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Capítulo XLVII UM SAMARITANO SEM FÉ Jesus: Amigos, de que adianta você dizer: “eu creio em Deus, eu tenho fé”, se você não faz nada pelos outros? Se um vizinho com fome bate à sua porta e você lhe diz: “Que Deus o abençoe, irmão” mas não lhe dá um pão, de que adianta isso, heim?... Assim acontece com todos os que dizem ter fé, mas ficam de braços cruzados. Esta fé é morta, é como uma árvore sem frutos! Um homem: Bem falado! Viva o profeta da Galiléia! Estávamos no templo de Jerusalém, no átrio dos estrangeiros. E, como sempre, os moradores da cidade de Davi foram nos rodeando para ouvir Jesus e aplaudir suas palavras. Era gente do povo que vinha nos escutar: oleiros, vendedores ambulantes, mulheres públicas, carregadores de água... Por isso, todos nos surpreendemos quando aquele mestre da Lei, com seu manto de linho e um grosso anel de ouro no dedo se aproximou do nosso grupo... Mestre: Posso fazer-lhe uma pergunta, galileu? Jesus: Por que não? Aqui estamos todos conversando... O que quer perguntar? Mestre: Veja só, estou escutando você há algum tempo. E só o ouço falar de compartilhar o que se tem, de dar de comer ao faminto... Tudo isso está muito certo, não digo que não... Mas, você não acha que está esquecendo o mais importante? Jesus: O mais importante?... E o que é mais importante? Mestre: Deus. Você está se esquecendo de Deus. Ou será que você é um agitador político e não um pregador da fé de Moisés? Jesus: Foi o próprio Deus que entregou a Moisés estes mandamentos de justiça. Mestre: Claro que sim, galileu, mas na lei de Moisés há muitos, muitíssimos mandamentos... Se eu lhe perguntasse qual é o mais importante de todos eles, o que você me diria? Jesus: Você sabe melhor que eu qual é a resposta. O que nos ensinaram na sinagoga desde crianças? ... “Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, com toda tua alma, com todas as tuas forças”. Mestre: Então, segundo você mesmo, o primeiro é amar a Deus sobre todas as coisas, não é isso? Jesus: Claro que sim, amigo. Deus é o primeiro. Mas... onde está Deus? Às vezes o encontramos onde menos se espera... Jesus: Certa vez, ia um camponês pelo caminho solitário e perigoso que desce de Jerusalém a Jericó. Montado em seu velho jumento, aquele homem ia contente, de volta para sua casa. Havia vendido por bom preço a colheita de centeio e agora voltava a reunir-se com sua mulher e seus filhos... Camponês: Anda, jumento, anda, não durma!... ainda temos um bom trecho pela frente... Ai, mulher, quando lhe contar...!Larará, lararará...! Com esse dinheirinho podemos pagar todas as dívidas... Caramba, tive uma grande sorte hoje! Lararí, larararí! Jesus: Mas não, aquele não era seu dia de sorte. Porque na curva do caminho, no meio do deserto, alguns bandidos estavam de tocaia... E quando viram passar o homem montado em seu jumento... Um ladrão: Passe o dinheiro se não quiser perder a pele! Camponês: Não, não, por favor, não façam isso... é meu trabalho de seis meses, a comida dos meus filhos... eu sou um homem pobre... Ladrão: Tome! Tome! Camponês: Ai, ai, por favor...! Aiiii...! Jesus: Os ladrões lhe deram com um pau na nuca, espantaram seu jumento e roubaram todo o dinheiro da colheita... Ladrão: Eu acho que este já esticou as patas... Tira-lhe também a roupa... Outro ladrão: Bah, jogue-o aí nesta valeta... e vamos embora antes que alguém passe e nos veja... Depressa! Jesus: E o deixaram assim, junto ao caminho, meio morto, sem dinheiro e sem roupa... Pouco depois, quando o sol caía de cheio sobre o deserto, ouviram-se as pisadas de uma caravana de camelos. Eram os sacerdotes de Jericó que viajavam a Jerusalém para celebrar lá, no templo de Deus, o culto solene dos filhos de Israel... Sofar: As festas deste ano, ficarão muito lindas, sacerdote Elifaz, posso lhe assegurar... Elifaz: Diga-me uma coisa, Sofar. Disseram-me que o sumo sacerdote mandou comprar o melhor incenso da Arábia... Sofar: Comprou também toalhas