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Capítulo LXIX Prisão, interrogatórios,torturas e julgamentos 1. Era madrugada da sexta-feira 14 de Nisan. Jerusalém dormia recendendo sangue de cordeiro, bebedeira de vinho e festa. Nós também dormíamos, esparramados entre as oliveiras do Getsêmani, sonhando em viajar o quanto antes para a Galiléia e esconder-nos lá, em nossa terra... Só Jesus se mantinha acordado. Com a cabeça baixa, afundada entre suas mãos calosas, via passar as horas e rezava... Do Getsêmani até o Calvário, Jesus se verá enfrentando não a fatalidade de seu destino, mas uma série de circunstâncias dolorosas diante das quais porá às claras a qualidade de sua vida e de seu compromisso. Passo a passo, a cada momento, Jesus tentará descobrir o sentido do que acontece para permanecer fiel a Deus e à sua missão. Em nenhum momento de sua paixão Jesus deixou de decidir, de escolher suas palavras e sua atuação. Foi livre. Toda a paixão manifestará sua coragem e sua retidão. Os levitas (clérigos de classe inferior aos sacerdotes) desempenhavam diferentes funções no templo. Entre elas, a de policiais. São estas as tropas que vão prender Jesus no Getsêmani. Esses levitas-policiais patrulhavam o templo para que ninguém passasse além do lugar que lhe correspondia por sua categoria. De noite, montavam guarda em 21 postos situados nas portas e na esplanada. Esta polícia ficava à disposição do Sinédrio (aristocracia sacerdotal), que podia encarregá-la de missões especiais – como esta de prender Jesus. De fato, todos os serviços de segurança da província da Judéia recaíam sobre as autoridades de Jerusalém e sobre esta polícia que estava às suas ordens. À frente da tropa de policiais do Templo estava um comandante ou guarda superior. No horto os discípulos praticaram resistência armada para que Jesus não fosse detido. Saíram já da casa onde celebraram a ceia com um par de espadas e o evangelho anota que Pedro feriu um dos soldados. Muitos dos discípulos tinham, com toda a certeza, raízes zelotas e provavelmente portariam armas. Mas Jesus não os apóia neste caminho. No Getsêmani sua opção foi a de não-violência. Não se deve interpretar simplistamente que os discípulos fugiram por covardia. Tentariam ganhar tempo, entender o que havia acontecido, procurar uma solução, pedir ajuda. Deve ter sido um momento de grande desconcerto para todos. Para Jesus e para seu grupo. (Mt 26, 45-56; Mc 14, 41-52; Lc 22, 47-53; Jo 18, 1-11) 2. Quando prenderam Jesus no horto de Getsêmani. Jerusalém ainda dormia sem saber o que havia acontecido. Por maior precaução, os soldados, com as espadas desembainhadas e algumas tochas acesas, rodearam as muralhas da cidade pelo vale da Geena e entraram pela porta dos Essênios. Bem perto dali o sumo sacerdote Caifás tinha seu palácio... Os palácios do que havia sido sumo sacerdote, Anás, e do que era aquele ano, José Caifás, ficavam muito próximos um do outro, no bairro alto da cidade. Eram edifícios luxuosíssimos, tanto por fora quanto no seu interior. Neles serviam uma multidão de escravos, criados e funcionários. No palácio de Caifás havia salões suficientemente amplos para celebrar ali sessões extraordinárias do Sinédrio, sem precisar transladar-se para as dependências do Templo. Anás havia sido sumo sacerdote durante nove anos (do 6 ao 15 depois de Jesus). Foi nomeado a este cargo por Quirino, o governador romano da província da Síria. Anás chegou a ter tanta influência que, depois dele, cinco de seus filhos foram sumo sacerdotes e, depois deles, seu genro José Caifás. Sua ambição de poder, sua cobiça e suas fabulosas riquezas eram conhecidas por todos. O negócio da venda de animais para os sacrifícios do Templo praticamente dependia dele e de sua família. Como chefe de uma poderosa linhagem sacerdotal era a personalidade judaica de maior poder no tempo de Jesus e, embora já não ocupasse o cargo, conservava – segundo os costumes de Israel – sua hierarquia e todos os privilégios correspondentes. Como o