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Capítulo XLV A PRIMEIRA PEDRA Marido: Saia daí, descarada! Você não vai escapar! Um vizinho: Derrubem a porta e vamos tirá-los pra fora! Uma vizinha: Adúltera! Adúltera! Um bando de homens e mulheres esbravejava rodeando a casa de Cirilo, no bairro dos carregadores de água de Jerusalém. As pedras chocavam-se contra a porta e as maldições eram ouvidas em todo o Ofel... Outro vizinho: Agora você vai ver o que é bom pra tosse, sua raposa safada! Outra vizinha: Sabemos que vocês dois estão aí, sem-vergonhas! Por uma brecha do pátio, como um rato que sai dos escombros, um homem meio desnudo pulou e se pôs a correr rua abaixo... Marido: Deixem que vá, dele eu cuidarei outro dia! O que eu quero agora é ajustar as contas com a Joana! Vizinho: Tirem-na daí, não percamos mais tempo! A tranca de madeira que fechava a porta se partiu com os empurrões e um punhado de homens invadiu a casa... Lá dentro, num canto, junto a uma suja esteira, estava agachada uma mulher com um gesto de horror nos olhos! Marido: Era você que eu queria agarrar, sua asquerosa! Cadela, filha de cadela, juro pela minha cabeça que hoje será o último dia de sua vida! Um vizinho: Morte para ela, é adúltera! Tem de matá-la! Uma vizinha: Deve morrer! Deve morrer! Vizinho: Agarrem-na! Dois homens se lançaram sobre a mulher, a agarraram pelos cabelos e a arrastaram para fora da casa... Então um velho lhe arrancou, com um forte puxão a manta com que tentava cobrir-se... Marido: Sim, deixem-na assim, e que todos vejam suas vergonhas. Se ela não se importou de esfregar-se no Cirilo, também não se importará de ficar assim, no meio da rua!... Vizinhos, esta mulher me enganou com outro! Ajudem-me a apagar a infâmia que sujou meu nome! Vizinha: Morte pra ela! Morte pra ela! Vizinho: Para o lixão! O lixo para o lixão! Os dois homens levantaram a mulher por um dos braços e a arrastaram esperneando pela estreita viela... Com os punhos erguidos, gritando e assobiando, encaminharam-se para o barranco da Geena, que fica ao sul da cidade, o vale maldito onde os moradores de Jerusalém queimavam o lixo e onde eram apedrejadas as mulheres que haviam sido descobertas em delito de adultério. Vizinha: Vamos matá-la, vamos para a Geena! Vizinho: Mas olhem só quem está aqui! O profeta da Galiléia! Jesus e nós estávamos conversando perto do Templo, quando vimos aproximar-se, em meio a uma nuvem de poeira, aquele tumulto de gente enfurecida... Vizinho: Ei, profeta, venha conosco cumprir a lei de Moisés! A mancha do adultério só se limpa com pedras! Marido: E quanto mais mãos, mais pedradas! Venha, venha conosco! E que venham também esses seus amigos! Vizinho: Pegamos essa cadela na mesma cama que o carregador de água, Cirilo! Vizinha: Não tem desculpa: todos os somos testemunhas do seu pecado! Os dois homens que arrastavam a mulher, abriram caminho e a deixaram cair no meio de todos, boca para baixo, com os joelhos sangrando e o corpo cheio de cuspe e escarros... Um deles, com um gesto de desprezo, colocou o pé direito sobre o rosto dela, apertando-o contra as pedras do chão... Um vizinho: Quem é o profeta? Você? Pois lance sobre ela uma maldição para que o diabo a engula de uma só vez e se vá diretinha para os infernos!... Vamos... o que está esperando? Não dizem que você é um profeta? Pois fale, responde: por que não a amaldiçoa? Vizinha: Que morra! Que morra! Morte para ela! Jesus se aproximou do grupo de moradores que gritavam e ameaçavam com o punho... Jesus: Onde está o marido desta mulher? Marido: Estou aqui! Eu “era” o marido desta safada. Já a repudiei. O que você quer? Jesus: Quero saber o que aconteceu. Ela o havia enganado outras vezes? Marido: Claro que sim. Ela negava, mas dizem que se descobre um mentiroso mais rápido que a um aleijado... Jesus: Diga-me, quantas vezes você acha que ela o enganou? Marido: Quantas? E sei lá!... Três, quatro, cinco vezes... essa aí é pior que uma cadela no cio! Então Jesus se agachou e escreveu com o dedo na terra três, quatro, cinco risquinhos... Jesus: O que mais você tem contra ela? Marido: O que eu tenho a mais contra ela? Essa é boa! Não basta essa sem-vergonhice em plena luz do dia? Está querendo juntar mais carvão em cima da cabeça dela? “É que vou visitar uma comadre, vou levar-lhe um remédio”... Pois é! Acontece que a comadre doente era o Cirilo e um açougueiro da outra esquina que quando o encontrar vou picá-lo com sua própria faca de cortar carne! Uma vizinha: E quando ela deu de paquerar o meu marido, heim? Sim, sim, e