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Capítulo XLIV O JUIZ E AS VIÚVAS Quando chega o outono e o trigo enche os celeiros e a vinhas carregam de uvas, todo Israel viaja ao sul para celebrar a festa das tendas. São sete dias nos quais Jerusalém se veste de verde, adornada com as folhas de muitas árvores. Centenas de cabanas feitas de troncos e folhas de palmeira rodeiam as muralhas da cidade santa, em lembrança das tendas em que nossos pais viveram durante a longa marcha pelo deserto. O vinho da nova colheita é bebido em abundância e a alegria corre loucamente pelas estreitas ruas da cidade do rei Davi... Um homem: Eu aposto cinco asses que ele vem para a festa! Outro homem: Pois eu não entro nesta aposta! Este sujeito está muito manjado... Sabe que se vier aqui os romanos podem lhe dar um susto... Ele agita demais! Homem: Tenho a maior vontade de vê-lo de perto. E de ouvi-lo! É um profeta! Camaradas, a Israel não falta nem vinho nem profetas! Um brinde por nosso povo, o maior povo da terra! Outro homem: Muito cuidado com o que você está dizendo, orelhudo! De Jesus, da Galiléia, dizem coisas maiores... Profeta era João. E por isso lhe cortaram a cabeça. Este é mais. Dizem que é o próprio Messias... Homem: E então?... acha que lhe cortarão a cabeça? Outro homem: Ele é que irá cortar o pescoço dos romanos, diacho! Se é o Messias, virá com uma espada deste tamanho e, zaz! Abaixo todas as águias imperiais! Ah, carambola, esse dia sim é que será a grande festa de Jerusalém! Um brinde pelo Messias da Galiléia! No primeiro dia da festa, quando o luzeiro da tarde brilhava no céu, acendiam-se grandes tochas no Templo de Jerusalém. Toda a noite as ruas estavam infestadas de peregrinos que cantavam e riam. Jerusalém velava jubilosa durante uma longa semana de festa, agradecendo a Deus os frutos da nova colheita. Enquanto isso, em Nazaré... Maria: Então, filho, você não pensa em ir a Jerusalém? Jesus: Não sei, mamãe, ainda não sei... Maria: Seus primos queriam viajar com você, sabia? Jesus: Sim, eu sabia. Acontece que eu não queria viajar com eles... Quando terminou a colheita daquele ano, Jesus foi a Nazaré para ver sua mãe. Alguns do nosso grupo foram com ele. Os campos de trigo, já ceifados, descansavam depois de um longo trabalho. E as uvas já haviam sido pisadas no lagar. Jesus: E você, mamãe, não quer ir à festa? Maria: Não, filho. Já há bastante festa por aqui com a comadre Susana doente e a mulher do Neftali também. Alguém tem que cuidar das crianças delas, não? Simão: Você trabalha demais, prima Maria. Vai ver que é por isso que se conserva tão jovem. E então, Jesus? Já pensou? Vem conosco a Jerusalém?... Os primos de Jesus, Simão e Jacó, entraram no casebre de Maria. Já levavam nas mãos os bastões para o caminho... Jesus: Não, eu não vou. Fico na Galiléia. Simão: Como? Não andam dizendo por aí que você faz coisas maravilhosas, e que tem cheiro de profeta...? Então? Não me diga que os profetas de agora se escondem debaixo da terra como as toupeiras... Já que você faz coisas tão grandes, venha fazê-las na capital e que todos o vejam de cara... Jacó e eu gritaremos pelas ruas: “Ei, aqui está o profeta! E é nosso primo!” Nós juntamos as pessoas, você lhes fala e prometo que quando terminar nós aplaudiremos, eu lhe prometo, primo... Jesus: Muito obrigado, primo Simão. Guarde seus aplausos e ponha-se a caminho de pressa, anda, que a festa começou ontem à noite e você vai chegar tarde. Eu não vou. Simão: Bah, você é maluco e cabeçudo, Jesus. Vai a Cafarnaum com esses amiguinhos que você achou. Vamos, Jacó, andando! Jesus: Mamãe, amanhã, ao amanhecer eu vou. Maria: Aonde, filho? A Cafarnaum? Jesus: Não, a Jerusalém. Para a festa. Vou com