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Capítulo LXVIII NO HORTO DE GETSÊMANI Naquela noite de quinta-feira 13 de Nisan, a mãe de Jesus e as mulheres ficaram na casa de Marcos, com as janela bem fechadas. Nossa ceia de Páscoa havia acabado precipitadamente. Nos pratos, sobre as esteiras de palha, ficaram alguns pedaços de cordeiro e nas jarras brilhava o vinho que não tivemos tempo de beber... Ao ficarmos sabendo do que Judas havia feito, saímos dali com pressa, escondendo-nos nas sombras... André: E vocês acham que esses bandidos vão se lembrar de nós...? Hip...! Pedro: Diabos, André, você bebeu demais... João: Pois olhe o Tomé, então... Pedro: Fecha o bico deles, Tiago!... Estamos botando nosso pescoço a prêmio! Marcos: Não corram, companheiros!... Sem formar grupo!... Vão se esgueirando pelas paredes! As ruas estavam escuras. Marcos, que ia à frente com Jesus e Pedro, guiava-nos pelo melhor caminho, para não levantar suspeitas. Deixamos para trás o bairro de Sião... As casas onde moravam os galileus ainda estavam acesas e os salmos da Páscoa chegavam até à rua... Saímos de Jerusalém pela porta do Vale e bordejamos as muralhas até à torrente do Cedron... Não havia uma nuvem sequer... A lua cheia, guardava a noite no meio do céu... Natanael: Será que estão nos seguindo, Felipe?... Estou com medo. Felipe: E eu também, Nata. Para ser sincero, não contava com isso... Natanael: Jesus disse que agora é quando Deus se colocará do nosso lado... Felipe: Deus ou os guardas, não sei quem chegará primeiro... Com passos cuidadosos atravessamos a pequena ponte sobre o Cedron... quase no sopé da encosta do monte das Oliveiras, ficava o horto de Getsêmani. Ali Marcos tinha um pedaço de terra que havia sido de seus avós... Entre aquelas velhas e retorcidas árvores, abrigados em algumas grutas, passaríamos escondidos a noite da Páscoa... Marcos: Companheiros, acho que aqui estaremos a salvo... E antes do cantar dos galos, pegaremos o caminho para o norte... Jesus: Marcos, eu já lhe disse: não penso em voltar à Galiléia. João: Pois se você ficar, Jesus, eu fico também... Pedro: O que é isso, João, não seja louco... João: Vá pros diabos, pedrada, eu acho que temos de ... Marcos: Chega. Agora não é momento para discutir isso. Olhe, moreno, você tem algumas horas para pensar direito no que vai fazer... João: Bom, eu ficarei de guarda. Estou com uma espada. Quem fica comigo?... Você, Pedro? Pedro: Eu, João. Aqui está outra espada. E você, Tiago, fique também para vigiar. Marcos: Isso, vocês três, de sentinelas... Não acho que aconteça nada, mas em todo caso... Os demais, vão dormir por aí entre as pedras, com um olho fechado e outro aberto. André: Não, não e não... Eu não vou dormir até que me digam onde Judas se meteu... É isso que eu quero saber...! Pedro: Demônios, magricela!... Cale essa boca de uma vez e vá dormir pra ver se esse vinho abaixa!... Desgraçado, onde estará o iscariote?... Isso é o que todos nós queremos saber... A essas horas, Judas estava em um destrambelhado casebre do bairro de Ofel, falando com um dos líderes zelotas... Zelota: O que está esperando, homem? Barrabás já está agindo, organizando o assalto para amanhã. Agora é com você. Vá até o Sinédrio e represente bem a comédia. É por aqui que temos de começar. O resto virá por si. Judas: Fazer isso me repugna. Zelota: Sabemos disso. Já disse setenta vezes. E nós acreditamos, homem. Mas é preciso que você pague esse preço para que estoure a revolução. Cada um tem sua parte. Você vai ver só quando amanhã Jerusalém acordar e souber que agarraram o nazareno... Será um grande dia! Não vamos parar até expulsar daqui os romanos... Judas: E enquanto isso, aos olhos de todos, eu serei o traidor... Zelota: O traidor?... Quando formos livres todos agradecerão pelo que você fez. Vamos, Judas, vá de uma vez falar com o chefe da guarda do Templo e diga-lhe