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Capítulo LII OS LEPROSOS DE JENIN Um leproso: Senhor, Deus meu, veja-me de joelhos e com o rosto colado ao chão! Lembre-se deste pobre desgraçado a quem não cabem mais feridas na cabeça! Peço, suplico e espero. Peço, suplico e espero! Uma leprosa: Mas, o que você está dizendo, língua comprida? Acha que vai conseguir enrolar Deus com esse palavrório? Senhor, tu sabes de sobra que eu estou pior que ele! Veja, tenho mais chagas no corpo do que cabelos na cabeça! Outro leproso: Cale-se, sarnenta, que eu cheguei primeiro! Eu comecei a rezar antes de você! Um leproso: Peço, suplico e espero! Peço, suplico e espero! Uma leprosa: Senhor, piedade, Senhor, piedade, piedade! Lá nas grutas de Jenin, perto dos montes de Gelboé, viviam muitos homens e mulheres que padeciam a pior das doenças: a lepra. Não era permitido aos leprosos entrar em nenhum povoado, nem bater em nenhuma porta, nem pôr o pé na sinagoga. Por isso, quando chegava o dia de sábado, alguns se reuniam na grande caverna para rezar, pedindo saúde. Gritavam e queimavam folhas de hortelã para que a oração entrasse em Deus pelo nariz e pelas orelhas... Um leproso: Senhor, se tu me curares, prometo nunca mais cortar o cabelo nem provar uma só gota de vinho até o fim da minha vida! Uma leprosa: Eu irei descalça todos os meses até o santuário de Silo! Outro leproso: Consagrarei minha vida ao teu serviço! Se tu me curares, Senhor, irei para o monastério do Mar Morto para estudar dia e noite as santas escrituras! Enquanto os demais leprosos rezavam, Demétrio, o samaritano, entrou na gruta. Também padecia da doença... Demétrio: Se algum dia você se curar, grande safado, procure um irmão gêmeo para cumprir a promessa!... Ei, minha gente, parem a oração e escutem-me! Acho que lá no céu está todo mundo com as orelhas em farrapos com tanta lenga-lenga. Vamos, deixem Deus descansar um pouco e escutem isso... Sabem do que eu fiquei sabendo? Um leproso: Se você não diz, como vamos saber? Demétrio: E se você não cala essa boca, como vou dizer? Escutem: já ouviram falar desse tal Jesus, de Nazaré? Leprosa: E quem é esse sujeito? Demétrio: Um profeta! Um enviado de Deus! Dizem que os anjos sobem e descem sobre a cabeça dele! Leproso: Não estou nem aí com profetas, principalmente se vêm da Galiléia! Leprosa: Eu penso a mesma coisa que o Tolônio. Não mexo nenhum dedinho por eles! Demétrio: O que temos de mexer são os pés. Fiquei sabendo que ele e seus amigos estão indo para Cafarnaum. E têm de passar por Jenin. Leproso: Pois que passem por onde acharem melhor caminho. O que isso importa para nós, Demétrio? Demétrio: Dizem que ele curou muitos doentes. Toca neles e... plim!... ficam curados. Leproso: Pois, da minha parte... plim!... Daqui eu não me mexo. Outro leproso: Muito menos eu! Olhe, Demétrio, eu sei como são essas coisas. Você sai da gruta, anda quatro milhas, o calor, o cansaço, bolhas nos pés e... afinal, para quê? Demétrio: Como para quê? Para ver o profeta, para falar com ele! Quem sabe ele nos ajuda. Leprosa: Quem sabe ele nos ajuda! Rá! Você é samaritano, por isso é tão idiota e ainda não entendeu que nosso único remédio é nos agüentar. Nós já estamos perdidos. Demétrio: Pois se já estamos perdidos... não perdemos nada por tentar! Vamos lá, cambada de aves de mau agouro, deixem os lamentos de lado e vamos pegar a estrada para ver esse profeta! Leproso: Nada disso, Demétrio, nada disso. Demétrio: Nada disso, o que? Leproso: Que o profeta não vai passar pelo caminho de Jenin. Demétrio: Não me diga! E como você sabe disso? Leproso: Está na cara. Quem nasce bode não ganha barba do