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Capítulo LIII O MILAGRE DE JONAS Os rumores do que Jesus havia feito em Jerusalém e nas cidades da Judéia rolaram como pedras de montanha. As notícias corriam de boca em boca, cresciam, misturavam-se com lendas, eram discutidas nos mercados e nas caravanas. As pessoas diziam muitas coisas de Jesus. Que brotavam raios de sua cabeça, como em Moisés. Que Elias lhe havia emprestado o carro para viajar mais rápido de um lugar a outro. Que os milagres saíam de suas mãos como mariposas. Velha: Vamos, comadre, depressa! Disseram-me que os doentes ficam curados só com a sombra do profeta quando passa! Vamos! A fama de Jesus crescia feito pão fermentado. E cresciam também os grupos de pessoas que se punham a caminho à procura do novo profeta de Israel para pedir-lhe ajuda. Homem: Abaixe a cabeça, companheira, com esse monte de enfeite que você tem não dá ver nada! Mulher: Escute aqui, não comece de novo que eu estou esperando desde o meio-dia! Naquele inverno, quando regressamos a Cafarnaum, os moradores foram nos esperar à entrada do povoado, perto da Porta do Consolo. Velha: Ei, Jesus, como foram as coisas lá na capital? O que vocês fizeram desta vez? Jesus: O que sempre fazemos, anunciar o Reino de Deus. Velha: Sim, sim, e o que mais vocês fez? Jesus: Só isso, vovó, falar para as pessoas, abrir os olhos dos peixes pequenos para que não se deixem comer pelos peixes grandes. Homem: O que a velha quer saber é se você abriu os olhos de algum cego! Mulher: É isso mesmo, quantos milagres você fez nesta viagem, Jesus? Quando aquela mulher falou dos milagres, a multidão que nos rodeava se apertou ainda mais. Muitos doentes vieram arrastando suas muletas ou deitados em macas de galhos trançados. Outros tapavam suas feridas com trapos amarrados nas pernas e nos braços. Homem: Bah, de fato, o que importa mesmo não é o que você fez em Jerusalém, mas o que vamos fazer agora, não é mesmo? Olhe só todos esses infelizes. Estão esperando que você faça alguma coisa por eles. Os doentes olhavam para Jesus com uma súplica nos olhos e estendiam suas mãos para poder tocar em sua túnica. Então Rebeca, a fiandeira, abriu caminho no meio de todos e conseguiu se pôr à frente dele. Tinha a perna direita muito magra e retorcida e se apoiava em um bastão para não cair. Mulher: Cura-me! Faça com que eu volte a caminhar. Cura-me, profeta, cura-me! Jesus olhou para a mulher e permaneceu calado. Mulher: Cura-me! Você pode fazer isso! Sim, sim, já me sinto melhor! Sinto um calor por todo o corpo. Em seguida, a mulher levantou as mãos para o céu, soltou o bastão que lhe servia de muleta e gritou para que todos ouvíssemos... Mulher: Estou curada, estou curada! Homem: Curada? Rá! Com este grito é bem capaz que se quebraram suas duas pernas! Ferreiro: Eu aqui, Jesus, cura-me! Eu estou doente há mais tempo que ela! Saiam da frente e deixem-me passar! O ferreiro Túlio dava socos no ar para poder chegar até Jesus e pedir-lhe um milagre. Tinha nas costas uma corcunda como a de um camelo. Ferreiro: Vamos, faça um milagre, endireite-me. Vamos, o que está esperando? Cura-me! Jesus o olhou com pena, mas tampouco disse uma palavra sequer. Ferreiro: O que acontece com você? Será que já não tem os poderes de antes? Por que não me cura? Estou perguntando, por que não cura? Mulher: Você abriu os olhos de um tal Barnabé, lá pelas bandas de Betsaida! Eu também sou cega! Eu também quero ver! Ou será que aquele sujeito era melhor do que eu? Homem: Você sabe fazer isso! Em Corozaim você curou Serápio, que não falava nem