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Capítulo VII SOB O SOL DO DESERTO Naquela manhã, bem cedo, vi Jesus sair da tenda onde nós, galileus, dormíamos; tomou seu bastão e se pôs a andar sozinho, afastando-se do rio, em direção ao deserto de Judá. Em pouco tempo, desapareceu num redemoinho de areia...
Jesus: O que queres, Senhor?... Que esperas de mim?... O que me pedes?... Fala-me claramente para que eu possa vencer o medo e responder-te!... Fala-me, Senhor!...
Porém, eram outras as vozes que escutava em seu interior... Voz de Maria: O que é que você quer, Jesus? Passa um ano, passa outro e você não se decide por nada. Preste atenção no que lhe digo: esquece os sonhos e seja realista. Você tem trinta anos. Já é hora de pôr os pés no chão... Voz do Taberneiro: Ah, que homens mais malucos! Sonhando com profetas e sinais de Deus, podendo ficar por aqui e aproveitar a vida! Você, nazareno, não se anima? Tenho um vinho muito bom e mulheres que estão... Hum... Lá no seu povoado não tem nada disso... Voz de Pedro: Estou falando sério, Jesus... Todos nós podemos ser o Messias. Por que não? João não disse que ele está entre nós? Pois então, ele pode ser este careca, ou aquele magricela ou... ou você mesmo, Jesus. Você mesmo pode ser o Libertador de Israel!... Você mesmo pode ser o Libertador de Israel!... Jesus caminhou e caminhou através do deserto. Subia e descia as colinas, circundava as grandes montanhas e, quando chegava a noite, caía na areia, com o rosto voltado para o céu, como que esperando uma resposta... Jesus: Que queres de mim, Senhor?... O que posso fazer pelo meu povo?... João é um profeta, sabe falar... mas eu... Quantos dias se passaram?... Para que lado ficava o povoado mais próximo?... A fome e a sede foram se apoderando dele. Nada, nem uma erva, nem uma gota de água se via em qualquer parte... Jesus, com os olhos secos e arroxeados, sentou-se sobre uma pedra. O sol fervia sobre sua cabeça e sentiu uma tontura. Depois não se lembrou de mais nada. Rolou sobre a areia e se perdeu num profundo sono... Tentador: Pshss!... Pshss!... Pobre rapaz! Quem será esse que teve a coragem de vir para o deserto assim, sem comida e sem camelo? No deserto só vivem escaravelhos e lagartos... Jesus: Quem é você? Tentador: O que isso importa?... Digamos que eu sou um sonho... Jesus: Bah, então você não me serve para nada. Tentador: Não creia nisso. Às vezes os sonhos são mais reais que a própria realidade... Pobre rapaz. Está tonto de fome e de cansaço... Eu o ajudarei. Mas primeiro você tem de me falar francamente: o que você veio procurar aqui? Jesus: Procuro Deus. Preciso que Deus me fale e me mostre o caminho que devo seguir. Tentador: No deserto não há muitos caminhos. E na vida muito menos. Qualquer um faz seu caminho com um pouco de sorte e outro pouco de ambição. Eu posso ajudá-lo, Jesus de Nazaré. Jesus: Como você sabe meu nome? Tentador: Por aqui passam tão poucos visitantes que qualquer um logo fica sabendo quem é quem... Jesus: E você, como se chama? Tentador: Não se preocupe com isso... Escute: posso lhe dar um bom conselho. Escute-me: você nunca ouviu dizer que os gatos têm sete vidas e os crocodilos quatro? E você, você que é um pobre homem, quantas vidas você tem, infeliz? Jesus: Uma... Uma só, suponho. Tentador: Pois desfrute essa vida, amigo!... Você não andava procurando um caminho? Esse é o caminho que segue a maioria dos homens e das mulheres e... E eles acham muito bom. Jesus: Que devo fazer para desfrutar a vida? Tentador: Primeiro, não pensar muito. O pensamento é a mãe da tristeza. Jesus: Isso é fácil de falar, mas... E nosso povo? E tantas injustiças que é preciso reparar? Como posso deixar de pensar nessas coisas? Tentador: Bah, idealismos de juventude. O mundo continuará igual, com você ou sem você. Passarão dois mil anos e os pobres continuarão pobres, e os ricos, ricos. E os abusos que se cometeram ontem, se repetirão amanhã. Jesus: Talvez você tenha razão, mas... Tentador: Escute-me, Jesus de Nazaré. Olhe essas pedras... Imagine que essa pedra fosse um pão, um saboroso pão recém-saído do forno... Ah, meu bom amigo: comer é a primeira regra para desfrutar a vida. Jesus: Mas não só de pão vive o homem... Tentador: Claro que não! Boa comida para o estômago, bom vinho para a garganta e, boas mulheres para a cama! Jesus: E a palavra de Deus? O homem também vive da palavra de Deus. Tentador: Uff, esqueça-se de Deus. Ele tem seus problemas lá no céu e você tem os seus aqui na terra. Sabe o que você precisa? Dinheiro!... O dinheiro, amigo, é a chave da felicidade. Com dinheiro você pode