Apresentação
Fale Conosco
Veja Também:
Capítulo V BATISMO NO JORDÃO Aquela manhã amanheceu como todas em Betabara, onde João batizava. O céu aberto, limpo, sem uma nuvem, e o vento do deserto soprando com força sobre nossas cabeças, agitando as águas do Jordão. Ainda que nenhum sinal o indicasse, aquela foi uma manhã muito importante. Todos nos recordaríamos alguns anos depois... Batista: Eu sou somente uma voz, uma voz que grita no deserto!... Abram passagem, deixem livre o caminho para que o Senhor chegue mais depressa! Ele já vem! Não demora! Convertam-se, purifiquem-se, mudem o coração de pedra por um coração de carne, um coração novo para receber o Messias de Israel! Foi naquele dia que Felipe, Natanael e Jesus decidiram por fim batizar-se. Os três puseram-se na fila, espremidos no meio daquela multidão de peregrinos, e entraram nas lamacentas águas do rio... Batista: Vamos, decide-se! Quer ou não quer batizar-se? Felipe: Bem, eu... Batista: Você quer ou não quer apressar o Reino de Deus para que haja justiça na terra? Felipe: Sim, isso sim, acontece que... Batista: Mas o que é que acontece com você, galileu? Felipe: Nada, é que a água e eu não somos bons amigos, sabe?... Faz muitos meses que... Espere, espe...! Glup...! Batista: Que o Deus de Israel arranque a imundície do seu corpo e da sua alma e que você possa ver com seus olhos o grande dia do Senhor! Batista: E agora, vamos ver: quem é você? Como se chama? Natanael: Sou Natanael de Caná da Galileia. Batista: Quer se batizar? Quer estar limpo para quando o Messias chegar? Natanael: Sim, João, quero... eu também quero preparar o caminho e... e colaborar com o Libertador de Israel... Batista: Muito bem. Você disse que sim. Pois essa palavra ficará pendurada sobre sua cabeça. Quando o Messias vier, siga-o. Não o atraiçoe porque Deus não trairá você pela palavra que acaba de pronunciar. Está decidido? Natanael: Sim, profeta, eu... eu quero... Batista: Aproxime-se e arrependa-se de todas as suas faltas...Ainda que seus pecados sejam vermelhos como o sangue, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam negros como o carvão, ficarão limpos como a água da chuva... E o profeta afundou no rio a cabeça calva de Natanael, como antes havia feito com nosso amigo Felipe e com tantos outros. Chegara a vez de Jesus... Batista: E você, de onde é? Jesus: Sou galileu como esses dois. Vivo em Nazaré. Batista: Em Nazaré? Naquele vilarejo que está entre Naim e Caná? Jesus: Sim, ali mesmo. Conhece aquilo? Batista: Tenho familiares lá... Como disse que se chama? Jesus: Me chamo Jesus. Batista: Mas, por acaso você não é filho de José e Maria? Jesus: O próprio, João. Minha mãe me disse que éramos primos meio distantes. Batista: Sim, é verdade! Caramba, como esse mundo é pequeno!... Você vai ficar algum tempo aqui pelo Jordão? Jesus: Sim, um par de dias mais... Batista: Quer batizar-se? Jesus: Sim, João, foi para isso que vim. Você prega a justiça. Eu também quero cumprir toda a justiça de Deus. Batista: Está arrependido de seus pecados? De verdade, de coração? Jesus: Sim, João. Me arrependo de tudo... especialmente... do medo. Batista: Do medo? De que você tem medo? Jesus: Para ser sincero, João... tenho medo dele... tenho medo de Deus. Sim, Deus é exigente e às vezes quer colher onde não plantou. Assusta-me que ele me peça o que não posso dar-lhe. Batista: Se você se batiza, se compromete a preparar o caminho do Messias. Pense bem antes. Com Deus não valem as desculpas. Se disser “sim”, é sim. Se disser “não”, é não. Decida-se, Jesus: quer se batizar? Jesus: Sim, João, eu quero que me batize. Batista: Está bem. Você será mais um a colaborar com o Libertador de Israel. Jesus: Você fala sempre desse Libertador, João. Mas, onde ele está? Quem é? Aos mensageiros de Jerusalém você disse que não era o Messias que esperamos. Batista: Claro que não sou eu. Ele vem depois de mim e é mais forte do que eu. Vem depois de mim, mas é primeiro que eu. Eu lhe asseguro, Jesus: se eu o tivesse diante de mim, não me atreveria nem a desamarrar a correia de sua sandália. Jesus: Mas, quem é, João? Quando virá? Batista: Ele já veio. Meu coração me diz que o Libertador de Israel já está no meio de nós. Todavia, eu ainda não o vi. Jesus: E como poderemos reconhecê-lo quando aparecer? Batista: O Espírito Santo pousará sobre ele como uma pomba, suavemente, sem fazer barulho. O Espírito de Deus nunca faz barulho. É como uma brisa leve. O Messias Libertador chegará assim, sem fazer ruído. Não quebrará o caniço já meio rachado, nem apagará a mecha que ainda dê um