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Capítulo LVIX COM DEUS OU COM CÉSAR Funcionário: Mas, governador Pilatos, este imposto não lhe parece demasiadamente alto?... Seiscentos talentos de ouro são seis milhões de denários... Seis milhões de jornadas de trabalho! Pilatos: O que eu disse, está dito: a província de Judéia pagará a Roma seiscentos talentos de ouro, nem um a mais, nem um a menos. Funcionário: Muito bem, governador. Hoje mesmo informarei os coletores e o exército. Mas, para ser sincero, temo que haverá protestos e distúrbios de rua. O senhor sabe muito bem que o povo judeu é mais cabeça dura que uma mula. Pilatos: O pescoço de uma mula cabeça dura se amolece com umas boas pauladas. Se não quiserem pagar o imposto, vão saber quem é Pôncio Pilatos. Funcionário: E o que dirá o sumo sacerdote Caifás? Pilatos: Bah, não vou perder o sono por causa desse gordo. Caifás é como uma prostituta: não tem segredos. Mas, em todo caso diga-lhe que quero vê-lo urgentemente, “que o governador tem a honra de convidá-lo a seu palácio para explicar-lhe as novas medidas tributárias”. Rá! O governador romano Pôncio Pilatos assinou a ordem de novos impostos: a contribuição que a província da Judéia teria de pagar se elevava à enorme quantidade de seis milhões de denários. Também foram aumentados os direitos de alfândega e se forçava todos os israelitas recenseados ao pagamento de impostos pessoais... Os protestos populares não se fizeram esperar... Um homem: Mas, o que Pôncio Pilatos está achando que é? Que vai continuar esticando a corda sem que ela arrebente? Outro homem: Sanguessugas, isso é que os romanos são! Mas não lhes pagaremos nenhum denário a mais. Uma mulher: Se não pagar, você não poderá nem sair nem entrar na cidade, meu belo! Você não sabe que eles têm tudo sob controle? Transformaram Israel numa enorme ratoeira! Um homem: E nós em ratazanas, não é mesmo? Pois que seque a mão direita do israelita que pagar tributo ao César romano! Os grupos dos zelotas se recusaram a pagar. Muitos simpatizantes e outros inconformados se amotinavam diariamente nas portas da cidade de Davi, vociferando contra Roma e derrubando as mesas dos coletores... Naquela tarde, José Caifás, sumo sacerdote do Templo de Jerusalém e máxima autoridade religiosa de nosso país, entrou apressadamente no palácio do governador romano Pôncio Pilatos... Pilatos: Ilustre Caifás, em nome de Roma eu lhe apresento mais uma vez meus respeitos... Caifás: E eu os meus, governador. Faz apenas um instante que recebi seu convite e aqui estou. Deixei de lado todos os outros compromissos... Pilatos: Suponho que já sabe do que se trata, excelência. Das janelas de seu palácio no monte Sião dá para ouvir da mesma forma que daqui os protestos deste grupinho de fanáticos que não respeita nem a lei nem a autoridade. Você já pensou em alguma solução para esfriar essas cabeças quentes? Caifás: Perdoe meu atrevimento, governador Pilatos, mas... não lhe parece algo excessivo a soma de seiscentos talentos de ouro para uma província pobre com a nossa? Pilatos: Muito me estranha que você, sumo sacerdote Caifás, me faça esta pergunta. Principalmente você, que sabe tanto quanto eu dos enormes gastos do império, do dinheiro necessário para equipar um exército como o nosso, requisito indispensável para assegurar a ordem e a paz romana... Você sabe o quão custosa tem sido a construção e manutenção do aqueduto... E mais custoso ainda manter você e sua família sentados no Sinédrio! Caifás: Compreendo, governador, compreendo e creia-me, faço idéia perfeitamente de todos os sacrifícios que o senhor tem feito pelo nosso país. Mas, apesar disso... Pilatos: Apesar disso, nada! O dito, dito está. Seiscentos talentos de ouro. Se vocês, os chefes desse povo de mulas cabeçudas, não conseguirem coletar esse dinheiro, pagarão de seu próprio bolso. E se não quiserem, eu irei pessoalmente ao Tesouro do Templo, cuspirei no altar e pegarei dali o que estiver faltando. Está claro, excelência? Caifás: