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Capítulo LV PELO BURACO DE UMA AGULHA Rubens: Mas, Névio, você está falando sério? Névio: Claro que sim, amigos. Por que não acreditam? Tito: Mas o que aconteceu? Brigou com sua noiva? Ou seu pai lhe negou a herança? Névio: Nem uma coisa, nem outra. Rubens: Então você está com febre. Névio: Nada disso. Eu me sinto perfeitamente bem. E me sentirei melhor quando chegar na frente do profeta e lhe disser: profeta, conte comigo! Eu também quero juntar-me ao seu grupo e viajar a Jerusalém e comer a Páscoa na cidade de Davi”. Tito: Você não vai se atrever! Névio: Me atrever a quê? Tito: A dizer isso ao profeta. Névio: Então você não me conhece! Pois hoje mesmo eu vou e direi isso! Rubens: Quanto você quer apostar, Névio? Névio: O quanto vocês quiserem. Vinte denários? Rubens: Quarenta é melhor. Tito: Não, não, não, um barril de vinho. Assim, quando você voltar com o rabo entre as pernas, o beberemos juntos e você poderá afogar seus sonhos revolucionários com o delicioso suco da uva. Rubens: Rá, rá... Vamos, agora não pode voltar atrás. Venha, jure. Névio: “Juro, prometo e determino: esta aposta bem vale um barril de vinho.” Tito: Era só o que nos faltava ver em Cafarnaum! Névio, o filho de dom Fanuel também mordeu o queijo e caiu na ratoeira do profeta nazareno, Rá! Rubens: O que dirá o “papaizinho” quando souber que você quer se juntar a essa chusma? Névio: Por mim, que diga o que quiser, pouco me importo! Ele faz a vida dele, eu faço a minha. Rubens: Quem te viu e quem te vê, heim Névio! O senhorzinho da cidade vai beijar os pés de um camponês, meio bruxo, meio agitador! Névio: Digam o que quiserem, mas esse Jesus é um grande sujeito. Tem coragem, caramba! Temos mais que ouvi-lo. Tito: Temos mais que cheira-lo. Fede à cebola e perfume de rameira! Rubens: Diga com quem andas... Tito: Quer dizer então que o nazareno lhe passou a sarna! Névio: Rá, se a inveja fosse sarna, vocês já estariam se conçando... Rubens: Inveja? Inveja, nós? Rá, rá, rá... Não, fique sossegado, eu estou muito tranqüilo em minha casa, com muitos criados e pouco trabalho! Tito: E eu também! Névio: Pois eu não. Estou decidido a mudar de vida. Quero fazer alguma coisa de grande! Nesta mesma tarde vou procurar o profeta e dizer-lhe que viajarei com ele à capital e depois a... Rubens: Depois vai logo tomar um banho para tirar os piolhos que lhe deu de presente o profeta dos mortos de fome! Rá! Tito: Mas, Névio, será que você não entende? O azeite não se mistura com a água. Esse sujeito não é dos nossos. E você não é dos deles. O que você vai procurar então? Rubens: Eu não sei o que você vai procurar, Névio, mas sei muito bem o que vai encontrar: Um carraspana contra seu pai e contra os ricos e adeus, até à vista! Névio: Isso é o que vocês pensam! Mas eu lhes digo que Jesus é um sujeito aberto. Tenho certeza de que ficará contente em me ver. Eu posso lhe ser útil. Tenho dinheiro, tenho boa preparação, tenho... Tito: O que você tem é uma aposta para pagar, não se esqueça! Rubens: Então, está combinado: um barril de vinho! De acordo, Névio? Névio: De acordo, amigos. Névio era o filho caçula de Fanuel, um dos ricos latifundiários de Cafarnaum. Era um rapaz alto e forte, a quem nunca faltou boa comida, boas roupas e a melhor escola. Ajudava seu pai na administração da fazenda e lhe sobrava tempo para gasta-lo com seus amigos... Naquela tarde, Névio saiu da luxuosa casa onde vivia e foi ao bairro dos pescadores, pela ruazinha que segue junto ao mar... Simãozinho: Pule, danado, pule logo! Renato: Pocotó, pocotó, pocotó... vamos, cavalo! Simãozinho: Meu cavalinho pula mais que o seu, veja só! Rá, rá, rá! Renato: Agora é minha vez! Névio: Ei, garotos, é aqui que mora Jesus de Nazaré? Simãozinho: Puff...! É, ele está ali dentro, consertando uma porta... Moreno, estão te