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Capítulo LXIV UM HOMEM PELO POVO Um pregoeiro: Moradores de Jerusalém e forasteiros vindos para a festa... As autoridades desta cidade estão procurando um tal Jesus, um camponês de rosto moreno, de uns trinta anos, alto, com barba, procedente da Galiléia, e que se faz chamar de profeta e messias. Qualquer pessoa que saiba o paradeiro deste perigoso rebelde, que informe os magistrados do Sinédrio e será recompensado com sessenta siclos de prata... Depois do acontecido no domingo no Templo, quando invadimos com gritos e ramos de palmeira a esplanada dos gentios, os chefes religiosos da capital mandaram apregoar este aviso nas doze portas da cidade de Davi, no mercado e nos bairros... Enquanto isso, o velho Anás, o sacerdote mais rico e mais influente de toda Jerusalém, que controlava de seu palácio a venda dos animais que eram sacrificados no Templo, conversava com seu genro José Caifás, o sumo sacerdote daquele ano. Caifás: Se você tivesse estado lá, se tivesse presenciado o motim, não falaria agora com tanta tranqüilidade... Anás: Fico contente de não ter visto nada. Na minha idade, querido genro, esses desgostos são perigosos. Caifás: Não podemos consentir em outro escândalo como esse. Creia-me, Anás, o que aconteceu domingo no Templo foi algo muito lamentável. Anás: Bom, o que mais lamentei foram as minhas vacas. Como sempre acontece nesses casos, a chusma se aproveita da confusão. Desapareceram cinco vacas com seus bezerros. Ovelhas perdidas, pelo menos umas quarenta. As pombas nem conto. Caifás: Nem eu tampouco conto as moedas esparramadas pela escadaria... Os cambistas disseram que não puderam se defender da turba... Imbecis... Precisamente na hora sexta, quando teriam recolhido mais dinheiro, é que esse agitador entrou e armou o tumulto... maldito nazareno! Anás: Enfim, meu querido genro Caifás, não há porque se preocupar tanto. O aviso já está dado. Foi apregoado por todos os cantos. Caifás: E o que adianta isso?... A cidade toda está com ele. Escondem-no. Protegem-no. Anás: Mas sempre aparece um que canta. Sessenta ciclos de prata é uma boa tentação para qualquer morto de fome. Tranqüilize-se, Caifás. Não dê tanta importância a um camponês maluco. Amanhã, ou no mais tardar na quinta-feira, este assunto estará resolvido... Mesmo que esse tal Jesus se esconda no próprio sheol, daremos de cara com ele. E agora, em vez de ficar roendo as unhas, vai e reúna o Sinédrio e explique a todos a “delicada situação” que o nazareno provocou... Todos os magistrados lhe darão seu voto de confiança... Depois, meu querido genro, você já sabe o que tem de fazer... Era o 11 de Nizan, quarta-feira. Desde domingo estávamos escondidos com Jesus em Betânia, no segundo andar da taberna de Lázaro. Judas, de Kariot, que conhecia bem a cidade, ia e vinha para contar-nos como andavam as coisas. Mas naquela manhã, demorou para voltar... Barrabás: Que demônios o chefe de vocês está esperando, Judas? Em que está pensando?... Sim, o ato de domingo no Templo foi um bom golpe de efeito, mas nada mais. Com ramos de palmeira não se ganha uma guerra. Judas: Foi isso mesmo que alguns de nós dissemos, Barrabás. Mas, o que você quer? O chefe é o chefe, caramba. Nós estamos com Jesus e vamos para onde ele disser. Barrabás: A causa é a causa, Judas! E nossa causa está acima de todos os chefes! Em um dos casebres do bairro de Ofel, com as portas e janelas fechadas, Barrabás, um dos líderes do movimento zelote, discutia com Judas, de Kariot... Barrabás: Judas, escute-me. Você já foi dos nossos durante um tempo. Posso falar-lhe com confiança. Nós do movimento passamos a noite toda discutindo e... e temos um plano. Judas: E qual é esse plano? Barrabás: Preste atenção, companheiro. Uma coisa é clara. De todos os cabeças que temos agora em nosso país, o único que é capaz de mobilizar o povo é o de vocês, o nazareno. Sim, temos que reconhecer. Deu muito trabalho para que os dirigentes do movimento reconhecessem isso, mas eu os fiz enxergar. Pilatos crucificou nossos melhores homens. Os sicários se tornaram antipáticos ao povo por sua sede de sangue. Os chefes de Peréia e da Judéia já estão muito queimados. Com quem podemos contar então?... Jesus é o único que pode levantar o povo em