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Capítulo XLVII A NOVA ALIANÇA Jerusalém velava, com as lamparinas de suas casas acesas, banhada pela luz da lua cheia. Era quinta-feira, 13 de Nisan. Sentados sobre os mantos, ao redor das esteiras de palha, já estávamos comendo o cordeiro pascal quando Judas, de Kariot, que havia estado calado durante toda a refeição, fez menção de levantar-se... Judas: Escutem, companheiros, como isso ainda vai longe, eu acho que é preciso comprar um pouco mais de vinho... Marcos: Não creio que vai faltar, Judas. Ainda tenho meio tonel lá na cozinha. Judas: Mas é sempre melhor sobrar do que faltar, não acha? Jesus: O que acontece, Judas...? Judas: Nada, Jesus. O que poderia acontecer...? Judas estava muito nervoso. Jesus também, embora tentasse disfarçar. Eu já o tinha advertido que o iscariote andava muito estranho havia alguns dias... Pelo que pudesse acontecer, levei a mão ao punhal que tinha debaixo da túnica e apartei o cabo com força... Jesus: Sente-se, Judas... Não quer mais um pouco de molho?... Está muito gostoso. Jesus molhou um pedaço de pão no molho vermelho e o estendeu a Judas... Judas: Obrigado, moreno...Bom, então, eu vou comprar alguma coisa para... João: Maldição, iscariote, você não vai a lugar algum! Judas: O que está acontecendo, João. Deixe-me sair. Jesus: Sim, João, deixe-o ir... João: Mas, Jesus... Jesus: Deixe-o sair, João... Judas, companheiro, vai e volte logo. Judas abriu a porta, jogou seu manto de listras sobre os ombros e desceu lentamente a escadaria de pedra que dava para o quintal. Jesus ficou um tempo em silêncio, com o olhar perdido no quadro negro da porta... Era noite. Pedro: Mas, que diabos está acontecendo por aqui, caramba? Falem claro! Marcos: Ei, João, o que está havendo com Judas? Por que você não queria que ele saísse, heim? Vamos, deixe de mistérios... Mateus: Falem de uma vez, caramba... O que vocês estão querendo, que o cordeiro nos atravesse na garganta? Voltei a sentar-me no chão, olhando Jesus, sem atrever-me a dizer nada... André: O que está acontecendo, moreno? Desembuche, homem... Jesus levantou os olhos do prato. Olhava-nos com tristeza, com preocupação... Jesus: Quando o lobo aparece, cada ovelha foge pro seu lado. Companheiros, as coisas ficaram difíceis, mais difíceis do que nunca... Jesus ficou um momento calado. Sua fronte larga estava marcada pelas rugas e empapada de suor... Todos estávamos inquietos. A Madalena começou a soluçar abraçando-se em Maria... Pedro: Diabos, Jesus, por que você disse isso agora? Jesus: Porque qualquer um de nós pode falhar. André: De quem você está falando?... De Judas? Jesus: Não. Falo isso de todos... André: De mim você não fala, moreno!... Não, não me olhe assim... Mateus: Nem de mim... suponho. Eu sou um covarde, é verdade, mas eu... eu... Pedro: Vamos falar claro de uma vez, porcaria! Está bem, está bem, qualquer um pode falhar... Pois que cada qual responda por si! Eu respondo por mim, e lhe digo que se todos estes fugirem agora mesmo e o deixarem sozinho, eu nunca farei isso. Juro pela Rufina e por todos os meus filhos. Jesus: Não jure, Pedro. Pedro: Juro porque é verdade o que estou dizendo! Ou não me chamo Simão! Jesus: Não, Pedro, você também pode falhar, igual a qualquer um. Não encha a boca com juramentos... Sim, você, você... Se esta noite as coisas se puserem feias, antes do cantar dos galos você já teria se esquecido que nos conhecia... Pedro: O que é isso, moreno! Então é você que não me conhece! Prefiro morrer do que falhar com você! Que chova sobre o molhado e juro sobre o jurado!... E todos vocês são testemunhas! João: Jesus, não seja tão pessimista, homem. Claro que as coisas estão más, mas tenha certeza de que aqui ninguém dará para trás. Madalena: O que João disse, nós também dizemos, diacho!... Não fique tão sombrio, Jesus, que a salada já está amarga por demais... Aquela hora não se apaga da minha memória. Jesus, com as pernas cruzadas sobre a esteira, foi nos olhando a todos, um por um, e quando começou a falar sentimos que suas palavras vinham