procurando! Jesus: Então já me acharam! Quem é? Simãozinho: Um senhorzinho! Quando Névio chegou à casa, Jesus estava sozinho. Minha mãe remendava as redes no cais e o velho Zebedeu, meu irmão Tiago e eu estávamos, como sempre, pescando no meio do lago... Jesus: Ei, você não é um filhos de Fanuel, o fazendeiro? Névio: Sou eu mesmo. De onde me conhece? Jesus: Você sabe, em Cafarnaum a gente acaba conhecendo as orelhas de todo mundo... Bem, esta porta já está firme... Nem o anjo exterminado conseguirá derruba-la!... O que eu não sei é o seu nome... Névio: Névio. Já me chamo assim faz dezoito anos! Jesus: Muito bem, Névio... Dizem por aí que embora seu pai seja um bandido, você é boa gente... Névio: Não sei não. Acho que a única boa pessoa que temos por ora na cidade é você mesmo, nazareno. Jesus: Eu? Por que diz isso? Névio: Porque é verdade. Você e seu grupo são os únicos que estão fazendo alguma coisa para que as coisas mudem em nosso país. Jesus: Pois para você não conviria muito que elas mudassem, não é mesmo? Névio: Não, não, Jesus, você é um grande sujeito. Eu sempre disse isso. Jesus: E eu sempre disse que o único grande sujeito é Deus. Os demais cravam um prego aqui e outro acolá, assentamos um par de tijolos e vamos fazendo o que se pode... Névio: É sobre isso que eu vim conversar. Eu também quero pôr meu tijolo e ajudar a levantar a parede. Jesus: Você? Névio: Sim, eu. Está achando estranho, não é mesmo? Claro, eu entendo, o filho de Fanuel! Mas não se deixe levar pelas aparências, nazareno. Você e eu podemos nos entender muito bem, você vai ver... Jesus: Espero que sim... Venha, sente-se aqui... e vamos conversar... Jesus guardou o martelo e os pregos e se sentou no chão. O filho do latifundiário fez o mesmo... Névio: Por toda a cidade não se fala em outra coisa que da viagem a Jerusalém. Jesus: De que viagem? Névio: Qual poderia ser? A de vocês. Jesus: Ah, sim, claro... Névio: Eu pensei bem e decidi: pode contar comigo, Jesus. Jesus: Não me diga que você também está com o comichão... Névio: Não posso ir com vocês? Jesus: Claro que pode, homem! Você é bem-vindo. Fico muito contente. Tenho certeza que todos os outros ficarão contentes também. Névio: Eu achava que sim... Enfim, Jesus, vamos ao que interessa. O que exatamente vamos fazer em Jerusalém? Já tem algum plano? Conte para mim. Jesus: Bem... o plano é tentar dar uma virada no bolo. Névio: Que bolo? Jesus: Em tudo isso que está aí... Vamos construir um novo céu e uma nova terra onde todos os homens possam se dar as mãos, possam sorrir e viver felizes... O que você acha do plano? Névio: Eu gosto, sim. Soa bonito! Jesus: Mas, é claro, para chegar até lá, há um pequeno problema... “para que os que têm menos tenham mais, é preciso que os que têm mais tenham menos”. Névio: Como é?... Isso é um trava-língua? Jesus: Não, é algo muito simples, escute: por que há gente que passa fome em Israel? Porque outros comem o dobro da ração. Por que há meninos andando pelas ruas descalços e maltrapilhos? Porque outros têm sete túnicas e catorze pares de sandálias no baú. Uns têm só um grãozinho de trigo no bolso, outros um celeiro cheio. Está entendendo, Névio? Névio: Entendendo o que? Jesus: Que a única maneira de nivelar um buraco é rebaixando uma montanha. O plano de Deus é nivelar, compreende? O que você acha? Névio: Sim, está certo... Enfim, voltando à viagem, diga-me, quantos irão a Jerusalém?... Muitos? Poucos?... Quem você convidou? Jesus: Bah, convidar, convidamos todos... Mas você sabe como é essa gente... Primeiro “sim, sim”, depois “me esqueci”. Névio: É, eu imagino. Muita conversa e nada mais, não é isso, Jesus? Jesus: Isso mesmo. O que precisamos é de gente que pegue bem firme no arado e empurre com força o Reino de Deus. Névio: Pois eu estou aqui para cerrar fileiras, pode contar! Na verdade, não que eu queira me incensar, mas