armas, compreende? Judas: Sim, compreendo, mas por que está me dizendo isso? Barrabas: Escute, Judas. Nós sabemos onde conseguir uma boa quantidade de espadas e lanças. Temos gente preparada para assaltar o arsenal de Siloé e o da Torre Antônia. É questão de dividirmos o trabalho. E de planejar bem o golpe. E você sabe muito bem como são essas brigas, uma vez que estalam, não há quem segure. Só está faltando uma coisa. Judas: Que Jesus empunhe a espada e dê o primeiro passo, não é isso? Barrabás: Isso mesmo, Judas. Responda-me, então: Jesus se decidirá, sim ou não? Judas: Creio que não, Barrabás. O moreno é... é um idealista. Diz que a nossa força não está nas armas mas em protestar juntos até arrebentar a paciência do faraó, como fez Moisés no Egito. Barrabás: Um idealista não. Um imbecil. Eu já disse isso a ele quando assassinaram João o batizador. Se não mudar de tática, nazareno, você terá a mesma sorte que o filho de Zacarias. Judas: Jesus não vai mudar. Ao menos por ora. Barrabás: É que agora é a oportunidade, Judas! Agora ou nunca! A cidade está em brasas, esperando o sinal para lançar-se contra o quartel romano! Judas: Se você quiser podemos falar com Jesus e ver se... Barrabás: Não, iscariote. Não é momento de falar e sim de agir. E logo. Se Jesus não se decidir, nós decidiremos. Judas: E o que o pessoal do movimento pensou? Barrabás: Mata-lo. Judas: O que você disse? Barrabás: Disse mata-lo. Eliminar Jesus. Nós o degolaremos. Depois diremos que os romanos o assassinaram. Judas: Mas, estão loucos? Como é que vocês podem pensar numa coisa dessa...? Barrabás: Você não entende nada de política, Judas. Um líder morto pode às vezes ser mais útil, que vivo. Com o sangue derramado é que se pintam bandeiras, compreende? Judas: Mas, o que vocês ganhariam com isso...? Barrabás: Que o povo se levante em armas, caramba! Em dois minutos correrá a notícia por toda Jerusalém e em outros dois estalará a revolta! Será a faísca necessária para o grande incêndio. Judas: Não posso acreditar que o movimento seja capaz de uma coisa dessa... Você, Barrabás, faria uma coisa tão baixa...? Barrabás: Será você que irá faze-la, Judas. Contamos com você. Você sabe onde o nazareno está escondido. Você é um dos seus. Judas: Mas, será que estou ouvindo bem ou...? O que você está insinuando, Barrabás? Barrabás: Não estou insinuando nada, iscariote. Estou dizendo bem às claras, tais como estão as coisas, Jesus é mais útil morto, que vivo. E você é o mais indicado para levar a cabo este plano. Judas: Maldição! Repugna-me ouvir você falar, Barrabás! Adeus. Não conte comigo para matar um companheiro. Muito menos Jesus. Barrabás: Espere, Judas, espere. Tranqüilize-se. Trate de compreender o movimento. Judas: Sinto muito, Barrabás. Eu não traio os meus. Barrabás: Por que usa essa palavra? Judas: Porque não há outra. Barrabás: Sim, há outra. Não é traição, é estratégia. É necessário que morra um homem pelo povo. Compreenda, Judas! Naquela quarta-feira, à tarde, o sumo sacerdote José Caifás havia convocado uma reunião de urgência com os principais magistrados de Jerusalém. Caifás: Compreendam, ilustres do Sinédrio. É um assunto delicado sobre o qual devemos chegar a uma pronta decisão. Trata-se desse fanático chamado Jesus, de quem muitos de vocês já devem ter ouvido falar. Um homem da pior espécie, rebelde contra Roma, blasfemo contra o Templo, agitador, conspirador e... e além disso, imbecil. Porque somente um imbecil se põe a atirar ovos para quebrar uma parede... Um magistrado: Minha opinião, excelência, é cortar o mal pela raiz. Leproso, impuro e rebelde devem ser afastados o quanto antes da comunidade. Jeconias: Sinto muito, mas não estou de acordo. A cidade está repleta de peregrinos. O povo está muito excitado com os novos impostos. Esperemos que passem esses dias de festa. Então tudo será mais fácil e menos ruidoso. Outro magistrado: Apoio meu colega Jeconias. Além disso, não devemos ser nós a deter esse revoltoso. Será mal visto pelo povo. É melhor que seja o governador Pilatos a se ocupar dele. Outro magistrado: O governador Pilatos diz que já está farto de levantar cruzes para crucificar os nossos messias. Não quer mais nenhuma confusão. Jeconias: Ao contrário, o que Pilatos quer é ter uma nova desculpa contra nós para