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Capítulo LXX ESTE É O HOMEM Era cerca do meio-dia. Com uma multidão de peregrinos galileus e de moradores de Jerusalém apinhados em frente à Torre Antônia continuávamos pedindo aos gritos a liberdade para Jesus... Centurião: Se vocês não calarem a boca darei ordens aos meus lanceiros para atravessarem todos como cães! As ameaças do centurião não conseguiram acalmar os ânimos. A chuva continuava caindo fina e persistente sobre a cidade de Davi, molhando tudo e nos encharcando até os ossos... O céu estava completamente fechado como as janelas e portas da fortaleza romana, onde o governador Pôncio Pilatos se protegia... Centurião: Governador, o povo continua muito excitado. Pilatos: Nem precisa vir me dizer, centurião. Estou escutando perfeitamente a balbúrdia daqui. Centurião: Devo dispersá-los, governador? Pilatos: Você os dispersa e eles voltam a juntar-se! São iguais a uma praga de mosquitos: mata um e vêm cem, mata cem e vêm mil!...Xucros!... Estou com esse povo por aqui, ó! Faz sete anos que levanto cruzes e os prego nelas e lhes tapo a boca com pedras e terra, e aí está o resultado: nada! Não se consegue nada!... Povo maldito! Centurião: Devo dispersá-los, governador? Pilatos: Que diabos está acontecendo agora? Já soltei um preso, aquele que eles pediram... O que mais eles querem? Centurião: Continuam na mesma, governador. Os de trás pedindo a liberdade para esse fulano de Nazaré. Os da frente, pedindo sua morte. Pilatos: Pois então eles que se entendam e me deixem em paz. Entregue-lhes o prisioneiro. E façam com ele o que quiserem. A essa mesma hora, em um casebre do bairro de Ofel, Judas, de Kariot, discutia com um dos líderes zelotas... Judas: Vocês me prometeram e agora não podem dar para trás! Zelota: Mas, Judas, companheiro, tente compreender. Houve perto de cinqüenta feridos na frente do palácio de Herodes. Cortaram até a mão de um menino, de um golpe só. Eu vi. Judas: Não me interessa o que você viu, mas sim o que me prometeram antes. Zelota: Mas antes a cidade não estava como agora. Jerusalém parece um quartel. Há mais soldados que nunca. Nem quando aconteceu aquela história da torre de Siloé apareceram tantos na rua. Judas: Diante da Torre Antônia há milhares de pessoas gritando. Só precisam de armas. Onde estão? Agora é o momento de fazer alguma coisa! Zelota: Agora é o momento de ficarmos quietos, Judas e esperar que passem as festas. Judas: Maldição, não foram vocês mesmos que disseram que tínhamos que aproveitar a oportunidade? Zelota: Sim, é verdade, mas como você pode ver, os planos mudaram... Companheiro, temos que ser realistas. Judas: Realistas?... Covardes! Isso é o que vocês são, covardes e traidores. Vocês me traíram... Eu entreguei meu líder porque era necessário para levantar o povo... O que eu faço agora, heim? O que eu faço agora?! Zelota: Fique calmo, Judas. Sim, você fez o que pôde... E nós também. Mas a política é assim, como um jogo. Às vezes se ganha, outras vezes se perde. Judas: Este jogo custou a vida de um homem, está ouvindo? Zelota: Pode crer que eu sinto muito, companheiro. Sinto de verdade. Jesus era um bom sujeito, sim, mas agora... agora não podemos fazer nada por ele... Judas: Maldição, se vocês não fazem nada, eu vou fazer, agora você vai ver o que eu vou fazer...! Zelota: Espere, companheiro, espere...! O governador chutou a porta e desceu rapidamente as escadarias da fortaleza até chegar no pátio Lajeado onde uma massa de homens e mulheres gritava furiosamente já fazia um bom tempo... O governador também estava encolerizado... Quando o vimos entrar, o alvoroço cresceu... Um homem: Liberdade para Jesus! Liberdade para os presos! João: Pilatos terá que dar o braço a torcer! Madalena: E se não torcer, seus ouvidos vão explodir, caramba, porque ele tem que soltar o moreno!... E você, Maria, pare de choramingar e comece a gritar com a gente, vamos! João: Não se desespere, Maria, eles não podem fazer nada com Jesus... para isso