novas para o altar, e ouro puríssimo de Ofir...! esperemos que não falte o vinho para completar as festas! Rá! Elifaz: Escute, preste atenção naquilo que está naquela valeta... Sofar: Onde?... Ah, sim, estou vendo... mas não distingo bem... é um animal morto?... Ou um homem? Elifaz: Aposto que é um homem... mas bêbado. Esse sujeito tem mais vinho dentro que um barril!... E não tem a mínima vergonha de embriagar-se nestes dias sagrados? Ah, sacerdote Sofar, são os vícios que estão acabando com nosso povo! Sofar: Ei, amigo, você não tem vergonha?!!... Não tem respeito a Deus nem à sua Lei?... Não está nem ligando... Talvez esteja até morto. O que você acha se nos aproximarmos para ver se podemos fazer alguma coisa por ele? Elifaz: Veja, sacerdote Sofar, se estiver vivo saberá se virar... se soube chegar até aqui, também saberá sair... E se está morto, o que é que vamos fazer? Sofar: Tem razão, sacerdote Elifaz, muito sensata sua observação... Mas, e se estivesse meio morto? Elifaz: Sabe o que eu penso, Sofar? A gente faz um favor para esta gentalha e eles nem mesmo lhe agradecem. Um sacerdote amigo meu levou em seu camelo um sujeito desses, e não havia andado com ele nem um par de milhas e ele já estava sacando o punhal e ameaçando-o, e lhe roubou tudo que levava. E se se descuidasse, até o esquartejava... Ah, foi tão triste aquilo!... Sofar: Eu creio que você tem razão. E pensando bem, acho que este desgraçado já está até duro... Enfim, Senhor, dá-lhe o descanso eterno! Elifaz: Amém. Sofar: Bem, falar menos e caminhar mais, senão vamos chegar tarde para a cerimônia... Ohh, camelo, ohhh...! Jesus: Pouco tempo depois, pelo mesmo caminho seco e empoeirado, passou outra montaria. Era um levita, um desses que tem por ofício ensinar ao povo os mandamentos de Deus. Ia acompanhado por sua mulher... Levita: Estou lhe dizendo, Lídia, não preparei nada... Falar num povoado é mais fácil... mas um sermão inteiro em uma sinagoga da capital! Lídia: Não se preocupe tanto, Samuel. Fale pra eles de ...disso, do amor a Deus, de que temos que ser bons e... e por aí vai. Levita: Veja, que vulto é aquele?... Olhe... Lídia: Não vai me dizer que é um morto...! Tenho horror disso! Levita: Não, parece que está ferido, o sangue ainda está fresco, repare bem... Lídia: Ai, que coisa mais desagradável! Vamos embora, Samuel, o sangue me enjoa, você bem sabe... não suporto essas coisas!... Levita: Mas, quem será este infeliz...? Está com o rosto todo machucado... Lídia: Vai ver é um desses revoltosos que andam conspirando contra o governador Pilatos... Claro, metem-se em confusões, se enredam na política e aí está o resultado... Depois, que não se queixem... Levita: Este não está se queixando muito, esta é a verdade... Lídia: Você se lembra do filho do Daniel? Tão jovem, tão bom moço... e entrou nessa febre de revolucionar... Que pena!... Acabou igual a este aí... Eu não entendo por que as pessoas não podem viver na paz e na tranqüilidade sem meter-se em problemas, não é mesmo, Samuel? Levita: É que esse povo é muito violento, Lídia. Claro, não respeitam a Deus... Alguém lhes explica os mandamentos e os bons costumes e... e nada. Pela orelha direita entra e pela orelha esquerda sai. Se amassem o Senhor, não aconteceriam essas coisas... Bendito seja Deus! Lídia: E bendito seu santo nome! Levita: E este bendito jumento que se apresse, que neste passo não chegaremos nem no dia do juízo. Eia, jumento, arre...! Jesus: E aconteceu que, pouco tempo depois, cruzou por aquele lugar um camponês montado em um jumento velho e magro... Samaritano: Êta calor dos diabos! Quem será que inventou o deserto? Se não levo os figos ao mercado, ninguém os compra. E se os levo, me apodrecem pelo caminho... E depois dizem que Deus faz as coisas direito!... Pois eu digo que Deus dá barba a quem não tem queixo e dá moscas a quem não tem rabo para espantá-las!... Que porcaria, quando chegar a Jerusalém não me restará nem um figo para arrebentá-lo na pança do sumo sacerdote