continuar roubando o Tesouro do Templo! Caifás: Ilustres, não falem assim do governador. Pôncio Pilatos tem suas pequenas manias, é verdade, mas é um homem prudente e sempre nos tem apoiado no bom governo da província... Pessoalmente, considero que se deixarmos correr esse assunto do rebelde nazareno, o governador Pilatos pode ficar nervoso e avisar a César. Seu amigo Sejano, lá em Roma, não tem nenhuma simpatia por nosso povo. E pode dar ordens de invadir Jerusalém e saquear o Templo. Não lhes parece mais simples eliminar um só homem do que pôr em perigo a paz e a ordem de nossa nação? Todos: Sim, sim, o senhor tem razão, excelência! Este rebelde deve morrer! Caifás: Alegro-me que tenhamos chegado a este acordo. Convém que morra um só homem para salvar todo o povo. A essa mesma hora, no casebre de Ofel... Zelota: Está bem, Judas, compreendo suas razões e... seus sentimentos. Vamos chegar a um acordo. Não será necessário derramar o sangue do nazareno, como lhe havia proposto o companheiro Barrabás. Judas: E do que se trata então? Zelota: Bastará que o levem preso. Jesus tem muita popularidade. Quando as pessoas se inteirarem de que o prenderam, irão para as ruas. Judas: E o que o movimento quer de mim? Zelota: Você não ouviu o anúncio que os magistrados do Sinédrio fizeram? Estão procurando Jesus. Judas: E não o encontrarão nunca. Nós o escondemos muito bem. Zelota: Sim, Judas. Mais cedo ou mais tarde o encontrarão. Eles o levarão preso quando os peregrinos já se tenham ido da cidade, e já não será mais a mesma coisa. Você tem que compreender, Judas. Agora é o momento. Jerusalém está abarrotada de gente. Não podemos perder esta oportunidade. Judas: E vocês querem que eu bata com a língua nos dentes, não é isso? Zelota: Escute, Judas. Deixe os sentimentalismos de lado e trate de raciocinar. É necessário que prendam Jesus durante estes dias de festa. Mas não tenha medo. Antes que lhe ponham a cruz sobre os ombros terá estalado a revolta. A primeira coisa que faremos será libertar os presos que apodrecem nas masmorras da Torre Antônia. Confie em nós, companheiro. Nós lhe devolveremos seu querido chefe são e salvo. Promessa do movimento. Judas: Se eu disser que sim, o que teria de fazer? Zelota: Uma missão um pouco desagradável... mas necessária. Ir até o comandante da guarda do Templo e dizer onde Jesus está escondido. Judas: Ou seja, ser um alcagüete vulgar. Zelota: Não, Judas, ser um verdadeiro lutador que chega até às últimas conseqüências. Vamos, decida-se. Vai até esses filhos de uma cadela e diga que você sabe onde está o nazareno. Se oferecerem dinheiro, aceite. É preciso representar bem a comédia. Judas: É preço de traição. Zelota: Não, Judas, é preço de revolução. E então?... Podemos contar com você?... Sim ou não? Comandante: Como você se chama? Judas: Judas... Judas de Kariot. Comandante: O que você quer? Judas: Eu sei... eu sei onde está o homem. Comandante: Não me diga!... Olhe que já passaram muitos por aqui dando alarmes falsos e não estou disposto a mobilizar tropas para caçar fantasmas. Judas: Pode confiar em mim... Eu sou... eu era um dos seus. Comandante: Ah, é?... Isso está bem melhor. E onde está seu chefe? Judas: Agora não podem agarra-lo. Há muita gente com ele. Eu lhes avisarei quando for o melhor momento. Comandante: Não se preocupe, você virá conosco. Se estiver mentindo pagará com o seu pescoço. De acordo? Judas: De acordo. Comandante: Tome, rapaz. Eu lhe darei a metade adiantado. Trinta siclos de prata... A outra metade quando o homem estiver em nossas mãos. E agora, suma daqui!... Puah... esses desgraçados são assim mesmo... vendem o próprio chefe por umas moedas... E Judas, de Kariot, saiu do palácio do sumo sacerdote Caifás e se perdeu por uma das estreitas e escuras ruelas da cidade de Jerusalém... Judas: Velho imbecil... quando o povo se levantar em armas, você há de se lembrar de mim...! No gesto do Templo pode-se resumir o que foi toda a atividade profética levada a cabo por Jesus. Durante meses Jesus havia vivido dentro de um clima muito tenso, observado com crescente desconfiança pelo poder, tanto romano como judaico. Ante esta sociedade, Jesus tomou claro partido. E no gesto do Templo manifestou de forma evidente com quem estava o profeta e com quem estava Deus de