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Capítulo LX O AMIGO MORTO Enquanto Jerusalém abria suas doze portas para receber os peregrinos que chegavam para celebrar a Páscoa, nós estivemos vivendo escondidos em Peréia, do outro lado do Jordão. As coisas na capital ficaram difíceis para nós e pensamos que durante alguns dias se tornaria muito perigoso ensinar as orelhas por lá... Mensageiro: Psst...! Amigo, me disseram que aqui encontraria Jesus, o profeta... Pedro: E disseram bem. O que você quer? Mensageiro: Vê-lo. Tenho que lhe dar um recado. Pedro: E de onde você vem...? Mensageiro: De Betânia. Pedro: Santo e senha...? Mensageiro: Nem santo nem senha! Quanto mistério vocês arranjam. Tenho que ver Jesus e o verei... É urgente. Jesus estava doente. As águas salobras de Peréia lhe provocaram febres. Quando aquele mensageiro de Betânia entrou na casa onde nos haviam dado albergue, o encontrou prostrado sobre uma esteira, pálido e com olheiras... Mensageiro: Até que enfim topei com você, nazareno. Você se esconde melhor que as topeiras em seus buracos. Ainda que, na verdade, não esperava encontra-lo assim.... Jesus: Nem eu pensava encontrar-me assim e, você bem vê... faz uns dias que estou doente... Mensageiro: Pois eu venho lhe falar de outro doente. Marta e Maria, de Betânia, me mandaram dizer que Lázaro está muito mal. Jesus: Então aquele safado também está de cama?... E o que é que ele tem? Mensageiro: Uma doença bem ruim. Já faz três dias que nenhuma maldição sai de sua boca. Nem ri, nem come. Acho que vai morrer... Pedro: Bah, praga ruim nunca morre. Acontece que essa Maria é muito espevitada. Aposto que foi ela quem fez você vir aqui todo cheio de pressa... Mensageiro: Não é só ela... A Marta também. A situação de Lázaro é muito séria. As duas estão muito preocupadas. E não sabem o que fazer... E quando o mensageiro de Betânia foi embora... Pedro: Mas, Jesus, moreno, você não se dá conta que é perigoso? Tiago: Na semana passada quiseram prendê-lo, caramba. Se voltarmos agora, vamos colocar nossos pescoços a prêmio. Pedro: Espere até que a Páscoa esteja mais próxima. Com Jerusalém abarrotada de gente é outra coisa. Quando o rio estiver bem revolto, então sim poderemos lançar os anzóis... Após dois dias de ter recebido o mensageiro de Betânia, Jesus já se sentia melhor e nos falou em voltar à Judéia. Para alguns do grupo aquela idéia pareceu descabida... Jesus: Vamos, companheiros, esqueçam-se do medo e amarrem as sandálias, que a luz do sol brilha só doze horas e temos de aproveitá-la bem. Sairemos amanhã ao amanhecer. Lázaro está nos esperando. Amigos são amigos. Tiago: E inimigos são inimigos, Jesus. Eles também estão nos esperando. Jesus: Pois vamos andar com os olhos e os ouvidos bem abertos, Tiago, para que não nos peguem na armadilha. Tomé: E se nos ma-ma-matarem, que nos ma-matem. Algum dia temos de mo-mo-morrer! Pedro: Ao menos desta vez estou com Tomé. Vamos para a Judéia, camaradas, e que saia o sol por onde sair! No dia seguinte saímos de Peréia. Atravessamos o Jordão à altura de Jericó. Depois de longas horas de caminho, vimos as muralhas de Jerusalém. Mas passamos perto delas sem entrar na cidade. Queríamos chegar o quanto antes à taberna de Lázaro... Deixamos atrás o monte das Oliveiras e, quando já víamos bem perto as casinhas brancas de Betânia, Marta, levantando o pó do caminho, veio nos receber... Maria: Jesus, até que enfim você chegou! Jesus: Como anda Lázaro, Marta...? Marta: Mas, você ainda não está sabendo? Ele morreu, Jesus, ele morreu... Já faz quatro dias... Por que você não veio antes? Mandamos lhe avisar... Lázaro perguntava por você... Sofreu muito... Ai, Jesus, que dor tão grande! Marta, com os cabelos revoltos e a túnica de luto, abraçou-se a Jesus, chorando. Os soluços sacudiam seu corpo robusto como o vento da manhã, lá ao longe, sacudia as folhas das tamareiras... A mãe de Jesus e as