ouvia! Velha: Jesus, olhe estas chagas e tenha pena de mim. Os doentes começaram a impacientar-se com Jesus, que continuava calado, com os olhos baixos. A algazarra ia crescendo. Foi então que apareceu o rabino Eliab. Eliab: Outra vez nos encontramos, nazareno. Só que agora não é na sinagoga, mas aqui, em plena luz do sol. Jesus: Você também está doente, rabino? Eliab: Não, o Altíssimo me concedeu boa saúde. E me concedeu também inteligência para descobrir os lobos que se cobrem com pele de cordeiro. Jesus: Então repare nas minhas orelhas, para ver se são de lobo. Eliab: Sim, foi isso mesmo que vim fazer, porque já estou cansado de ouvir histórias. Todo Israel fala de você. Uns quantos loucos o chamam de profeta. E outros ainda mais atrevidos dizem que você é o próprio Messias que nosso povo tem esperado por tantos séculos. Muito bem. Você é ou não é? Fale. Não fique calado. Quem cala, consente. Jesus: A árvore se conhece pelo fruto. Olhe o que eu faço e saberá quem sou. Eliab: Vamos esclarecer as coisas, nazareno. As escrituras dizem que quando Deus envia um profeta, coloca em suas mãos o poder de fazer milagres. Homem: E Jesus tem esse poder, ora se tem! Mulher: Jesus fez muitos milagres, rabino Eliab. Não se lembra do aleijado Floro? Colocaram-no pelo teto e ele saiu andando com as pernas mais retas que um remo. Eliab: Ouvi falar sobre isso. Mas não vi. E se o olho não vê, o coração não crê. Homem: E aquele fruteiro, rabino Eliab, que tinha a mão seca? Jesus a esticou bem diante de você na sinagoga. Eliab: Água passada não move moinho. Deixem pra lá o fruteiro, o aleijado Floro e todos os que andam dizendo coisas passadas. Hoje estamos aqui. Eu quero ver um sinal hoje. Não é muito o que estou pedindo, nazareno. Olhe só para estes. Pode escolher. Cura quem você quiser. Mas, dê-nos uma prova clara, que não caiba dúvidas. Faça um milagre aqui, diante de todos nós. E todos creremos em você. Eu, em primeiro lugar. Jesus continuava com os olhos baixos, cravados na terra. Logo depois, agachou-se e arrancou do chão umas quantas ervas. Colocou-as na palma da mão e soprou. A brisa do lago levou para o ar as pequenas folhas. Jesus: A vida do homem é como a erva. Brota em um dia e com um sopro se acaba. Nossas vidas estão nas mãos de Deus. Só Deus tem poder para nos curar. Mulher: Deus e você, que é um profeta! Todos: Um milagre! Um milagre! Homem: Ou será que para os outros há milagre e para nós não? Então, por que isso? Velha: Depois de esperar tanto tempo, não vamos voltar com as mãos vazias, caramba! Todos: Sim, um milagre! Faça um milagre! Jesus: Escutem bem. Para vocês só haverá um milagre, um só! Homem: Sim, sim, mesmo que seja só um! Vamos, faça-o! Todos: Eu aqui, cura-me! Mulher: Eu cheguei primeiro! Eu aqui, Jesus, eu aqui! Os doentes rodearam Jesus. O rabino Eliab conseguiu afastar-se um pouco e ficou esperando, com um olhar cheio de desconfiança, o milagre que se ia produzir. Jesus: Só um milagre, vizinhos. O milagre de Jonas. Somente este. Homem: E o que acontece agora com Jonas? Jesus: Acontece o mesmo que aconteceu, quando Deus o chamou e o enviou para profetizar na grande cidade de Nínive... Voz de Deus: Jonas, filho de Amitai, levante-se e vai a Nínive. Os ninivitas são homens de mãos violentas. Pisam no fraco, abusam do órfão e atropelam as viúvas no tribunal. Vai e grite pelas ruas de Nínive que se as coisas não mudarem, eu vou fazê-las mudar. Estenderei minha mão e defenderei a causa dos pobres. E serei inflexível contra os que maltratam meu povo. Jonas: Convertam-se! Convertam-se todos! Esta cidade está