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Capítulo XLIX JUNTO AO POÇO DE JACÓ Quando terminou a Festa das Tendas, Jerusalém despediu com tristeza os peregrinos que haviam enchido suas ruas durante aquela longa semana. Para nós, galileus, era hora de regressar ao norte... Tiago: Olhos abertos! Por estas paragens há ladrões até debaixo das pedras... João: Já passaram todas as caravanas... O que vão roubar de nós?... Jesus: Fora os piolhos que pegamos em Jerusalém, não estamos levando mais nada... Tiago: Digam o que quiserem, mas esta terra parece maldita... João: Sim, é encardida... como a pança do demônio... Tiago: E está vazia como o esqueleto de uma vaca morta. Felipe: Caramba, Tiago, não fale assim, que já estou com medo suficiente aqui dentro... Desde centenas de anos nós, galileus do norte e os judeus do sul temíamos e odiávamos os samaritanos, aqueles compatriotas nossos que viviam nas terras centrais do país... Por todos os caminhos de Israel corriam lendas que aumentavam esses temores. Um samaritano era para nós um rebelde às tradições de nosso povo e não merecia nem uma saudação. Os samaritanos, claro está, também nos desprezavam... João: O que dizem os seus calos, Jesus? Jesus: Estão dizendo que querem tirar um descanso, João. Puf... Felipe: Pois eu trocaria meu bastão e minhas sandálias por um copo de água... Estou morrendo de sede! Tiago: O sol da Samaria é tão traidor como sua gente, Felipe... João: Paciência, camaradas. Quando esse traidor tiver andado dois palmos mais, estaremos em Sicar. Lá poderemos comer e beber... Tiago: Até lá, conforme-se engolindo saliva, Felipe... Quando o sol sinalizava a metade do dia, chegamos a Sicar, uma pequena aldeia construída entre dois montes, o Ebal e o Garizim, a montanha sagrada dos samaritanos... João: De pressa! Vamos ver quem chega primeiro ao poço! À entrada da aldeia ficava o poço que nosso pai Jacó comprou dos cananeus dois mil anos atrás para presenteá-lo, ao morrer, a seu filho José.... É um poço grande e muito profundo. A água que corre em abundância debaixo da terra ressecada faz crescer, junto dele, tamareiras de folhas brilhantes... Tiago: Vamos primeiro comprar azeitonas e pão! Minhas tripas já estão cantando as lamentações de Jeremias! João: Vamos, Pedro! Correndo!... Você vem, Judas?... E você, Felipe? Felipe: Sim, vamos todos!... E você, Jesus? Jesus: Não, eu vou ficar aqui no poço. Estou muito cansado... Estou até achando que estou com um pouco de febre... Eu espero vocês aqui. Felipe: Está bem. Tire uma soneca, moreno. E quando você acordar terá à sua frente uma bela jarra de vinho!... Vamos embora!... Saímos correndo até Sicar. Quando nos afastamos, Jesus se recostou sobre uma pedra, entre os caniços, e fechou os olhos... Passou um bom tempo... Abigail: Ei, quem está aí? Jesus: Humm... Peguei no sono... Abigail: Vai pro diabo, barbudo! Você me deu um belo susto, sabia? Pensei que era uma ratazana. Jesus: Pois agora você está vendo... não tenho rabo... Sou Galileu... Pior que uma ratazana, não acha? Junto ao poço de Jacó, uma mulher samaritana, de rosto formoso e tostado pelo sol, olhava fixamente Jesus, estendendo até ele seu braço moreno, cheio de pulseiras... Abigail: Você é que está dizendo... Eu não disse nada... Olhe, eu não me meto com ninguém. Venho buscar água e volto por onde vim. Não gosto de confusão... Daí que não quero nada com você, está bem? Jesus: Mas eu sim quero algo com você.. Abigail: Ah, sim?... Um galileu com uma samaritana... Vê lá! Isso sim é que é divertido... pois você se enganou de poço, amigo... A água “desta fonte” já tem dono... Jesus: Não, você é que está se enganando, mulher... Abigail: Mmmm... mmm... mmm...! Jesus: Como? Abigail: Mmmm... Que eu não falo com galileus, caramba! Não quero nada com eles! Jesus: Pois eu falo com samaritanas. E já lhe disse que quero algo de você... Abigail: Mmmm... mmm... mmm... Jesus: Olhe, pare de resmungar e dê-me um pouco de água... Estou morto de sede... Não fale comigo se não quiser, mas