caso de Jesus não se tratasse em absoluto de um julgamento legal, a decisão de Anás era a de maior peso em toda aquela farsa jurídica. Jesus não se mostra “humilde” diante de Anás. Recusa-se ser interrogado como réu e não oferece “a outra face”, mas interpela o criado do sumo sacerdote que o agride, para que ele lhe dê uma explicação. Não pede nenhum tipo de desculpa, nem fica para trás. É preciso levar em conta que o enfrentamento será entre um leigo sem nenhuma autoridade e o Sumo Pontífice daquele tempo. A liberdade de Jesus diante do poder religioso é total. Neste episódio põe-se na boca de Jesus as palavras do profeta Ezequiel denunciando, uns seiscentos anos antes, os maus pastores de Israel (Ez 34, 1-10). Maria, as mulheres e os discípulos não se renderam passivamente aos acontecimentos. Trataram de fazer alguma coisa, embora suas possibilidades, sobretudo num primeiro momento, não lhes pareciam muitas. Não devemos ver neles expectadores de um drama cujo desenlace já conheciam de antemão. Maria acompanhou Jesus ao longo de todas aquelas horas, mas com a esperança de que tudo poderia ser resolvido. Pedro não negou Jesus de uma maneira “fatal”. Como se por causa dos avisos que Jesus lhe havia dado durante a ceia, estivesse já “predestinado” àquela traição. Mas teve medo. Os fatos estavam se desenrolando de uma maneira inesperada. Pedro fraquejou. Suas três negações são, antes de tudo, um modelo, um arquétipo. É característico das narrações aramaicas dar à história três momentos para fazer ver que se trata de um acontecimento acabado, completo, definitivo, que chegou ao final. O elemento galo também tem um sentido especial. Os orientais consideravam que o galo era uma representação do poder das trevas porque agia sempre na escuridão, cantava quando ainda não havia luz. Quando Pedro se acovarda e nega Jesus, o canto do galo é um símbolo do drama que está se desenrolando em Jerusalém: o triunfo das trevas. (Mt 26, 69-75; Mc 14, 66-72; Lc 22, 54-65; Jo 18, 12-27) 3. O palácio do sumo sacerdote José Caifás, rodeado de guardas com lanças, não havia apagado suas luzes durante toda a noite. Jesus continuava detido na residência vizinha do velho Anás, esperando que os magistrados do Sinédrio se reunissem para começar o julgamento sumaríssimo contra ele. Os criados de Caifás iam e vinham pelo bairro de Sião avisando os 70 membros do Tribunal Supremo: haveria sessão extraordinária na madrugada daquela sexta-feira... Tiraram Jesus do Tribunal a tapas e empurrões. Os sinedritas cuspiam quando ele passava ao seu lado. Outros, tirando as sandálias, batiam com elas em seu rosto... O sumo sacerdote deu ordem para que nas 400 sinagogas de Jerusalém fosse lida essa mensagem: “Jesus de Nazaré, julgado pelo Sinédrio, foi excomungado da nossa fé: que todas as portas se fechem ao blasfemo”. Eram seis horas da manhã. Jerusalém despertava molhada pelas finas gotas de chuva que não paravam de cair desde as primeiras horas da madrugada. A luz acinzentada do amanhecer anunciava um dia triste. Durante a dominação grega, uns duzentos anos antes de Jesus, constituiu-se definitivamente em Jerusalém o Sinédrio, cuja origem situava-se a um par de séculos antes. Nos tempos do evangelho, sob a dominação romana, o Sinédrio era a principal representação política e religiosa do país diante do governador Pilatos. No sul, na Judéia, era onde o Grande Conselho tinha sua maior influência. O Sinédrio era também a suprema corte de justiça e a instância máxima para resolver os assuntos municipais de Jerusalém. Funcionava também como assembléia financeira na tomada de decisões econômicas ao nível nacional. O Sinédrio era composto de 70 membros, além do sumo sacerdote que o presidia. No tempo de Jesus havia três categorias de sinedritas: os sacerdotes, os escribas e os anciãos. No grupo sacerdotal estavam todos os que haviam exercido o cargo de sumo sacerdote e os membros mais destacados das quatro grandes famílias de Jerusalém. Constituíam uma espécie de Comissão