comprar tudo. Preste atenção: consiga dinheiro, muito dinheiro e você terá uma vida cômoda e feliz. Jesus: Mas, onde vou encontrar esse tesouro de moedas? Não é fácil chegar a ser rico. Tentador: Pra você é. Você leva jeito para os negócios. Estou certo de que se você se mudar para Jerusalém e começar, por exemplo, com uma pequena casa de empréstimos... ou um comércio de púrpura... Você progredirá, rapaz. Você poderá transformar pedras em pão! e o pão em dinheiro! e o dinheiro em tudo o que quiser! Desfrute a vida e não pense!...Vamos, decida-se... O que você está esperando? Jesus: Não sei, mas... Eu procuro outra coisa... Dinheiro, luxos, segurança... E depois? Tentador: Eu já imaginava isso, rapaz. Você não é como todo mundo que se conforma em fazer o que todos fazem. Todos querem dinheiro. Todos querem gozar a vida. Você quer algo mais!... Você quer dominar a vida! Conduzir você o leme do barco, não é isso? Jesus: Não estou entendendo. Tentador: Venha, dê-me a mão e me acompanhe... Jesus: Para onde está me levando? Tentador: Olhe, observe daqui desta montanha. Daqui você pode escolher bem. Olhe todos os reinos e os governos desse mundo: Jerusalém, Egito, Babilônia... Atenas... Roma... De qual você gosta mais? Qual você prefere? Jesus: Mas, do que é que você está falando? Tentador: Que se você quiser, poderá chegar a ser o dono de qualquer um desses impérios... Ou, se for mais ambicioso, como Alexandre o Grande, de todos juntos. Jesus: Mas isso é impossível. Eu... Eu sou um camponês de sandálias gastas... Não tenho nem quatro palmos de terra que sejam meus e você me fala de ser dono de... Tentador: Tudo é questão de se propor. Pouco a pouco, você irá subindo na escala do poder. Convença-se, rapaz: a política é a arte de pisar na cabeça de quem está no degrau de baixo. Jesus: Precisamente, esse é que sou eu: estou no degrau mais baixo. Em quem posso pisar? O que teria de fazer para ir subindo? Tentador: Eu o ajudarei. Confie em mim. Jesus: Mas, quem é você? Diga, por favor. Tentador: Eu sou a ambição de poder que você leva escondida em sua alma, Jesus. Você não se conforma com dinheiro e luxo porque você quer governar e ter poder sobre os outros homens. E é natural. Já lhe disse que homens como você não se contentam só em desfrutar a vida. Querem ter as rédeas nas mãos... Olhe!... Aquele vai armar uma guerra com seu vizinho. E ganhará, não duvide, porque é ambicioso. Ele já tem centenas de milhares debaixo de seus pés e de seu chicote. E terá muitos mais. Todos o obedecem. Todos estão a seu serviço. Jesus: Não sei, mas... Eu prefiro servir e não ser servido. Tentador: Você é um sonhador, Jesus. Vamos ver: diga-me, a quem você quer servir? Jesus: Não sei... Servir a Deus... Servir a meu povo Israel... Tentador: Ah, estou entendendo, como não pensei nisso antes?!... Sua soberba é maior do que eu suspeitava. Falemos francamente, Jesus de Nazaré: você quer ser o Messias que todos os judeus esperam desde muitos séculos... Sim, não precisa fazer essa cara... Você sabe muito bem do que estou falando. O dinheiro é vulgar. O poder também é aborrecido, reconheço. Você quer algo especial. Você quer ser o Messias de Israel, o Salvador do Mundo. Que falem de você pelos séculos dos séculos, que se escrevam bibliotecas inteiras contando suas palavras, ter muitos seguidores, uma organização poderosa, com dinheiro e com influência, é lógico... Jesus: Como você pode falar assim? Eu nunca pensei nada disso... Tentador: Venha, o que está faltando para começar sua carreira é um bom golpe de efeito, entende?... Vamos a Jerusalém, ao templo, no ponto mais alto das muralhas... Jesus: Deixe-me, não quero ir... Deixe-me!... Tentador: Olhe... 400 côvados de altura!... Olhe lá pra baixo... Veja esse rebanho humano... Todos se reuniram para ver o milagre. Jesus: Que milagre? Tentador: O seu! Feche os olhos e jogue-se daqui de cima!... Jesus: Você está louco! Eu me mataria! Tentador: Nada disso! Eu estarei lá em baixo e não permitirei que seus pés sequer esbarrem numa pedra. Confie em mim. Jesus: Mas, o que é que eu ganho com isso? Tentador: Este será o primeiro milagre. Logo virão outros maiores. As pessoas o aplaudirão. E você dirá: a quem procuram? O Messias Libertador? Sou eu! E todos se ajoelharão diante de você e você será grande, sua fama encherá o mundo! Jesus: Mas... Tentador: Nada de “mas”. Pare de pensar. Não está ouvindo as pessoas que o esperam? Tentador: Vamos, atire-se já desta muralha! Eu cuidarei do resto! Jesus: Espere... Não sei... Isto é tentar a Deus. Não se deve tentar a Deus. Tentador: Deus! Deus! Deixe Deus