dê-me de beber, ande... Abigail: Ah... então era isso? Olhe, até que essa não foi tão ruim, mas o que você quer então é só água...? Jesus: Não é o bastante? Custa pouco e não embriaga. Abigail: Sim, sim... ... Mas eu prefiro vinho... Jesus: Então você é como o mosquito... Abigail: Como o que? Jesus: Como o mosquito. Você não sabe o que disse o mosquito à rã, quando se atirou no barril?... “Mais vale morrer no vinho que viver na água”... e plash! Se enfiou de cabeça e se afogou contentíssimo no vinho! Abigail: Rá, rá, rá!...!... Mmmm... mmm... Jesus: O que aconteceu? Sua língua travou de novo? Abigail: Olhe aqui, moço, ponha as coisas claras de uma vez... O que você anda procurando?... A mim você não enrola... quem é você, heim? Jesus: Quem você acha que eu sou? Abigail: Aposto todas as minhas pulseiras que você é um desses bandidos que andam soltos pela montanha roubando os homens e violando as mulheres. Jesus: Você acha que eu tenho cara disso? Abigail: Não, o que você tem é cara de contador de histórias. E de embromador. Porque eu sou uma mulher decente e você já me enredou para conversar... com um galileu! Jesus: E lá vem de novo essa história de galileu. Mas, venha cá, mulher, o que os galileus lhe fizeram, diga-me? Abigail: A mim, nada. Mas aos meus, muito. Vocês galileus se acham os donos do mundo e nos desprezam e falam mal de nós. Jesus: E vocês samaritanos se acham os donos do mundo, nos desprezam e falam mal de nós. Assim que, dê logo essa água que estou com o gorgomilo pregado aqui atrás... Abigail: Tome a água, então... e para de me embrulhar... Jesus: Ahhh... Que delícia...! Abigail: Só podia ser galileu... vocês só servem para pedir... Não ouviu o que eu disse? Que vocês só servem para pedir e depois nem agradecem! Jesus: Não precisa gritar assim que eu já ouvi... E eu vou lhe dar algo em troca... sabe o que é? Abigail: O que? Jesus: Água. Abigail: Como, água? Jesus: O mesmo que lhe peço, o mesmo que lhe dou.Você quer água? Abigail: O sol deve ter derretido seus miolos. Quem tem o balde e a corda sou eu! Como você vai tirar água? Jesus: É que eu conheço outro poço que tem uma água mais fresca. Abigail: Outro poço? Que eu saiba o único poço que há por aqui é este. Foi por isso que nosso tataravô Jacó o comprou para beber ele e seus filhos e seus rebanhos... Jesus: Pois eu conheço um poço que tem uma água melhor... Você bebe esta água e em um par de horas volta a ter sede. Mas se conhecesse o outro poço que lhe digo, se beber uma vez dele sua sede acabaria para sempre. Abigail: Ei, e onde fica esse poço maravilhoso? Jesus: Ah, é um segredo... Abigail: Ande, conte para mim e assim não terei de ficar indo e vindo para tirar água... Jesus: Não, não, é um segredo... Abigail: Um segredo?... Um conto da carochinha! Já sei quem você é, um charlatão e um embusteiro!...Um poço maravilhoso, rá! Jesus: Está bem, está bem, vou lhe dizer onde está... Mas, chama primeiro seu marido. Abigail: O meu marido? E o que tem a ver meu marido nisso tudo? Jesus: Bom, para que ele também fique sabendo do poço... Abigail: Pois sinto muito, conterrâneo, mas tenho que lhe confessar que não tenho marido... esta que você está vendo aqui é solteira e sem compromisso... Jesus: Vamos, vamos, mulher que nisso nem você mesma acredita... Você não disse antes que “a fonte” já tinha dono...? Abigail: Bom, claro, cada um se defende como pode... Jesus: Quantos? Abigail: Quantos o que? Jesus: Quantos maridos você já teve? Abigail: Olhe aqui, o que você tem a ver com isso, intrometido? Diacho de sujeito! E você, quantas, heim? Por acaso eu lhe perguntei se você já esteve na cadeia ou se lhe caíram os dentes? Jesus: Está bem, não fique assim... Venha cá, deixe-me ver sua mão... Abigail: Você sabe ler as linhas da mão? Jesus: Espere... deixe ver... Aqui vejo... vejo cinco. Abigail: E como você sabe? Sim, é verdade, já tive cinco maridos! Jesus: Não, eu dizia que estava vendo cinco dedos na sua mão... Abigail: Eu já sei quem você é! Um adivinho! Um