desde pequeno me ensinaram os mandamentos de Deus e desde pequeno eu os cumpro. Eu nunca roubei. Jesus: Mas também nunca passou fome... Névio: Nunca matei ninguém. Nem mesmo tive vontade de fazê-lo. Jesus: Mas também nunca sentiu nas costas as chicotadas do capataz... Névio: O que? Não acredita em mim?... Estou falando sério, Jesus, juro que nunca fiz mal a ninguém... Jesus: Não precisa jurar. Eu acredito em você. Claro... os zangões também não fazem nada de mal na colméia... Névio: Ah, já sei onde você quer chegar... Pois saia pela rua e pergunte quem em Cafarnaum deu mais esmolas do que eu. Jesus: E quem mais poderia dá-las se todo mundo não tem sequer uma agulha no bolso? Névio: Bem, sim, mas... Voltando à viagem... Você já pensou no que vamos precisar para a caminhada? Eu acho que é preciso levar algumas coisas. Jesus: Bah, não se preocupe com isso, Névio... Névio: Se está precisando comprar alguma coisa, pode falar... Jesus: Comprar, não. Vender. Névio: Vender? Vender o que? Jesus: Vender tudo. Deixar tudo para ter as mãos livres. Jesus se fixou nas mãos do filho de Fanuel. Não tinham calo nem ruga. Depois, levantou os olhos e o olhou com simpatia... Jesus: Escute, Névio, Moisés também foi criado numa casa rica. A filha do faraó o alimentou bem, deu-lhe a melhor roupa e a melhor escola do Egito. Mas um dia, o senhorzinho Moisés foi visitar seus irmãos e viu um capataz egípcio chicoteando um pobre escravo hebreu. E Moisés sentiu tanta raiva que matou o capataz. Perdeu tudo, sua casa, suas comodidades. Ficou sem nada e perseguido pela polícia do faraó. Então se fez digno de seu povo. Então pôde se aproximar dos escravos, de igual para igual e chama-los de irmãos e ajuda-los a serem livres. Vamos, Névio, comece por aí e depois pode voltar para continuarmos falando da viagem... Névio: Eu vou pensar, Jesus... sim, pode crer, eu vou pensar... Névio olhou Jesus sem saber o que dizer. Em seguida, levantou-se do chão, sacudiu a túnica nova que se havia enchido de pó e saiu da casa.... Tinha o rosto muito triste. Pedro: Ei, moreno, o que o filho do Fanuel veio procurar por aqui? Jesus: Veio me ensinar uma brincadeira, Pedro. Pedro: Uma brincadeira? Jesus: Sim, você vai ver... Simãozinho, corre aqui... Venha cá um momento... venha! Jesus se aproximou da porta e chamou o filho de Pedro, que continuava brincando na rua com um grupo de crianças... Jesus: Ei, Simãozinho, do que vocês estavam brincando? Simãozinho: De pulo do cavalinho. Pocotó, pocotó, pocotó...! Jesus: Quer aprender outra brincadeira, uma que você ainda não sabe? Simãozinho: Sim, sim. Como é? Jesus: Preste atenção. É a brincadeira do camelo. Você é o camelo. Vamos lá, fique de quatro pés... assim... Você tem uma corcunda grande nas costas... E isso é uma agulha, está vendo? Jesus juntou os dedos formando um pequeno círculo com eles... Simãozinho: E agora, o que eu faço? Jesus: Você está vendo esta agulhinha. O camelo tem que tentar passar pelo buraquinho da agulha. Se passar, ganha. Se não passar, perde. Simãozinho ficou olhando a mão de Jesus. Depois se levantou do chão... Simãozinho: Essa brincadeira é muito sem-graça, Jesus, tchau. Pocotó, pocotó...! Jesus: Essa era a brincadeira que o filho do Fanuel queria brincar. Mas o camelo não consegue passar pelo buraco da agulha. Até os meninos sabem disso, Pedro. Rubens: Pelo visto, Névio, hoje teremos que afogar as mágoas no suco da uva! Tito: “Juro, prometo e determino...” Rubens: Que sua aposta valeu bem um barril de vinho! Rá, rá...! Tito: Vamos lá, Névio, alegre essa cara e vamos brindar pela sua cabeça que estava perdida e agora voltou a se colocar sobre os ombros! Rá, rá, rá...! Os amigos de Névio entraram em sua casa, abriram um barril e começaram a beber e jogar conversa fora. E o filho do latifundiário, entre risadas e vinho, foi esquecendo a viagem a Jerusalém... Este