Permanente que tomava decisões em todos os assuntos ordinários. O grupo dos escribas era composto por teólogos e juristas importantes do grupo fariseu, associação leiga. Os anciãos eram os chefes das famílias mais influentes e ricas de Jerusalém. O Sinédrio era, pois, o organismo que reunia as pessoas mais poderosas religiosa, política, ideológica e economicamente da capital do país. O lugar ordinário das reuniões do Sinédrio ficava a sudoeste do Templo na luxuosa e solene “sala das pedras talhadas”. Mas como todos os edifícios ficavam fechados durante a noite, Jesus foi levado ao palácio de Caifás, onde havia salões especiais para reuniões de urgência. Ainda sob a dominação romana, o Sinédrio havia conservado seu direito de sentenciar à morte, embora o poder romano tivesse que ratificar a condenação. A competência para esta pena de morte que os sinedritas podiam decretar limitava-se somente a matéria “religiosa”. Várias das acusações que pesavam sobre Jesus – o de estar “endemoniado” e fazer sinais de cura com poderes diabólicos, de blasfemar contra Deus, rebelar-se contra a Lei e as autoridades religiosas – estavam apenadas pelas leis do Sinédrio com a morte por apedrejamento. Os “falsos profetas”, segundo as leis judaicas, deviam morrer por estrangulamento. José “de Arimatéia” havia nascido numa cidade da Judéia que levava esse nome, forma grega do hebraico Rama. Os escritos da época indicam que era um rico proprietário, com terras compradas recentemente nas cercanias de Jerusalém. Pertencia ao grupo dos “anciãos” do Sinédrio. Na reunião daquela noite e junto com Nicodemos, magistrado do grupo dos fariseus, exigiu sem muito êxito que o julgamento fosse realizado de forma justa e legal. O processo a que Jesus foi submetido foi uma pura comédia. Nem a hora intempestiva, nem o dia (na solenidade da Páscoa) nem o procedimento de urgência possuíam desculpa jurídica válida. A sentença já estava dada antes de começar. Mas as autoridades quiseram revestir tudo de legalidade com justificativa perante o povo e perante os poucos dentre eles que tinham alguma simpatia por Jesus, a quem alguns no mínimo viam como um autêntico profeta e um líder amado pelo povo. Depois das acusações das falsas testemunhas encontradas pelo Sinédrio em seu afã de dar aparência de legalidade àquela farsa, Jesus será finalmente acusado pelo Grande Conselho como blasfemo. A blasfêmia em Israel era um pecado gravíssimo, que não se reduzia a dizer grosserias contra Deus, tal como é entendida hoje em dia. A blasfêmia compreendia o desprezo a Deus ou a seus representantes, o usurpar os direitos divinos, o relacionamento com pecadores que eram considerados malditos por Deus. No excesso de escrúpulos dos fariseus, inclusive era blasfêmia pronunciar o nome de Deus: Yahweh. A blasfêmia de que Jesus foi acusado foi a de se reconhecer como Filho de Deus. Esta afirmação não deve ser tomada como se Jesus revelasse um dogma sobre si mesmo. Não se trata de uma expressão ou formulação dogmática tal como hoje entendemos “Filho de Deus” (segunda pessoa da natureza divina, união hipostática etc.). Trata-se de uma afirmação messiânica, já que “Filho de Deus” era então um título bastante freqüente para designar alguém próximo à vontade de Deus e também um dos nomes com que se designava o Messias. Diante do supremo tribunal de sua pátria, Jesus se reconheceu como Messias, mensageiro de Deus, portador de uma boa e definitiva notícia para os homens e mulheres de seu povo. Para aquele tribunal composto de homens corrompidos pelo dinheiro e pelos privilégios, era blasfemo que um leigo tivesse a pretensão de ser o Libertador de Israel. A pena de morte imposta pelo código sinedrita por semelhante blasfêmia era a lapidação: morte por apedrejamento fora dos muros da cidade. No tempo de Jesus as autoridades religiosas haviam se arrogado o direito de excomungar qualquer israelita, separando-o transitória ou definitivamente da sinagoga (lugar de reunião religiosa da comunidade). Era o que se