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Capítulo XLVIII O CEGO DE NASCENÇA E O PIEDOSO E O MALANDRO
( Escribas , doutores e Fariseus ) E os ministros de Deus expulsaram da sinagoga Roboão, a quem chamavam de Chispa, que havia nascido cego e que desde aquele sábado pôde ver a cor das pedras e as formas das nuvens. Jesus lhe havia devolvido a vista. E tudo ele fazia bem: abria os olhos dos cegos, e deixava na escuridão os que, cheios de orgulho, acreditavam ver. Os escribas, doutores e mestre da lei exerciam uma forte influência sobre o povo. Eles sabiam e isto os fazia considerarem-se superiores. Por outro lado, por serem os “especialistas” em religião, os que “sabiam”, se sentiam imunizados, a salvo do pecado. A superioridade com que se apresentavam ao povo era, portanto, intelectual e moral. Muita gente os respeitava e seguia suas instruções, os consultava e se deixava ensinar por eles. Dificilmente os mestres da Lei, que se haviam feito assim com o monopólio de Deus e da religião, iriam renunciar a este privilégio que lhes proporcionava tantas vantagens. Daí sua oposição sistemática a Jesus, leigo, sem formação teológica especial, que falava sobre temas religiosos com toda liberdade e de maneira contrária à estabelecida pela religião oficial. A pergunta que fazem ao mestre sobre a cegueira de Chispa, corresponde à mentalidade da época. Acreditava-se que toda desgraça era conseqüência de um pecado cometido e que Deus castigava na proporção exata da gravidade da falta. Deus também podia castigar “por amor”, para pôr à prova o homem. Se se aceitava estes castigos com fé, o mal se convertia em bênção, pois o homem chegava a alcançar um mais profundo conhecimento da lei e recebia o perdão de seus pecados. Mas era crença também que nenhum castigo que viesse como prova de Deus poderia impedir o homem do estudo da Lei. Nesse sentido, a cegueira não podia nunca ser prova de amor, mas maldição. Alguns rabinos opinavam que uma criança podia pecar ainda no ventre de sua mãe, mas o mais freqüente era pensar que os defeitos corporais do nascimento eram devidos aos pecados dos pais, apesar do esclarecimento que sobre esse tema dos castigos herdados haviam feito os profetas, insistindo na responsabilidade individual de cada pessoa diante de Deus (Ez 18,1-32). Diante da intolerância e do fechamento que supõe o ensinamento oficial, Jesus se aproxima do cego, de igual para igual, não aceita os juízos que sobre sua enfermidade fez a religião estabelecida nem muito menos a idéia de Deus que se esconde por trás desses juízos. Deus não é monopólio dos teólogos e nem pode o homem estabelecer os caminhos de sua atuação. Deus é livre e quer homens livres. Tudo isso indica o sinal que fez Jesus ao abrir os olhos do cego de nascença. Os que acreditam que vêem, que têm a verdade, que possuem a ciência, são cegos. E aqueles que são desprezados, os últimos, são os que na realidade vêem, os que chegam a conhecer de fato quem é Deus. Jesus unta os olhos do cego com barro feito com terra e saliva. Isto também é um sinal: está reproduzindo a cena do Gênesis, quando Deus criou o homem do barro da terra. Jesus faz a argila com sua saliva. Em Israel pensava-se que a saliva transmitia a própria força, a energia vital e, por isso, era usada para curar enfermidades. Por exemplo, era crença tradicional que a saliva do filho primogênito curava as enfermidades dos olhos. O elemento simbólico deste barro, feito assim, é importante. O evangelho de Jesus, sua boa notícia, é capaz de criar um homem novo, que seja realmente livre, não só diante de seus irmãos, mas inclusive diante do próprio Deus. Deus não condena o homem nem o castiga com sofrimentos. Deus quer relacionar-se com o ser humano de igual para igual. A piscina de Siloé estava situada fora das muralhas de Jerusalém. Siloé significa “enviada”, e esse nome faz referência à procedência da água que se acumulava no tanque. A água chegava a Siloé vinda do manancial de Guijon, situado ao oriente da cidade. A fonte do Guijon era o único manancial de águas de Jerusalém que emanava ininterruptamente, em qualquer época do ano. Daí o interesse das autoridades de represar esta água para abastecer a cidade em tempos de seca e, sobretudo, em época de guerra. Por isso, setecentos anos antes de Jesus, o rei Ezequias mandou construir um túnel, da fonte de Guijon a Siloé, que naquele tempo se encontrava dentro dos muros da cidade. Este túnel, cavado na rocha viva,é uma obra de engenharia admirável. Tem meio quilômetro de comprimento e tão somente meio metro de largura e uma altura que oscila entre 1,5 e 4,5 metros. Ainda hoje se pode percorre-lo. É um trajeto que se faz em três quartos de hora, à luz de uma lanterna e com a água do manancial a meia perna, até chegar às ruínas do primitivo tanque de Siloé. O que importava aqui às autoridades religiosas não era se o cego via ou não via, mas manter seu poder e sua influência. O acontecido os desconcerta, porque rompe seus esquemas teológicos. Mas não estão dispostos a admitir que, através de um leigo que havia, além de tudo, violado a lei do descanso do sábado, possa manifestar-se o poder de Deus. Seu sistema de condenação irá por