pouco de luz... Você não leu o que disse o profeta Isaias? “Este é meu Filho amado, nele se alegra o meu coração”? Esse será o Messias, o filho predileto de Deus... Batista: Jesus, o que acontece?... Você está tremendo. Jesus: Não, não está acontecendo nada. Batista: Você está tremendo como os juncos do rio quando o vento do deserto sopra sobre eles! Jesus: É que... tenho frio. Batista: Frio? Não está fazendo frio... Como está sentindo frio se seu rosto está queimando? Jesus: Estou nervoso, João... Por favor, batize-me antes que o medo seja mais forte e me faça mudar de ideia. Batize-me, eu lhe suplico... O profeta João, aquele gigante tostado pelo sol, levantou energicamente seu braço, agarrou Jesus pelos cabelos e o afundou nas águas revoltas do Jordão... Batista: Dá-nos, Senhor, Liberdade; envia-nos o Libertador. Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Em poucos segundos, o profeta tirou Jesus da água... Jesus: Obrigado, João. Já estou mais tranquilo. Eu me sinto... estou contente, não sei, estou muito contente!... Mas, João, o que você tem?... Agora é você que está tremendo?... João, está me ouvindo?... Mas o profeta não escutava. Tinha os olhos cravados no céu, como que buscando alguma coisa, esquadrinhando as formas das nuvens e o voo dos pássaros... Batista: A voz do Senhor sobre as águas! O Deus da glória troveja!... A voz do Senhor com força, a voz do Senhor como uma tempestade... Jesus: O que você está dizendo, João? Batista: Nada, nada... por um momento acreditei escutar... Sabe? No deserto os pássaros falam uma linguagem misteriosa e se veem miragens no horizonte... Não é nada, não se preocupe... Um homem: Vamos ver se esse cara acaba logo de uma vez com isso!! Pra que tanta conversa fiada só pra molhar a cabeça! Uma mulher: Cale essa boca, estúpido! Não tem vergonha de falar desse jeito? Outro homem: Não empurre não, patrícia, agora é a minha vez! Jesus: João, gostaria de falar com você quando houver menos alvoroço. Preciso falar com você! Batista: Sou eu que preciso falar com você, Jesus. Agora volte pra margem. As pessoas ficam impacientes com este calor... Em pouco tempo Jesus voltou para a orla... Pedro: Que aconteceu, Jesus?... Por que você demorou tanto? Jesus: Aproveitei para fazer algumas perguntas a João... Felipe: Eu pensei que você havia se afogado no rio, rá, rá, rá! Olhe só, tenho água escorrendo por tudo o que é lugar... Demônios, esse profeta tem os braços como duas tenazes; te agarra, te empurra, te mete com o nariz no rio e zaz! Batizado. Pedro: O que você lhe perguntou, Jesus? Jesus: O que você disse, Pedro? Pedro: O que você perguntou ao profeta João? Jesus: O que todos lhe perguntam: quem é o Messias, quando vem o Libertador de Israel. Tiago: E o que ele respondeu? Disse algo de novo? Jesus: Não, Tiago, o de sempre... Natanael: Você está com um brilho estranho nos olhos... Pedro: Fale claro, Jesus! O que o profeta lhe disse? Você ficou muito tempo cochichando com ele... Jesus: Nada, Pedro, ele me disse... Bem, que o Espírito de Deus não faz barulho quando vem. Que é como uma brisa suave: você a sente no rosto, mas não sabe de onde saiu nem para onde vai. Tiago: O que é isso agora? Não é João que vinha o tempo todo falando de fogo, de machado, da cólera de Deus...? Uma brisa suave!... O Messias não será uma brisa suave: será um furacão, uma tempestade de raios! Jesus: Eu não estou tão seguro disso, Tiago, porque, veja esses caniços... Um furacão romperia os caniços quebrados e apagaria as mechas que ainda têm um pouquinho de luz... E todos nós que estamos aqui não somos frágeis caniços e chamas meio apagadas...? Que seria de nós se Deus soprasse como um furacão? Quem se aguentaria de pé diante dele? Natanael: Mas, o que está acontecendo hoje com você, Jesus? Está falando de um jeito muito estranho... O que mais o profeta lhe disse? Jesus: Disse-me que o Libertador... já chegou. Que está no meio de nós. Pedro: Pois então que saia do seu esconderijo! Ele não contou onde se meteu? Iremos buscá-lo, o levantaremos nos ombros e que comecem as pedradas! Tiago: Companheiros, a única coisa que eu vejo claro é que aqui neste rio fedorento, não tem como ir procurar o Messias. Vejam todos esses aí na margem... O que é que o Messias vai fazer com eles? Formar um exército de piolhentos e mulheres da vida? Felipe: Olhem só quem fala! O filho de Zebedeu que tem mais pulgas que pelos na barba! Tiago: Pode gozar, Felipe... Quando o Messias chegar encontrará você com essa bocarra aberta e vai fechá-la com uma boa porrada! Piolhentos, rameiras e agora