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Capítulo XLIII O JUIZ E AS VIÚVAS Pedro: Olhe, Jesus, veja se não me amola mais!... Já gastamos doze pares de sandálias anunciando que as coisas vão mudar e que a justiça e que a libertação, e o que conseguimos até agora, heim, diga-me? Jesus: É preciso ter constância, companheiros. Pedro: Constância... É preciso ter olhos, moreno! Isso não vai pra frente! Isso é como querer mover uma montanha! Jesus: E ela acabará movendo-se, Pedro. No dia em que de fato tivermos fé em Deus e em nós mesmos, nesse dia empurraremos as montanhas e as lançaremos no mar. Isso eu aprendi de minha mãe... Jesus: Quando eu era garoto, lá em Nazaré, minha mãe, que era viúva, trabalhava na fazenda do latifundiário Ananias... Susana: Mas, que bandido este Ananias! Oxalá esta pedra de moinho caia em cima daquela barrigona! Rebeca: Três semanas colhendo azeitonas e agora não nos quer pagar! Ah, não, mas isso não vai ficar assim! Pelas trombetas de Jericó, mas vou espalhar essa sem-vergonhice para todo mundo e esse velho sovina vai ter que nos pagar até o último centavo, se não...! Micaela: Se não o que, Rebeca?... Que é isso, mulher, deixe de bravatas! O que nós podemos fazer se ele não nos pagar? Nada! Se tivéssemos maridos, eles nos defenderiam... Mas, o que podemos fazer nós, viúvas? Dobrar a espinha e deixar que nos ponham a canga como aos bois. Jesus: Minha mãe Maria e a vizinha Susana e outras viúvas de Nazaré, depois de colher os olivais da fazenda de Ananias, não haviam recebido nenhum pagamento. E estavam furiosas. Assim acontecia muitas vezes: os patrões se aproveitavam das mulheres sozinhas, as contratavam para a colheita de azeitonas, ou de figos, ou de tomates... E então lhes pagava muito pouco ou nada pelo trabalho... Maria: Temos de fazer alguma coisa, vizinhas! Não vamos ficar aqui espantando moscas, e nossos filhos com fome! Micaela: E o que podemos fazer, comadre Maria? Agüentar! Este é o destino de nós, pobres, agüentar! Maria: Que destino coisa nenhuma, Micaela! Eu não creio em destino algum. Sabe o que dizia meu falecido José, que descanse em paz? Que o único destino que existe está aqui, nos nossos braços. Susana: Sim, Maria, mas os braços das mulheres são frágeis, não se esqueça! Maria: Mas, como você pode dizer isso, Susana? E não foi o braço de Judite que cortou o pescoço daquele grandalhão que eu nem me lembro como se chamava? E quem se pôs à frente do povo quando os cananeus atacaram e os homens de Israel afrouxaram as ceroulas, heim? Foi Débora, uma mulher, como você e como eu, mas que tinha sangue nas veias e não água com açúcar. E a rainha Ester, não foi uma lutadora também? Rebeca: Maria tem razão. O que acontece é que a gente, como mulher, acaba se metendo na toca como os ratos. Maria: Pois vamos sair da toca e pendurar o guizo no rabo do gato. Suzana: Sim, senhor, temos de fazer alguma coisa por nós e por nossos filhos! Maria: Então vamos, vamos para Caná e abrir um processo contra esse velho explorador. Para que servem os juízes? Para fazer justiça, não é? Pois vamos agora mesmo até o juiz para que ele apresente nosso caso ao tribunal. Jesus: E minha mãe e as outras viúvas saíram de Nazaré pelo caminho do norte, rumo a Caná, onde vivia o juiz Jacinto, um velho careca e balofo... Rebeca: Dom Jacinto, Dom Jacinto!... Dom Jacinto! Jacinto: O que acontece, diacho! Quem são vocês? Susana: Somos umas pobres viúvas de Nazaré! Temos algo a lhe dizer!... Abre a porta! Jacinto: Umas pobres viúvas... umas pobres viúvas... O que vocês querem? Derrubar minha porta a pontapés? Maria: É que nos tomaram o salário de três semanas de trabalho de sol a sol! Jacinto: E o que eu tenho a ver com isso? Rebeca: Você é o juiz, não? E os juízes não estão aí para fazer justiça? Jacinto: Nós juízes estamos aqui para meter na cadeia agitadoras como vocês. Não me amolem que agora estou ocupado. Maria: Dom Jacinto, espere, não se vá! Escute, aquele velho sanguessuga que se chama Ananias, a quem você conhece melhor do que nós, nos contratou para colher azeitonas. Passou uma semana e ele não tinha