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Capítulo LVII O FOGO DA GEENA Junto à cidade de Jerusalém, ao pé das muralhas do sul, estende-se um barranco pedregoso que no nosso tempo chamávamos de Geena. Desde que o profeta Jeremias amaldiçoou aquele lugar onde foram oferecidos sacrifícios ao deus pagão Moloc, a Geena foi utilizada como lixão público... As moradoras de Jerusalém saíam ao entardecer pela porta chamada do Lixo, com as sobras de comida, com galhos secos ou carregando animais mortos e jogavam tudo aquilo na Geena. Depois, um queimador de imundícies borrifava tudo com enxofre e botava fogo... Pedro: O que eu me pergunto é de onde sai tanto lixo nesta cidade! Olhe só esse fogaréu! Felipe: Diacho, tomara que o vento não sopre porque se essa labareda se voltar para nós, estamos fritos! Susana: Tapem o nariz que isso fede mais que o fiofó do diabo! Deixamos para trás o grande fogo da Geena e atravessamos o outro vale, o do Cedron, caminho de Betânia. Já era noite quando chegamos à taberna do nosso amigo Lázaro, onde nos hospedávamos... Lázaro: Até que enfim vocês estão mostrando as fuças de novo! Marta, Maria... aqui estão nossos compatriotas galileus com mais fome que um exército de lagostas... Mas, não se preocupem, a Palmeira Bonita lhes oferece hoje a especialidade da casa: cabeças de cordeiro assadas em fogo brando! Pedro: Olhe, Lázaro, nem me fale de fogo nem de animais mortos porque acabamos de passar pela Geena e ali havia a mesma especialidade da casa! Maria: Bem, bem, rapazes, todo mundo lavando as pantorrilhas e vamos comer que a mesa está servida. Vamos, vamos... Pedro: Pode crer, Lázaro, um pouco mais e quase queimo o focinho. Nunca mais torno a passar perto da muralha quando estiverem queimando o lixo! Lázaro: E já imaginou o que você vai fazer, Pedro, quando o queimarem no fogo do inferno... quando vier o diabo agarrá-lo pelos cabelos e jogar você no Lixão da Eternidade? Pedro: Rá! Ele não vai me pegar! Neste dia meus cabelos já terão caído, como os do Natanael! Afinal, os carecas merecem alguma vantagem, não? No quintal da taberna, ao redor de uma mesa destrambelhada que cheirava a vinho azedo, estávamos sentados os doze do grupo, Jesus e as mulheres e outros galileus que se hospedavam com Lázaro e suas irmãs. Das cabeças de cordeiro já não restavam nem os olhos. Um par de lamparinas de azeite, penduradas nas paredes, projetava sombras misteriosas nos rostos de todos os que estavam ali reunidos... Pedro: Podem crer, camaradas, quando estava olhando o fogo da Geena fiquei como os caranguejos quando se põe uma brasa diante de seus olhos... assim, teso. E depois, senti como que uns calafrios aqui nas costas. Felipe: Calafrios piores eu senti quando vi o que fizeram com um amigo meu... Maria: O que fizeram, Felipe? Felipe: Foi horrível. Amarraram-lhe os pés e as mãos enfiaram-lhe um trapo na boca para não gritar, o levaram ao alto da muralha e entre quatro o balançaram como se fosse um saco de farinha e, um, e dois, e três e... Plash! Foi horrível! Natanael: Deixe de ser loroteiro, Felipe. Isso é uma história que você está inventando agora! Felipe: Uma história, Nata? Está bem, quando a fogueira se apagar, pode ir lá recolher suas costelas tostadas no lixão. Lázaro: Pelo menos, na Geena a fogueira se apaga. Dizem que no inferno o fogo queima e queima e queima... e é como se lhe botassem um tição aceso aqui na pança e que não se apaga nunca. Susana: Que o Altíssimo nos proteja, amém, amém! Maria: Parem com isso, Felipe e Lázaro! Não podem falar de outra coisa?... A comida não está lhes fazendo bem? Lázaro: A mim está fazendo muito bem. E a você, Felipe? Felipe: A mim também. Mas claro, a eles nem tanto... Maria: A eles quem? Felipe: Aos pobres cordeiros que nós comemos. Se eles pudessem falar, diriam o que é sentir-se com um pau atravessado pelo espinhaço e dando voltas em cima de uma fogueira! Lázaro: Pois... não querendo insistir na mesma toada, dizem que o demônio também tem um espeto desse tamanho para enfiar nos condenados e assá-los em fogo lento. Felipe: Não, homem, assim não acabaria nunca. O que ele tem é um panelão de quarenta pés de largura e ali, nas borbulhas de azeite fervendo, vai cozinhando seus amigos. Natanael: Vão vocês para o diabo ou calem a boca de uma vez! Vocês conseguiram arrepiar até os pelos do meu sovaco! Maria: Eu também estou com os dentes rangendo! Um saduceu: ... Rá, rá, ráaaaa...! Um homem corpulento e com muitas verrugas no rosto havia dado uma ruidosa gargalhada... Maria: Pois olhe só, a gente pode saber por que você está rindo assim? Saduceu: Rá! Estou rindo de todas essas besteiras que vocês estão dizendo. Eu não acredito em nada disso. Maria: Não me diga! Então você não acredita no inferno, conterrâneo? Saduceu: Não. Eu acredito que quem gosta de morto é sepultura, quem está vivo quer mais é fartura. O resto são histórias para espantar criança. Com a morte, tudo se acaba! Felipe: Ah, já sei, você é um saduceu... Saduceu: É isso mesmo, e daí? Eu sou um sujeito racional, que não usa a cabeça só para pôr turbante, mas para pensar. Maria: E o que você pensou, já que pensa tanto? Saduceu: O que disse aquele outro: “comamos, bebamos que amanhã morreremos”! O resto é idiotice! Lázaro: Mas, como é que você pode falar assim, amigo? Saduceu: Porque tenho provas. Quer uma? Escute: eu conheci uma mulher que se casou e poucos dias depois seu marido morreu. Casou-se outra vez e outra vez e o marido morreu. E outra vez, e outra vez e outra vez... e aquela mulher ficou viúva de sete homens. Depois, ela também morreu. Maria: E o que você quer dizer com isso? Saduceu: Que não pode haver outra vida depois desta porque se houver, com qual dos sete maridos essa mulher vai ficar?... Vamos lá, respondam... Não conseguem, não é mesmo? Com isso fica demonstrado que os mortos não ressuscitam. Pedro: Não, homem, não, o que fica demonstrado é que esta mulher teve muito pouca sorte! Saduceu: Pois eu digo que essa é uma prova contundente! Pedro: E eu digo que isso é uma solene estupidez! Saduceu: Não existe nada, companheiros, nem céu nem inferno. Ninguém mais acredita nessas histórias! Tobias: Eu sim. Como não vou acreditar no inferno... se agora mesmo eu vim de lá? Todos voltamos o rosto para Tobias, o velho cameleiro, que não havia aberto a boca a noite toda. Era um homem magro e musculoso, muito queimado pelo sol. Parecia feito de raízes... Tobias: Sim, amigos, eu venho de lá. Estive quatro dias no inferno. E espero não voltar nunca mais... Natanael: O que... que lhe aconteceu...? Conte pra gente... Tobias: Sabem o que é? Eu faço a rota do deserto, a que vai de Bercheba até Hebron... Naquela noite soprava o vento gelado de Temam. Eu estava com o sono atrasado de muitos dias e desci do camelo, enrolei-me na minha manta de lã e adormeci sobre a areia... E enquanto eu dormia, o camelo se assustou com o zumbido do vento, se espantou e se perdeu na noite... Tobias: Ei, onde diabos você se meteu, animal das mil rebeldias?!... Camelooo!... Camelooo!... Com mil diabos, quando você voltar vou lhe cortar a corcova com um talho só! Mas o camelo não voltou. Meu único companheiro naquele interminável caminho havia me abandonado. E com ele se foi também o cântaro de água, a comida, a lamparina... Tobias: Camelooo!... Camelooo!... Eu me senti desamparado naquela imensa escuridão. Não conseguia ver nem a palma da minha mão... Então me pus a andar, a caminhar sem saber para onde, a caminhar afundando-me naquelas dunas de areia do deserto, onde só vivem os escorpiões... Tobias: Camelooo!... Camelooo! Tinha sede, fome, cansaço... Mas isso não era o pior. O pior é que estava completamente só. Amanheceu e não havia nada nem ninguém ao meu redor. Continuei caminhando... Voltou a noite sem lua, fechada sobre minha cabeça como uma lápide