tranquilo, imbecil! Jesus: Deixe-me você tranquilo também! Vai embora!... Vai embora!... Tentador: Que pena você me dá, Jesus de Nazaré. Você está indo por um mau caminho, rapaz. Está bem, cabeça dura. Você vai se arrepender por não ter me ouvido. Voltaremos a nos encontrar. Até mais ver! Jesus: Espere, diga-me quem é você... Quem é você?... Como se chama?... Cameleiro: Eu me chamo Nasim. Sou samaritano e faço esta rota do deserto para ir até Jericó... Um velho cameleiro passava por aquele lugar e, ao ver Jesus estirado na areia, se aproximou para ajudá-lo... Cameleiro: Como você se chama, heim?... Perdeu seu camelo?... Os bandidos o assaltaram?... Ai, irmão este deserto é traiçoeiro... Até os demônios tremem quando têm de atravessá-lo. Você estava gritando muito... Eu cheguei perto para ver o que acontecia... Venha, suba... Uff! Agora sim... Você está meio morto, irmão... Ande, beba este leite de cabra... Vamos que ainda nos falta um bom pedaço até Jericó... Eia, camelo, vamos cameloooo!... Quantos dias esteve Jesus naquelas montanhas cinzentas e peladas? Não podia saber. No deserto, durante quarenta anos, Deus pôs à prova seu povo e permitiu que fosse tentado. Também o profeta Elias atravessou o deserto e durante quarenta dias e quarenta noites buscou o rosto de Deus. E João o Batista havia aprendido a gritar naquelas solidões que o Libertador de Israel já se aproximava. Assim como a Galileia, a região norte de Israel é fértil e sempre verde, a Judeia, a região sul, é zona seca, de escassa vegetação e, em alguns lugares, de autêntico deserto. Nessas terras desabitadas, às quais Jesus se dirige, não cresce mais que espinhos e abrolhos. Quase não chove e só passam caravanas de camelos. Na atualidade, pode-se ver, perto da cidade de Jericó, em pleno deserto da Judeia, o chamado Monte das Tentações, onde a tradição cristã fixou desde muitos séculos, o lugar onde Jesus havia sido tentado. Na encosta desse monte, vivem alguns monges ortodoxos num velho mosteiro. O povo de Israel acreditava que o deserto era terreno amaldiçoado por Deus e, por isso, era estéril. Ali só podiam viver animais selvagens e demônios. Tudo isso fazia com que o deserto fosse considerado um lugar extremamente perigoso, onde o homem era posto à prova e podia sucumbir à tentação. Mas o deserto não era unicamente um lugar terrível. A longa peregrinação dos israelitas pelo deserto ao longo de quarenta anos até chegar à terra prometida, fez com que a tradição de Israel o considerasse também como lugar privilegiado para se encontrar com Deus e para conhecer melhor seus planos na solidão e no risco. Entre esses dois sentidos, de enfrentamento com o mal e de revelação de Deus, é que se move o texto das tentações de Jesus que os evangelistas nos oferecem. O relato evangélico das tentações não deve ser lido como uma narração histórica, mas como um resumo teológico dos desafios que Jesus, como Servo de Iahweh, teve de superar ao longo de toda sua vida para ser fiel até o fim: a tentação da segurança, da vida sem risco, do buscar o próprio proveito; tentação do poder-dinheiro com o qual se pode subjugar os demais; a tentação de um Messias que busca ser servido em vez de servir. Jesus, como todo homem que leva a sério um compromisso, teve de experimentar fraquezas e teve de escolher em muitas ocasiões o caminho da generosidade. Renovou continuamente sua própria vocação. E, ao fazê-lo, superou uma tentação que os evangelhos nos contam esquematicamente em três momentos. A chave para entender o relato das tentações está nas três frases com que Jesus responde ao Tentador. As três aparecem na narração da peregrinação do povo hebreu pelo deserto (Dt 8,3; 6,16; 6,13). O que Deus pediu a seu povo em marcha pelo deserto para comprovar sua fidelidade, se renova em Jesus. Jesus suporta as mesmas tentações que há séculos o povo havia suportado. Nesse tempo Israel falhou com Deus, caiu na tentação da desconfiança, da acumulação e da prepotência. Jesus, porém, se manteve fiel. Na sua história pessoal, se resgata e chega à plenitude a história coletiva de seu povo. A cultura e o estilo literário do tempo de Jesus obrigavam a usar nesses relatos a figura de um Tentador exterior à pessoa tentada. Assim, aparece o demônio como interlocutor de Jesus. A Bíblia menciona frequentemente o demônio sob diversos nomes: O Adversário, Lúcifer, Satanás, Belzebu, etc... É preciso ter um grande cuidado e saber descobrir em cada ocasião o que quer dizer o relator ao recorrer a este personagem. (Mateus, 4,1-11; Marcos 1,12-13; Lucas 4,1-13)
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