o dinheiro. Passou outra e... esperem que eu vou pagar. Passou a terceira e... continuem esperando... Você acha que isso está certo? Jacinto: E o que vocês querem fazer? Susana: Denunciá-lo e abrir um processo para que seja feita justiça. Jacinto: Bom, bom, vamos estudar o caso por partes. Comecemos por onde se deve começar: se eu defender vocês no tribunal... quanto custaria meus honorários? Micaela: Como disse, Dom Jacinto?... Fale mais claro, porque nós do campo... Jacinto: Digo que se me meter nessa briga, quanto dinheiro vocês vão me pagar, caramba? Maria: Bem, senhor juiz, o senhor sabe que somos viúvas... e pobres. Além disso, como vamos pagar-lhe se Ananias não nos pagar antes? Jacinto: Entendo... Sendo assim... voltem outro dia... Hoje estou muito ocupado... É, é isso, voltem na próxima semana para ver se posso fazer alguma coisa por vocês. Jesus: E minha mãe e suas amigas percorreram de novo as sete milhas que separam Nazaré de Caná e regressaram ao povoado... E quando passou uma semana... Susana: Faze-nos justiça, senhor juiz!... Dom Jacinto, por favor! Rebeca: Com o que Ananias nos pagar, pagaremos alguma coisa para o senhor defender nossa causa! Jacinto: Alguma coisa... alguma coisa... Quanto?... Vamos ver, quanto vão me pagar? Micaela: Veja... entre todas podemos juntar dez denários... ou talvez quinze... Jacinto: Porcaria, quinze denários! Que o diabo se morda o dedão do pé se vocês não estão doidas de pedra! Quinze denários! Vocês vêm me pedir que enfrente Ananias, o homem mais poderoso desses campos, que com uma só palavra sua pode mandar que me enforquem... e em troca disso, quinze asquerosos denários! Puah! Susana: Mas, senhor juiz, somos pobres, compreenda... Jacinto: Sim, sim, é lógico que compreendo... e vocês também compreendam que eu tenho agora muito trabalho e não posso atende-las... É... É isso, voltem na próxima semana para ver se com um pouco mais de tempo, Re, re... Jesus: Sete milhas de retorno a Nazaré. E quando a semana se passou, outras sete até Caná... Susana: Mas, Dom Jacinto, até quando vamos ficar indo e vindo?... Rebeca: Nossos filhos estão mais magros que as lombrigas! Micaela: Veja nossos peitos secos, Dom Jacinto! Estamos desesperadas! Não agüentamos mais, nossos filhos estão morrendo de fome, ficando doentes...! Jacinto: E a troco de que vocês vêm agora com esta história? Eu não pari esses moleques. Virem-se como puderem! E não me amolem mais! Maria: Está bem, não faça isso por nós, se não quiser. Jacinto: E por quem seria então? Maria: Faça-o por respeito a Deus, senhor juiz! Jacinto: Rá, rá, rá...! Por Deus? E o que me importa Deus? Deus está lá em cima, no céu e eu estou aqui em baixo, na terra. Vocês não dizem que Deus faz justiça aos pobres? Pois comprem uma escada bem comprida e subam até lá em cima e peçam ajuda a ele! Mas a mim, não me encham mais! Susana: Puff... Esse Jacinto é mais azedo que limão verde... Maria: Não, Susana, acontece que o raposa do Ananias terá passando melado nas mãos dele, entende? Micaela: E então, Maria? Acho que estamos perdidas! Maria: O que é isso agora? Agora é que essa briga começa! Rebeca: Mas, Maria, ficou louca? Que briga podemos começar se não temos sequer um pedaço de pau? Maria: Aqui não faz falta nem pau nem espada, Rebeca. Rebeca: E o que é então, Maria? Maria: O que falta aqui é paciência. Susana: Paciência para quê? Maria: Para acabar com a dele. Não se lembram de Moisés no Egito? O faraó tinha de tudo, até carros de guerra! E Moisés não tinha nada. Bom, a única coisa que tinha era uma cabeça dura... E Moisés juntou os israelitas e acabaram com a paciência do faraó: tingiram de vermelho a água, encheram as casas de sapos e rãs, apagaram as luzes da cidade... Susana: Mas, Maria, nós somos muito pouquinhas. Moisés pôde fazer isso porque era homem e tinha muita gente atrás dele... Micaela: Nós somos como um mosquito e ele como um elefante... Maria: Isso mesmo, Micaela. E essa foi uma das dez pragas do Egito, a dos mosquitos. Porque eu lhe garanto que um bando de mosquitos dispostos a atazanar, é capaz de tirar o sono de todos os