bem debaixo do meu nariz, como se eu fosse uma idiota. Se vocês a vissem passando em frente à minha casa, se requebrando toda. Sorrizinhos pra cá, sorrizinhos pra lá... Grande safada! Outra vizinha: Essa aí já dormiu com a vizinhança inteira. Vizinha: E quando a pegaram esfregando-se com o filho do Joaquim, heim? Conte isso para o profeta, vamos! Vizinha: E algum motivo haverá para que o rabino lhe vire a cara quando passa por perto. Quantas coisas ele deve saber!... Vizinha: Ela tem a boca mais suja que um cameleiro, tudo o que diz são palavras asquerosas. Vizinho: O que diz e o que faz! Vizinha: E aquela vez que essa “garota” foi vista com os peitos de fora! Descarada! Jesus, agachado, ia fazendo rabiscos com o dedo a cada uma das acusações que lançavam contra a mulher... Um velho: Seu dedo vai se gastar antes que fique sabendo de todas as safadezas dessa rameira! Vizinha: Todo mundo já sabia que um dia isso ia acontecer, vizinhos! Filho de gato caça rato. Onde está a mãe dela? Encostada no muro, com todas as outras rameiras!... Do pai eu não digo nada, porque não sei quem semeou esta erva daninha!... Marido: Já chega de conversa fiada! O que você diz, profeta da Galiléia? Jesus: Eu digo para me darem uma pedra... Todos: Muito bem, nada de moleza com ela! Um velho, de olhar malicioso se inclinou, pegou uma pedra do chão e a deu a Jesus... Vizinha: Na cabeça, acerte na cabeça como bem merece uma adúltera! Vizinho: Machuque-a! Machuque-a! Jesus tinha em sua mão a pedra e sentia seu peso olhando para a mulher que continuava estendida com a boca no chão, no meio da rua... Jesus: Sinto muito, conterrâneos, mas eu não vou atirar a pedra nela. Se algum de vocês se considera limpo de pecado, venha e atire... Então, outro velho, de barriga estufada, se aproximou de Jesus... Velho: Dê-me a pedra. Eu atirarei. É preciso cumprir a lei de Moisés. E a lei condena o adultério. Jesus: Oxalá ela não lhe arrebente na testa, como aconteceu a Golias... Velho: O que você quer dizer com isso? Jesus: Escute, cá entre nós, na confiança, a quanto de juros você empresta o seu dinheiro: a dez, a vinte... talvez quarenta?... Isto também está condenado na lei de Moisés, não é mesmo, amigo? Jesus cravou seu olhar como um punhal nos olhos daquele velho gordo que já levantava sua mão para lançar a pedra sobre o corpo desnudo da mulher... Jesus: Está proibido estrangular os desgraçados que não podem pagar-lhe os empréstimos a tempo, não é, amigo? A pedra escorregou da mão do velho que deu meia volta e escapou entre as pessoas... Uma vizinha: O que aconteceu com esse aí? Também deu pra trás? Jesus se voltou de novo aos vizinhos, que esperavam impacientes. Jesus: Quem quer atirar a primeira pedra nesta mulher? Vizinho: Eu, dê a pedra pra mim. Se existe uma coisa que me repugna nesta vida é a infidelidade... nojo de mulher! Um homem alto e arrogante se aproximou da mulher... Jesus: Escute, amigo, qual sua profissão? Vizinho: Minha profissão? Comerciante. Tenho uma tenda de alimentos perto da Porta do Ângulo. Jesus: Na melhor das hipóteses você tem duas balanças em seu comércio, uma para pesar o que compra e outra para pesar o que vende... Quantas você tem?... Uma ou duas? O vendedor abriu a boca para responder a Jesus, mas não disse uma palavra. Em seguida retrocedeu e se misturou entre a turba... Jesus: E você... pela cara deve ser advogado ou juiz... juiz dos que julgam no Grande Conselho... Diga-me uma coisa, amigo, quantos denários colocam debaixo de seu assento para que diga que o latifundiário tem razão e a viúva é culpada?... Você quer atirar a primeira pedra? ... E você, suas mãos são de médico... Vamos, pegue a pedra e atire você... Afinal, esta mulher mora no Ofel... você nunca vai a esses casebres de barro, não é mesmo?... Todos os seus clientes são do bairro alto porque eles sim lhe podem pagar, claro... Vizinho: Chega de bobagem! Esta mulher é uma pecadora. Você mesmo anotou seus delitos com estes riscos na terra... E olhe quanto tem... Jesus: E por que você se apega tanto a todos esses ciscos no olho dela e não vê o tronco que há em seu próprio olho? Vizinho: Ciscos! Esta mulher cometeu o maior de todos os pecados, o adultério! Jesus: Maior adultério é ver os sacerdotes do Templo banqueteando-se com os governantes que oprimem o povo e ninguém lhe atira pedras. Maior adultério é ver os servidores de Deus servindo a Mamon, o deus do dinheiro e ninguém levanta um dedo sequer contra eles. Hipócritas! Escondam-se nas cavernas das montanhas porque o Deus de