edificada sobre a injustiça! Se as coisas não mudarem dentro de quarenta dias, Nínive será destruída. Convertam-se! Rei: Ordens do rei de Nínive: todos, do primeiro ao último, homens e mulher, velhos e crianças, todos teremos que mudar. Que cada um limpe suas mãos manchadas de sangue e violência. Que cada um se arrependa diante de Deus e pratique a justiça. Quem sabe se Deus também não se arrependerá do castigo que merecemos, quem sabe! Homem: Esse Jonas foi um grande sujeito, sim senhor! Mulher: Maior ainda foi a baleia que o engoliu! Velha: E maior do que Jonas, é você, moreno! Homem: Pois se é tão grande assim, que me cure! Ei, Jesus, deixe as histórias para lá e vamos ao que interessa: cure-me! O que lhe custa? Mulher: Faça um milagre para que todos vejamos! Jesus: Jonas não fez nenhum milagre na cidade de Nínive. Quem fez o milagre foram os ninivitas que mudaram e começaram a viver com retidão. E a cidade, que estava doente, curou-se. Velha: Meu filho também está doente! Cure meu filho como curou a filha de Jairo! Mulher: Cure-me, Jesus! Será que eu não tenho direito? Jesus: Ninguém se cura por direito, mulher, mas por fé. Mulher: Eu tenho fé, eu creio em Deus. O que está me faltando, caramba? Jesus: É Deus que tem fé em nós e espera que nós façamos o milagre. O milagre de Jonas. Eliab: Chega de palavras e empurrões! Você vai fazer um milagre, sim ou não? Pode ou não pode? Jesus: Por que você mesmo não faz, rabino? Você sim pode fazê-lo. Veja, sabe como esta infeliz adoeceu? Dobrando as costas dia e noite sobre o tear. Foi assim que seus ossos se entortaram. E sabe o que entortou o pescoço desse homem? Carregando na cabeça sacos e mais sacos de farinha para ganhar um miserável denário. Faça você o milagre, fariseu! O milagre não é abrir os olhos de um cego, mas abrir o bolso e compartilhar seu pão com o faminto. O milagre não é limpar a carne de um leproso, mas limpar todo o país que apodrece por causa das falcatruas de uns quantos. Esta mulher coxeia de uma perna, mas nosso país coxeia das duas. Não peçamos a Deus mais milagres. Nós é que temos de fazer o milagre: o milagre da justiça! Eliab: E lá vem a política de novo! É só isso que você sabe fazer, nazareno, esquentar a cabeça da chusma. Charlatão, é isso que você é, um charlatão e um agitador. Vai com esse palavrório para outro lugar. Mulher: O rabino tem razão. Esse aí não é mais que um falador! Vamos embora, vamos embora! Homem: Vai pros diabos, Jesus. Tanta história e tanta espera por nada! Os doentes foram embora, cada qual por seu caminho. Uns iam com seus bastões e suas muletas. Outros, carregados em macas ou apoiando-se no braço do vizinho. Pouco depois, ficamos só nós do grupo. Já escurecia sobre Cafarnaum, e as cidades que adornavam as margens do lago, como pérolas de um colar, começaram a acender suas luzes esbranquiçadas. Jesus parecia muito triste e ficou com o olhar perdido nos reflexos da água. Jesus: Que pena, Corozaim! Tantas palavras que dissemos lá tua praça e pelas tuas ruas... e tudo continua igual. Continuas sendo uma cidade adúltera, pior que Nínive, pior que Sodoma. Pobre de ti, Betsaida, que te deitas num leito quente com os grandes comerciantes enquanto teus filhos agonizam de fome e de frio pelos portais e continuas parindo usurários e traficantes de violência e não escutas o grito de morte dos inocentes. E tu, Cafarnaum, que queres subir ao céu para roubar milagres de Deus, mas não fazes nada para que as coisas mudem aqui na terra, tu mesma não queres fazer o único milagre que Deus reclama: a justiça. A religiosidade popular mal