do mais fundo do seu coração... Jesus: Companheiros, quero agradecer a vocês tudo o que pudemos fazer juntos durante este tempo. O caminho foi muito curto, mas também muito difícil. Até aqui estivemos unidos... Vocês foram meus amigos, estiveram ao meu lado nos momentos ruins e em tantos momentos bons... De verdade, eu os amei com toda minha alma... Jesus deixou cair as mãos sobre os joelhos. Seus olhos estavam cheios de lágrimas... Jesus: Temos que continuar unidos, até o final, aconteça o que acontecer... Maria: Mas, Jesus, filho, por que está falando assim? O que é que vai acontecer? Jesus: Não sabemos, mamãe, mas aconteça o que acontecer, temos que nos manter unidos e nos estreitar-nos uns contra os outros... Em grupo, sempre em grupo. Então Jesus, com suas mãos grandes e calosas, tomou uma das tortas de pão que estava sobre a esteira... Jesus: Estreitar-nos uns aos outros, como se estreitam os grãos de trigo para formarem este pão... As espigas estavam dispersas pelas colinas e pelos montes e se uniram para fazer esta massa. Nós devemos estar unidos, assim, da mesma forma que esses grãos... Jesus olhava o pão dourado e crocante que as mãos de sua mãe havia amassado, o pão ázimo da grande festa da Páscoa. Jesus: Amigos, nossos pais comeram no Egito um pão de aflição. Em uma noite como esta, eles também sentiam angústia e tinham medo e se reuniram para comê-lo com pressa, esperando a passagem de Deus por aquela terra de escravidão e miséria... E Deus passou e aquele pão foi para eles um pão de liberdade... Durante muitos meses anunciamos a boa notícia de que Deus está do nosso lado, de que Deus escolheu a nós, os pobres deste mundo, para dar-nos seu Reino, a nós que amassamos esse pão com suor e lágrimas... Durante muitos meses lutamos para que as coisas mudem, para que o pão chegue a todos... Talvez seja esta a última vez que comemos juntos...Tudo bem, não importa... Coloco minha sorte nas mãos de Deus e ponho minha vida neste pão!... Lembrem-se de mim quando se reunirem para compartilhá-lo... Quando fizerem isso, eu sempre estarei com vocês... Jesus partiu a torta de pão ázimo em muitas partes e todos comemos um pedaço... Depois, pegou com mão firme uma jarra e com ela encheu uma taça que tinha diante de si... No vinho, vermelho e fresco, refletiam-se as luzes das lamparinas... Jesus: Como poderemos pagar ao Senhor todo o bem que ele nos fez?... Levantemos este copo de libertação e alegremo-nos em seu nome!... Amigos, quando Deus tirou nossos pais da escravidão do Egito, levou-os à montanha do Sinai e ali fez com eles uma aliança. Um pacto de sangue. Com o sangue de muitos animais, Moisés aspergiu o povo... Já não é preciso sangue de mais animais... Este vinho foi feito com o suco de muitas uvas pisadas e espremidas no lagar... É o sangue de todos os inocentes que morreram, volvendo seus olhos ao céu, sem saber por que morriam... É o sangue de todos os que caíram lutando pela liberdade de seus irmãos... Eu também ponho meu sangue neste vinho. Com este sangue Deus faz uma nova aliança para libertar o povo de todas as escravidões... Jesus passou-me a taça cheia até à boca e eu a passei a Pedro e Pedro a Maria... Todos bebemos um gole daquele vinho forte e cheiroso... Jesus: Sim, de verdade, eu sempre estarei com vocês e vocês sempre estarão comigo, como estamos nesta noite comendo do mesmo pão e bebendo do mesmo copo. Temos que nos amar muito uns aos outros, estar dispostos a apostar a vida uns pelos outros... Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida pelo seu povo... Sim, temos que estar dispostos a que partam nosso corpo como se parte o pão e que derramem nosso sangue, como se derrama o vinho. Não podemos perder a esperança em Deus... Nós também, um dia, alcançaremos a liberdade... Maria: Ai, filho, não sei, mas você está falando como se estivesse se despedindo... Jesus: Mamãe, já lhes disse que as coisas estão muito mal... João: Jesus, por Deus, pare de rodeios e diga de uma vez... Pedro: É sempre a mesma coisa!... Mas, o que está acontecendo, homem? Todos nós tínhamos os olhos cravados em Jesus... Jesus: Companheiros... houve uma traição. Pedro: Mas, o que você está dizendo? De quem está falando? De Judas, não é mesmo? João: Sim, suspeitamos dele. O iscariote anda muito estranho nesses últimos dias... Ou será que vocês não enxergam? Pedro: E, aonde foi esse condenado, heim? Aonde foi? Jesus: Não sabemos, Pedro. Não sabemos que planos ele tem. Mateus: Se tivesse sido eu... eu que sempre tive bons amigos entre os lá de cima... Mas, Judas, por que ele? Todos nós olhamos Mateus, o cobrador de impostos. Com os olhos brilhantes parecia pedir-nos perdão por uma traição que sempre tivera ao alcance da mão, muito mais que qualquer um de nós... Marcos: Agora não importa por quê ele fez. O que importa agora é sair já desta casa. Pedro: É isso mesmo! Se Judas foi cagüetar, virão atrás da gente aqui... Marcos: Vamos lá, não há tempo a perder!... André: Puxa vida, moreno, por que você não disse antes? A essas horas já estarão na nossa pista! Marcos: Depressa, peguem seus mantos e vamos embora! Maria: Mas, para onde... para onde vocês vão? Madalena: Ai, Deus bendito, ampara-nos! Marcos: As mulheres ficam. Ninguém vai se meter com vocês. Aqui estarão mais seguras... Nós vamos para o monte, àquele horto que eu tenho lá perto do Cedron. Há umas grutas lá para a gente se esconder. Pedro: Boa idéia, Marcos. Marcos: Não se fala mais nisso. Temos que passar esta noite longe desta casa... E eu vou lhes dizer uma coisa: amanhã, antes que amanheça, vão para a Galiléia. Eu me encarrego de tirá-los da cidade. Vocês não podem ficar aqui em Jerusalém nem um dia mais... Madalena: Isso, a Galiléia! Esta cidade está amaldiçoada pelos quatro lados! Jesus: Eu não vou voltar para a Galiléia. Ainda nos resta muitas coisas para fazer em Jerusalém. André: Venha, moreno, não seja maluco! Marcos: Jesus, se mostrar a cara eles os pegarão e se Judas bateu com a língua nos dentes, vão procurar até encontrá-lo... Maria: Mas, Deus meu, como é possível que esse moço fez uma coisa dessas? Marcos: Deixe isso pra lá, Maria. Seja o que for, o que é preciso é sair daqui. Vamos embora! João: Pedro, pegue essas duas espadas, por precaução! Pedro: Safado do Judas! Eu o faria em pedaços! Marcos: Iremos pelo caminho mais curto... Vocês, mulheres, fiquem tranqüilas, não acontecerá nada com vocês... E nem pensar em dizer a alguém onde estamos! Nem ao próprio anjo do céu, se ele aparecer!... Andando, companheiros!... E separados, sem formar grupos. Vamos logo! Saímos depressa, sem olhar para trás, como fizeram nossos pais na noite em que Deus passou pelo Egito, com mão forte e braço estendido, para tirá-los da escravidão do faraó. Logo que Judas saiu do lugar em que estavam reunidos, Jesus experimentaria com ainda maior ansiedade a tensão que caracterizou aquela ceia pascal. Fala de “traição”, o horizonte começa a se fechar. A fé no Deus libertador se tornará para ele, a partir deste momento, mais árdua, mais dolorosa, mais dramática. Neste marco se inaugurará uma nova aliança, novos laços para a comunidade dos que continuarão no mundo o projeto que ele ia deixar apenas começado. Era costume que na ceia de Páscoa quem presidisse a celebração – o pai de família, ou se não estivesse, a mãe ou o mais velho do grupo – cumprisse o rito de explicar passo a passo a cerimônia para os demais. Era um costume que todos cumpriam fielmente naquela noite. O mais jovem ia perguntando ao mais velho o significado simbólico das orações, do cordeiro, dos pães... As palavras de Jesus na ceia, dando ao pão e ao vinho um sentido tão especial, devem ser enquadradas neste costume de séculos. Não estavam isoladas do resto da cerimônia. Era totalmente coerente com as tradições da ceia que quem presidia explicasse que sentido tinha o pão, e que sentido tinha o vinho que estavam comendo e bebendo naquela noite. É típico da mentalidade israelita, como da de outros povos orientais, a crença de que comer juntos une os comensais em comunidade. Para eles é algo muito sério e muito profundo o comer juntos: vincula uns aos outros, é sinal de uma fraternidade