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Capítulo LVI OS QUE MATAM O CORPO Tiago: Chegou a hora, companheiros, a hora da vitória! Simeão: Em três dias estaremos em Jerusalém e em três horas a capital será nossa! Júlio: E então, que os traidores se preparem! Fora com eles! Simeão: Os romanos, fora! Júlio: Os herodianos, fora! Tiago: Os saduceus, fora também! Um morador: Ei, você, escute aqui. Quem vai ficar dentro? Tiago: Nós, pedaço de idiota, nós sentados sobre doze tronos e com o cetro do poder entre os joelhos. Morador: É mesmo, Tiago? Você acha que chegaremos a isso? Tiago: Não acredito. Tenho certeza! E por isso vou com o nazareno e com todo o povo! Anime-se, homem! Vai ser algo grande, e fim de papo! Depois, você vai se arrancar os bigodes por não ter ido! Ana: Pode crer, comadre! Jesus disse que vai pegar Jerusalém de surpresa. E que no Templo não vai ficar pedra sobre pedra! Rufina: E depois, o que vai ser? Ana: Como o que vai ser? Depois da batalha, é repartir o botim! Eu estou de olho nas cortinas do átrio. E nas mantas! Rufina: Pois eu me conformaria com um desses candelabros que tem sete anjinhos de ouro! Uma moradora: E o que vai sobrar para mim, heim? As sete velas? Ao diabo com essas duas! A cada dia eram mais moradores e moradoras de Cafarnaum que se animavam a viajar conosco a Jerusalém para celebrar a Páscoa daquele ano. Acredito que tínhamos idéias bem diferentes do que aconteceria por lá, durante as festas. Cada um levava dentro uma esperança diferente. Mas todos sonhávamos com ver chegar o grande dia da libertação do nosso povo... Júlio: Ouça bem, Cleto: o céu se abrirá de par em par! Então, Deus meterá seu dedo entre as nuvens e dirá: esse moreno é o Messias! Vão com ele e aonde ele disser! Está entendendo, Cleto? Ele na frente e nós atrás! Cleto: E atrás de nós, os soldados, com suas lanças, não é? Não, não, deixe-me em paz que eu não vou a lugar algum! Júlio: Como não? Mas, e quando Deus esticar o dedo...? Cleto: Se o esticar, que o chupe, pouco me importa! Mas não vou com vocês nem amarrado. A notícia da nossa viagem a Jerusalém logo saiu de Cafarnaum e foi ecoando através do vale, de povoado em povoado, de porta em porta, até chegar a Nazaré e bater na casa de Maria, a mãe de Jesus... Susana: Maria, comadre Maria! Já está sabendo? Seus primos não disseram nada? Maria: Sim, Susana, já estou sabendo. Jacó veio contar-me agora há pouco. Susana: Se Jesus não está louco de vez, não parece muito bem! Mas, diga-me você, Maria, será que esse moreno, seu filho, não pode ficar um pouco sossegado? Afinal, com o que você o criou, com leite ou pimenta malagueta? Maria: Estão dizendo que vão setecentos, oitocentos, mil homens com ele. Um exército inteiro! Susana: Sim, claro, um exército de formigas para brigar com um gigante! Maria: Bem, Susana, Davi também saiu para lutar contra Golias e ganhou! Susana: Ah, é mesmo? Trocando de camisa agora? Só me faltava isso agora! Comadre Maria, nessa viagem tem dente de coelho, escute o que estou falando. Maria: E qual é o dente de coelho, Susana? Susana: Política, revoluções... O moreno está com a água até o pescoço. Maria: Pois se ele está em perigo, não sou eu que vou ficar aqui tranqüila. Parto hoje mesmo para Cafarnaum. Susana: Mas, o que você está dizendo, Maria? Não está lembrada? Da outra vez que você foi busca-lo ele a mandou passear. Jesus já não faz caso de você. Maria: Agora não vou brigar, Susana, mas ficar ao seu lado. E ajuda-lo no que puder. E se for preciso, vou com ele a Jerusalém, e aonde mais for necessário! Susana: Mas, Maria, espere, deixe-me explicar... Maria: Você explica no caminho, Susana. Você vem comigo, não é? Susana: Eu? Mas, Maria...! Maria: Venha, Susana, depressa, temos de sair antes que caia a noite... Susana: Ai, Deus santo, mas, que doença é essa?! Jesus: Mas, mamãe... e você, Susana... o que estão fazendo aqui em Cafarnaum? Susana: Vamos com você e com todos os cabeludos que o seguem para celebrar a Páscoa em Jerusalém. Jesus: Mas, vocês estão ficando loucas? Susana: O único louco por aqui é você, Jesus, mas essa é outra história. Maria: Jesus, meu filho, isso está parecendo um caldeirão fervendo. As pessoas não falam de outra coisa que esta viagem à capital. Jesus: Falam, falam... Na hora da verdade, quantos ficarão? Susana: Bom, aqui você tem duas formiguinhas a mais no formigueiro. Jesus: É o que estou vendo. Mas acho melhor que voltem a Nazaré. As coisas já estão bastante complicadas e vão se complicar ainda mais. Não sabemos como isso vai acabar. Maria: Por isso mesmo, filho. Daqui a gente não sai. Se você for a Jerusalém, vamos com você. Se voltar para a Galiléia, voltaremos para a Galiléia juntos. Jesus: Mas, mamãe, você não percebe que... Maria: Não gaste sua saliva, Jesus. Você não me fez caso quando o mandei voltar a Nazaré, lembra-se? Pois agora eu faço ainda menos caso de você. Iremos a Jerusalém. Venha, Susana, vamos falar com Salomé, a mulher de Zebedeu, para que ela arranje um cantinho para nós na casa dela, vamos... Faltavam ainda duas longas semanas para a festa da Páscoa, mas os moradores de Cafarnaum já estavam preparando suas mochilas. Todos estavam entusiasmados com a viagem. Naquele dia, quando vi Jesus falando com Pedro, me dei conta de que ele estava preparando alguma... Pedro: Mas, Jesus, como vou dizer isso? Jesus: Acredite em mim, Pedro. É melhor assim. Pedro: Mas isso é como espantar o jumento antes de atravessar o rio... Jesus: Pior ainda é espantar no meio da correnteza e acontecer com a gente o mesmo que aconteceu com os cavalos do faraó... Pedro: Está bem, se você está dizendo, eu farei. Mas depois não se queixe. Eu bem que avisei! Naquela noite, a lua parecia um grande pão redondo partido ao meio. As pessoas do bairro estavam reunidas conosco no cais, pedindo a Jesus que lhes falasse o que fariam ao chegar a Jerusalém... Júlio: Muito bem, Jesus, por onde vamos começar, heim? Pela Torre Antônia, ou pelo palácio de Herodes? Simeão: Eu acho que a primeira coisa é dar um belo chute na bunda do gordo Caifás! Ana: Na capital vão ficar logo sabendo quem são os galileus se todos fizermos a mesma coisa! Um morador: Eu sonhei esta noite com o momento em que entrávamos em Jerusalém com a bandeira do Messias nas mãos! Viva Jesus, hozana! Quando estávamos mais inflamados, Jesus fez um sinal a Pedro... Pedro: Pois o que eu sonhei foi outra coisa, companheiros... Ana: E o que você sonhou, Pedro? Vamos lá, conte para nós, que um bom sonho vale mais que uma boa sopa. Pedro: É melhor eu não dizer... afinal, é um sonho... Vários: Não, não, conte! Desembucha, Pedro, vamos! Pedro: Está bem. Vamos lá com o sonho. Vejam só... sonhei... sonhei que todos nós estávamos caminhando por um longo vale, caminhando... e, de repente, quando levantamos a cabeça... vimos um abutre fazendo círculos no céu, sobre nós. E cada vez que acabava uma volta, vinha outro abutre e ficava junto com ele, e voavam juntos, asa com asa... e depois, mais outro, e outro... e, no final eram muitíssimos abutres, um bando de urubus negros dando voltas sobre nossa cabeça, esperando... Quando Pedro disse aquilo, todos engolimos em seco. As mulheres se olhavam com o canto dos olhos. Alguns mordiam as unhas sem se atreverem a perguntar nada.... Foi Julinho, um garoto meio bobo, quem rompeu o silêncio... Um garoto: Escute, Pedro, esse sonho aí... o que quer dizer, heim? Dá para explicar...? Pedro: Explique você, Jesus. Certamente você sabe melhor do que eu o que ele significa. Jesus: Bem, Pedro, eu acho que aqui todos entenderam... Amigos, que ninguém venha enganado. O Reino de Deus tem um preço. O preço do sangue. E os grandes de Jerusalém vão fazer a gente pagar. Eles não perdoam o que andamos dizendo aqui pela Galiléia. Muito menos perdoarão o que vamos jogar na cara deles quando chegarmos à capital. Os lobos saem de noite para procurar o rebanho e se escondem e esperam o melhor momento para saltar sobre as ovelhas e despedaça-las. Assim eles farão conosco. E depois, nos darão de presente aos abutres. Júlio: Ei, Jesus, não seja tão pessimista, caramba! Primeiro, o Pedro, agora, você...! Jesus: É que não vamos a uma festa, mas a uma luta. E o inimigo é muito mais forte que nós. Hoje