Claro, claro, governador.. Perdoe se não soube me explicar bem... Afinal, não quis ofendê-lo nem tive a pretensão de alterar seus nervos... Pilatos: Mas conseguiu sem pretender... Caifás: Darei ordem agora mesmo aos magistrados do Sinédrio para que... Pilatos: As ordens quem dá sou eu! O que você tem que fazer é tranqüilizar o povo. Para esta gentalha você, o sumo sacerdote, é a figura de Deus na terra. Quando eles vêem seu cangote é como se estivessem vendo o de Deus. Pois bem, diga a esses cabeçudos que César manda pagar os impostos. E que Deus manda a mesma coisa, porque Deus e César são amigos, muito amigos... tão amigos quanto você e eu, não é mesmo, excelência? Caifás: Por certo que sim, governador, mas não estaria faltando... Pilatos: Ah, é verdade, não se esqueça de passar amanhã ou depois pela torre Antônia para pegar seus ornamentos sacerdotais. Já que estão próximas as festividades da Páscoa... Caifás: E... e depois das festas? Pilatos: Fique despreocupado, excelência. Se você e sua família me ajudarem nesta necessária tarefa de tranqüilizar o povo, você também poderá dormir tranqüilo. Renovarei sua designação como sumo sacerdote para o próximo ano. Roma sabe ser agradecida com seus colaboradores... Caifás: Obrigado, governador, o senhor sabe que pode contar comigo... Pilatos: Informarei meu colega Sejano, que é tão amigo do imperador Tibério, sobre sua conduta exemplar ao longo deste ano... Caifás: Muitíssimo obrigado governador. Saúde sua digna esposa Cláudia Prócula de minha parte. Pilatos: Também cumprimente de minha parte seu digno sogro Anás... O sumo sacerdote Caifás saiu do palácio do governador romano com passo vacilante. Do lado de fora alguns membros do Sinédrio e seus guardas o esperavam, para leva-lo bem protegido em uma liteira, até sua luxuosa residência no bairro alto da cidade. Caifás: Temos que ser prudentes, meus amigos. A entrevista, como lhes direi, foi muito cordial e cheia de respeito de ambas as partes. O governador Pilatos está na melhor das disposições de nos ajudar... se nós o ajudarmos também. Um escriba: O que espera de nós, excelência? Caifás: Que sejamos razoáveis com as novas medidas tributárias. E que façamos o povo ser razoável também. O mandamento diz: “honrarás teu pai e tua mãe”. Deus é nosso pai no céu. Roma é nossa mãe na terra. Os dois nos pedem obediência às leis. Isso é o que deve ser dito ao povo. Em poucas horas, toda a cidade sabia que o sumo sacerdote Caifás apoiava os novos impostos ordenados pelo governador Pôncio Pilatos. Nas ruas de Jerusalém não se falava outra coisa... Um homem: Se Roma é nossa mãe, é melhor ficar órfão! Outro homem: Vá pro inferno, esse gordo do Caifás não faz outra coisa do que lamber o traseiro de Pilatos! Uma mulher: Ei, vejam, aqueles não são os galileus que andam sempre com o profeta?... E, se não me engano, o nazareno está com eles! Um homem: Ei, vocês, não se vão, esperem...! Quisemos nos disfarçar no meio da multidão que saía do templo àquela hora, mas foi impossível. Eles nos rodearam. Queriam escutar Jesus... Mas nesse momento, abriu passagem entre as pessoas um grupo de sacerdotes, mestres da Lei, e herodianos que também nos andavam procurando... Um escriba: Não se esconda, Jesus de Nazaré, que aqui todos lhe conhecem as barbas... É muita sorte que tenha vindo à capital, e mais ainda nestes dias... E então, o que você diz? Jesus: Dizer sobre o que? Escriba: De tudo isso que está acontecendo em Jerusalém. Jesus: Explique-se melhor, amigo. Mal acabamos de chegar do norte e... e não estamos sabendo de nada. Um fariseu: Não se faça de tonto, nazareno, que de tonto você não tem nem um pêlo... Escriba: Muito menos tem pêlo na língua. Ao menos, assim dizem por aí, não lhe importa o que dizem ou o que não dizem, mas somente a verdade que é clara como a água. Pois fale claro então: deve-se pagar o imposto ao César de Roma? O que você diz? Todos nós que estávamos perto de Jesus compreendemos a armadilha que estavam tramando aqueles partidários de Caifás. Jesus, no entanto, parecia