que estão na casa de Marcos... Pedro, Tiago e eu montávamos guarda, com as espadas desembainhadas. A noite estava fresca. Bem perto de nós, escondidos entre as rochas, os outros tinham conseguido pegar no sono. Embrulhados em seus mantos, já roncavam. Sem túnica e enrolado num velho avental, Marcos dormia junto à casinha onde ficava a prensa de azeite... Jesus estava sentado sobre uma pedra, com a cabeça entre as mãos... Não quis se deitar... Os grilos eram as únicas vozes da noite... Jesus: ... Por que você fez isso, Judas?... Não entendo... Não cabe na minha cabeça... Tanto tempo juntos... Desde aquele dia em Nazaré, quando nos conhecemos... O trabalho de tantos meses, impulsionando o Reino de Deus... e agora isso!... Mas, o que aconteceu, Judas?... Que mal eu lhe fiz?... Nosso grupo prejudicou você?... Nós confiamos em você... por que você não confiou em nós?...Por que você nos falhou, companheiro? Por que fui deixar você sair da casa de Marcos? Por que não me pus no meio? Por que não o impedi de ir nos denunciar?... Maldição, por que?!... Comandante: Entre, amigo, estávamos esperando você. Você disse que esta noite... Judas: E cumpri o prometido. Sei onde ele está. Comandante: Está sozinho? Judas: Com um punhado de amigos. Comandante: Armados? Judas: Um par de espadas velhas. Comandante: Qual é o sinal para que meus homens não se enganem? Judas: Eu me aproximarei dele e o cumprimentarei com um beijo. Comandante: Está certo. Então, o combinado. Quando o nazareno estiver em nossas mãos, venha cobrar os 30 siclos que faltam. E se for um alarme falso, prepare seu pescoço, meu querido.. Judas: Não estou mentido. Vamos de uma vez. Comandante: Você à frente, iscariote. Vamos lá, todos os guardas a postos!... E Judas, de Kariot, saiu do pátio do palácio de Caifás ao lado do comandante da guarda do Templo. Seguia-os um pelotão de soldados com espadas e lanças. As tochas iluminavam as ruas já escuras do bairro de Sião... Lá, no Getsêmani, Tiago, Pedro e eu estávamos encostados no tronco de uma velha oliveira. A terra recendia, carregada da umidade da noite... Jesus se aproximou de nós e nos olhou com olhos assustados... Jesus: Ouviram este barulho...? João: Ahuummm... Que barulho, moreno? Jesus: Me pareceram passos... lá em baixo... Pedro: São passos de alguma raposa procurando sua toca. Sossegue, homem, neste horto estamos mais seguros que debaixo das asas dos querubins! João: Está se sentindo mal, Jesus? Você está pálido. Vamos, tire um cochilo. Nós ficamos de vigia... Jesus: Estou com medo, João. Sinto uma angústia... é como se uma mão me apertasse aqui e não me deixasse respirar... Pedro: Venha, moreno, sente-se aqui, converse um pouco. Conversando a gente espanta o medo. Jesus se pôs de cócoras junto a nós... Olhava-nos, não sei, como que pedindo ajuda... Mas os olhos de nós três estavam pesados de sono... Jesus: Vocês se lembram daquela noite, lá no norte, em Cesaréia? Era uma noite como esta... Eu tinha medo... Sentia que não iria suportar tanto peso... Vocês me animaram muito... Disseram-me que não iriam me deixar sozinho... que lutaríamos juntos, sempre em grupo... De fato, companheiros, vocês me animaram muito... Esta noite, estou precisando... não sei... precisando que me digam que tudo valeu a pena... que valeu a pena continuar lutando... João: Jesus, naquela noite você nos disse que... que... Tiago, Pedro e eu acabamos caindo no sono. As palavras do moreno se distanciavam de nós na escuridão e se perdiam no peso do sono... Então Jesus se afastou como que um tiro de pedra e se sentou sobre uma pedra. Para além do Cedron, Jerusalém brilhava, vestida de lua, completamente branca... Jesus: Péssima hora em que eu me meti nisso! Devia ter ficado em Nazaré... teria feito minha vida a meu modo... Uma casa... filhos... mulher, igual a todo mundo... O trabalho de cada dia... a pequena felicidade de cada dia... Minha