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Capítulo XLVI COMO UM RIO DE ÁGUA VIVA O último dia da festa das Tendas era o mais importante. A semana de alegria que celebrava o fim do ano e o término da nova colheita. Os peregrinos que abarrotavam Jerusalém se despediam agora da cidade santa, assistindo à solene cerimônia da água no tanque de Siloé, perto das muralhas do sul... Abias: Tudo preparado para a procissão, sacerdote Ziraj? Ziraj: Tudo preparado. Dentro de poucos minutos iremos ao Templo buscar o cântaro de prata. Você vem conosco, magistrado Nicodemos? Nicodemos: Sim, pode estar certo que irei... Abias: Ele também estará por ali... Todos esses dias andou borboleteando pelo templo com seus amiguinhos galileus... Nicodemos: A quem você se refere? Abias: A quem poderia ser? A esse tal Jesus de Nazaré. Todo mundo já está com ele pela ponta dos cabelos! Não faz outra coisa que armar confusão ou meter-se nas que outros armam. Ziraj: Graças ao Altíssimo, essas confusões vão se acabar. Cachorro raivoso tem de ser tirado do meio para que não morda os demais... he, he, he... não é mesmo? Nicodemos: O que você quer dizer com isso, Ziraj? Ziraj: Quero dizer que já conversamos com o sumo sacerdote Caifás e que contamos com a autorização dele... Nicodemos: Autorização para que? Abias: Para agarrar esse agitador. Hoje termina a festa e termina também sua charlatanice. Ao calabouço por um bom tempo e irão baixar de uma vez essas malditas fumaças!... Nicodemos: Mas como isso é possível? O que você está dizendo? Conforme nossa lei, não podemos condenar ninguém sem ouvi-lo antes... Ziraj: Nicodemos, você não acha que já são suficientes todas as loucuras que tivemos de suportar desse indivíduo? Já encheu toda a Galiléia com sua baba e agora quer alvoroçar também a capital! Você não soube o que aconteceu outro dia com a mulher adúltera que iam matar a pedradas, como manda a lei de Moisés? Nicodemos: Como não saberia! Toda Jerusalém só fala nisso... Abias: Pois vamos tapar a boca de todos eles. Acabou-se! Vamos tirar esse agitador de circulação! Nicodemos: Muito cuidado com o que fazemos, amigos. As pessoas dizem que Jesus é um profeta... Ziraj: Sim, claro, o vinho da festa os fez ter visões... Um profeta! Da Galiléia não saem mais que safados e ladrões! Nicodemos: Este homem é diferente, Ziraj. Eu fui uma vez falar com ele e lhes confesso que... Ziraj: Que você também foi embromado? Mas, magistrado Nicodemos, por favor, abre os olhos! Por acaso algum dos nossos chefes ou dos fariseus acreditou? Veja só quem o segue: a chusma, essa gentalha que nem toma banho nem cumpre a Lei! Malditos! Nicodemos: Ouçam-no falar primeiro. Só lhes peço que o ouçam falar. Abias: Primeiro vamos pega-lo, depois vamos ver o que faremos com ele, he, he... Sacerdote Ziraj, diga aos guardas que venham. Temos de dar-lhes instruções para que façam um bom trabalho, he, he... Um pouco mais tarde, as ruas próximas do tanque de Siloé rebentavam de gente. Com ramos de palmeiras nas mãos, esperávamos a procissão dos sacerdotes que chegariam à fonte com um cântaro de prata para enche-lo de água benta e depois derrama-lo sobre o altar do templo... As tochas, já acesas, iluminavam o entardecer de Jerusalém... Ziraj: Demos graças ao Senhor porque ele é bom! Todos: Porque seu amor não tem fim! Ziraj: Que o diga a casa de Israel! Todos: Seu amor não tem fim! Ziraj: Que o digam os da casa de Aarão! Todos: Seu amor não tem fim! Ziraj: Que o digam os amigos do Senhor! Todos: Seu amor não tem fim! A solene procissão chegou à piscina de Siloé. E um sacerdote com uma