tranqüilo... Fariseu: E então? O profeta perdeu a língua?... Por que você tem medo de responder? Vamos, fale, deve-se pagar o tributo a César? Jesus: Bem... isso depende... Fariseu: Fale claro, sim ou não? Jesus: Eu lhe digo que depende. Escriba: E depende do quê? Jesus: Do que você tenha no bolso. Eu, por exemplo, não posso pagar porque não tenho nenhum centavo! As pessoas aplaudiram Jesus enquanto os sacerdotes o olhavam com expressão de desprezo... Fariseu: A Lei não depende de nada, galileu. Todos temos obrigação de cumprir a lei. Ou não? Jesus: Mas se eu não tenho nenhum denário para pagar o imposto, como posso cumprir a lei, diga-me? Escriba: Pois tem que pagar. É Roma que está mandando. Jesus: Mas se você não me der um denário, eu não posso pagar nada, ainda que quem esteja mandando seja o arcanjo Rafael. Fariseu: Você não vai escorregar assim tão fácil, nazareno. Olhe, aqui você tem o denário. Tome, é seu... eu lhe dou de presente... Um dos sacerdotes tirou de sua túnica um denário de prata e o deu a Jesus. O sol fez brilhar a moeda sobre sua mão calejada... Fariseu: E agora, heim? Jesus: Como que agora? Fariseu: Você já tem o denário que precisava. O que vai fazer com ele? Jesus: Bom... estava pensando em comprar um denário de pão com esta esmola que vocês me deram. Escriba: Nós lhe demos este denário para você pagar o imposto. Queremos vê-lo frente à mesa dos impostos pagando sua contribuição a César. Jesus: Pois eu acho que vocês me verão em frente à padaria. Com certeza César já comeu, e eu, no entanto, ainda estou em jejum. Fariseu: Está querendo dar uma de engraçadinho, Jesus de Nazaré. Mas do César de Roma não se ri. O imperador Tibério é quem ordenou o pagamento desses novos impostos. Jesus: E o que eu tenho a ver com esse imperador Tibério? Escriba: O que tem a ver? Nosso país está sob o domínio de Roma. Todos os israelitas estão sob o domínio do César de Roma. Jesus: Você pode estar. Eu não. Eu não dobro meu joelho diante desse tal Tibério nem de homem algum. Fariseu: Tibério é o César. E o César é autoridade suprema na terra. Jesus: Tibério é um homem como você e como eu. E a única autoridade é a do céu. O único chefe, o único imperador é Deus. Não há outro. E ninguém neste mundo tem o direito de chamar-se rei nem pai porque há um só, o de cima, e todos os demais são irmãos e valemos a mesma coisa. Escriba: Como você pode falar assim? Os governos são postos por Deus. Os governantes fazem as vezes de Deus para o povo. Jesus: Não me diga...?! Pois veja você que os governantes por aqui não fazem outra coisa que abusar do povo e carregar-nos de impostos e mais impostos para chupar de nós o pouco dinheiro que nos resta. E depois ainda têm o descaramento de chamarem-se benfeitores do país! Escrita: Meça suas palavras, nazareno. Quem se rebela contra César se rebela contra Deus. Jesus: Ao contrário, conterrâneo: quem se faz amigo de César se torna inimigo de Deus. Não se pode servir a dois senhores: ou fica com Deus ou com César! Fariseu: O que você diz é quase uma blasfêmia. Caifás, nosso sumo sacerdote, acaba de declarar que temos de obedecer a César! Jesus: E em nome de quem ele disse isso? Fariseu: Em nome de Deus! Caifás representa Deus na terra! Jesus: Diga melhor, em nome do diabo e de seus interesses. Escriba: Como se atreve a falar assim do sumo sacerdote de Deus. Jesus: Digam de minha parte a este sumo sacerdote que não se pode servir a dois senhores nem se pode usar a religião para adormecer o povo. Escriba: Você já ultrapassou todas as medidas, camponês charlatão. Nós lhe demos um denário. Vai entrega-lo como imposto a César ou não? Jesus: Eu acho que cada um deve ficar com o seu. A Deus o de Deus e ao demônio o do demônio. Veja a moeda... de quem é esta cara?... Olhe bem... Dele, de um homem igual a você e eu que quis subir ao céu para roubar o lugar de Deus. O demônio também fez a mesma coisa e caiu como um raio até lá embaixo. E assim cairão todos esses que põem sua cara e seu nome nas moedas que antes roubaram do