chamava de “anátema sinagogal”. O homem ou mulher assim excomungado não podia entrar na sinagoga nem rezar com a comunidade. O evangelho de João em duas ocasiões relata que os simpatizantes de Jesus eram ameaçados com este castigo (Jo 9, 22 e 12, 42). O próprio Jesus avisou seus companheiros de que eles seriam considerados hereges, seriam excomungados e inclusive assassinados, sendo o próprio Deus usado como justificativa (Jo 16, 2). (Mt 26, 57-68; Mc 14, 53-65; Lc 22, 66-71) 4. Era sexta-feira, 14 de Nisan. Um céu de chumbo cobria a cidade de Davi e uma garoa incômoda e contínua ia molhando tudo: os telhados dos palácios, as torres das muralhas, as pequenas cúpulas caiadas das casas dos pobres, os mármores do Templo e as vielas estreitas e com escadas por ponde corria nervosamente o esgoto... Quando os galos anunciaram o novo dia, triste e cinzento, Jerusalém despertou sobressaltada... O governador Pilatos enviou Jesus ao palácio de Herodes Antipas, tetrarca da província da Galiléia, que havia chegado a Jerusalém para as festas. Era cerca da hora tercia... As autoridades religiosas de Israel eram cúmplices do poder romano. Nos acontecimentos da paixão deixam claro até que nível estavam atados de pés e mãos aos invasores de seu país. No entanto, pretendem continuar parecendo homens religiosos e cumpridores das leis de Deus. Por isso, Caifás fala a Pilatos de fora, sem entrar no palácio do governador. Se nos dias de Páscoa um israelita entrasse na casa de um pagão ficava contaminado e não podia celebrar a festa. Os sacerdotes eram muito ciosos desta norma, ao tempo em que não têm escrúpulos em assassinar um inocente. Seus ritos religiosos revelam-se assim, como uma casca oca. O Lajeado (“Lisóstrotos” em grego, “Gabbatá” em hebraico) era um amplo pátio situado no interior da Torre Antônia, onde ficavam os quartéis da guarnição romana responsável pela ordem em Jerusalém. Seu nome vem das grandes lajes que cobriam sua superfície, calculada em uns 2.500 metros quadrados. No evangelho, em vez de se falar de Torre Antônia, faz-se referência ao Pretório como lugar da residência de Pilatos quando estava em Jerusalém. Algumas investigações situam-no, não na Torre Antônia, mas em um dos palácios que Herodes tinha na capital e que emprestava ao governador durante as festas. No entanto, desde muitos séculos a tradição localizou o Lajeado no lugar onde esteve construída a Torre Antônia. Conserva-se um bom pedaço de laje deste tipo nos sótãos de um convento católico situado na chamada “via dolorosa” de Jerusalém. São lajes enormes, desgastadas pelo tempo, com inscrições de caracteres romanos gravadas à faca. Pilatos foi um homem cruel e ambicioso. De sua gestão como governador da Judéia (ano 26 a 36) há muitas menções dos historiadores. Agripa I o descreve como “inflexível, de caráter arbitrário e desapiedado”. Filon o acusa de “banalidade, roubos, ultrajes, ameaças, acumulação de execuções sem julgamento prévio, crueldade selvagem e incessante”. Há também muitas menções do profundo desrespeito que sentia pelo povo israelita. Sejano, favorito do imperador Tibério, era quem de Roma apadrinhava Pilatos. Sejano também era um homem sanguinário e cabeça do movimento anti-judáico no império romano. Por isso tudo, não é exato historicamente fazer de Pôncio Pilatos um homem culto, embora brando, um intelectual covarde que – atropelado pelas circunstâncias – não teve outro remédio senão condenar Jesus à morte. Não, ele o sentenciou à cruz porque lhe convinha conservar seu posto, ameaçado de alguma forma por aquele homem. A destituição de Pilatos deveu-se, no ano 36, ao massacre que ordenou contra os samaritanos, ato de barbárie que lhe custou o posto. Acredita-se que pôs fim à vida suicidando-se. Jesus não se atemorizou diante de Pilatos. Da mesma forma que diante das autoridades religiosas, mostrou no julgamento político que era um homem livre. Até o fim foi fiel a algo que havia sido essencial durante toda sua atividade: a denúncia do poder. Não devemos