etapas. Primeiro negam que o fato seja verdade e tratam de reduzi-lo totalmente a uma fraude. Depois, tentam frear, pela ameaça e pelo medo, a alegria diante da cura e tratam de definir – com a autoridade a que se arrogam – que a vida (o ver) é algo negativo, perigoso. Negam a evidência, invertem os valores: ao bem chamam mal, à luz chamam trevas. Sua falsa teologia tem argumentos para tudo. E entre o homem e a lei, escolhem a lei. A última etapa é já um ato de violência: expulsão da comunidade. (João 9,1-41) No bairro do Ofel, no centro mesmo de Jerusalém, vive muita gente e as casas se amontoam umas sobre as outras. Querendo ou sem querer, todo mundo fica sabendo da vida alheia... Naquela Segunda-feira, ao passar em frente à casa de Ezequiel, o piedoso... Jesus: E aconteceu, amigos, que naquele dia, o malandro voltou para sua casa reconciliado com Deus. E o piedoso não. Porque Deus coloca na frente os que ficam atrás. E põe atrás os que se põem na frente. O piedoso e o malandro são “o fariseu e o publicano”. São o decente e o sem-vergonha, o homem religioso e o pecador. Ao contar esta história, Jesus faz uma dura crítica à piedade orgulhosa de seu tempo e de todos os tempos. Também está falando de sua conduta pessoal: Jesus esteve habitualmente rodeado desses malandros e sem-vergonhas, alguns deles faziam parte de seus discípulos mais próximos e sua boa notícia foi dirigida a eles. Jesus simpatizava com essa gente. Ao falar e agir assim, estava revelando-nos, em sua vida e com seus gestos, como é Deus. Um Deus próximo dos miseráveis e distante dos que se crêem perfeitos. O movimento fariseu, composto por leigos homens, tinha muita importância no tempo de Jesus. Calcula-se que então, contava com quase 6.000 membros. Embora os chefes do movimento fossem pessoas instruídas e de classe social elevada, tinha muitos adeptos entre as classes populares. Suas comunidades eram fechadas – como seitas. Consideravam-se os bons, os salvos, os prediletos de Deus. Para entrar e fazer parte destes grupos fariseus, selecionava-se muito os candidatos e havia um período de formação de um a dois anos. O centro da prática farisaica era o cumprimento escrupuloso da lei, segundo a interpretação que eles mesmos faziam das Escrituras. No tempo de Jesus haviam estabelecido 613 preceitos na Lei. Deles, 248 mandamentos eram positivos e 365 eram proibições. Convertiam assim a vontade de Deus – a Lei – num jugo pesado e angustiante. Os que não cumpriam todas estas normas pontualmente eram considerados malditos. Os fariseus desprezavam profundamente a massa do povo e estavam convencidos de que era gente incapaz de conseguir a salvação. Grande parte da mensagem de liberdade e esperança de Jesus recobra seu sentido contrapondo-a ao estilo de vida que os fariseus levavam e tratavam de impor. Os fariseus haviam conseguido atrair algumas camadas populares, sobretudo porque eram anticlericais. Eram contra a hierarquia sacerdotal e proclamavam que a santidade não era coisa somente de sacerdotes, mas que qualquer fiel leigo podia alcança-la. No entanto, desvirtuaram profundamente esta verdade ao interpretar na prática em que consistia ser santo. Reduziam tudo ao cumprimento escrupuloso de uma série de atos piedosos: jejum, esmolas, rezas. Eram formalistas e viviam de ritos. Salvar-se para eles era uma questão de acumular méritos. Jejuavam às Segundas e às Quintas-feiras (a Lei só ordenava um dia de jejum por ano), pagavam ao templo impostos (dízimos) até de ervas insignificantes, marcavam fanaticamente a distância com os “pecadores”. Estes eram, justamente, os glutões, os beberrões, os que entravam em jogos de aposta (muito mal vistos pelos homens religiosos), os que sempre estavam metidos em trapaças e logros... Os “malandros”. A mensagem constante de Jesus – em gestos, em palavras, em parábolas – de que Deus se interessa especialmente pelos pecadores, pelos sem-vergonhas, de que estes estão conseqüentemente mais perto de Deus que os piedosos, provocou sempre um irado protesto por parte dos fariseus. Aquilo lhes era intolerável, pois sempre haviam vivido seguros em sua piedade. E isso é justamente o que Jesus lhes atira na cara. O evangelho vem dizer que nada afasta mais o homem de Deus do que a piedade segura de si mesma. Essas pessoas pretendem separar-se dos maus e de um possível contágio e, na realidade, elas mesmas se separam de Deus. Os fariseus acreditavam que era praticamente impossível os malandros se salvarem. Jesus inverte tudo: a salvação é mais difícil para o homem “piedoso” porque o que afasta de Deus não são esses pecados tão grandes, mas essa piedade que conduz à insolência, à soberba, à segurança, essa atitude em que praticamente não há esperança de conversão. Os malandros, pelo contrário, estão mais abertos à humildade, a reconhecer suas faltas diante de Deus. Esta mensagem tão transcendental é contada neste episódio de forma bem humorada e picaresca. Não para tirar-lhe a importância mas para que confrontados com a caricatura de nossas atitudes, aprendamos a profunda humildade que há em saber rir de nós mesmos e não nos levarmos demasiadamente a sério. (Lucas 18, 9-14)
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