povo... Aí está o denário: devolvam a ele vocês mesmos! Jesus atirou a moeda aos pés dos sacerdotes e dos mestres da Lei, deu meia volta e se foi. Uma mulher: É assim que se fala, diacho! Que viva o nazareno! Fariseu: Agarrem esse homem, não o deixem escapar! Os partidários de Caifás quiseram prender Jesus, mas também daquela vez ficaram só na vontade. Passamos a noite na casa de Marcos e, no dia seguinte, muito cedo, quando ainda as ruas de Jerusalém estavam meio desertas, saíamos às escondidas até a Peréia, do outro lado do rio Jordão, onde antes o profeta João tinha estado batizando. Desde o tempo do rei Salomão (uns mil anos antes de Jesus), o reino de Israel cobrava impostos de seus cidadãos, ainda que com uma organização não plenamente desenvolvida. Os persas e os gregos, que ocuparam o país (500 e 150 anos antes de Jesus), também estabeleceram o sistema de impostos. Com a dominação romana na Palestina, que começou a ser definitiva a partir do ano 6 da era cristã, impôs-se de forma rigorosa a cobrança dos tributos aos israelitas. De fato, o Estado romano reteve todo o excedente da produção do país numa ampla rede de alfândegas que estabeleceu para a cobrança dos diversos impostos. Através delas, controlava todo o movimento comercial da província. Pilatos, governador da província romana da Judéia, era na Palestina o mais alto representante de Tibério César, imperador de Roma. Realmente, sua função principal era precisamente a de ser agente de finanças do império. Era essencial em seu cargo a super-viligância da arrecadação de impostos. Em contrapartida, devia manter à rédea curta o povo, que periodicamente se insubordinava por causa da exploração econômica que supunha, entre outras muitas medidas, o sistema fiscal romano. A província da Judéia devia pagar anualmente a Roma 600 talentos (seis milhões de denários) a título de impostos. (A diária de um trabalhador era de um denário). Os impostos que Roma cobrava na Palestina eram de três tipos: 1) impostos territoriais (pagava-se parte em produtos, parte em dinheiro); 2) impostos pessoais (de vários tipos: conforme a riqueza ou renda; havia outro que era geral e todos pagavam, exceto as crianças e velhos: o “tributum capitis” – por cabeça. A ele se refere o relato evangélico; 3) impostos comerciais (sobre todos os artigos de importação e exportação). Os sumos sacerdotes – máximas autoridades religiosas de Israel – “pactuaram” com os romanos com a finalidade de manter seu poder e, sobretudo, sua privilegiada situação econômica. No tempo de Jesus foram sumos sacerdotes Anás (anos 6-15 depois de Jesus), alguns de seus filhos e, do ano 18 a 37, seu genro José Caifás), que é quem aparece no episódio. Ele pertencia, como Anás, à aristocracia sacerdotal e a uma das famílias mais ricas de Jerusalém. Caifás tratava de contemporizar com Pilatos e Pilatos o dominava com todo tipo de pressões políticas ou econômicas e até com ameaças. O meio que o governador romano usou foi, por exemplo, reter na Torre Antônia – quartel romano vizinho ao Templo – os sagrados ornamentos com que se revestia o sumo sacerdote para as grandes festas religiosas. O governador os entregava unicamente para as festas e depois tornava a guardá-los. (Este método também foi usado por Herodes, o Grande, e por Arquelau). Era todo um símbolo da falta de independência que tinha a autoridade religiosa com relação ao poder político imperial. Em sua conversa com o sumo sacerdote Caifás, Pilatos se refere à construção do aqueduto de Jerusalém. Efetivamente, Pôncio Pilatos foi o executor, no tempo de Jesus, desta grande obra de engenharia, de que se conserva ainda alguns restos na atualidade. Pilatos, que desprezava profundamente os judeus e que ofendeu por numerosas vezes seus sentimentos religiosos, lançou mão para esta construção do chamado “tesouro do Templo”, dinheiro que os israelitas piedosos consideravam sagrado. Este fato provocou candentes revoltas populares contra o poder romano que foram reprimidas violentamente pelos soldados e