interpretar as palavras de Jesus diante de Pilatos como uma tentativa de diálogo de igual para igual ou como uma conversa de mestre com seu discípulo curioso ou como um encontro de “políticos”que trocam seus opostos pontos de vista. Jesus não pactuou com Pilatos, deixou bem claro diante dele que só Deus tem autoridade. A frase que o evangelho de João põe nos lábios de Jesus nesta cena – “Meu reino não é deste mundo” – foi freqüentemente mal entendida. Estas palavras não querem dizer que o evangelho não tenha nada a ver com economia, política ou sociedade. “Mundo” no evangelho de João é uma palavra importante e característica. O “mundo” tem seus deuses: o dinheiro e a força. Tem seus métodos: a mentira, a exploração, as armas, a acumulação e lucro. Meu reino não é deste mundo significa, portanto: meu projeto, o projeto de Deus não tem nada a ver com “o mundo”. É outra coisa, é uma alternativa frente a ele. É vida e não morte. É compartilhar e não acumular. É servir e não se impor. Só o evangelho de Mateus fala da pressão da mulher de Pilatos para que seu marido soltasse Jesus (Mt 27,19). Reflete nisso o sentimento religioso do povo romano, muito supersticioso e dado a temores sagrados, a interpretação de sonhos, a oráculos etc. A inteireza de Jesus, sua contínua referência a Deus, chegaram a preocupar seriamente aquela mulher e mais tarde contagiaram até o próprio Pilatos, também supersticioso (Jo 19, 8). O fato de Pilatos lavar as mãos depois de decidir a sentença é mais um sinal de sua superstição, um sinal de irresponsabilidade e arbitrariedade como governante, que pretende desprender-se assim da injustiça que acaba de decretar. (Mt 27, 1-2 e 11-14; Mc 15, 1-5; Lc 23, 1-5; Jo 18, 28-38) 5. A notícia de que Jesus havia sido aprisionado e de que estava nas mãos do odiado governador romano Pôncio Pilatos atravessou muito rápida todos os bairros de Jerusalém. E os pobres da capital, os galileus vindos para as festas, os homens e mulheres de nosso povo, que tantas esperanças haviam posto em Jesus, se lançaram às ruas para reclamar a liberdade de seu profeta. Não parava de chover. O sol, muito pálido, não conseguia abrir espaço no céu cinzento e fechado daquela sexta-feira, 14 de Nisan. Herodes Antipas era o filho mais novo de Herodes, o Grande. Seu pai não tinha sangue judeu e isso fizera recair sobre aquele poderoso rei um sério complexo ao longo de toda sua vida, pois lhe abalava a autoridade diante de seus súditos. Herodes, o Grande, que morreu quatro anos depois do nascimento de Jesus, teve dez mulheres. Algumas delas sim, foram de famílias judias. É o caso de Maltaké, a mãe de Herodes Antipas. Isto permitiu ao jovem Herodes mostrar-se diante do povo como judeu de fato, esmerando-se em parecer como fiel cumpridor das leis religiosas. A cada ano, por ocasião da Páscoa, transladava-se para Jerusalém a fim de participar das festas com seus compatriotas. Nas moedas de seu reino Galileu nunca imprimiu sua própria imagem, pois isso indignava os israelitas piedosos. Procurava também interceder diante de Pilatos na defesa de alguns compatriotas, buscando assim ganhar simpatias entre seus súditos. Foi uma dessas defesas em favor de um grupo de israelitas rebeldes que inimizou Herodes Antipas com o governador romano Pôncio Pilatos. Para ferir de propósito os sentimos religiosos dos judeus, Pilatos fez desfilar em certa ocasião pelas ruas de Jerusalém estandartes imperiais com a imagem de Tibério César. E colocou no palácio de Herodes, o Grande, à vista de todos os cidadãos, os escudos do imperador. Aquilo foi uma grave ofensa aos judeus, que não toleravam representações de César, a quem os romanos veneravam como a um deus. O escândalo foi tão grande que, além das revoltas populares, enviou-se a César de Roma um texto de protesto assinado pelos judeus mais importantes do país, pedindo a destituição de Pilatos. Herodes Antipas foi um dos assinantes daquele texto e isso levou Pilatos a considerá-lo desde então como inimigo... A custosa