de sepultura. Eu corria, gritava, mas ninguém me respondia, ninguém... Estava completamente perdido e totalmente só... Tobias: E fiquei assim quatro dias e quatro noites naquele inferno. Pedro: E como você saiu de lá, conterrâneo? Tobias: As estrelas me salvaram. Elas são as amigas mais fiéis que um cameleiro pode ter. Pouco a pouco elas foram me orientando até que avistei, ao longe, uma pequena aldeia que chamam de Guerar. Juro pra vocês, amigos, que quando vi uma pessoa, corri até ela e me atirei a seus pés e os beijei e gritei de alegria. Eu não estava mais só. Acreditem, prefiro que me queimem na Geena se tiver alguém perto de mim, do que voltar a sentir-me como lá, sem ninguém ao meu lado. Porque isso é o inferno: ficar sozinho. Quando Tobias, o cameleiro, terminou seu relato, todos nós respiramos fundo, como se nós também acabássemos de sair do deserto... As lamparinas de azeite continuavam crepitando sobre as paredes da taberna... Pedro: Puff!... Escutem, companheiros, por que não mudamos de assunto? Estou com os olhos do cordeiro dançando aqui nas tripas... Susana: Não é de estranhar, Pedro, também com tanto inferno... Por que não subimos um pouquinho até o céu? Lá, pelo menos, ninguém se sentirá sozinho, pode crer... Felipe: Eu não sei você, dona Susana, mas aquela dos sete maridos vai ter mesmo que escolher, não é assim, saduceu? Saduceu: Deixe essa coisa de saduceu, caramba! O que eu disse é que não pode haver céu porque, se houver, como é que essa viúva vai se arranjar? Lázaro: E se não há, como é que os anjos se arranjam, heim? Onde ficam todos os anjinhos, diga? Felipe: Os anjinhos... e anjinhas também. Porque deve haver de tudo, eu acho... Maria: O Felipe já começou de novo com as suas. Claro que não, cabeção, lá em cima não tem nada disso. Felipe: Ah, não? E então, o que se faz por lá, caramba? Chupa-se o dedo? Susana: O que se faz é pôr-se de joelhos diante de Deus e adora-lo. É isso que se faz no céu. Felipe: E depois, nada mais? Susana: Depois você continua adorando porque o Senhor é três vezes santo e no céu estaremos todos assim, com as mãos postas, diante do trono de Deus, repetindo sem cessar “santo, santo, santo”... pelos séculos dos séculos. Lázaro: Amém!... Ahummm...! Perdoe-me, dona Susana, mas só de pensar em tantos séculos e tantos “santo, santo, santo”... está me dando um sono... Felipe: Mas aí eu pergunto, camaradas, não haverá outro lugar melhor para a gente ir? Porque, pra dizer a verdade, esse céu é um bocado chato... Maria: Não há outro lugar, Felipe. Ou ao céu, ou ao inferno. Você escolhe. Felipe: Bom, neste caso... quando me enterrarem, que alguém de vocês coloque os dados no meu bolso, porque se encontrar por lá algum querubim que goste de jogar e, entre um santo e outro, a gente tira uma partidinha... O que vocês acham, companheiros? Jesus: Eu tenho uma idéia melhor, Felipe.... Felipe: Diacho, Jesus, já era hora de você abrir a boca! Vamos ver, solte sua idéia! Jesus: Eu digo, porque você não pega os dados e comecemos o céu agora mesmo... Não precisa esperar pra morrer, homem! Pedro: Eu apóio o moreno! Onde estão esses dados? Felipe: Estão aqui, rapazes!... Vamos lá, quem vai jogar? Lázaro: Eu! Natanael: E eu também! Jesus: Vamos, Lázaro, corre e traga umas boas jarras de vinho! E você, Maria, bote mais azeite nas lamparinas para que esses espertinhos não façam trapaças no escuro...! Marta, ponha mais lenha para queimar e tirar o frio dos ossos...! Vamos, vamos! Jesus jogou os dados. E todos nós que estávamos ao redor da mesa, desde o saduceu até o cameleiro Tobias, entramos no jogo. Felipe: Aposto cinco contra um que o céu deve ser desse jeito mesmo: uma festa de amigos! Jesus: Pois eu aposto cinqüenta contra um que será ainda melhor! Naquela noite em Betânia, Jesus nos ensinou que o céu será uma grande festa, sem fim... Então já não perguntaremos nada e ninguém poderá tirar nossa alegria. O