estamos aqui! Cada vez se juntava mais gente diante dos portões da Torre Antônia... Maria, a mãe de Jesus e a outra Maria, a madalena, estavam comigo, uma de cada lado... Tentamos avançar por aquele mar de cabeças, mas a claque dos sacerdotes e a barreira dos soldados não nos deixavam ir adiante... Madalena: Demônios, quanto será que pagaram para esses bestalhões? João: Deixe que se esgüelem, madalena. Nós somos maioria. Pilatos terá que dar atenção a nós! Um homem: Ei, amigo, andam dizendo que o governador deu ordem de soltar o nazareno! Madalena: É verdade, conterrâneo? Homem: É sim, parece que vão botá-lo pra fora! Madalena: Está vendo, Maria, não foi o que a gente disse? Água mole em pedra dura...! João: Olhem, olhem, estão abrindo a porta...! Nós ainda não sabíamos que Jesus havia sido açoitado e torturado. Por isso, quando se abriu a pequena porta que dava para os calabouços da torre, e o vimos aparecer, todos tapamos o rosto horrorizados... Nunca esquecerei aquele momento... Maria, ao meu lado, ficou lívida e se agarrou fortemente em meu braço para não cair... Não, aquele farrapo não podia ser Jesus... Os soldados o arrastavam, sustentando-o por debaixo dos braços... e o largaram no meio do pátio. Todos nos calamos diante daquela figura encurvada, com o chapéu de espinhos na cabeça e um manto vermelho sobre o corpo desnudo e empapado de sangue... Jesus, que mal podia se manter em pé, tentou levantar os olhos, mas não conseguiu... Foi Pôncio Pilatos que se aproximou dele e com a ponta da espada encostada em seu queixo, levantou sua a cabeça para que todos nós pudéssemos reconhecer o prisioneiro... Pilatos: Este é o homem!... Aqui está ele, e lhes dou de presente... Façam com essa pelanca o que bem quiserem e não me amolem mais! Então empurrou brutalmente Jesus para a turba que se aglomerava junto aos portões de ferro... Levantou-se então uma gritaria ensurdecedora... Nós, os de trás, tentamos pular a barreira dos soldados, vociferando e empurrando para abrirmos passagem e resgatar Jesus... Mas não pudemos chegar até lá... Então, a claque das primeiras filas, como as feras quando farejam sangue, se lançaram sobre ele e o empurraram novamente para o Lajeado... Claque: Crucifica-o, crucifica-o!! Jesus escorregou sobre as pedras molhadas do pátio, caiu no chão, e ficou como um cachorro surrado, deixando ver as costas, uma massa de carne destroçada, de onde afloravam algumas costelas... Claque: Crucifica-o, crucifica-o!! Como o alvoroço crescia, a tropa romana apertou os escudos e levantou as lanças, esperando a ordem do governador... Judas: Vão matar Jesus... mas antes eu degolarei uma dúzia desses canalhas...! Pouco depois de deixar o casebre do líder zelota, Judas, tremendo de raiva, saiu correndo em direção ao palácio do sumo sacerdote Caifás, procurando o comandante da guarda do Templo... Comandante: Estávamos esperando você, loirinho. E então? Veio buscar as outras trinta moedas? Judas: Não, vim devolver estas... Judas lançou no chão os siclos de prata e puxou o punhal de debaixo da túnica... Judas: ... e também matá-los! Lançou-se sobre o comandante da guarda... Estava enlouquecido e não sabia o que fazia... Depois de forcejar uns instantes, o comandante lhe arrancou o punhal e o atirou a bofetadas pela porta... Comandante: Suma daqui, imbecil!... Agora vem você com remorsos, heim?... O passarinho já está na gaiola... O resto é problema seu! Os soldados romanos, com as lanças e porretes, conseguiram conter a avalanche de gente que empurrava por trás, lutando para entrar no pátio ladrilhado... Pôncio Pilatos ia de uma ponta à outra do tribunal, cada vez mais irritado com aquela situação... Os da frente, um grupinho comprado pelos sacerdotes e magistrados, ficou frente à frente com o governador... Um homem: Este homem é um blasfemo, deve morrer! Claque: Crucifica-o, crucifica-o!! Uma mulher: Ele zombou do Templo! Outro homem: Ele se fez chamar rei dos judeus! Pilatos: Pois se ele é rei de vocês, podem levá-lo e deixem-me