construção do aqueduto que Pilatos ergueu em Jerusalém, utilizando para isso dinheiro do Templo, também foi motivo de inimizade com Herodes que, como homem que lutava para manter a aparência “religiosa”, não podia tolerar este sacrilégio. Todas essas altercações rancorosas se dissolveram por ocasião do julgamento contra Jesus, em cuja sentença ambos os governantes coincidiram. Para os dois, Jesus constituía um perigo e convinha aos dois que fosse assassinado o quanto antes. Herodes, o Grande, pai de Herodes Antipas, havia construído edifícios magníficos em Jerusalém. Foi ele que restaurou o Templo, terminado uns vinte anos antes do nascimento de Jesus (o primeiro Templo foi construído por Salomão e destruído uns quinhentos anos antes de Jesus). Construiu a Torre Antônia, um gigantesco teatro, um aqueduto, um enorme hipódromo – para corridas de cavalos e jogos de circo – um grande sepulcro para ele e sua família etc. Entre as construções se destacava seu próprio palácio, perto da muralha ocidental da capital, com três imensas torres que dominavam a cidade. A mais alta (45 metros) era a de Fasael (dedicada a um irmão de Herodes), outra de 40 metros levava o nome de Hípicus (um amigo do monarca) e a menor, de forma mais artística (27 metros), era a de Mariame, uma das esposas de Herodes, a que levou exclusivamente o título de “rainha” e a quem o próprio rei assassinou. Os alicerces destas três grandes torres do palácio de Herodes ainda se conservam. Este imponente palácio sobressaia entre todos os edifícios de Jerusalém. Herodes ia para lá durante as festas que se celebravam na capital e para lá Jesus foi conduzido para ser interrogado pelo rei da Galiléia. Pelo fato de Jesus ser natural da Galiléia, seu caso pertencia legalmente à jurisdição de Herodes. O interior daquele palácio era de um luxo impressionante. Estava abarrotado de obras de arte e era servido por numerosos escravos. Antipas, que teria uns cinqüenta anos neste momento, era um homem corrupto em todos os sentidos. Supersticioso, superficial e vicioso, carregava ainda o terror que sentiu por João Batista, a quem havia mandado matar. Nesta cena mostra toda sua baixeza e debilidade. Jesus não denunciou este homem com nenhuma palavra. Bastou seu silêncio para desqualificar absolutamente aquele rei a quem já havia chamado de “raposa”. Quando o povo de Jerusalém e os milhares de peregrinos – muitos deles galileus – que haviam ido à capital para as festas souberam que Jesus estava preso, manifestaram sua surpresa e possivelmente sua oposição àquela medida. Se os sacerdotes e as autoridades tardaram em se decidir a prender Jesus e uma vez preso o condenaram imediatamente – violando todas as leis – foi precisamente porque temiam o povo (Mc 14, 1-2). Esse mesmo povo que aparece neste episódio na rua, reclamando liberdade para Jesus. (Lc 23, 6-12) 6. Do palácio de Herodes, no bairro alto de Jerusalém, os soldados haviam voltado à torre Antônia trazendo Jesus bem guardado. Sem nos importar com os golpes recebidos na frente do palácio do rei Galileu, voltamos a nos juntar ao pé da fortaleza romana, pedindo aos gritos a liberdade de Jesus e dos que haviam sido presos também durante aqueles dias de festa... Naquela sexta-feira, apesar da chuva, a esplanada do Templo transbordava de peregrinos que compravam animais e os levavam a sacrificar no átrio dos sacerdotes. Os cordeiros, em fila, sem protestar, eram degolados um atrás do outro sobre a pedra do altar que já estava empapada de sangue... Mas muitos peregrinos, quando ouviram o alvoroço diante do quartel romano, deixaram o Templo e se uniram a nós para protestar... O centurião chamou um de seus verdugos e juntos empurraram Jesus para os calabouços da torre Antônia. Os soldados romanos chamavam aquele lugar de Inferno. Era um sótão úmido e escuro, que cheirava a sangue e escrementos, onde se torturava os presos. Sobre as paredes de pedra podiam-se ver as argolas, os grilhões, os ferrões para arrancar unhas e vazar olhos, as facas