mulheres se uniram em seguida ao seu pranto... Os olhos de Felipe e de Natanael foram os primeiros a umedecer-se... Pelo rosto de Jesus também corriam as lágrimas... Todos nós gostávamos muito de Lázaro. Marta: Por que Deus o levou, Jesus...? Por que...? Maria e eu precisávamos tanto dele... Jesus: Onde está Maria? Marta: Lá em casa. Não faz mais que chorar... Já faz quatro dias que não come nem dorme... Vou chamá-la... Ficará contente em vê-los. Com a energia que seu corpo conservava, apesar da tristeza, Marta saiu correndo para a taberna. Todos, angustiados, sem saber o que dizer, a seguimos devagar por aquele caminho empoeirado que tantas vezes havíamos percorrido com alegria em nossas viagens à capital... Quando cruzamos o portão da taberna, Maria saiu ao nosso encontro e, com ela, muitos dos vizinhos que estavam com as irmãs consolando-as depois do enterro de Lázaro. Maria: Jesus, por que você não veio antes? Por que? Maria, no chão, arrancava os cabelos e se batia no peito contra a terra... Maria: Maldita seja a vida e mais maldita a morte! Uma velha: Que Deus tenha misericórdia de todos nós, que também vamos terminar na cova! Mensageiro: Pobres mulheres.... ficaram sozinhas. Agora, quem vai cuidar delas? Uma moradora: E você, profeta, por que não veio quando ele ainda estava doente? Não dizem que você curou tanta gente? Pois você podia também ter sarado a ele! Velha: O gordo Lázaro era um bom homem. Que nosso pai Abraão o tenha em seu seio! A taberna de Betânia não cheirava, como das outras vezes, a cordeiro, vinho e cebola. Estava de luto. E o perfume do incenso queimado durante aqueles dias ainda recendia pelos quartos. Já se haviam apagado os lamentos das carpideiras e a música das flautas. Um grupo de vizinhos e alguns hóspedes acompanhavam Marta e Maria chorando com elas. Quando lavamos os pés e nos sentamos no quarto grande, perto da cozinha, nos parecia que Lázaro, com seu sorriso de sempre, iria aparecer por qualquer canto de sua taberna, para nos dar as boas vindas... Um homem: A maior barriga de Betânia e também o maior coração...! Uma mulher: Pode dizer, Serápio! Se houve um homem honrado neste povoado esse era o irmão de vocês, meninas... Mais reto que um cipreste e melhor que o mel, sim senhor... Maria: E não tinha que ter morrido, não... Era jovem e forte... Velha: Paciência, minha filha, paciência. Pedro: E que demônios de doença foi essa...? Marta: De repente. Caiu ali na cozinha, com o caldeirão na mão, como se um raio o tivesse atingido... Uns dias na cama sem se mexer, e se acabou... Pedro: Que desgraça... E agora, o que vocês vão fazer? Maria: O que vamos fazer, Pedro...? Meu irmão era o coração desta taberna. Agora tudo se acabou... Jesus: Não, Maria. O Lázaro gostaria de ver vocês continuarem trabalhando, que seu negócio fosse adiante... Velha: E como pode ser isso, se os vermes vão lhe comer os olhos? Jesus: Vovó, os mortos continuam nos vendo e nos amando porque... continuam vivos. Maria: Você diz isso para nos consolar, Jesus, mas... isso não é verdade. Jesus: Sim, é verdade, Maria. A morte é uma despedida curta, nada mais que isso. Um pouco de tempo e vamos nos ver novamente... Agora choramos, mas chegará o dia em que nos encontraremos todos juntos na casa de Deus e ali se acabarão as lágrimas... Acredite, Maria: os mortos não estão mortos; continuam vivos com Deus. Maria: Meu irmão também? Jesus: Seu irmão também. Lázaro não está morto. Está dormindo. E Deus se encarregará de desperta-lo. Ele está vivo, Maria! Maria: Vivo!... Mas eu não o escuto rir nem o vejo entrar nem sair por esta porta, com o avental cheio de gordura!... Faz só quatro dias e me parece que quatro anos se foram... Jesus: Você voltará a vê-lo, Maria. Maria: Não Jesus, não me engane. Com a morte tudo se acaba. Jesus: Ao contrário, começa tudo. Veja, Maria, se uma criança, quando vai nascer, pudesse falar, diria que não, que ela não