Tiago, Pedro e João e alguns mais do grupo... Maria: Eu sabia que você iria... Estava dizendo a Jacó e Simão não com a boca, mas eu o olhava e a mim você não engana... Jesus, filho, tenha cuidado! Jerusalém não é a Galiléia. Ali os romanos têm sete olhos e ficam sabendo de tudo... Jesus: Você está com medo, mamãe? Maria: Sim, filho, como não vou ter? Mas já não é mais como no começo. Parecia então que poderia pega-lo no colo como se fosse criança. “Jesus, isso não se faz, obedeça sua mãe”... Não, já sei que não posso pôr pedras no seu caminho para impedi-lo. Aquilo que você me disse lá em Cafarnaum ficou dando voltas e voltas na minha cabeça, está lembrado? Jesus: Claro que me lembro. E a verdade é que naquele dia eu estava meio zangado com você. Maria: Não, filho, era eu que estava zangada com Deus como nosso avô Jacó quando deu uma de galo-de-briga e se pôs a lutar uma noite com aquele anjo e foi ele que acabou coxeando... Assim aconteceu comigo, sabe? Eu dizia a Deus: “Vai e procure outro. Por que tem que ficar olhando pro meu filho? É o único que tenho. Por que quer tirá-lo de mim? José morreu. Eu estou ficando velha. Pelo menos que eu possa vê-lo casado com uma boa moça e com um trabalhinho seguro e, quem sabe, até ajudo a criar meu primeiro neto...”. Não pedia mais que isso. E não era muito, não é mesmo? Pois veja só, Deus se saiu com as dele. Pegou você pela mão e disse: “É você que eu ando procurando”. Está bem, filho. Ele ganhou. Ele é mais forte. Jesus: Você é valente, mamãe! Maria: Não, filho, na verdade, estou morrendo de medo! E continuo sem entender bem o que Deus está preparando para você. Mas não se preocupe que não vou atravessar seu caminho. Ao contrário, gostaria muito de segui-lo ... gostaria de ajudá-lo... mas não sei como... Jesus: Mas, mamãe, se foi você quem me deu o primeiro empurrão! Você que andava sempre com aquela matraca: “Deus quer derrubar os grandes e elevar os humildes”. Você me ensinou isso. E isso é o que temos feito durante todos esses meses em Cafarnaum e nas cidades do lago... Maria: E em Jerusalém? Jesus: Também em Jerusalém é preciso anunciar a boa notícia. E faremos isso, sim, já é tempo de fazê-lo. Maria: Bom, deixe isso pra lá e tome um pouco mais de leite, que magro do jeito que você está não vai chegar caminhando nem até Samaria... Beba, filho, ele está bem gostoso... Quando chegamos a Jerusalém, a festa já ia pela metade. Ao nos aproximarmos do templo, vimos sair a procissão. Homens, mulheres e crianças com folhas de palmeira e de salgueiro cantavam pelas ruas. No átrio dos sacerdotes se repetia a mesma cerimônia: os ministros de Deus rodeavam uma e outra vez o altar entoando os salmos das tendas... Sacerdote: Senhor, dá-nos a salvação! Senhor, dá-nos a vitória! Todos: Bendito o que vem em nome do Senhor! Os átrios do templo estavam cheios de bêbados e crianças que corriam atrás das ovelhas. Jerusalém recendia a frutos maduros e despedia com risos o ano que terminava... Um homem: Conterrânea, olhe só quem está ali! É o profeta da Galiléia! Uma mulher: Você já bebeu tanto, seu sem-vergonha, que agora está vendo profetas pelas esquinas! Outro homem: Pois eu lhe digo que não, mulher, olhe bem aquele lá com o manto cheio de remendos... aquele mesmo, é... Ei, camaradas! Corram... O profeta chegou! O profeta chegou! Aos gritos daquele homem as pessoas começaram a espremer-se onde nós estávamos, perto da porta de Corinto... Um grupo de homens empurrou Jesus para que subisse em um ponto mais alto... Um homem: Ei, você, galileu, o que está fazendo por aqui? Jesus: Celebrando a boa colheita deste ano, amigo! Outro homem: Fale mais alto que daqui não dá para ouvir nada! Maldito seboso, não fique na minha frente! A