mãe ficaria tranqüila, cuidando de seus netos... Em péssima hora fui ao Jordão e conheci João, o profeta, e me deixei batizar por ele...! Não, não foi João... foste tu, Senhor... tu é que estás por trás de tudo isso... Tu me atraíste... tu me agarraste e foste mais forte... Tu me seduziste... e eu me deixei seduzir... Puseste palavras em minha boca que ardiam como brasas... e eu queria apagá-las mas não conseguia... elas se colavam dentro de mim como fogo, que queimavam até os ossos... Em péssima hora pus a mão no arado!... Mas já é tarde demais para olhar para trás... Não, ainda há tempo. Tenho que escapar, fugir, ir embora daqui... Pedro e os outros irão amanhã mesmo para a Galiléia... Sim, é o melhor a fazer... Eu também irei com eles... Por que tenho que ficar aqui?... Regressarei para o norte, e me esconderei na aldeia... ou na montanha, ou debaixo das pedras se for preciso... Que se esqueçam de mim e eu me esquecerei de tudo o que passou... Sim, é o que vou fazer....! A essas horas, Judas, à frente da guarda, chegou à casa de Marcos... Judas: Maldição, não estão aqui! Aonde diabos terão ido? Maria: Judas, Judas, espere, não vá embora...! Judas! Ao sair para a rua... Judas: Para onde eles foram, velha...? Velha: Para aquele lado, meu filho, para o Cedron, mas eu... Judas: Ei, vocês, soldados, por aqui, venham por aqui! As oliveiras retorcidas projetavam suas sombras sobre a terra. Pelo oriente, apareceram umas nuvens que atravessam apressadamente o céu e logo ocultaram a luz leitosa da lua. As trevas cobriram o horto, a velha prensa de azeite, os corpos adormecidos... Ao longe, os piados dos pássaros da noite rasgaram o ar como avisos de sentinela... Não fazia frio, mas Jesus começou a tremer... Levantou-se da pedra em que estava sentado e veio outra vez em nossa direção... Mas, apesar do sono, senti seus passos vacilantes... Jesus: Pedro!... João!... Nossos olhos se abriram... mas voltaram a fechar-se... Estávamos rendidos de cansaço... Jesus se afastou e se perdeu entre as oliveiras... Jesus: Pai! Se minha hora tiver chegado, dá-me forças... Dá-me coragem para não responder com violência a violência deles... Se me levarem a juízo, que não me faltem palavras para denunciá-los no tribunal... Se me torturarem, que eu saiba calar para não delatar meus companheiros... Eles querem matar-me, Pai... mas eu não quero morrer... Ainda não! Ainda não! Não quero morrer, não quero, não quero...!! Dá-me tempo, Senhor... Preciso de tempo para terminar a obra começada!... Tenho que continuar abrindo os olhos do povo... continuar anunciando a boa notícia aos pobres... Nosso grupo está apenas começando a andar... não, não, eu não posso fraquejar agora, não posso!... Pai, eles querem tapar-nos a boca, querem afogar a voz dos que reclamam justiça... Que não se faça a vontade deles, mas a tua! Que não ganhem os poderosos, os homens sanguinários, mas que ganhes tu, o Deus dos pobres, nosso Defensor!... Faça alguma coisa já, Pai! Dê a cara por nós, os humilhados deste mundo, os sempre derrotados... senão, apaga-me do teu livro!... Sim, eu sei que se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, não dará fruto... eu mesmo disse isso e meu espírito entende... mas depois, quando chega a hora, a carne treme... Tenho medo, Pai... tenho medo... Se pelo menos tu me desses um sinal... Sim, dá-me um sinal, uma prova de que tu não me enganaste, de que esta luta não tenha sido em vão... A Gedeão deste um sinal antes dele sair para a batalha... A Jeremias mostraste um galho de amendoeira... Olhe este galho, Senhor, o galho desta árvore... se florescesse, se de repente se abrisse a flor branca da oliveira como um sinal de paz... Responde-me, Senhor!... Por que te calas?... Será que é pedir muito?... Tu me pediste mais!... Pediste que deixasse minha terra e a casa de meus pais... Por ti falei, por ti me enchi de raiva conta os