estamos aqui. Amanhã podemos estar na cadeia. Todos corremos perigo. E muitos de nós seremos perseguidos de povoado em povoado, arrastados diante de Herodes e Pilatos, e os chefes dos sacerdotes nos agredirão nas sinagogas e... muitos de nós perderão a vida. Cleto: Não fale assim, Jesus. Nós seremos os vencedores. Não é você que vai à nossa frente? Jesus: Por isso mesmo, eu serei o primeiro a cair. Os profetas sempre morrem em Jerusalém. Todos nos olhamos com inquietação e sentimos o ar frio da noite como um punhal que nos transpassava a carne e os ossos. As palavras que Jesus continuou dizendo já não serviram para mais nada... Jesus: Mas não se assustem, amigos. Não se deve temer aqueles que matam o corpo mas não podem matar nosso espírito. Deus está conosco. E Deus já contou até o último cabelo de nossa cabeça e não permitirá que nossa luta seja estéril. É bem possível que caiamos nesta luta. Mas então daremos mais fruto, como a semente quando cai na terra. Eu estava sentado no chão, com a cabeça entre as mãos. Quando ergui os olhos, vi Ismael e seu companheiro Neftali que já iam longe pela rua do cais. Gente do bairro, o velho Simeão, dona Ana e os gêmeos também se foram, meio encabulados. Depois, de repente, um grupo mais numeroso de homens e mulheres, como se obedecessem a uma ordem silenciosa se levantaram e se perderam na noite... Pedro: Covardes! Tomara que o diabo apareça e lhe meta um tição bem aceso na boca de todos vocês, charlatães! Tiago: O exército saiu correndo antes de pôr o uniforme! Pedro: Bem que eu o avisei, Jesus, que os galileus têm sangue de galinha! Olhe só os que ficaram, nós doze, os mesmos de sempre! Tiago: E sua mãe Maria e a comadre Susana! Madalena: E eu também, diacho! Ou será que as madalenas não são gente? Tiago: O que essa zinha faz aqui? Madalena: O mesmo que você. Eu disse a Jesus que ia, e aqui estou. Vou com vocês a Jerusalém. Pedro: Ninguém vai com ninguém, Maria. A viagem fracassou. Jesus: Por que você diz isso, Pedro? Pedro: Abra os olhos, Jesus... Todos se foram. Somos um punhadinho de nada... Jesus: E daí, Pedro? Você não se lembra de Gedeão? Foi para a guerra com trinta mil homens e chegou com trezentos. Os outros se foram. Sentiram medo e dobraram os joelhos. Mas com aquele grupinho, o Senhor lhe deu a vitória contra seus inimigos. Sim, somos um rebanho pequeno. Mas Deus levantará o cajado e nos defenderá dos lobos. Não tenhamos medo: Deus estará conosco em Jerusalém. Tiago: Você está falando sério, Jesus? Jesus: Claro que sim, Tiago. Amanhã mesmo saímos para a capital. Pedro: Mas ainda faltam duas semanas para a Páscoa... Jesus: Temos que andar depressa. Aqui já não podemos mais ficar. Há muitos espiões e muita vigilância. Vamos, companheiros, ergam esse ânimo! Amanhã de manhã vamos pôr o pé na estrada! Deus vigiará conosco. Jerusalém nos espera! Pedro: E os abutres também! Naquela noite fomos todos dormir sobressaltados. Poucas horas depois, quando o sol ainda não havia saído, nos espreguiçamos, pegamos os bastões, as mochilas e começamos a marcha pelo caminho das caravanas. Cafarnaum ficou para trás. As barcas dos pescadores já adentravam o lago. Diante de nós, a três dias de caminho, Jerusalém nos esperava. A idéia que Jesus tinha sobre a chegada iminente do Reino de Deus não era igual à de seus discípulos nem à dos moradores de Cafarnaum. Embora todos esperassem a chegada do Reino, alguns a reduziam a aspectos individuais, outros à oportunidade de uma justa revanche contra os romanos, outros se juntam sem saber muito bem para onde ir, enquanto outros compreendem com maior profundidade. O momento do crivo se dá, geralmente, quando se começa a enxergar os riscos, os perigos, o preço a pagar. Então, os prudentes, os pouco convencidos, os mais acomodados ou os covardes abandonam o barco. O compromisso com o evangelho é sumamente exigente. E à medida que um cristão amadurece nele, vai descobrindo as conseqüências desse compromisso para sua vida. Mas também irá descobrindo a força de Deus para assumi-las. Maria viveu esse processo de maturação de sua fé. Seu “sim” a Deus foi coisa