porta de Corinto parecia um galinheiro revolto. Todos queriam ver de perto as barbas do profeta recém chegado... Jesus: Viemos celebrar a colheita deste ano e contar-lhe o que anda acontecendo no norte do país! Os campos deram trigo e a vinhas deram suas uvas, sim. Mas Deus nos anuncia uma colheita maior, uma festa e um banquete que celebrarão todos os povos da terra. Amigos de Jerusalém: viemos trazer-lhes uma boa notícia. O Reino de Deus chegou! Um homem: Bem-vindo este Reino de Deus! Uma mulher: E onde diabos está para que o vejamos? Jesus: Não olhe para cima nem para o lado, conterrânea. Está aqui, onde os pobres se reúnem com esperança! Outro homem: Vivam os da Galiléia, de Jerusalém, e de todo o país! Outra mulher: Escute, rapaz, você que fala tão bonito, explique-nos uma coisa: o que se deve fazer para entrar nesse Reino? ... porque eu aqui não quero ficar de fora! Jesus: A porta para entrar é estreita. Para poder passar por ela é preciso ter os bolsos vazios. Por esta porta passarão somente os que sabem repartir o que têm com os demais. E os que fecham sua mão para os pobres ficarão de fora. Os que pensam que são os primeiros, serão os últimos. E os que estão na fila, os últimos, esses serão os primeiros! Um homem: Muito bem falado, Galileu! Custou-nos muito trabalho sair do templo. As pessoas se apertavam contra nós. Todos queriam ver Jesus. Os soldados romanos vigiavam de perto para que aquele alvoroço não terminasse em uma revolta maior. Alguns galileus nos convidaram para passar a noite em suas tendas de palmeiras e caniços. E até a uma delas nós fomos ao cair da tarde, enquanto os vizinhos da capital continuavam discutindo... Um vizinho: Você não ouviu que língua mais esperta? Esse homem é o Messias, ouça o que estou dizendo! Outro vizinho: Mas onde já se viu um Messias com sandálias estropiadas? Você está louco! Outro vizinho: Além disso, o Messias não pode ser galileu. Tem que ser da família do rei Davi. Vizinho: E este aí? De que família será? Isso sim é que ninguém sabe. Vizinho: Tem que ser filho de Davi! Ou é da família de Davi, ou não é o Messias! Um mestre: Mas, amigo, como vai ser filho de Davi se há um salmo em que Davi o chama de pai, em vez de filho? Vizinho: Mas, o que está dizendo você? Que salmo que nada! Esse sujeito fala claro e tem Deus na garganta...! Fariseu: E tem mais: como pode o Messias ser filho de Davi se o próprio Davi o chama de pai, porque, como diz outro salmo, ninguém pode ser filho de seu próprio filho, não acha? Vizinho: Escute, amigo, de você eu não entendi nem uma... e deste galileu, todas... daí, é melhor você ir cantar seus salmos em outra esquina! Vizinho: Esse Galileu nasceu num povoado que não vale nada, que se chama Nazaré! Por acaso o Messias vai sair de um lugar desses, heim? Não sejam patetas! Quando vier o Messias, ninguém saberá de onde veio. Virá de repente. Zaz! Os céus se abrirão e nós o veremos... Esse sujeito é um engana-bobos... Deixemos que o Messias durma tranqüilo esta noite e nós, para a taberna do Aziel! O melhor vinho de Jerusalém está escondido nos barris desse safado! Naquela noite, uma mesma pergunta percorreu o bairro dos alfaiates e o bairro dos carregadores de água, a rua das prostitutas e o grande mercado... Todos perguntavam pelo profeta da Galiléia... E ninguém sabia encontrar uma boa resposta... Quando a lua nova do mês do outono, no ponto mais alto do céu, iluminava debilmente as muralhas rodeadas de cabanas da cidade santa, Jerusalém, cansada de tanta festa, foi adormecendo devagar... No começo do outono, no mês de setembro, o povo de Israel celebrava a festa dos “sukkot” (das tendas, das cabanas). Com ela termina a colheita dos frutos e a vindima. Das três peregrinações