quer sair... pensaria que já se acabou tudo para ela... Sim, acabou-se o calor, a tranqüilidade junto ao coração de sua mãe. Mas quando vem para fora, começa uma nova vida, vendo a luz do sol, vendo as cores do mundo... Quando nós morremos acontece a mesma coisa: nos dá medo, choramos... a verdade é que estamos nascendo pela segunda vez, nascendo para uma vida muito melhor e que agora não podemos nem sonhar... Maria: Isso parece bonito, Jesus. Mas eu sempre vi que quando alguém morre o jogam na terra e ele apodrece. Jesus: Também apodrece a semente e dela nasce uma árvore nova que dá flores e frutos. Jesus se voltou até Marta, a outra irmã de Lázaro, que permanecia silenciosa, junto à engordurada mesa da taberna, com os olhos vermelhos de tanto chorar... Jesus: Onde o enterraram, Marta? Marta: Ali, Jesus, no jardim do terreiro, atrás do quintal... Quer ir lá? Jesus: Sim, vamos... Todos nós fomos para fora. Era meio dia e o sol nos irritou os olhos. Ao chegarmos ao jardim e nos aproximarmos da rocha onde estava escavada a sepultura, Marta e Maria, no chão, choravam sem consolo... Jesus, ao vê-las, levou as mãos até o rosto e começou a chorar também... Velha: Bem se vê que o profeta gostava muito dele... Jesus: Lázaro, como é que você não nos esperou para celebrar juntos esta Páscoa?... Por que teve tanta pressa, companheiro? Jesus, com os olhos cheios de lágrimas, ficou olhando fixamente a branca e redonda pedra do sepulcro. Estava rezando... Nós também rezávamos entre sussurros diante da tumba de nosso amigo... Jesus: Pai, eu te dou graças porque tu não queres que a terra trague os mortos. É tua mão que os leva da morte para a vida, como levaste nossos pais através do Mar Vermelho... Tu és a ressurreição e a vida e todo aquele que crê em ti, ainda que esteja morto viverá... Sim, Pai, os ossos secos se levantarão. Que venha teu espírito dos quatro ventos e que sopre sobre os mortos para que vivam! Nenhuma folha sequer se mexia. Jesus tremia. Jesus: Por favor, rolem a pedra da sepultura... Marta: Mas, Jesus... Jesus: Sim, Marta, para que possa entrar o vento... Marta: Jesus, mas o que você está dizendo? Já faz quatro dias... vai cheirar mal. Jesus: Confie em mim, Marta. Por favor, rolem a pedra... Estávamos desconcertados... Mas Tiago, Judas, Simão e o ferreiro se aproximaram do sepulcro e começaram a fazer força para rodar a pedra... Todos nós estremecemos, como se estivéssemos à beira de um precipício... Já ninguém mais chorava. Tínhamos os cabelos em pé. E já não podíamos afastar o olhar daquele buraco negro que começava a se abrir diante dos nossos olhos... Quando ficou aberto, sentimos na cara a baforada de ar frio misturado com o cheiro penetrante de mirra... Jesus: Lázaro, irmão, venha! Volte para a vida! Betânia fica a um par de milhas de Jerusalém, bem perto do vale de Josafá, onde, segundo a tradição de meus conterrâneos, Deus levantará os mortos na hora derradeira do mundo. Naquela manhã de primavera, em um jardim de Betânia, Jesus nos adiantou alguma coisa do que será a alegria e a surpresa do grande dia de Deus. Na última etapa de sua vida Jesus conheceu a clandestinidade. Teve que se esconder como medida de precaução diante do crescente ódio das autoridades (Jô 10, 39-40; 11, 54). Da Peréia, do outro lado do Jordão, teria ido à Betânia, ao ficar sabendo da enfermidade de Lázaro. Betânia é uma pequena aldeia situada a uns seis quilômetros a leste de Jerusalém. Atualmente se pode visitar em Betânia uma tumba que a tradição venera com sendo a de Lázaro. Por umas escadarias profundas e estreitas se desce a um reduzido espaço onde há uma mesa de pedra. Nela teria estado o cadáver do irmão de Marta e Maria. Em uma das úmidas paredes estão escritas as palavras de Jesus segundo o evangelho de João: “eu sou a ressurreição e a vida...” O relato da ressurreição de Lázaro só aparece narrado no evangelho de João. O mesmo acontece com