em paz! Uma mulher: Nosso rei é o César de Roma! Se você soltar este aí, vai provocar uma confusão com Roma! Claque: Crucifica-o, crucifica-o! Pilatos: Já chega, filhos de uma cadela, já chega!! O governador Pilatos dobrou com violência o chicote que tinha nas mãos e olhou colericamente a multidão... Pilatos: Irá para a cruz, sim, irá para a cruz e que os infernos o engulam de uma vez e vocês todos também! Em meio àquele turbilhão de gritos e maldições, Pôncio Pilatos subiu ao estrado e sentou-se em sua poltrona do tribunal. No alto do espaldar, a figura da águia romana, brilhante e dourada, estendia suas asas... Pilatos: Escriba, traga-me imediatamente a lousa! O escriba se aproximou. O governador a marcou com o selo de seu anel e a devolveu. Então o escriba fez um sinal ao pregoeiro e o pregoeiro, subindo num banco de pedra, leu em voz alta a sentença... Pregoeiro: O governador da Judéia, representante nesta província do imperador Tibério, condena à morte este rebelde chamado Jesus, pelo grave delito de conspiração contra a autoridade romana. Eu, Pôncio Pilatos, assino, nesta cidade de Jerusalém, hoje, sexta-feira, 14 do mês de Nisan.” Quando ia correndo em direção da Torre Antônia, Judas, de Kariot, ficou sabendo da sentença. Também lhe disseram que Jesus havia sido destroçado pelos açoites. Sentiu que a terra se abria debaixo de seus pés. Não se atreveu a chegar até à fortaleza... Saiu correndo pelas ruas molhadas e foi para fora da cidade... Cruzou a ponte do Cedron... Chegou mancando ao horto onde umas horas antes havia visto Jesus pela última vez e onde o havia entregue aos guardas do Templo... Judas: Por que tudo saiu ao contrário?... Por que?... Jesus, companheiro, perdoe-me... Perdoe-me e deixe-me ir na frente... Ninguém viu o pranto de Judas. Ninguém estava com ele quando tirou da cintura a corda com que cingia sua túnica, trepou em uma oliveira, amarrou-a em um dos galhos retorcidos e fazendo um nó, passou-o pelo pescoço... Judas: Deus!... Deus!... Se tu és Pai, como Jesus dizia, tu saberás compreender-me...! Não disse mais nada. Pulou e enforcou-se... Ainda levava amarrado ao pescoço o lenço amarelo que havia ganho de presente de um neto dos macabeus... Enquanto isso, na Torre Antônia... Cláudia: Mas, Pôncio, pelos deuses, o que você fez? Pilatos: O que tinha de fazer. Condená-lo à morte! Cláudia: Eu lhe disse para não manchar as mãos no sangue deste homem. Pilatos: Não diga isso para mim. Vai dizê-lo para os que estão lá fora, gritando. Cláudio: Você assinou outras sentenças? Pilatos: Sim, de mais dois. Um tal Gestas, conspirador. E outro chamado Dimas, também metido em política. Com a do nazareno, foram três. Cláudia: Não devia ter assinado a do nazareno... Espere aí, Pôncio, por favor, não se mexa... Cláudia Prócula, a esposa do governador romano, foi buscar de pressa um jarro com água e uma bacia... Pilatos: Para quê isso agora? Cláudia: Para conjurar o sangue... Venha, lave as mãos... e que os deuses nos protejam! Pilatos: Ao diabo com os deuses e com os seus medos! Cláudia: O sangue traz azar, Pôncio. Pilatos: Não, Cláudia. O sangue traz sangue... e mais sangue. Só isso. Em baixo, no pátio, um cordão de soldados empurrava para trás os que continuavam protestando e lançando maldições contra o governador Pilatos. O centurião deu ordem e trouxeram dos calabouços os outros sentenciados, Dimas e Gestas, dois jovens zelotas que também iam ser crucificados naquela manhã. Os verdugos já tinham preparado os três grossos troncos que serviriam para o último tormento. Não havia nenhuma majestade em Jesus quando Pilatos o mostrou à multidão que continuava reclamando sua libertação. Não era mais que um farrapo. Era o servo fiel de que falara Isaias centenas de anos antes (Is 53, 1-3). E, no entanto, apesar de não ser mais que um despojo fracassado, para os crentes “este é o homem”. Por sua fidelidade a Deus e a seus irmãos, por seu compromisso com a vida e a justiça até às últimas conseqüências, este é o homem. Por mais