dalmática bordada com uma estrela de seis pontas, desceu os úmidos degraus até o manancial que dava de beber a todos os moradores da cidade do rei Davi. Em seguida abaixou-se para encher de água o cântaro de prata... Ziraj: Filhos meus, esta é a água bendita, a água que purifica e mata a sede e dá a vida! Louvem o nome de Deus e levantem os ramos em sua honra! Então, aconteceu algo inesperado. Jesus subiu sobre uma mureta da piscina e gritou com voz muito forte para que todos o ouvissem... Jesus: Amigos, escutem-me! Esta água está contaminada, não bebam dela! A água viva é outra! A água viva é o Espírito de Deus! Um homem: Por mil capetas, quem é este bêbado que está gritando tanto? Outro homem: Desçam-no daí, está distraindo as pessoas e atrapalhando a procissão! Jesus: Amigos, o Espírito de Deus paira sobre as águas e faz coisas novas como no princípio da criação! Os que têm sede de justiça, que venham e juntem-se a nós! E em seu coração brotará um rio de água viva, como aquela torrente que viu o profeta Ezequiel, que inundou a terra e a limpou de todos os seus crimes! Um homem: Mas, que desordem é essa? Até quando vamos agüentar este descalabro? Tapem a boca desse palhaço! Outro homem: Veja, mas não é esse que dizem que é profeta e andam procurando para matá-lo?... E como fica aí gritando e ninguém faz nada? Uma mulher: É bem capaz que os chefes do Sinédrio se converteram e engoliram também a história de que este agitador é o Messias! Um homem: Quanta estupidez! O Messias vem do céu, em uma nuvem de incenso! E este aí veio da Galiléia, fedendo à cebola!!! Tiago e eu estávamos nos dois lados de Jesus. Uma avalanche de gente nos rodeava. Os sacerdotes da procissão, encolerizados pelo que estava acontecendo, deixaram o cântaro de água e os ramos de palmeira e foram procurar os guardas. Mas Jesus continuou falando... Jesus: Amigos, olhem lá pra cima! Olhem essas tochas que iluminam as muralhas da cidade!... Assim brilhará a nova Jerusalém. Eu lhes trago uma boa notícia que é luz para o mundo! E a notícia é que Deus, nosso Pai, presenteia seu Reino a nós, os de baixo. Deus é luz, e seu Espírito é uma tocha, e o Espírito vem botar fogo na terra, sim, fogo pelos quatro cantos, para queimar em seu cadinho toda a escória e para dar a luz a um mundo sem ricos nem pobres, sem senhores nem escravos, um novo céu e uma nova terra onde reinará a justiça! Uma mulher: Vamos embora daqui, Leonora, que isso vai acabar mal! Outra mulher: Que nojeira virou isso, sempre têm que misturar as coisas de Deus com a política! Mulher: Vamos, corra, que daqui a pouco começam as pauladas e pedradas... Um homem: Charlatão, isso é o que você é, um charlatão! Só podia mesmo ser galileu! Outro homem: Palavras bonitas, mentiras grandes! Homem: Cale-se e morda a língua, pedaço de animal! Você não vê que esse homem é um enviado de Deus? Homem: Enviado de Deus? Mas, o que você está dizendo? Olhe só os cabelos dele!... É um louco e quer enlouquecer a todos nós. Ei, não tem ninguém para dar um empurrão e joga-lo desse muro? Homem: Este homem está endemoniado! Vocês não o estão ouvindo? Você tem o demônio da rebeldia, nazareno! Jesus: Não, amigo, eu não tenho nenhum demônio. Eu só estou dizendo a verdade! Acontece que a verdade machuca. E por isso alguns tapam os ouvidos! Homem: Não escutem esse maluco! Tem duas línguas, como a serpente! É um enviado de Satanás! Homem: E aqueles que estão vindo por aí, são enviados de quem? Mulher: Esses sim é que são uns bons demônios!... Vamos embora, comadre que isto já está ficando feio! Pela calçada de pedra que desce do monte