Israel está para chegar e vai lhes lançar sua mão e os deixará de cueiros igual vocês fizeram com esta mulher. Porque com a medida com que medirem os demais, com esta mesma ele medirá vocês. Jesus se agachou e não disse uma palavra mais. Com a mão estendida alisou a terra onde havia marcado as acusações contra aquela mulher surpreendida em adultério... Pedro: Caramba, Jesus, você os deixou sem fôlego! Jesus: É que parece, Pedro, que o único pecado que existe para eles é deitar-se com uma mulher. Passam a vida esquadrinhando estes pecados e aí sim, coam o último mosquito, até os maus pensamentos, um a um... E os grandes camelos, os grandes abusos contra os pobres, passam por eles e nem percebem... Pedro inclinou-se sobre a mulher que continuava jogada na rua... Pedro: Você se livrou de uma boa, heim, moça?... Como se chama? Joana: Joana... mas eu... eu... Jesus: Vamos, não chore... Tudo já passou... Cubra-se com este manto, ande... Acalme-se, mulher... Ninguém vai lhe fazer nada... Abre os olhos, veja... Onde estão os que a acusavam?... Nenhum a condenou. E Deus tampouco a condena e nem lhe atira nenhuma pedra... Preste atenção, já está tudo apagado... tudo. Pedro e Jesus levantaram Joana do chão e a acompanharam de volta para sua casa, pela rua do aqueduto, a que dá no bairro dos carregadores de água, perto do Templo santo de Jerusalém. A passagem da adúltera – que só aparece no evangelho de João – não está em todos os antigos manuscritos que se conservam do texto original deste evangelho. Alguns pensam que este texto, que tem por outro lado todas as garantias históricas, deve ter sido suprimido do evangelho de Lucas e destes manuscritos de João, precisamente porque a indulgência de Jesus para com esta mulher pecadora pública poderia parecer excessiva, e portanto escandalosa, mesmo para as comunidades cristãs. Isto dá uma pista da importância prática que há nesta história. Em Israel, o adultério era considerado um delito público. As antigas leis o castigavam com a morte (Levítico 20,1). A tradição e os costumes fizeram desta lei, como de tantas outras, uma interpretação machista. E assim, o adultério do homem casado só era considerado tal se tivesse relação com uma mulher casada, mas se ela era solteira , prostituta ou escrava, sua falta não era considerada como adultério. Para a mulher, bastava que tivesse relações com qualquer homem. Por outro lado, a mulher suspeita de adultério era submetida a uma prova pública de tomar águas amargas. Se lhe inchasse o ventre era certo seu adultério, se não sentia mal-estar, tudo ficava como uma falsa suspeita (Números 5,11-31). Esta prova era realizada diariamente por um sacerdote na porta de Nicanor do templo de Jerusalém. O homem não podia ser submetido a semelhante rito jurídico. Em todo caso, comprovado o adultério, os pecadores – ele ou ela – deviam ser apedrejados pela comunidade. Por ser o adultério considerado um pecado público, a comunidade devia apagar a mancha também publicamente. O apedrejamento ou lapidação devia ser realizado pelos moradores do lugar em que o pecador havia sido descoberto em falta e, geralmente, o lugar do suplício ficava fora dos muros da cidade. As testemunhas do fato eram os que atiravam as primeiras pedras contra o culpado. Eram delitos castigados também com o apedrejamento a blasfêmia, a adivinhação e as diferentes formas de idolatria e a violação da lei do descanso do sábado. O adultério é um pecado de infidelidade. E é também, em muitíssimos casos, uma expressão de fraqueza. Para salvar a adúltera da morte que para ela ordenava a lei, Jesus, neste episódio, contrapõe este pecado a outros: fraude, exploração, usura, corrupção judicial etc. Entre estes pecados e o da mulher, fica claro que os atos injustos com que se oprime os infelizes aproveitando-se de sua miséria, são muito mais graves aos olhos de Deus que os pecados sexuais. Com os trapaceiros, as prostitutas, os bêbados – com essa ampla gama de fraquezas humanas relacionadas com o sexo, com a astuta sobrevivência dos pobres – Jesus foi sempre misericordioso, compreensivo, tolerante. Ao contrário, não o foi nunca com a hipocrisia e a injustiça dos poderosos. Nunca chamou de “raça de víboras” os que a religião oficial qualificava de pecadores e malditos, mas reservou esse insulto precisamente para os dirigentes da religião oficial. A comunidade cristã deve saber localizar, da mesma forma que Jesus, o autêntico pecado que separa de Deus e isola dos irmãos. (João 8,2-11)
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