para castrar... A um canto, amontoados, os paus das cruzes e os torniquetes... No centro, o tronco para desconjuntar os membros e as colunas baixas para flagelar os detidos... Nos dias de festa, o Inferno ficava cheio. Uma fila de patriotas judeus esperava sua vez para serem açoitados e torturados. Muitos zelotas e jovens simpatizantes do movimento haviam morrido naquela masmorra depois das 39 chibatadas... O verdugo deixou Jesus quase nu e o empurrou sobre a coluna. Amarrou suas mãos e pés em uma argola cravada na base, de modo que todo o corpo, com a cabeça para baixo, acabava formando um arco sobre a pedra... Depois, retirou o flagelo da parede. Era um chicote com oito correias de couro, cada uma finalizada com uma bolinha de ferro do tamanho de uma amêndoa. As bolinhas tinham pequenos ganchos para desgrudar a carne das costas... Roma torturava seus prisioneiros. A morte de Jesus foi um assassinato decretado por um poder imperial. Não devemos ver em Jesus um réu que sofre sozinho ou o “homem que mais sofreu”, o único que passou por esse trago amargo. Milhares de israelitas foram crucificados e torturados antes dele e milharem o foram depois. Não foi o povo quem sugeriu ou pediu a libertação de Barrabás, dirigente zelota a quem as autoridades procuravam desde um bom tempo por sua participação em revoltas populares violentas. Inclusive é possível que durante os acontecimentos do domingo de Ramos no Templo, Barrabás e outros grupos revolucionários tenham aproveitado a confusão para usar armas e matar alguns soldados. Foram as autoridades religiosas, combinadas depois com uma claque comprada, quem quiseram com esse ato de “indulgência” de soltar um preso, revestir ainda mais de legalidades o processo contra Jesus. Fica bem claro nos evangelhos que quem pedia por Barrabás foram os sacerdotes e sua camarilha (Mc 15, 11; Jo 19, 6). Naquele momento, os chefes religiosos e as autoridades romanas preferem libertar um zelota com clara opção violenta do que Jesus. As leis judaicas permitiam flagelar os acusados. Usavam-se varas para este castigo e no tempo do evangelho era usual açoitar na própria sinagoga. Todos os doutores e magistrados tinham autorização para decretar esta pena. A violação, a calúnia, a transgressão da Lei eram motivo suficiente para sofrê-la. Posteriormente, as varas foram substituídas por um chicote de três correias. Os golpes não podiam passar de 40 – por isto, dava-se ordinariamente 30 – e a tradição indicava que devia-se açoitar 13 vezes sobre o peito desnudo e outras treze vezes sobre cada lado das costas. Os romanos popularizaram ainda mais esta tortura. Empregavam-na por vários motivos: para castigar os escravos rebeldes, por faltas graves cometidas pelos soldados em seu serviço militar, como tormento para arrancar confissões de seus prisioneiros e como prelúdio do tormento da cruz. Entre os romanos havia três tipos de flagelos. Um tinha três cordas nas quais se trançavam pedacinhos de osso. Os outros dois tinham as cordas com nós de espaço em espaço e, nas extremidades penduravam bolinhas de chumbo. Um desses flagelos, o de correias mais numerosas e largas, é que foi usado em Jesus. Embora fossem só 39 golpes, aquela era uma tortura realmente desumana, que causava a morte com muita freqüência. Na basílica do Santo Sepulcro de Jerusalém há uma pequena capela onde se conserva uma coluna das que eram usadas no tempo de Jesus para açoitar os prisioneiros, similar àquela na qual Jesus foi torturado. É de pedra preta, grossa e baixa, com argolas nas quais se amarrava o corpo desnudo e arqueado do prisioneiro. O silêncio de Jesus diante de seus torturadores não deve ser interpretado neste episódio como um silêncio passivo, de mansidão simplista, de “entrega” vazia de sentido a seus inimigos. Jesus está sim se entregando, mas por seus companheiros, para salvá-los. Seu silêncio é um calar solidário para não delatar ninguém, para não comprometer os seus. Ele não abriu a boca, segundo a bela imagem do Servo de Javé