profeta!... Você é profeta, não é mesmo? Jesus: Bom, eu sou um galileu, como você disse antes... Abigail: Não, você é um profeta! E eu nunca havia visto as barbas de um profeta! Pois agora você não me escapa!... Vamos ver, o que vou perguntar agora... Sim, sim, já tenho uma. Você me vai resolver esta questão: Veja, vocês galileus e os judeus dizem que Deus colocou seu trono no monte de Jerusalém. E nós, samaritanos, dizemos que não, que é aqui no monte Garizin onde vive Deus... E você, o que acha? Jesus: Bom, pois eu acho que Deus já se levantou do trono e desceu do monte e pôs sua tenda aqui embaixo, entre as pessoas, entre os pobres... Abigail: Você é um profeta, tenho certeza!...E se me descuido, acaba sendo o próprio Messias... Quando a mulher samaritana disse aquilo, Jesus se agachou, pegou uma pedrinha branca do chão e se pôs a brincar com ela entre as mãos... Jesus: E... e se eu fosse? Abigail: O que você disse? Jesus: Que se eu fosse o Messias, o que você faria? Abigail: Isso eu é que lhe pergunto: O que você faria? Jesus: Pois olhe, a primeira coisa que eu faria seria comprar uma esponja assim deste tamanho para apagar as fronteiras entre a Samaria e a Galiléia, entre a Galiléia e a Judéia, entre Israel e todos os países... E depois, procuraria uma chave mestra para abrir todas as fechaduras de todos os celeiros e assim o trigo daria para todos... E com um martelo grande arrebentaria as correntes dos escravos e os grilhões dos presos. E depois, chamaria todos os pedreiros da terra e lhes diria: Eia, companheiros, desmontem pedra a pedra o templo de Jerusalém e o templo do Garizim e todos os templos. Porque Deus não está nos templos, mas nas ruas e nas praças. E os que de verdade buscam a Deus, o encontrarão ali, entre as pessoas... E também compraria o melhor sabão do mundo que existe para esfregar todas as leis e todas essas normas que durante anos descarregaram sobre nossas costas... e escreveria uma só lei aqui dentro, no coração: a liberdade... Sim, era isso que eu faria... Abigail: Agora eu tenho certeza! Você é o Messias que esperamos! Venha à minha casa e ao meu povoado e que todos o ouçam! Venha, ande!... Jesus: Sim, mulher, mas espere um pouco, meus amigos foram comprar alguma comida e já devem estar chegando... Pouco tempo depois, nós chegamos. Quando vimos Jesus falando com aquela samaritana, estranhamos muito. Não era costume que os homens falassem com mulheres a sós. Nem era bem visto que um judeu conversasse com um samaritano de igual para igual. Mas Jesus nunca se preocupou com o que dissessem dele. Era um homem livre, mais livre que a água que brotava daquele manancial de Siquém. E nós, como já o conhecíamos um pouco, não dissemos nada então e nos pusemos a comer. Era meio dia. Samaria é a região central da Palestina. Para regressar de Jerusalém à Galiléia era freqüente ir pelo caminho das montanhas, atravessando a Samaria. Uns setecentos anos antes de Jesus, os assírios haviam invadido esta zona do país. Deportaram o melhor da população israelita que ali vivia e povoaram a região de colonos. Com o passar do tempo os colonos assírios se miscigenaram com o restante da população autóctone que havia ficado na Samaria. O resultado foram os samaritanos: uma raça de mestiços, um povo com uma grande mistura de crenças religiosas. O desprezo que sentiam os israelitas, tanto os galileus do norte, quanto os judeus do sul, pelos samaritanos, era uma mistura de nacionalismo e racismo. Chamar alguém de “samaritano” era um dos piores insultos, sinônimo de bastardo. Uns quatro séculos antes de Jesus a comunidade samaritana se separou definitivamente da comunidade judaica e construiu seu próprio templo sobre o monte Garizim, um templo rival de Jerusalém. Com isso se cristalizou o cisma religioso entre ambos os povos. A partir de então, as tensões foram aumentando e, no tempo de Jesus, a inimizade era muito profunda. Estava proibido expressamente que judeus e samaritanos se casassem, já que eles eram impuros em grau extremo e