que permanece para além do momento da refeição. Jesus e seus amigos foram criados nesse ambiente. Quando o que presidia a mesa – no caso Jesus – abençoava o pão ao iniciar-se a refeição, ficava constituída a comunidade. Por outro lado, era habitual em todas as refeições que aquele que presidia – geralmente o pai de família – partisse o pão e desse um pedaço para cada comensal. O mesmo se pode dizer do vinho. Era habitual usar-se um copo comum, que passava de mão em mão durante a refeição e do qual todos bebiam. Esses gestos não eram nem especiais nem “misteriosos”. Eram algo totalmente cotidiano e todos os que comeram com Jesus naquela noite tinham visto fazer aquilo desde a infância. Além de serem gestos familiares a todos, entendia-se que ao comer o pão e beber o vinho todos participavam da bênção pronunciada antes de distribuí-los. Jesus parte o pão e o reparte e passa entre todos o copo de vinho. No pão “partido” Jesus indica um sinal de vida compartilhada até o extremo, até o último, até à morte se for necessário. No vinho vermelho Jesus oferece um sinal do sangue derramado pelos demais, entregue generosamente para que fecunde a terra para a chegada do Reino de Deus. A Eucaristia que os cristãos celebram até hoje, repartindo os gestos e símbolos que Jesus realizou naquela noite pascal, deve ser entendida no mesmo sentido. Trata-se de uma comunhão de mesa que deve se tornar comunhão de vida. Não podemos limitar a comunhão ao comer o Pão e beber do Cálice. A comunhão tem que se dar na vida. É preciso levar em conta que os primeiros cristãos não entendiam suas celebrações eucarísticas como uma mera repetição formal do que Jesus havia feito unicamente na quinta-feira santa, mas uma continuação de sua vida comunitária com ele, como vivência através do tempo daquelas muitas refeições que compartilharam juntos, com todo o profundo significado que tinham para eles. Dos textos que chegaram até nós da ceia e das palavras que Jesus disse a seus amigos naquela noite, a partir das quais a Igreja cristã celebra o memorial da Eucaristia, o mais antigo de todos não está nos evangelhos. É o que Paulo recolhe em sua primeira Carta aos Coríntios (11, 23-25). Nesta fórmula que Paulo conservou, fala-se de uma “nova aliança”. Há um momento central na história de Israel: quando Moisés asperge o povo com o sangue do sacrifício dos novilhos imolados no Monte Sinai e consagra os israelitas como povo de Deus (Ex 24, 1-8). Jesus, com sua vida entregue até o derramamento de sangue, inaugura uma nova aliança entre Deus e os homens. Uma aliança, porque a vida dos cristãos é um compromisso, pacto de entrega. Nova porque com Jesus todas as antigas formas religiosas (culto, sacrifícios) ficam superadas. Ao explicar o significado do pão e do vinho, como era habitual na ceia da Páscoa, Jesus diz que ele “entrega” sua vida pelos demais. Já no tempo de Jesus entendia-se que a morte de um inocente – uma criança, um homem vítima da injustiça – tinha “um valor” como resgate para o povo. Essas mortes eram um grito diante de Deus. Um grito de intercessão pela comunidade. Isto já aparece no Livro dos Macabeus, escrito uns cento e cinqüenta anos antes de Jesus. Na mentalidade do povo fiel entendia-se que a morte de um homem justo aproximava o dedo de Deus da história, trazendo-lhe uma fecundidade libertadora e o perdão dos pecados do povo. Jesus teve consciência de ser um profeta mensageiro definitivo do Reino de Deus e, por vezes, teve o pressentimento seguro de que sua vida terminaria de forma violenta. Quando ele se perguntou pelo sentido de sua morte deve ter se respondido com estas idéias do mundo crente em que vivia. Nas palavras do profeta Isaías (Is 53, 1-12) que falam por vezes do fracasso e do êxito, de humilhação e de prêmio, de dor e de esperança, Jesus encontraria uma luz no meio daquela noite de incertezas em que seu coração se envolveu com tanta intensidade com o Deus de quem tudo esperava. (Mt 26, 26-35; Mc 14, 2-31; Lc 22, 19-23; e 31-38; Jo 13, 21-38; 15, 4-15)
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