elefantes que o rei Salomão tinha em seu palácio. Venham comigo, vamos voltar à casa do juiz Jacinto! Jesus: E aquelas camponesas cabeçudas, com Maria, minha mãe à frente, voltaram diante da porta daquele juiz balofo... Jacinto: Outra vez por aqui? Maldição! Já lhe disse para irem embora e me deixarem em paz!... Estão surdas?... O que estão esperando? Maria: Esperamos que os juízes de Israel façam justiça aos pobres! Jacinto: Pois esperem sentadas, que de pé cansa! Maria: É isso mesmo que vamos fazer. Vizinhas, todas sentadas! Jesus: Quando minha mãe disse aquilo, todas as viúvas se sentaram em frente à porta do juiz... Jacinto: Vão pro diabo, todas vocês! Está bem, fiquem aí até que lhes saia um calo no traseiro! Malditas camponesas, têm a cabeça mais dura que uma bigorna de ferreiro! Jesus: E o juiz bateu a porta. Depois de algum tempo... Jacinto: Ainda estão sentadas aí? Pelos sete chifres de Lúcifer, será que vocês perderam o juízo? Susana: Não, você é que está perdendo a paciência, senhor juiz! Maria: Daqui a gente não se mexe até que a justiça seja feita! Jesus: Mas o juiz voltou a fechar a porta... Rebeca: Esta casa vai acabar desabando sobre sua cabeça, com tanta bateção de porta! Susana: Puff... O que você acha, Maria? Conseguiremos alguma coisa? Maria: Nossos avós agüentaram quatrocentos anos no Egito. E, no final, conseguiram a liberdade. Daqui a gente não sai. Um homem: Ei, quem são vocês? Estão pedindo esmola na porta do juiz? Rebeca: Pedimos justiça, não esmola! Susana: Trabalhamos três semanas colhendo azeitonas na fazenda do Ananias e agora não quer nos pagar. Homem: Velho ladrão!... E esse juiz não faz nada? Maria: É isso que estamos esperando. Mas vocês já sabem o que acontece, amigos. Ananias ensaboa a mão do juiz, o juiz molha a mão do capitão, e por aí vai... Homem: Isso é verdade. Os de cima protegem as costas uns dos outros. E nós, atirando cada um para um lado... Ei, companheiros, venham aqui, venham todos! Jesus: Aquele homem começou a chamar seus amigos que matavam o tempo na praça e na taberna... E dali a pouco, muitos vizinhos de Cana se uniram às viúvas de Nazaré... Jacinto: Que o diabo me corte em quatro fatias! O que vocês querem? Eu não sou o governador da Galiléia e muito menos distribuo docinhos, então sumam todos daqui e deixem-me em paz, vagabundos! Jesus: Mas foram se juntando muitos, muitíssimos homens e mulheres diante da porta do juiz Jacinto. Era como uma praga de mosquitos... Jacinto: Já chega! Vão pro inferno, com as viúvas e com todos! Venham, vamos resolver esse caso de uma vez! Susana: O que? Suas entranhas já se comoveram, senhor juiz? Jacinto: O que me comoveram foram as orelhas com essa gritaria. Mas, fiquem sabendo, não faço isso por Deus, nem por vocês nem por seus “filhinhos famintos”, mas para que vocês desapareçam e que eu não tenha nunca mais de ver suas fuças. Jesus: E o juiz Jacinto levou o caso perante o tribunal e o latifundiário Ananias teve de pagar o salário das viúvas de Nazaré. Haviam ganho a briga, sim senhor! E assim se ganham todas as batalhas, batendo, batendo até ir para frente! E com Deus temos que fazer o mesmo. Rezar dia e noite, sem desanimar. Se lhe pedirmos assim, ele não nos dará as costas, fará justiça! Rufa: Que Deus lhe abençoe a língua, Jesus e que viva a mãe que o pariu! Pedro: Bem falado, vó Rufa! Jesus: Sim, que viva ela e que vivam todos os que lutam até o final, sem cansar-se, custe o que custar! As mulheres camponesas de Israel tinham mais liberdade que as da cidade em muitas coisas. A necessidade de tocar a família adiante as levava a trabalhar igual aos homens nas fainas agrícolas. As mulheres participavam da colheita, da sega, na vindima junto com os homens, ou trabalhavam por sua conta, contratadas pelos latifundiários locais. Viúva na Bíblia não deve nunca ser tomada como sinônimo de idosa. Como as meninas se casavam ao doze, treze anos, muitas mulheres ficavam viúvas ainda jovens. Se supormos que quando Jesus iniciou sua atividade na Galiléia, José já estaria morto, Maria teria ficado viúva aos trinta, quarenta anos. Sua condição