quem era mensageiro. Jesus não foi alguém etéreo, que se distanciou igualmente de todos os grupos. Tomou partido e ao faze-lo se pôs em contradição com as classes dirigentes que se aliaram a partir daquele momento para eliminá-lo do meio. Se os acontecimentos do Templo colocaram em definitivo alertas as autoridades, Jesus também procurou, desde então, aparecer menos em público, por questão de cautela elementar. Nunca se insistirá o suficiente em que a paixão de Jesus não foi uma espécie de destino fatal que o Filho de Deus veio cumprir neste mundo, mas um fato histórico, com culpáveis concretos que, ao assassinarem Jesus, agiram livremente. Além disso, Jesus, em cada um dos passos que deu nesses dias de tensão e conflito, agiu livremente, escolheu, teve confiança, arriscou. Se devemos ver a paixão de Jesus como algo histórico e, por isso mesmo, circunstancial, também a traição de Judas deve ser recuperada desse total fatalismo com que tradicionalmente foi interpretada. Nunca conheceremos, à distância de dois mil anos, as razões da alma de Judas, aquele homem que compartilhou com Jesus tantas coisas durante sua atividade profética. Mas se fizermos dele o arquétipo da maldade, o absolutamente mau, o que nasceu “só para trair”, o próprio demônio, estamos mutilando gravemente a realidade histórica dos fatos que aconteceram naqueles dias em Jerusalém. O porquê da traição de Judas é colocada neste episódio como uma questão de “tática” política, coerente com a ideologia dos grupos zelotas aos quais ele muito provavelmente pertenceu. É uma forma de “aterrizar” esta traição, de tira-la do âmbito do fatal, ou da banalização que supõe faze-la depender da motivação ambiciosa de trinta moedas... Temos que ver em Judas o homem de carne e osso e não a marionete cujos fios são manejados da altura por um Deus terrível que o predestinou à traição para assim matar seu próprio filho. Os zelotas eram grupos revolucionários sanguinários. Tampouco podemos identifica-los, sem mais, como um partido político, tal como hoje entendemos este termo. Sua ideologia remonta a uma tradição religiosa profunda pela qual Israel entendia que seu país era uma terra santa e não podia ser oprimida por estrangeiros. Caracterizava-os um apaixonado nacionalismo e uma espiritualidade muito funda com base na dos profetas. Quanto à sua prática, distinguiam-se pela vontade de libertar de maneira imediata Israel do domínio romano. Taticamente eram “impacientes”. Sua opção eram as armas. Ideologicamente, era talvez o grupo que melhor representava a sede infinita de liberdade que Israel havia experimentado nos últimos séculos de sua história. Tudo isso explica que coincidissem com Jesus em muitas coisas, que depositaram nele muitas esperanças e que, por vezes, fascinados pelo poder de convocação popular do profeta Galileu e, decididos a uma ação imediata, contribuíssem também – como propõe este episódio – a desencadear sua sentença de morte, sugerindo a Judas a traição como estratégia para conseguir uma sublevação popular. Para eles também, o ocorrido no Templo foi decisivo e eles entenderam como o prelúdio da ansiada e definitiva insurreição. Jesus se manteve sempre independente dos diferentes grupos que estavam em jogo na cena política daquele momento. No final de sua vida, as forças dirigentes que querem eliminá-lo, confluem com outras forças populares organizadas – como a dos zelotas – que pretendem “usá-lo”. Segundo a colocação apresentada neste episódio, o complô final em que “um homem morre pelo povo”, coloca em evidência a enorme liberdade de Jesus e o perigo que às vezes pode se esconder na radicalização de grupos revolucionários por sua ânsia de eficácia a curto prazo ou por sua desvinculação da realidade popular. A traição de Judas e a responsabilidade que puderam ter os grupos zelotas ou outros grupos populares na morte de Jesus não devem fazer-nos esquecer que a culpabilidade máxima do assassinato de Jesus recai historicamente sobre as autoridades religiosas de Jerusalém, aliadas ao poder imperial romano. Caifás, sumo sacerdote e, como sombra sua, o homem mais rico e influente de Jerusalém, foram os maiores culpados. (Mateus 6, 14-16; Marcos 14, 1-2; Lucas 22, 1-6; João 11, 45-57)
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