Caifás! Jesus: Aquele camponês era um samaritano, daqueles que não acreditam em Deus nem põem nunca o pé no Templo. Quando viu aquele homem estropiado... Samaritano: Ei, você, conterrâneo, o que aconteceu?!! Caramba, se eu estou mal, este aqui está pior... Está quase morto, compadre... Epa! Os abutres já estarão afiando o bico para o banquete! Jesus: E o samaritano desmontou do jumento. E se aproximou daquele que estava estirado na valeta. E limpou-lhe primeiro o sangue do rosto. Samaritano: É, esse vinho irá curar suas feridas... Vejamos... E azeite para que doa menos... Assim... assim... Jesus: Em seguida rasgou a túnica para cobrir as feridas... E o cobriu com seu manto e o levantou do chão... Samaritano: E depois dizem que Deus cuida do mundo e dos homens!... Pois veja como cuidou deste infeliz!... Bah, besteiras, se alguém já viu as orelhas de Deus, que me avise... vão contar esta história para outro idiota! Jesus: E aquele samaritano sem fé carregou o homem em seu velho jumento, junto com o saco de figos que levava para vender no mercado e, embora estivesse a caminho de Jericó, regressou ao albergue que fica em Anatot e lá cuidou e passou a noite velando junto dele, porque o ferido ardia de febre... E quando amanheceu, o samaritano falou ao dono da pousada... Samaritano: Ei, amigo, eu tenho que ir... Olhe vou pagar adiantado... Gaste o que seja necessário em remédios e, se não bastarem esses denários, eu lhe darei o resto quando voltar... Dono: Escute, se este homem perguntar quem o trouxe aqui, o que lhe digo? Samaritano: Diga-lhe que outro homem... um homem como ele e como você... Adeus, boa sorte e... cuide bem dele! Jesus: E aquele samaritano que não acreditava em Deus nem nunca pisava no Templo, voltou a fazer o caminho, aquele caminho solitário e perigoso que vai de Jerusalém a Jericó... E agora você, que é mestre da Lei, diga-me, quem foi de todos estes que amou a Deus? Mestre: Bem... não sei... na verdade... claro, o que se aproximou do ferido não tinha fé, mas... Jesus: ... mas se aproximou do ferido que precisava dele. Você também, se alguma vez for a caminho do Templo, levar sua oferenda diante do altar, e se lembrar que seu irmão precisa de você, deixe sua oferenda, volte, e procure primeiro seu irmão. O mestre da Lei ficou mais um bom tempo escutando Jesus... Depois o vimos afastar-se, com passo indeciso, até que atravessou a Porta dos três arcos, fora do Templo de Jerusalém... Com muita freqüência, enquanto estava em Jerusalém, Jesus falava ao povo nos átrios do Templo, com palavras bem fáceis de entender por todos. O discurso dos escribas e doutores que ensinavam naqueles mesmos lugares, era sempre obscuro, misterioso, como para marcar bem a diferença entre eles que eram “sábios” e a massa ignorante. Haviam também despojado as Escrituras, com suas interpretações moralizantes, de toda a força profética. Como leigo, sem estudos, com a linguagem do povo, Jesus apresentava aos seus conterrâneos sua própria interpretação das Escrituras, tão livre, frente à dos especialistas, era surpreendente para o povo e irritante para os teólogos oficiais. Um deles lhe apresenta precisamente neste texto um problema de interpretação da Lei. A pergunta do mestre da lei é uma pergunta teórica: qual é o mandamento principal? Jesus não irá respondê-la teoricamente, mas com um caso prático, com um exemplo bem concreto. A atitude religiosa não consiste somente em aceitar mais ou menos dogmas, saber o catecismo com sua lista de verdades e seu catálogo de normas morais. Porque a fé não está somente na cabeça, mas também nas mãos, em nosso agir. A fé exige obras, ações concretas. E não ações concretas dirigidas a Deus, a quem não vemos, mas aos irmãos, a quem vemos. Esta é a medula da mensagem de Jesus, de toda a fé cristã (Mt 5,23-24; Tg 1,22-27 e 2, 14-26; 1Jo 3,11-18 e 4, 19-21). Jerusalém, como capital, era o centro do comércio de todo o país. Apesar disso, as comunicações com outras cidades não eram nada boas. Jericó