que se tenha lavado as mãos, Pilatos é o último responsável pela morte de Jesus, o maior responsável jurídico daquela sentença, já que sem sua aprovação a decisão do Sinédrio não teria tido qualquer validade. Assim consta na história, tal como ficou fixado na fórmula do Credo: “Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos...” Outros culpados levaram Jesus diante do governador romano: os sacerdotes e fariseus que não só o condenaram por motivos “religiosos”, mas porque de modo igual ao que acontecia com Roma, aquele homem punha em perigo todo o seu sistema. Assim Jesus foi morto como réu político, acusado de subversão contra o império romano. E foi justiçado com o tormento reservado aos zelotas e aos escravos rebeldes: a cruz. Sobre suas costas pesava ainda a acusação dos sacerdotes que o enviaram à morte como “maldito” de Deus e rebelde diante da Lei. Não foi o povo judeu que matou Jesus. Esta falsa idéia calou durante séculos na mente dos cristãos, fez-se quase um dogma e desgraçadamente trouxe horrorosas conseqüências para os judeus de todos os tempos: discriminações, ódios, perseguições, guetos. O povo de Israel – o povo do qual nasceram Jesus, Maria, Pedro, João e todos os homens e mulheres que protagonizaram as páginas da Bíblia – foi um povo como qualquer outro, com virtudes e com defeitos. Profundamente fiel a Deus e às suas tradições. O povo não poderia ser responsável pela morte do seu profeta. Foram os dirigentes, os poderosos sacerdotes do Templo aliados com o império romano, os únicos culpados. Por isso, todo anti-semitismo (anti-judaismo) baseado na horrenda “maldade” deste povo que “matou Deus” é fruto da ignorância, além de uma injustiça histórica. O suicídio de Judas é o único suicídio relatado no Novo Testamento e praticamente em toda a Bíblia (há outro caso único no Antigo Testamento). Neste episódio, o suicídio está colocado em coerência com as razões que segundo o relato teve Judas para entregar Jesus. O desespero de Judas deve ter sido terrível ao compreender que não havia nenhuma insurreição popular, que Jesus iria morrer e com ele o projeto do Reino de Deus no qual haviam trabalhado juntos. Não é difícil imaginar os sentimentos de Judas naquela hora em que toda a cidade vivia um autêntico estado de agitação. E ele era o “responsável” imediato de tudo aquilo. Vergonha diante de seus companheiros, dor por Jesus, raiva contra si mesmo, desespero diante de Deus, desprezo por seus camaradas zelotas... Judas se viu apanhado e pensou que sua única saída era a morte. Para lavar sua falta e para descansar daquele enorme peso que o agoniava. É um suicídio que tem muito de desejo de expiação e de fuga. Por isso, inspira compreensão e respeito. A figura de Judas tem sido usada como bode expiatório a tal ponto que o fazer recair todas as maldades havidas e por haver, que se chega a dizer que se de alguém se pode afirmar com certeza que está no inferno, é dele. A base para isso se encontra na frase que Jesus lhe dirige na ceia (Mt 26, 24). Mas esta interpretação não tem fundamento. Parece muito provável que essa frase não passe de um acréscimo em forma de dramática advertência às comunidades que Mateus e Marcos incorporaram ao seu evangelho, pondo-a na boca de Jesus para dar-lhe mais autoridade e relacionando-a com Judas para que tivesse um marco histórico. Tratar-se-ia de uma advertência para que os membros das primeiras comunidades cristãs não traíssem seus companheiros. Eram tempos de clandestinidade e de duríssimas perseguições contra os cristãos. Às vezes ocorriam delações e qualquer descuido poderia ser causa de morte para alguém da comunidade. A frase, pois, enuncia um princípio geral a ser lido, não como um “inferno” para esse Judas individual, mas como uma norma coletiva para todos: mais vale não ter nascido para a comunidade cristã se ao final você vai trair seus irmãos. (Mt 27, 3-5 e 15-26; Mc 15, 6-15; Lc 23, 13-25; Jo 18, 39-40; 19, 4-16)
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