Vale da Geena rodeia Jerusalém pelo Oeste. Pelo Sul, junta-se ao vale do Cedron. “Geena” é a forma grega da palavra hebraica “Ge-Hinnom” (Vale do Hinnom). Neste vale foram oferecidos antigamente sacrifícios humanos ao deus pagão Moloc. Isso fez com que os profetas amaldiçoassem o vale (Jer 7, 30-33). Uns duzentos anos antes de Jesus, a crença popular era que neste lugar estaria situado um inferno de fogo para os condenados por suas más ações e este inferno recebeu o mesmo nome do vale: geena. Por ser um lugar desacreditado e maldito, o vale da Geena tornou-se o lixão público de Jerusalém. No ângulo sudeste das muralhas abria-se a chamada Porta do Lixo, que dava para o vale. Por ela se jogava fora da cidade todos os detritos. Em Jerusalém havia varredores e parece que diariamente varriam as ruas da capital. Todos os escombros e dejetos iam parar na Geena, onde eram queimados. O ofício de lixeiro estava na lista dos ofícios “desprezíveis”, por seu caráter repugnante. Durante séculos, o povo de Israel acreditou que ao terminar a vida na terra, os mortos desciam ao “sheol”, um lugar situado nas profundidades da terra ou debaixo das águas, onde bons e maus misturados permaneceriam sem gozo nem pena alguma. O “Sheol” é mencionado 65 vezes no Antigo Testamento. Sempre como um lugar triste, onde não há esperança nem estímulo algum. Outros povos – como os babilônios – acreditavam num lugar semelhante (Jó 10, 20-22; Salmo 88, 11-13; Eclesiastes 9, 5 e 10). Esta idéia chega até o Apocalípse – último livro da Bíblia – quando se diz que é o Cristo que tem as chaves deste abismo (Ap 1,18). Só no final do Antigo Testamento aparece na mentalidade israelita a doutrina de que depois da morte haverá recompensas e penas para as boas ou más ações feitas durante a vida. O livro da Sabedoria, escrito uns cinqüenta anos antes de Jesus, já fala neste sentido (Sab 3,1-10; 4,7-19; 5, 1-22). São reflexões de caráter espiritual e moral. Mas, do ponto de vista histórico, a esperança na imortalidade individual, é encontrada nos livros dos Macabeus. Em 2Mac 12,41-46 e 2Mac 14,46. O mais interessante do que aportam os livros dos Macabeus neste sentido é o seguinte: diante da morte dos guerrilheiros israelitas que combatiam pela libertação de seu povo contra tropas estrangeiras, o povo começou a intuir que os mártires da libertação nacional seriam ressuscitados por Deus, que os justos mortos injustamente, continuariam vivos e receberiam de Deus o prêmio por seu gesto de solidariedade com a causa de seu povo. Aqueles mártires não podiam ficar mortos. Não se fala no livro de ressurreição de todos os homens, mas destes, os caídos em combate. Isto é, a idéia da ressurreição surge em Israel a partir de uma história de insurreição. E assim como nas origens do povo Israel Deus é conhecido como “libertador”, ao ver que sendo eles escravos no Egito conseguem sua libertação com a ajuda de Deus, agora, uns cem anos antes de Jesus, Israel conhece o Deus “ressuscitador” quando, ao ver morrer em uma luta de libertação seus melhores homens, começa a entender que estes mortos são “dos que nunca morrem”. O que acontecerá com os homens depois de sua morte é algo que preocupou todas as culturas, todos os povos, até nossos dias. O evangelho foi escrito por pessoas que eram herdeiras de uma série de idéias – umas mais antigas e outras mais recentes – sobre esses temas. Por isso não se pode tirar deles uma articulação homogênea sobre o que seja a vida além-túmulo. Porque não a dão. E porque o fato histórico da ressurreição de Jesus viria mudar completamente as idéias neste ponto para os que se chamavam cristãos, partindo do judaísmo. Jesus falou do fogo e do “ranger de dentes” porque era filho de seu tempo. Por isso não “dogmatizou” sobre esses temas. Falou assim porque assim se falava em sua época. E o fez inspirando-se no lixão da Geena. Sim, há uma coisa bem clara no pensamento