estava separada por 27 quilômetros de caminho em declive, ao longo do deserto da Judéia. Nas desérticas montanhas da Judéia, há muitas cavernas e esconderijos que têm sido até hoje lugares propícios para a atividade dos salteadores de caminhos. O banditismo era então muito freqüente. As autoridades tratavam de controlá-lo, embora não fosse fácil. Às vezes, os romanos se vingavam dos ataques dos ladrões a suas caravanas, saqueando as aldeias vizinhas. Parece que em Jerusalém havia um tribunal especial para julgar os casos de pilhagem e para organizar medidas policiais contra os bandidos. Atualmente, o caminho que vai de Jerusalém a Jericó é, como naquele tempo, impressionante por sua nudez. Está ladeado por montanhas cinzas e peladas. Em uma das curvas do caminho, uma pequena capela – a do Bom Samaritano – recorda aos caminhantes a parábola de Jesus. Por aquele caminho passaram primeiro os sacerdotes. Por turnos deviam ir ao templo de Jerusalém para oferecer ali os sacrifícios (sangue de animais, incenso e orações). Era uma casta poderosa, com muitos privilégios – em dinheiro e em prestígio social. Abaixo deles, no serviço do templo, encontravam-se os levitas. Não eram sacerdotes nem podiam oferecer sacrifícios já que, como leigos, se lhes proibia aproximar-se do altar. Encarregavam-se da música do templo. Cantavam no coro e tocavam instrumentos nos atos do culto. Outros atuavam como sacristãos: ajudavam os sacerdotes a se vestirem para as cerimônias, levavam os livros santos, limpavam o templo. Alguns, com formação nas Escrituras, atuavam como catequistas. Outros trabalhavam como policiais do templo. No tempo de Jesus, havia uns 10.000 desses levitas. Para sacerdotes e levitas, o Templo, seu serviço, seu esplendor, era o valor primeiro, a principal obrigação religiosa. As leis de pureza os proibiam, por outro lado, de se aproximar de um cadáver. Buscando desculpas – a pureza ritual, a pressa, o desprezo que sentiam pela “gentalha” – não se aproximaram do ferido no caminho. E ao fazer isso, pensaram agradar a Deus. Ao empregar um samaritano como terceiro personagem de sua história, Jesus surpreendeu a todos e irritou o teólogo que lhe havia perguntado. Os samaritanos eram sumamente mal vistos pelos israelitas, que sentiam por eles um profundo desprezo, mescla de nacionalismo e racismo. Além disso, o samaritano de quem Jesus fala aqui, não era um homem religioso. É um ateu. Não crê nem em Deus nem nos sacerdotes nem em nada. Usando este exemplo extremo, Jesus vai responder à pergunta teórica que lhe foi formulada pelo doutor: ama a Deus quem ama o companheiro ferido. Basta isso. E tampouco é necessário fazer esta caridade “por Deus”, mas pelo companheiro. Assim, um marginal da instituição, um ateu, um mestiço desprezado, se apresenta como o homem autenticamente religioso. Tremendamente escandalosa, a parábola do bom samaritano é uma das mais subversivas de Jesus. A palavra original que Jesus emprega nesta parábola não é “próximo” mas “plesíon” (em grego), equivalente a “rea” (em aramaico) e, para nós, “companheiro”. No tempo de Jesus se entendia que para agradar a Deus era necessário fazer o bem aos outros, mas estava em discussão quem eram os “companheiros” que deviam ser objeto desta caridade. Os fariseus excluíam de seu amor os não fariseus, “a chusma”; os essênios tiravam fora “os filhos das trevas” (= os pecadores); muitos israelitas excluíam os estrangeiros; outros, os seus próprios inimigos pessoais. O “companheiro” – diz também esta história – é qualquer homem, pelo simples fato de sê-lo, que se encontra em necessidade. Ao final da parábola se descobre quem foi realmente “próximo”. Foi o ateu, que se aproximou do ferido e o fez seu próximo, seu chegado. Próximo não é somente aquele que encontramos em nosso caminho, mas aquele em cujo caminho nos colocamos. O amor verdadeiro exige uma atitude ativa de solidariedade, de busca e de aproximação. (Lucas 10,25-37)
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