anunciado pelo profeta Isaias (Is 53, 3-7).Depois de tê-la aberto com tanta firmeza para denunciar os injustos, não o fez quando os demais corriam perigo de vida. Seu silêncio solidário o torna irmão dos milhares de homens e mulheres que na tortura souberam resistir inclusiva até à morte para não delatar seus companheiros de luta. (Mt 27, 26; Mc 15, 15; Jo 19, 1) 7. Jesus sentia em todo o corpo o latejar violento de sua cabeça atravessada pelos espinhos... Tinha o rosto banhado de sangue, que ia caindo lentamente pelo peito desnudo... Aquelas cruéis gargalhadas dos soldados golpeavam suas fontes como pedras lançadas de um poço escuro e sem fundo no qual se afundava, completamente só... O fedor dos escrementos sobre seu corpo se tornava insuportável... Abriu o olho que ainda estava são para olhar os soldados que continuavam fazendo-lhe troça... E chorou... Suas lágrimas, mais salgadas que seu sangue, rolaram pelas faces que estavam em carne viva... Sentiu que ia desmaiar e, com as últimas forças que lhe restavam, desejou a morte... Este não é um episódio terrificante. Não busca o sensacionalismo fácil, não é horror-ficção. Quase sempre ficamos tímidos ao tentar traduzir em palavras a dor de um homem ou uma mulher humilhados e desfeitos pela tortura. Jesus foi um desses homens. Sua integridade física, sua inteireza moral, sua própria fé sofreram golpes muito duros nos calabouços da Torre Antônia. Se Jesus nos precede no caminho, se por sua fé em meio à prova se tornou pioneiro dos que comprometem sua vida pela justiça (Hb 12, 2) foi também porque suportou a dor limite da tortura. Nos relatos da paixão, os evangelistas recorrem sempre a três momentos nos quais Jesus foi objeto de zombaria dos poderosos. Os levitas-policiais a serviço dos sacerdotes do Sinédrio brincaram com ele uma espécie de “cabra-cega”, pedindo-lhe que adivinhasse quem batia nele (Lc 22, 63-65). Num segundo momento é Herodes e sua corrupta corte quem zomba dele, jogando sobre seus ombros um manto branco, distintivo do rei da nação (Lc 22, 11). Por último a soldadesca romana humilha Jesus colocando-lhe um manto vermelho e uma coroa, símbolos reais da época, desde o tempo dos gregos. Nos ladrilhos que ainda hoje se conservam do Pátio Lajeado da Torre Antônia há algumas inscrições de grande interesse para entender o jogo que os soldados fizeram com Jesus durante sua prisão. Em um deles, rabiscado à faca, há um tabuleiro com casas. Conforme diversas investigações, parece que este jogo, que consistia basicamente em ir fazendo avançar fichas sobre essas casas até chegar a uma meta, tinha no final um prêmio para o vencedor: fazer-se de rei e impor provas aos perdedores. Chamava-se o jogo “do escorpião”, ou “do reizinho”. Os soldados usaram esse passatempo naquela ocasião e Jesus foi o seu humilhado reizinho. A corte da Torre Antônia era composta por homens que pertenciam às tropas auxiliares que Roma recrutava nas províncias que estavam sob seu domínio. Estas tropas eram diferentes das dos legionários, que participavam nas guerras e eram na sua totalidade compostas por cidadãos romanos. Na província da Judéia as tropas auxiliares eram integradas por estrangeiros de diferentes regiões da Palestina. Os que serviam na Torre Antônia eram majoritariamente recrutas das terras centrais da Samaria. Os judeus estavam isentos de prestar esse serviço militar ao invasor. A coorte era formada por gente de baixa extração, sem escrúpulos, soldados doutrinados por seus chefes para a repressão. Tudo é humilhante nesta cena. A única dignidade é dada pela resistência de Jesus, seu silêncio firme, seu espírito que não se dobra. O perdão ao inimigo, a não violência, o próprio mistério do pecado, tanto individual como estrutural (o mal que existe no coração do torturador, o mal que existe na estrutura que possibilita que haja homens assim), têm no marco da tortura uma significação muito especial. (Mt 27, 27-30; Mc 15, 16-19; Jo 19, 2-3)
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