Sião até a piscina de Siloé, vinham abrindo caminho quatro soldados da guarda do Templo enviados pelos sacerdotes, para prender Jesus... Um soldado: Já chega, galileu! Já criou confusão bastante... Vocês, dissolvam-se!... Vamos, vamos, já falei para dispersarem-se todos...! E você desce desse muro se não quiser que a gente o desça na marra...! Jesus: O que vocês querem de mim? Outro soldado: Está preso. Acompanhe-nos! Jesus: Preso? E de que sou acusado? Soldado: São ordens do sumo sacerdote. Jesus: Mas de que me acusam? Soldado: Não sei e nem me importa. Temos ordem de prisão contra você assinada pelo sumo sacerdote. Jesus: E quem é o sumo sacerdote? Soldado: Você é tão ignorante que nem sequer sabe isso? Só podia ser um camponês!... Jesus: Faz muito pouco tempo, soldado, e você também era um camponês como eu... Você e seus companheiros... Ou já não se lembra?... Sim, eu sei quem é o sumo sacerdote do Templo... É Caifás, um “grande homem”... E vocês estão ao seu serviço, não é assim? Soldado: Chega de conversa mole, galileu! Eu já lhe disse que está preso! Jesus: Pois então vamos para a cadeia!... Que coisa mais curiosa essa...! Uns presos levando outros presos... Soldado: Mas, que tontice é essa que você está dizendo agora? Jesus: Nada, disse que mais presos que eu, estão vocês. Vocês, guardas do Templo, que caíram no embuste dos chefes e dos sacerdotes e já não podem safar-se deles. Vocês que saíram do mesmo lado que nós e mamaram o mesmo leite e lavraram a mesma terra. Mostre-me suas mãos, soldado... não temos você e eu os mesmos calos?... Vocês eram dos nossos... e ainda continuam sendo. Mas os grandes os mandam lutar contra nós. Puseram em suas mãos espadas e lanças para matar e os encheram de ódio... Eles não mostram a cara. Usam vocês, os têm aprisionado num uniforme e umas quantas moedas que antes roubaram de nós. Essa é a verdade. Se vocês entendessem essa verdade, seriam livres. O murmúrio das pessoas foi se apagando. Diante de Jesus, os quatro soldados da guarda do templo o olhavam fixamente. Já não empunhavam suas lanças com raiva... Tinham-nas inclinadas para o chão... Depois, olharam-se entre si, deram meia volta e se foram... Ziraj: Vinte chicotadas para cada um desses quatro imbecis! E cadeia de um mês! E uma multa de cinqüenta denários! Vão pro diabo, vocês! Abias: E ai, sacerdote Ziraj... O que aconteceu? Ziraj: Estes soldados estúpidos... Deixaram-no escapar... Abias: Por que não o trouxeram?... Digo, por que não prenderam esse sujeito? Ziraj: Responda, imbecil! Ou receberá vinte chicotadas mais! Soldado: Não pudemos... Nunca havíamos ouvido um homem falar... como ele. Ziraj: Está vendo, sacerdote Abdias! Esse sujeito é mais perigoso do que parece! Enganou até esses aqui! Maldição para esse embusteiro!... E vocês quatro, fora! Ao calabouço! E quero ouvir os açoites daqui...! Para que aprendam a cumprir as ordens que recebem! Enquanto isso, no manancial de Siloé, a água continuava correndo. E as tochas, naquele último dia da festa das Tendas, continuavam iluminando as muralhas e as torres compactas da cidade do rei Davi. O último dia da festa das Tendas era o que tinha maior riqueza de celebrações. Eram tradicionais as procissões com ramalhetes feitos de palmeira, salgueiro, limão e outras árvores, em que se cantavam salmos, especialmente o 118. A liturgia também incorporava à festa o símbolo da água e os sacerdotes organizavam uma procissão em que se trazia em um cântaro de prata a água da fonte de Siloé – situada fora das muralhas – para derramá-la no altar dos sacrifícios .Durante este rito pedia-se a