social a fazia dependente de seu filho, que tinha a obrigação de mantê-la. Mas, seguramente, ela também ganharia a vida com o trabalho de suas mãos. A parábola “do mau juiz”, ou “da viúva insistente”, é contada por Jesus a seus amigos neste episódio como um fato real vivido por sua mãe e algumas vizinhas, também viúvas como ela. A administração da justiça em Israel começa nas próprias origens da história do povo com os anciãos designados por Moisés, mas não se tem dados precisos sobre como era exatamente os juízos, qual a forma de apresentar os pleitos etc., nos tempos de Jesus. A institucionalização da justiça variava muito conforme as regiões. Maria e suas companheiras vão em busca de um juiz que reside em Cana, pois Nazaré era uma localidade pequena para ter o seu próprio. Esses juízes decidiam em casos de menor importância, em pequenos conflitos regionais. Acontecia que, às vezes, os ricos os “compravam” com presentes e não havia autêntica justiça em suas decisões. Os profetas de Israel clamaram sempre para que nos tribunais se fizesse justiça aos pobres e identificam o direito de Deus com o direito do pobre. Entre os pobres, destacaram sempre o estrangeiro, o órfão e a viúva, como desamparados por excelência, frente aos quais a exigência de justiça era ainda, se cabe, maior. Os profetas denunciaram a corrupção dos tribunais, as benesses recebidas pelos juízes e os atropelos cometidos contra os infelizes (Amós, 57-13). Na história de Israel houve mulheres que participaram muito ativamente nas lutas do povo e que chegaram a ter um grande prestígio. Débora, juiza de Israel, vencedora de batalhas (Jz 4 e 5); Éster, heroína popularíssima e Judite, vencedora do tirano Holofernes por astúcia e coragem, eram importantes figuras femininas da história de Israel. Maria, a mãe de Jesus, também viveu inserida na história desse povo, embora construísse o Reino a partir de seu trabalho, sua fidelidade diária e sua coragem diante das adversidades. Maria, mulher do povo, camponesa, trabalhadora, deve servir de inspiração às mulheres. Há muitos pontos de contato entre ela e as mulheres de nossos países. Porque Maria viveu numa sociedade machista. Porque trabalhou com suas mãos e sofreu tudo o que sofrem os pobres: escassez, insegurança, marginalização. Porque teve um filho que, ao comprometer-se com a justiça, a fez viver com a alma por um fio. Porque sem entender o todo daquela missão, colaborou com ele em tudo o que podia. Não basta que se venere Maria, que inclusive se “adore” – como de fato acontece. No canto do Magnificat, canto de fé em Deus, alento para a luta e esperança dos pobres, estão vivos todos os elementos necessários para uma autêntica veneração a Maria. Jesus aprendeu de José e de Maria, como qualquer filho aprende de seus pais, as atitudes fundamentais diante da vida. De Maria teria aprendido sua tenacidade, sua constância, essa típica teimosia camponesa que “move montanhas”. Embora a parábola “do juiz injusto” tenha sido considerada ordinariamente como uma exortação à constância na oração, neste episódio Jesus estende seu significado: também na oração devemos ser constantes, pacientes, insistentes. Como Maria, oração e ação vão juntas, alimentam-se de um mesmo espírito, devem ser orientadas pelas mesmas atitudes. E assim, Jesus propõe Maria como exemplo de constância na oração. Não haverá libertação feminina até que homens e mulheres não participem ombro a ombro na construção de um mundo diferente do atual, sem discriminações de qualquer tipo. A libertação feminina que só contempla os aspectos sexuais (aborto, divórcio, união livre etc.) é um produto importado por nossos países de sociedades desenvolvidas e com reivindicações que não têm muito a ver com nossas realidades. Neste relato, a estratégia das viúvas para abrandar o juiz injusto é a tenacidade em forma de ação não-violenta. Insistem, viajam uma e outra vez, pressionam com palavras, gritam, sentam-se no chão... Vencem assim as resistências do juiz. A união as faz fortes e lhes dá a vitória. (Lucas 18,1-8)
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