céu. Estou certo de que se desviarão pelo caminho de Dotan. Vamos e voltamos e perdemos a viagem. Leprosa: Eu penso a mesma coisa que o Tolônio. Irão por Dotan. Demétrio: Pois o que eu acho é que com um exército como vocês, até Nabucodonosor cairia do cavalo. Está bem. Fiquem aqui queimando hortelã. Pois eu vou sair agora mesmo e vou montar guarda no caminho de Jenin. Ah! E depois, não digam que não avisei!... Vários leprosos: Não vá ainda, Demétrio, espere... nós... espere... Apesar dos pesares, e resmungando contra Demétrio, o samaritano, os outros leprosos jogaram-se em cima os trapos negros e sujos com que se cobriam, penduraram a campainha obrigatória para que nenhuma pessoa se aproximasse deles e, depois de andar quatro milhas, se postaram no caminho que vem de Jerusalém, à entrada de Jenin... Leproso: Fizemos muito mal em dar ouvidos ao Demétrio! Vejam só o tempão que estamos aqui esperando e... para quê? Leprosa: Para que se desviem para Dotan, para isso! Outro leproso: Aposto nove contra um, que nem hoje nem nunca veremos as fuças desse profeta andarilho! Demétrio: Pois vai logo pagando a aposta, companheiro, porque... juraria que são aqueles que vêm vindo pela curva do caminho!... Não estão vendo lá em baixo?... Sim, são eles, estou seguro disso!! Leproso: “Seguro” era o nome do meu avô e ele já está morto... Demétrio: Mas, não estão vendo? São eles! Lá vem o profeta da Galiléia!! Leproso: Sim, Demétrio, está certo, são eles... e daí? Demétrio: Como e daí? Agora vamos dizer ao profeta o que está acontecendo e ver se ele nos ajuda. Leproso: E você acha que o profeta vai perder seu tempo com a gente? Qual é, Demétrio, não suba tão alto, que o tombo será pior! O profeta passará de longe por aqui, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda. Leprosa: Eu digo a mesma coisa que Tolônio. Quem nasce para bode... Demétrio: Sim, já sei, não ganha barba do céu. Mas a barba que me interessa é a daquele galileu... Ei, Jesus, ajude-nos, faça alguma coisa por nós! Ei, Jesus, venha cá um momento! Demétrio, o samaritano, fazia sinais com os braços, gritando e pulando para que o víssemos. Atrás dele, olhando-nos com desconfiança, os outros leprosos esperavam... Demétrio: Eles nos viram! E estão vindo para cá!... Ei, Jesus, profeta!... Mas, o que acontece com vocês? Vão ficar assim, como pintos molhados? Vamos, minha gente, aviem-se, façam alguma coisa! Leprosa: E o que quer que façamos, Demétrio?... Vamos vem, diga-me, o que este profeta pode nos dar, heim? Como vai nos ajudar?... Não alimente ilusões e não terá desenganos. Leproso: Eu acho a mesma coisa. Convença-se, Demétrio, quem nasceu bode... Demétrio: Sim, sim, já sei! Mas você ganhou do céu barba, bigode e rabo! Vão pros infernos! Nem o santo Jó agüentaria vocês! Jesus, Pedro e eu vínhamos caminhando na frente dos outros e, quando vimos aquele grupo de leprosos, nos detivemos como a um tiro de pedra... Jesus: Ei, amigos, quem são vocês? De onde vêm? Leprosa: Agora vai nos mandar fazer gargarejos... Demétrio: Das grutas de Jenin! Somos leprosos!... Pode fazer alguma coisa por nós? Jesus: Pois, veja só... Não temos nada... Nem comida, nem dinheiro...! Leproso: Não lhe disse? Tempo perdido e bolhas nos pés. Jesus: ... Mas, vão até os sacerdotes e apresentem-se diante deles!... Quem sabe não terão sorte!... Adeus! Leproso: “Quem sabe, quem sabe”... Esse profeta não sabe de nada e passa a bola para os sacerdotes! Leprosa: “Vão até os sacerdotes e apresentem-se a eles!” Puah! Outro leproso: Bem, um homem prevenido vale por dois. Eu trouxe algumas tâmaras para a viagem de volta. Então, até mais ver! Demétrio: Mas, venham