grandes deste mundo e gritei nas praças e nas ruas e não me sentei para comer à mesa dos mentirosos... Por ti fiquei só... Perdi tudo por fazer caso de ti... E tu não podes dar-me o sinal que peço?... Nem isso sequer?... Fala, responde!! Ou tudo isso será uma miragem, como as águas falsas que se vêem no deserto...? Jesus se ajoelhou e colou o rosto contra a terra e arranhou as pedras com as mãos, com as unhas, desesperadamente... A essa mesma hora, Judas, de Kariot, seguido de uma tropa de guardas, atravessou o Cedron. Os soldados entraram na escuridão e foram tomando posição na encosta do Monte das Oliveiras... Para chegar ao horto de Getsêmani, Jesus e seus discípulos atravessaram a torrente do Cedron. O Cedron é uma ribanceira ou vale estreito que rodeia Jerusalém pela parte oriental. É formado por nascentes de diversos arroios. Ordinariamente ficava seco, só apresentando água no inverno. As terras próximas ao Cedron eram particularmente fecundas porque pela torrente corria o sangue das vitimas sacrificadas no Templo. O canal de deságüe deste sangue começava junto ao altar e por baixo da terra chegava até o Cedron. O sangue animal era um adubo que dava à terra uma grande fertilidade. Getsêmani era um dos muitos hortos que se espalhavam pelas férteis encostas do Monte das Oliveiras, separado de Jerusalém pelo Cedron. Getsêmani, em aramaico, significa “prensa de azeite”, seguramente por causa das prensas para as azeitonas que eram produzidas pelos olivais plantados por todo o Monte. Na atualidade, uma grande igreja construída ao pé deste Monte lembra o lugar da oração de Jesus. No centro do templo se conserva a chamada “rocha da agonia”, onde a tradição venera o lugar em que Jesus rezou naquela noite. No jardim da igreja ainda há várias oliveiras milenárias, que podem ser filhas daquelas que existiam no tempo de Jesus. Das sementes das azeitonas ainda produzidas por estas antiqüíssimas árvores, fazem-se objetos piedosos para os visitantes, rosários, principalmente. No Getsêmani, vendo muito próxima e muito possível uma morte violenta, Jesus experimenta um sem-fim de sentimentos contraditórios. Foi um momento decisivo no compromisso de fé de Jesus. Nunca havia se sentido tão vulnerável e nunca sua fidelidade foi mais dolorosamente firme que então. A Carta aos Hebreus nos fala das lágrimas com que suplicou a seu Pai para que o salvasse da morte (Hb 5, 5-10). Na oração do Getsêmani não se enfrentam a vontade de Jesus que queria viver com a de Deus que queria matá-lo. Se fosse assim, o Deus de quem Jesus nos falou não seria mais que um verdugo, aplacável só com o sangue de seu filho, além de ser cúmplice dos poderosos deste mundo. Uma imagem monstruosa de Deus. Seria impossível ver nesse deus o “Abbá”, o “Papai” de Jesus. Deus não matou seu filho e muito menos o enviou para a morte. Deus não quis essa morte. Se admitirmos essas falsidades, os autênticos assassinos ficariam livres da culpa. Não, Deus é Deus de vida e de vivos. Nunca quer a morte. Ele se rebelará a tal ponto diante da morte de Deus que o ressuscitará.. A vontade que Jesus pede que se cumpra é a de Deus. Também pede a seu Pai que o faça capaz de superar a debilidade que sente naqueles momentos, que fortaleça sua frágil vontade de homem que tem medo, que desconfia, que perde apoios para sua esperança. Todos os profetas experimentaram estes sentimentos ao longo de suas vidas e voltaram seu rosto para Deus. A oração de Jesus neste episódio recolhe as palavras angustiadas do profeta Jeremias (Jr 15, 15-18; 20, 7-9) e o clamor de Moisés, que falou com Deus cara a cara e reclamou aos gritos a libertação para Israel (Ex 32, 32; Nm 11, 11-15). São as orações do profeta, ponte entre seus irmãos, pelos quais se sente responsável, e Deus, do qual se sabe mensageiro. (Mt 26, 36-44; Mc 14, 32-40; Lc 22, 39-46)
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