de cada dia, de cada nova oportunidade que se apresentava. Ela não poderia ser o modelo de nossa fé e de nossa esperança, se não tivesse duvidado, se não tivesse arriscado, mesmo quando não via com clareza. Neste momento do relato, sabendo o que Jesus arriscaria em sua viagem a Jerusalém, também quer participar com ele, compartilhar esse risco. Já não se opõe – como no início da atividade de Jesus – nem permanece à espera do que possa acontecer, mas quer colaborar. Sua fé amadureceu e aqui chega a um ponto decisivo do processo: a solidariedade diante do perigo. Ao empreender esta viagem a Jerusalém, Jesus teve que contar com a possibilidade de uma morte violenta. Seus enfrentamentos com as autoridades religiosas, violando deliberadamente a Lei (especialmente, a do sábado, miolo central do sistema social e religioso daquele tempo), punham sua vida em perigo. E ele estava plenamente consciente disso. Na Galiléia, Herodes tinha jurisdição para mandar mata-lo e, de fato, pretendeu faze-lo (Lc 13, 31). Na Judéia, para onde Jesus irá, a sentença só poderia ser dada pelos romanos, mas sua decisão de realizar no templo um ato profético, o colocava em gravíssimo perigo diante das autoridades civis, tão ligadas aos sacerdotes. No tempo de Jesus, o povo considerava os profetas como mártires, por terem sido perseguidos pelos reis do país e muitos deles assassinados por causa de suas denúncias. Isaias, Jeremias, Ezequiel, Amós, Miquéias, Zacarias, eram para o povo de Israel, mártires nacionais. Jesus tinha consciência de ser herdeiro da tradição profética iniciada com Elias e continuada até João Batista. Ele se sabia um profeta. Por isso, sem procurar diretamente a morte, não podia esperar para si mesmo um destino melhor do que aquele que tiveram os grandes homens de seu povo. O evangelho nos diz que Jesus “predisse” sua paixão. Fala-se, inclusive de três dessas predições, mais insistentes à medida que se aproximavam os dias da sua morte. É preciso ter cautela com esses textos, para não tirar deles a conclusão de um Jesus adivinho de sua própria vida, que sabia de antemão tudo o que ia acontecer e que por isso mesmo, sofreu “menos” por conhecer o bonito desenlace da sua história... Se o interpretarmos assim, desumanizamos Jesus e transformamos sua morte e ressurreição em uma peça de teatro. Como todo homem, ele estava a par dos riscos, mas não conhecia as circunstâncias. E, como todo homem, se viu surpreendido por elas e procurou modifica-las. Tudo parece indicar, por exemplo, que Jesus contou com a morte por apedrejamento (Mt 23, 37), pelo que seria enterrado como delinqüente em uma vala comum (Mc 14, 8) e que também, logo depois de sua morte, seus discípulos também seriam violentamente perseguidos e mortos (Lc 22, 35-38). Também pensou que Deus não permitiria seu fracasso, que não o abandonaria. Tanto pensava assim, que não se explica sua angústia na cruz. No entanto, as coisas não aconteceram como ele pensava: Jesus morreu, ainda que não apedrejado e foi enterrado em um sepulcro digno e as autoridades deixaram seu grupo em paz. Tudo isso nos indica que Jesus, efetivamente, contava com a possibilidade de um desfecho violento, nada mais que isso. Sua consciência de estar em perigo não pode ser interpretada como um vaticínio infalível de tudo o que iria acontecer. O assassinato de Jesus aconteceu na história, submetido a circunstâncias históricas concretas – e portanto variáveis. Foram aquelas as circunstâncias, mas poderiam ser outras. A paixão e morte de Jesus são fatos acontecidos na história. Não são o cumprimento fatal do desígnio de um Deus alheio à história nem de “profecias” predeterminadas. São acontecimentos fruto da liberdade humana. Jesus foi livre para arriscar-se em sua atividade durante meses e com seu gesto no Templo. E foram livres os que o mataram. Na paixão, ninguém será marionete de Deus, mas todos estarão no jogo das liberdades dos homens, tanto a dos assassinos, quanto a do que foi assassinado por causa da justiça. (Mt 10, 16-33; Mc 13, 9-13; Lc 12, 4-12; 21; 12-19)
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