das quais os historiadores da época deixaram relatos. No evangelho se fala de dois imperadores romanos. César Augusto, que dominou desde o ano 30 antes de Jesus até o ano 14 depois de seu nascimento. Com ele iniciou-se a dinastia imperial romana da família Cláudia. O outro é Tibério César, filho da segunda esposa de Augusto, que governou desde o ano 14 até 37. Sob seu mandato foi assassinado Jesus. Depois de Tibério continuaram governando Roma outros Césares: Calígula, Cláudio, Nero... Tibério fez de Augusto, seu pai adotivo, um “deus”. Pouco a pouco, a ambição de poder determinou que os Césares reclamassem para si um culto por parte de seus súditos. No tempo de Jesus esta tendência de divinizar o imperador estava se acentuando cada vez mais. Depois, ficou definitivamente fixada até a queda do império. Calígula se fez adorar em vida. Os Césares fizeram para si imagens que deviam ser veneradas, devia-se prostrar-se em sua presença etc. Tudo isso não era mais que fruto da ambição e, sobretudo, de uma hábil tática para reforçar seu poder e o servilismo de seus súditos. Entre o povo submetido de Israel, esta idéia que Roma tratava de impor não prosperou, pois a fé judaica resistiu tenazmente à blasfêmia. Mas não os seus dirigentes, que embora não aceitassem teoricamente que César fosse deus, na prática fizeram vista grossa e se calaram, em cumplicidade com o poder estabelecido. O governo local (Sinédrio – Conselho ou Tribunal de Israel – cuja máxima autoridade era o sumo sacerdote), realmente carecia de iniciativa no assunto de impostos, como tampouco nas relações com outros países ou na defesa. Sua única missão era manter o culto religioso e vigiar para que a Lei religiosa fosse estritamente cumprida. Em momentos como o que descreve esse episódio, se punha de manifesto até que ponto Israel era uma nação submetida ao arbítrio de um poder estrangeiro. “Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” é talvez uma das mais manipuladas frases do evangelho. Em todos os tempos foi usada continuamente para dividir campos e dizer que os padres, os cristãos, não têm que se meter a fazer juízos de tipo político nem intervir nas coisas do Estado, mas que devem dedicar-se muito mais às coisas de Deus: rezar, estar na igreja... Não se devem misturar os campos – dizem - cada um no seu lugar. Mas o sentido original das palavras de Jesus foi nada mais que este: ao separar Deus de César, ao desmistificar a figura do imperador, máxima autoridade daquele tempo, ao dizer que César não era Deus, Jesus estava lhe tirando a autoridade de base religiosa em que pretendia apoiar-se. Um dos motivos mais freqüentes das revoltas populares em Israel eram os impostos. Foi precisamente a negativa de pagar impostos a Roma o estopim que desencadearia a guerra judaica do ano 70 depois de Jesus, na qual Jerusalém foi destruída até seus alicerces e a sociedade judaica definitivamente desmantelada. Naquele ambiente, a pergunta sobre o imposto dirigida a Jesus era chave. Os zelotas se negavam a pagá-lo, como uma forma de resistência ativa ao império ocupante. As classes colaboracionistas (saduceus, sacerdotes) recomendavam o pagamento. Os fariseus duvidavam. Teoricamente estavam contra, pois eram muito nacionalistas, mas na prática terminavam pagando. Jesus, no relato, não legitima a ocupação romana mostrando-se partidário do pagamento, mas tampouco faz do não pagar uma forma de rebeldia direta contra o poder. Sua resposta se situa em outro plano: a de uma total liberdade diante da autoridade. A história está cheia de exemplos nos quais a autoridade dos reis (e depois, a de tantos governantes) se apresentou aos súditos como algo que “vem de Deus”. Durante séculos se disse que Deus é que “escolhe” o rei. Também foi formulado “Fulano de Tal, presidente pela graça de Deus”. Mas não é assim. A autoridade é escolhida pelos homens – se é democrática -. Impõe-se, se é autoritária. (Mateus 22, 15-22; Marcos 12, 13-17; Lucas 20,20-26)
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