cá, bando de idiotas, se o profeta nos tivesse mandado ir descalços até o santuário de Silo ou subir ao monastério do Mar Morto, não teríamos feito? Leproso: Bem, nesse caso... Demétrio: Pois ele nos pediu algo mais fácil: ir até os sacerdotes de Jenin. Vamos lá ver o que acontece. Leproso: Ver o que acontece! Já me cansei de ver o que acontece e não acontece nada! Peço, suplico e espero... e não acontece nada! Demétrio: Se o profeta disse isso, por algum motivo será! Leprosa: Claro que será por algum motivo! Para gozar da gente! Você não viu a cara dele?... Eu não vou a parte alguma. Leproso: Muito menos eu! Outro leproso: Nem eu. Outro leproso: Mas, Demétrio, você acha que com esta ferida na perna posso me apresentar para que o sacerdote me examine? Quando Tolônio, um dos leprosos, levantou os trapos que cobriam as pernas, todos os demais ficaram de boca aberta... Leproso: Olhem... Olhem!!... Minha carne está rosada como um bumbum de nenê! Leprosa: Não é possível!... Deixe-me ver... Outro leproso: E você também, Martina!... E você, Godolias!! Outro leproso: E eu!!... E o Demétrio também!... Os leprosos de Jenin choravam e gritavam de alegria quando se deram conta de que as chagas e as manchas da pele haviam desaparecido sem deixar rastro... Leproso: Pelas benditas barbas do meu bode, aqui aconteceu algo de muito grande! Leprosa: Algo nunca visto! Um verdadeiro milagre! Demétrio: Eu não lhes disse, cambada de fuxiqueiros? O profeta da Galiléia nos curou sem sequer tocar um dedo na gente! Venham, companheiros, vamos depressa, não se demorem, corram...! Leproso: Aonde vamos, Demétrio? Aonde você quer nos levar agora? Demétrio: Aonde estiver o profeta! Tanto faz se está em Jenin ou Cafarnaum, vamos procura-lo. Leprosa: Mas, Demétrio, você ficou louco? Procura-lo para quê? Demétrio: Como para quê? Para agradecer-lhe, diacho! Leproso: Deixe disso, Demétrio. A gente não vai conseguir encontra-lo. Leprosa: Está na cara que não. Não vê que ele é um profeta? Demétrio: E o que isso tem a ver? Leprosa: Que os profetas voam. Lembre-se de Elias, que se foi pelo ar montado num carro de fogo. Não vamos encontra-lo. Outro leproso: Eu também acho. Esse já desapareceu... Outro leproso: Vem, vocês que continuem discutindo... esse aqui que vocês estão vendo vai se mandar para a taberna do Bartolim, porque já faz três anos que não passa um gole sequer pela minha garganta! Outro leproso: Eu digo o mesmo que o Tolônio. Hoje vou amanhecer dentro de um barril de vinho! Leprosa: Pois eu vou cumprimentar minha família que vive em Betulia! Outro leproso: Vocês que me encontrem na casa da Marta e da Firmina, uma da perna grossa, outra da perna fina! Rá, rá, raí!... Mas Demétrio os deixou e saiu correndo pelos caminhos... Demétrio: Ei, vocês, por acaso não viram por aqui um moreno barbudo, um tal Jesus, de Nazaré?! Um homem: Não, amigo, não vimos não... Espere, mas você não é o leproso Demétrio que... espere... Demétrio: Escute, senhora, não passou por aqui um grupo de galileus, e junto com eles não ia um que chamam de Jesus, o profeta...? Uma velha: Não, meu filho, não vi ninguém... eu também estou andando atrás de um netinho meu que se perdeu... À altura de Jarod, depois de muito correr e perguntar, Demétrio por fim nos encontrou... Demétrio: Obrigado, Jesus, obrigado...! Jesus: Escute, e os outros que estavam com você? Demétrio: Bem, eles... eles só se lembram de Deus quando trovoa, sabe? Demétrio, o samaritano, ficou um bom tempo conosco na pousada de Jarod. E todos juntos brindamos por ele; por seus nove companheiros que não voltaram; e por Deus, que faz chover sobre bons e maus e levanta o sol sobre