anuais que os israelitas faziam a Jerusalém – por ocasião da Páscoa, Pentecostes e Tendas – esta última era a mais alegre e popular. Era também a que concentrava mais gente na capital. Durante os sete dias que durava a festa, o povo vivia em choças e cabanas que se construía nos terraços ou nos pátios das casas, na esplanada do templo, nas praças públicas ou nos arredores de Jerusalém. Essas choças eram feitas como recordação das tendas nas quais o povo hebreu havia vivido durante quarenta anos em sua peregrinação pelo deserto até a terra prometida. No tempo de Jesus e por influência de textos proféticos (Zc 14,16 e 19), o povo associava a festa das Tendas com o triunfo definitivo do Reino de Deus e do seu Messias. Por isso se explica neste relato que os primos de Jesus, interessados em que seu parente fosse cada dia mais famoso, pelo que isso poderia favorecer seus interesses, insistiram que estivesse em Jerusalém para estas festas. A esta altura, Jesus já era um profeta de grande popularidade, tanto em suas terras galiléias, quanto no sul, na Judéia, e principalmente na capital. A estas alturas também, Jesus estava plenamente consciente do conflito que criavam suas palavras, suas atitudes e as pessoas de que se rodeava: pobres, à margem da lei, “malditos” de má fama, os “últimos” daquela sociedade. No relato, esta é a segunda vez que Jesus sobe a Jerusalém. Ele o faz clandestinamente, porque depois das notícias de que Herodes o procurava para matá-lo, não lhe parecia prudente fazer muito barulho. Neste caso, recusa a espetacularidade que lhe propõem seus primos, mas não renuncia à difusão mais massiva que pode ter sua mensagem profética entre os peregrinos concentrados na capital. Se a estas alturas Jesus já contava com uma morte violenta, Maria também intuía que esse poderia ser o final de seu filho. E por isso tinha medo. Maria foi uma mulher valente e uma mulher de fé, mas a fé não suprime o medo nem as debilidades. E Maria sofreu por causa do compromisso de seu filho, sem ver claramente aonde o levaria, temendo sempre as conseqüências a que se expunha. No entanto, seguia em frente, guiada por esta fé que ia crescendo e amadurecendo dentro dela. Também é certo que os caminhos que levavam a Jerusalém não eram nada seguros. No tempo de Jesus reinava em todo o país o banditismo. Para proteger o comércio pelas rotas das caravanas, os romanos haviam tomado especial cuidado em limpar os assaltantes dos caminhos. Os camponeses aumentavam as histórias de salteadores que corriam de boca em boca e, embora não levassem muita coisa em suas viagens, temiam especialmente esses perigos. E consideravam um favor especial de Deus chegar sãos e salvos a Jerusalém. Depois deste primeiro discurso público na capital, a que se recorre neste episódio e que se resume na constante mensagem do evangelho: compartilhar, esforçar-se para entrar pela porta estreita do dar em vez de acumular (Mt 7,13-14), Jesus estará na boca do povo reunido para as festas em Jerusalém. As pessoas discutem nas ruas se ele é ou não o Messias ou – mais ainda – se de fato pode sê-lo um homem de extração tão baixa, sem doutorados nem estudos, sem poderes espetaculares... Naquele tempo, a espera de um Messias libertador era constante tema nas conversas populares. Para algumas escolas de rabinos o Messias reconhecido por sua pertença à família de Davi (seria “seu filho”). Outros não davam importância a este aspecto e se fixavam mais, não de onde viria o Messias, mas no que faria. Nesta sua segunda viagem à capital, Jesus já é muito popular e os pobres do país canalizam cada vez mais até ele suas esperanças de justiça. (João 7,1-13 e 40-43)
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