Deus chuva abundante para a nova colheita. A Palestina é uma terra pobre em águas. Tem somente um rio importante, o Jordão. A chuva é um fator decisivo para a economia nacional. A época das chuvas dura de outubro até abril. Chove apenas no verão. A chuva precoce (metade de outubro a metade de novembro) prepara a semeadura do terreno, endurecida pelo calor do verão. A chuva fria (dezembro-janeiro) é mais abundante e arrasta terras férteis para os vales. Entre uma chuva e outra, começa a época da semeadura, que dura até fevereiro. Para uma boa colheita é imprescindível que venha também a chuva tardia (março e abril). Que essas chuvas fossem suficientes era o que pedia especialmente o povo a Deus nesta festa. Para que houvesse fecundidade e para que se cumprissem definitivamente as profecias que anunciavam aquele dia do Messias em que transbordariam as águas dos mananciais de Jerusalém até juntar-se com as águas do mar. A Festa das Tendas tinha pois, um marcado caráter messiânico e punha anualmente num vermelho vivo as esperanças de libertação do povo. As antigas tradições de Israel comparavam o Espírito de Deus com a água que fecunda a terra estéril e tira dela frutos de justiça, de paz, de fidelidade a Deus (Is 32,15-18 e 44, 3-5). Era o Espírito quem devia converter Israel em um povo de profetas e transformar os corações de pedra em corações de carne (Joel 3,1-2 e Ez 36,26-27). No tempo de Jesus, a tradição dos rabinos e doutores, mais fria e rígida, havia abandonado bastante este simbolismo vital para comparar a água, não com o Espírito mas com a Lei. O gesto profético que faz Jesus na metade da cerimônia, sua solene proclamação, busca voltar ao simbolismo original da água: Ela é como o Espírito. E o Espírito de Deus faz sempre coisas novas. Desde o primeiro dia da festa das Tendas se acendiam os candelabros de ouro no pátio das mulheres, no Templo. Por ali passava a solene procissão da água. Cada candelabro sustenta quatro vasos de ouro com azeite, nos quais ardiam mechas fabricadas com fios tirados das vestes sacerdotais. Para subir até os vasos era preciso usar escadas, pois estavam colocados bem altos e assim, sua luz era vista por toda a cidade. Falando do dia do Messias, os profetas haviam anunciado uma luz que superaria a noite (Zacarias 14,6-7). Aquelas tochas tinham, pois, um sentido messiânico. A tradição profética havia sempre relacionado o Messias com a luz, até dar-lhe inclusive o nome de “Luz” (Is 60,1). Partindo também deste simbolismo, Jesus fala também do Reino de Deus: Um reino sem sombras de injustiças, iluminado por homens livres. Dizer tudo aquilo no Templo, diante dos sacerdotes dirigentes, no meio da liturgia oficial, foi visto como um escândalo tão tremendo que os sacerdotes decidiram atuar imediatamente detendo Jesus para condena-lo como blasfemo. A “guarda do Templo” que os sacerdotes enviam para prender Jesus, estava formada por levitas, funcionários a serviço do templo, de posição menor que a dos sacerdotes. Entre as missões que desempenhavam, uma delas era a de ser polícia. Estes soldados tinham poder para prender, para reprimir pelas armas e inclusive para executar penas. Não só estavam a serviço dos sacerdotes, mas que as próprias autoridades romanas utilizavam este corpo armado para controlar as manifestações populares na região da Judéia. A estes homens armados Jesus fala com firmeza, mas com compreensão. Tanto que os soldados, apesar de sua situação de privilégio, sentem-se interpelados por estas palavras. (João 7, 37-39 e 43-53; 8, 12-38)
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