os agradecidos e também sobre os ingratos. A palavra original hebraica com que se denominava a doença da lepra é “sara’at”, que deriva da expressão “ser castigado por Deus”. A lepra era sempre considerada como um terrível castigo divino. A “impureza” religiosa que o doente contraía por isso, o fazia ser repudiado pelo resto da comunidade. E assim, os leprosos viviam em lugares afastados, eram totalmente proibidos de entrar nas cidades e quando iam pelos caminhos deviam avisar para que ninguém se aproximasse. Como a doença era considerada também incurável, a única esperança que restava a esses doentes era um milagre. Em todo caso, se a cura se realizasse, um sacerdote tinha de comprova-la e certificar com sua palavra que era verdadeira (Lv 14, 1-32). Dotan e Jenin são duas pequenas cidades separadas por uns oito quilômetros, situadas no caminho que vai da Judéia para a Galiléia passando por terras samaritanas. Mas dos 10 leprosos que sofrem e rogam na gruta de Jenin, só Demétrio é samaritano. Há aqui um símbolo interessante. O mais desprezado de todos eles (por ser leproso e ainda por ser samaritano) é o único que manterá a confiança do grupo (por sua fé acontecerá o milagre para todos) e também o único que saberá agradecer o que fizeram por ele. A atitude fatalista diante da vida paralisa o homem. Se realmente tudo “está escrito”, se o destino é algo contra o qual ninguém pode, nada mais resta que esperar o momento em que ele se cumpra, seja para o bem, seja para o mal. Demétrio lutará contra o pessimismo de seus companheiros e os porá em movimento. Isso os aproximará de Jesus, abrirá possibilidades em suas vidas. Uma falsa religião plantou no coração de muitos homens e mulheres uma convicção fatalista diante da vida. Mas essas idéias não são certas: somos livres. Depende de nós o rumo que tomar nosso viver. E se por acaso não somos livres, se a nossa vida é esmagada pela opressão e pelo sofrimento, a atitude fatalista (“sempre foi assim, e assim sempre será”) só fará perpetuar essa situação. Não é o destino que a perpetua, mas a nossa passividade. Neste episódio, é mostrado como os leprosos vão desanimados nessa busca de Jesus, como desconfiam dele, como o criticam e como, no final, não sabem agradecer. E, apesar de tudo isso, Jesus opera um sinal de cura em favor deles. Este milagre é, pois, um sinal da gratuidade dos dons de Deus. Deus não nos dá a vida, a saúde, as oportunidades porque lhe agradecemos mais ou menos ou porque somos bons. Ele dá porque nos ama. Seu amor é desinteressado, não espera em troca nem incenso nem aplauso. Lucas, o único evangelista que escreveu este pitoresco e “incrível” relato dos dez leprosos curados, pretendeu elaborar um esquema de catequese sobre como deve ser nossa atitude para com Deus e o fez contando uma parábola sobre o agradecimento. É importante uma atitude de agradecimento, não porque Deus “necessite” dele para nos estender sua mão, mas porque ser agradecidos nos ajuda a sermos retamente humilde e nos faz mais irmãos uns dos outros. Há quem “só se lembra de Deus quando trovoa”. E age de forma semelhante com os demais: sempre está pronto para pedir, nunca para agradecer. Esta postura indica, evidentemente, um certo egoísmo, enquanto que ser agradecidos nos tira de nós mesmos, nos traz conhecimento sobre nossas limitações e nos ensina uma alegria que os mesquinhos nunca conhecerão e que tem muito a ver com a solidariedade humana, com o compartilhar, com o saber-nos apoiados e sustentados pelos outros, responsáveis uns pelos outros, colaborando em uma tarefa comum. (Lc 17, 11-19)
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