outras cenas que somente este evangelista conta. Estamos diante de uma densa e cuidada elaboração teológica em forma de narração com a qual, por meio de numerosos detalhes, se nos quer deixar gravada uma importante idéia. A comunidade dos discípulos de Jesus esteve escutando sua mensagem de libertação e comprovando-a também nos gestos, nas atividades e nos sinais. Mas ainda vê na morte a interrupção da vida, o fracasso invencível de todo projeto de libertação. Nesta narração teológica, João quer dar uma resposta de fé a esta angústia: a morte não é a fronteira. Para quem crê em Jesus não é nunca o final definitivo. Quando Jesus decide voltar a Betânia, tão perto de Jerusalém, os apóstolos se opõem. Têm medo. As autoridades já procuram Jesus para mata-lo. Mas ele vai desafiá-las, arriscando-se ao perigo para estar perto de seu amigo Lázaro, que precisa dele. João também quer dizer algo importante neste detalhe do relato: para que a vida resplandeça em sua plenitude é preciso superar o medo de morrer. Na mentalidade popular pensava-se que a morte era totalmente definitiva a partir do terceiro dia, quando a decomposição começava a apagar os traços pessoais do defunto. Quando Jesus chega a Betânia, Lázaro já estava morto há “quatro dias”. Quer dizer, estava definitivamente morto, não havia dúvida sobre isso. Com esses detalhes, João quer explicar que a fé em Jesus não prolonga indefinidamente a vida física do ser humano. Jesus não é nem um médico nem um mago que possa impedir a morte. Mas a fé nele dá ao homem uma vida definitiva, que se prolongará para além da morte física. Para o justo, a morte não é mais que “passagem”, como dirá Jesus. Como a passagem do Mar Vermelho que levou os israelitas de uma terra de escravidão para a terra da liberdade. Jesus – com sua vida e suas palavras – veio revelar ao homem qual é o projeto de Deus: não fez o ser humano para que morresse definitivamente, seu destino não é a morte mas a vida plena e definitiva. Daí a solenidade deste relato do evangelho de João. Poucos dias antes de sua própria morte, Jesus revela em Lázaro a totalidade do evangelho: Deus nos libertará também da morte. No tempo de Jesus as tumbas eram construídas escavando-as em rochas naturais, em forma de grutas. Na entrada, para tampa-las, colocava-se geralmente uma pedra redonda que podia girar como uma enorme roda. Diante da tumba de seu amigo, Jesus chora. Gostava de Lázaro e sente profundamente sua morte e o sofrimento de suas irmãs. Deus, a quem vemos em Jesus, chora diante da dor humana, é solidário com as nossas tristezas. Diante da tumba Jesus também invoca o Deus da vida e o faz com as palavras do profeta Ezequiel (Ez 37,1-14), nas quais se anunciava para os tempos messiânicos a superação de todas as dores e também da morte. Nelas o profeta proclamava a solene ressurreição dos “ossos secos” do povo oprimido de Israel. A pedra que fecha a entrada da tumba é um símbolo da desesperança. Estabelece uma fronteira definitiva entre a vida e a morte. Mas Deus é capaz de romper esta fronteira. Por isso Jesus manda retirar a pedra. E assim pode entrar o “vento” símbolo bíblico por excelência do Espírito de Deus. É um momento de extraordinária solenidade, pois o que esta narração quer dizer é talvez a palavra última de toda a mensagem de Jesus, o que é a mais profunda convicção da fé cristã. A morte como final de nossa vida é o ponto máximo da debilidade humana. Se tudo acabasse com ela, se obscurece o sentido de toda nossa existência. E isso não só do ponto de vista individual, da “minha” vida, mas do ponto de vista coletivo. Como poderá haver plena alegria nesta terra nova “onde habitará a justiça” (1Pd 3, 13) que esperamos, se os mortos que a tornaram possível a terra tragou... Daí que a fé na vida depois da morte é essencial inclusive para agora, para a história. (João 11, 1-44)
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