texto evangélico, usado freqüentemente para ilustrar o tema vocacional, tem palavras nada tranqüilizadoras para os ricos. Diríamos que é um relato no qual Jesus se mostra pretensamente “demagógico”. A primitiva tradição cristã foi fiel a esta dura crítica feita por Jesus às riquezas e nunca encontrou justificação possível diante dos que acumulam dinheiro. Os santos padres da Igreja também foram “demagógicos” ao falarem deste tema: “Acertadamente o evangelho chama riquezas “injustas”, pois toda riqueza não tem outra origem que a injustiça e ninguém pode se fazer dono dela a não ser que outro perca ou se arruíne. Por isso, parece-me acertada o ditado popular que diz: os ricos o são por sua própria injustiça ou por herança de bens adquiridos injustamente”, dizia São Jerônimo, quatrocentos anos depois de Jesus (Epístola 120, 1). Névio é o que chamaríamos hoje um “revolucionário de boteco”. O que ele sente é o que, justamente o que às vezes se entendeu por “vocação”: uma indefinida inquietação para ser melhor, para ajudar os outros. Há também nele uma certa má consciência por um lado e, por outro, o desejo de cotejar-se com Jesus, um líder que arrasta pessoas, e assim ganhar importância diante de seus amigos. É bom desmistificar o “jovem rico”. Muitas vezes foi apresentado como um bom rapaz, puro, honesto, cumpridor de todos os mandamentos, mas “não apto para a vida religiosa”, porque não foi corajoso o suficiente para seguir o “conselho” de Jesus: “vender tudo e dar aos pobres”. Este não é o posicionamento do evangelho. Jesus não está dando um “conselho” para os que buscam a perfeição. Jesus apresenta ao rico a única posição válida para entrar no Reino: a perspectiva dos pobres. Pôr-se no lugar deles, compartilhar sua vida, fazer sua a causa da libertação deles. Não se trata de um conselho isolado, mas de todo um projeto de vida. O jovem rico não praticou grandes males, mas deixou de fazer muitos bens. Seu pecado é de omissão. E quando Jesus lhe mostra onde está sua falha – na falta de sensibilidade diante do pobre – ele continuará cego, obstinado no seu individualismo, satisfeito com sua vida “decente”. Esta incompreensão que o dinheiro produz nos ricos, tão freqüente, tão comprovável a cada dia, é que leva Jesus a fazer essa exageradíssima comparação do camelo e a agulha. Não se trata nesta frase da agulha de uma porta oriental – por causa de sua forma – como às vezes se pretendeu indicar, para assim açucarar a comparação de Jesus. (Dizia-se que o buraco de agulha das portas orientais era muito estreito, mas que se se abaixasse um pouco a corcunda do camelo, podia-se passar...) Não, trata-se de uma agulha de costura. E trata-se do camelo, o maior animal conhecido na Palestina. Um camelo nunca poderá passar por esse buraco. Nunca. Com essa exagerada comparação, Jesus quer simplesmente dizer: É impossível, a não ser que Deus faça um milagre. Estas comparações extremas são, por outro lado, típicas da expressão oriental e Jesus as empregou com freqüência para assegurar que não se desvirtuasse a radicalidade de sua mensagem. A “decência” de Névio, seu bem viver agir, é posta em questão por Jesus. Porque, bem alimentado, bem educado, com o futuro garantido, tinha todas as facilidades para ser bom, para não se ver na necessidade de roubar, para não sentir empurrado para a violência. A “moral” de algumas pessoas não é mais que um luxo. Sua posição econômica lhes permite, além de viver muito bem, ser bons. E mais, ser considerados os tais pela sociedade. Enquanto que para muitas pessoas que vivem na miséria, as trapaças, a agressividade, e às vezes a prostituição ou outras formas de “pecado” não são vícios, mas a conseqüência lógica de sua situação desesperada ou sua única forma de sobrevivência. (Mt 19, 16-24; Mc 10, 17-25; Lc 18, 18-25)
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