de Jesus sobre a morte dos que são filhos do Reino, são justos, lutam pela justiça e amam seus irmãos: tanto sua vida quanto sua morte estão nas mãos de Deus, como está a vida e a morte dos pardais (Mt 10, 29). Não têm porque temer. A fé em Deus, Pai de Jesus, encerra a certeza de que venceremos a morte. Em resumo, o evangelho faz do “depois” da morte objeto de esperança. Frente à morte insuperável e ao silêncio que Deus guarda diante dela, a palavra de Jesus é isso: Esperança. A libertação que ele anuncia, vencerá também a “última inimiga”, a morte (1Cor 15, 26). Jesus falou do cumprimento “pleno” do Reino de Deus, sem chamá-lo de céu. Mas, por experiência, sabemos que essa plenitude não se dá nesta vida, pois a morte sempre ameaça o ser humano. Três coisas caracterizam suas palavras sobre o futuro que aguarda o homem: Não haverá ali “nacionalidades”, fronteiras, discriminações. Haverá uma igualdade plena, inclusive muito além das diferenças biológicas (Mt 22, 30). Jesus faz esta aparente – à primeira vista – “espiritualização”, e é preciso assinalar, por oposição às idéias que, em seu tempo, representavam os saduceus. Eles eram pessoas influentes e poderosas que não acreditavam em nada na vida após a morte, porque esta já os satisfazia o suficiente. Ligados ao poder romano e a seus benefícios econômicos, defendiam em sua “teologia” que a recompensa só se dava nesta terra, precisamente na forma de uma boa posição, dinheiro e privilégios. Sua falta de “esperança” estava, pois, bem justificada. Por isso, os saduceus eram ardorosos defensores do sistema estabelecido e descarados colaboracionistas dos romanos. Jesus rechaça esse materialismo saduceu como referência ao que possa ser a plenitude do Reino de Deus (Mc 12, 18-27).
Jesus utiliza símbolos para falar do “mundo novo”: as pessoas verão a Deus com seus próprios olhos, a herança será repartida, ouvir-se-ão risos de festa, a família de Deus se sentará à mesa do Pai, o pão da vida será repartido etc. E tudo mudará. Os últimos serão os primeiros, os pobres serão ricos, os famintos serão saciados... Evidentemente, isso deve começar aqui na terra, e só assim teremos uma visão do que será depois a plenitude.
Jesus promete a plenitude do Reino de Deus, a salvação à comunidade. Nesta perspectiva, a imagem do banquete da festa, com a casa a transbordar (Mt 22, 1-14) é como que um resumo destas três características da linguagem de Jesus sobre o futuro. O “céu” será uma festa de pobres que não terá fim.
As imagens que alguns pregadores e livros de religião deram, tanto do céu como do inferno, são perigosíssimas para uma autêntica maturação da fé. Quanto ao inferno, procuram aterrorizar e dão de Deus uma imagem de sádico que goza em ver sofrer os condenados em câmaras de tortura onde o fogo toma conta de tudo. Quanto ao céu, conseguem aborrecer e dão de Deus a imagem de alguém tão soberbo que a única coisa que quer é que se o contemple em seu trono de majestade, se lhe façam reverências, se lhe cantem e louvem, enquanto ele permanece distante e solene. Em nada disso se percebe o Jesus do evangelho que falou de um Deus Pai cheio de ternura e que o revelou misturando-o a todos como um a mais, tendo compaixão de todas as fraquezas, alegrando-se nas festas, sofrendo a dor dos demais. O céu e o inferno estão bem perto de nós. O céu está na comunidade que compartilha e se alegra, no amor verdadeiro entre os seres humanos, na convivência, na relação, no gozo de estar juntos e saber que todos se querem e que ninguém procura dominar ninguém. O céu é a criatividade, o humor, a saúde, a vontade de viver, a brincadeira... O inferno está na sociedade. Quem se nega a ser irmão, a ser igual a todos, a servir, a compartilhar, poderá ter dinheiro, fama e poder, mas está cavando sua própria sepultura. (Mateus 22, 23-33; Marcos 12, 18-27; Lucas 20, 27-40)
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