditamos. Nosso Messias é um “amaldiçoado” pelas autoridades e, por isso, o poder injusto sempre “amaldiçoará” o verdadeiro cristão e o lançará fora, como fez com Jesus. (Mt 27, 33-50; Mc 15, 22-38; Lc 23, 33-46; Jo 19, 18-30)
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