idiotas! Boa tropa para o Messias! Jesus: São caniços rachados, Tiago. O Messias vem para endireitar e não pra dar porradas. Tiago: Olhe, nazareno, isso soa muito bonito, mas o que está faltando aqui é... Felipe: Chega de brigas, rapazes! Eu acabo de me batizar e não posso sujar minha boca com maldições. Proponho a gente ir comer uns biscoitos. Já está ficando tarde e, afinal de contas, temos de jogar alguma coisa nas tripas... Pedro: É isso mesmo! Comer primeiro, discutir depois. André, João, Natanael! Vamos, companheiros! Você não vem, Jesus? Jesus: Claro que sim, Pedro, vamos lá... O sol estava pendurado na metade no céu e envolvia com seu calor a terra ressecada. O rio, o vento e os pássaros do deserto haviam visto como Deus se aproximara das águas do Jordão naquela manhã. Deus buscava Jesus e Jesus escutou sua voz. Algo de grande havia acontecido entre nós, mas então não nos demos conta de nada. O rito do batismo que João popularizou, significava um reconhecimento público para demonstrar o começo de um caminho de justiça à espera do Messias. Jesus, um entre tantos, se uniu àquele movimento popular aderindo à mensagem de João. Seu batismo será o ponto de partida de uma vida a serviço de seu povo. Jesus, como verdadeiro homem, foi compreendendo ao longo de sua vida, em contato com os demais, e partindo de diferentes experiências, o que Deus queria dele. Cresceu em idade, seguindo o processo biológico que todos seguimos. Cresceu em sabedoria: por sua abertura a Deus e aos irmãos foi encontrando qual era sua missão. Cresceu em graça: por sua fidelidade a Deus foi fortalecendo seu compromisso de serviço, até dar a vida. Tudo isso que foi um processo, os relatos evangélicos de algum modo concentram no momento do batismo em que Jesus, sensível diante da personalidade e da mensagem de João, teria uma decisiva experiência interior de fé. Todos vivemos ao longo de nossa vida momentos fortes, nos quais sentimos de forma especial o que devemos fazer, qual nossa vocação, nossa responsabilidade. Momentos em que nos comovemos diante da dor e da injustiça que nos rodeia e encontramos forças para oferecer algo de nossa vida para que as coisas mudem. Momentos em que experimentamos a certeza de que Deus guia nossa existência, de que a história se encaminha para um futuro de esperança, de que os homens e mulheres que nos rodeiam são nossos irmãos. São momentos em que a realidade nos “fala” e nos sentimos lúcidos para saber o que significa essa linguagem. Estas experiências são difíceis de explicar ou traduzir em palavras. Algo assim deve ter vivido Jesus no Jordão quando se batizou. Para descrever essa experiência interior e fazer-nos ver a importância que teve esse momento na vida de Jesus, os que escreveram o evangelho, a contaram usando símbolos exteriores. O céu se abre: quer dizer que Deus estava perto de Jesus. Desce uma pomba: algo novo vai começar e, assim como o Espírito pairava sobre as águas no primeiro dia da criação do mundo, agora pousa sobre Jesus, o homem novo. Ouve-se a voz de Deus escolhendo Jesus como Filho amado... No entanto, esses sinais não devem fazer-nos esquecer que tanto o começo do compromisso de Jesus, como todo o resto de sua vida, foi algo simples, normal, humilde, sem grandiosidades. É na humildade que Deus quis revelar-se. Entre os cristãos, o batismo tem o sentido de uma meta: “Salva-se quem se batiza”, mas em Jesus, tem o sentido de um começo. O batismo cristão é um rito pelo qual se reconhece em público, diante da comunidade, que se rompe com o mal (renuncias a Satanás, com suas obras, suas pompas?) e se adere à Boa Notícia de Jesus, comprometendo-se comunitariamente a fazer realidade os novos valores do evangelho. Os primeiros cristãos que viveram nas terras de Israel, batizavam-se submergindo-se nas águas do rio Jordão. Os de outros lugares, o faziam banhando-se em um rio ou um tanque. Com o passar dos séculos esse costume foi se perdendo e hoje só restou esse pouco de água que se derrama sobre a cabeça do novo cristão. Os cristãos de rito ortodoxo e alguns outros grupos continuam praticando o batismo por imersão. (Mateus 3,13-17; Marcos 1,9-11; Lucas 3, 21-22; João 1,29-34)
Capítulos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII XXIX XXX XXXI XXXII XXXIII XXXIV XXXV XXXVI XXXVII XXXVIII XXXIX XL XLI XLII XLIII XLIV XLV XLVI XLVII XLVII XLIX L LI LII LIII LIV LV LVI LVII LVIII LIX LX LXI LXII LXIII LXIV LXV LXVI LXVII LXVIII LXIX LXX LXXI LXXII LXXIII LXXIV LXXV LXXVI LXXVII LXXVIII LXXIX LXXX LXXXI LXXXII LXXXIII LXXXIV LXXXV LXXXVI LXXXVII LXXXVIII