causadores de impureza. Tampouco podiam entrar no templo nem oferecer sacrifícios. Eram chamados de “o povo estúpido que habita em Siquém”. Os samaritanos tinham a grande honra de descenderem dos antigos patriarcas de Israel. Realmente, tinham sangue hebreu, mas o restante dos israelitas terminou por considerá-los como pagãos e estrangeiros. Os samaritanos também guardavam escrupulosamente a Lei mosaica, mas eram tidos como idólatras por render culto a Deus na montanha do Garizim. O Garizim, a montanha sagrada dos samaritanos, era certamente um monte muito importante na história do povo de Israel, por ser o lugar onde foram pronunciadas as bênçãos sobre o povo ao entrar na terra prometida, tendo Josué à frente (Josué 8, 30-35). O templo samaritano ali erigido estava destruído no tempo de Jesus, mas o cimo do monte continuou sendo o lugar de culto e ali subiam os samaritanos para rezar e fazer seus sacrifícios. A Siquém do tempo de Jesus corresponde à atual Nablus, uma das cidades mais puramente árabes em território de Israel. Em Nablus existe hoje um bairro dos samaritanos, onde vivem os descendentes desta raça rebelde e singular. Na atualidade restam apenas uns 400, só se casam entre si, conservam um dialeto próprio, têm suas escolas e sua literatura. Os chefes da comunidade samaritana vestem sempre turbantes vermelhos, como sinal de sua hierarquia. Os samaritanos de hoje continuam guardando zelosamente suas tradições, sobem pela Páscoa ao Garizim para sacrificar um cordeiro segundo seu rito – diferente do judeu – e conservam na sinagoga do bairro um rolo da Lei que, segundo eles, foi escrito por um neto de Aarão, o irmão de Moisés, embora isto não tenha nenhum fundamento histórico. É uma comunidade fechada, fadada a extinguir-se pelo incessante cruzamento entre primos ou parentes, na qual já se notam traços de deterioração biológica: vêem-se muitos cegos e anormais. Sicar era uma pequena aldeia entre o Ebal e o Garizim, montes guardiões da região da Samaria. Ali ficava o terreno que o patriarca Jacó havia comprado (Gênesis 33,18-20) e que depois havia presenteado a seu filho (Gênesis 48,21-22). Neste terreno havia um poço que depois de quase dois mil anos o povo continuava chamando – no tempo de Jesus – “o poço de Jacó”. Os poços são muito importantes na Palestina, por causa da escassez de água. Essas fontes são subterrâneas, por serem tão pouco abundantes, são facilmente localizáveis, ainda depois de séculos, com exatidão. Para os pastores e nômades, os poços eram vitais, pois de suas águas dependia a vida do gado, sua única fonte de riqueza. Esses poços chegavam a ter até 20 metros de profundidade. Na atualidade, ainda é possível, depois de quatro mil anos, beber água fresca do poço de Jacó – para os cristãos, poço da Samaritana. Bem perto do poço, a tradição árabe conserva um momento funerário venerado como a tumba de José, o filho do patriarca Jacó, herdeiro das terras de Siquém. A narração que faz o evangelho de João do diálogo de Jesus com a samaritana é uma densa elaboração teológica carregada de símbolos, parecida com a do capítulo 3, com Nicodemos. O elemento substancial deste diálogo pode ser resumido na palavra liberdade. Jesus, ao falar com uma mulher samaritana a sós, está rompendo de uma vez dois fortíssimos preconceitos de seu tempo: o sexual, que proibia um homem falar sozinho com qualquer mulher, e o nacional-racista, que inimizava de morte israelitas e samaritanos. São marcas de sua enorme liberdade e de sua amplíssima capacidade de relação humana. Do ponto de vista teológico, esta cena também fala de liberdade. A liberdade de Deus, que não quer ser encerrado nos templos – nem no de Jerusalém nem no de Garizim – mas que quer relacionar-se conosco como Pai, em espírito e em verdade. A nova comunidade que Jesus vem inspirar já não se distinguirá pelo culto que preste a Deus, mas pela fraternidade com que faça presente esse Deus no meio de sua vida. (João 4,1-27)
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