orientada e alimentada por uma situação de miséria, transforma-se facilmente em “milagreira”. O religioso, a fé, acabam identificados com o maravilhoso, o surpreendente, o singular. Reduz-se Deus a um médico poderoso ou a um ilusionista de circo. Adultera-se a fé, simplificando suas atitudes em uma só: ser capaz de crer no milagre. E, o que é pior, ao cair nesta vertigem, perde-se de vista o mais importante: a realidade de cada dia, cheia de injustiças e “enfermidades” que exige uma mudança e que necessita de nosso esforço para que se transforme. Os quatro evangelhos nos transmitiram muitas histórias de milagres realizados por Jesus, salpicando todos os seus relatos com fatos que procuram explicar quem é Jesus e como passou fazendo o bem, curando todos os oprimidos pelo diabo porque Deus estava com ele (At 10, 38). Todos os relatos de milagres não devem ser lidos com os mesmos critérios. Se aplicarmos a eles uma crítica rigorosa, observaremos que alguns milagres estão duplicados (comparar Marcos 10, 46-52 com Mateus 20, 29-34), outros ampliados, outros deliberadamente enfeitados. Tudo isso indica que, embora haja um núcleo histórico certo nas curas que Jesus operou, não se deve interpretar os evangelhos como um catálogo de maravilhas realizado por um superman poderoso. O ponto de partida é fazer a diferença entre a palavra “milagre” e a palavras “signo” ou “sinal”. O evangelho de João, que reduz a sete o número de milagres que Jesus teria feito, é o que mais claramente estabelece esta diferença. Ao referir-se aos fatos milagrosos, João se refere sempre à palavra “semeion”, equivalente a “sinal”. Um sinal não tem valor em si mesmo. Aponta em uma direção, indica um caminho. Não é a meta, é o meio para chegar a ela. Segundo o evangelho de João, os “milagres” de Jesus não foram fatos isolados e maravilhosos que ele teria operado movido pela compaixão que lhe inspirava casos individuais de sofrimento. Se assim fosse, não seriam sinais de nada, esgotar-se-iam em si mesmos. João os apresenta como sinais que devem conduzir à compreensão da missão de Jesus. O que poderia significar hoje, que Jesus de Nazaré tenha curado um paralítico no século I da nossa era? Os evangelhos respondem a esta pergunta apresentando Jesus como o mensageiro do projeto de Deus: se Jesus pôs de pé um homem prostrado, foi um sinal de que sua mensagem é capaz de fazer andar os seres humanos, tirando-os da passividade. Assim, em cada um dos curados por Jesus, os evangelistas rascunharam arquétipos de homens e mulheres vítimas de diferentes problemáticas. Fé e religião não são a mesma coisa. A atitude religiosa “religa” o ser humano com Deus e o faz dependente dele. Certa mentalidade religiosa espera de Deus o que pode conseguir com seu próprio esforço ou com a organização dos esforços de outros e teme de Deus castigos por obras más ou por descuido nos ritos religiosos. Outra mentalidade religiosa “compra” a benevolência de Deus acumulando méritos diante dele através de orações, sacrifícios, votos, promessas, penitências. Jesus de Nazaré enfrentou estas mentalidades, arraigadas em todas as culturas, com uma nova visão de Deus. Jesus propôs uma relação com Deus baseada na responsabilidade da própria vida e na solidariedade comunitária. Nas atitudes de liberdade, maturidade, compromisso histórico, equidade entre os seres humanos, superação de medos religiosos está a base humana de que se nutre a atitude de fé, oposta à atitude religiosa. (Mt 11, 20-24 e 12, 38-42; Mc 8, 11-13; Lc 10, 13-15 e 11, 29-32)
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