Apresentação
Fale Conosco
Veja Também:
Capítulo XLI O QUE DEUS UNIU Tiago: Diga que não, ande, atreva-se a negar agora! Ester: Mas, de onde você tirou essa história, Tiago? Quem lhe encheu a cabeça de fofocas? Tiago: Fofocas, não é mesmo? Quem me contou foi o compadre Zabulon! E Zabulon não mente! Ester: E será que eu posso saber o que o compadre Zabulon lhe contou? Tiago: Você esteve no mercado, não é mesmo? Ester: Sim, claro, como em todos os dias. Tiago: Você foi comprar frutas, não é isso? Ester: Sim, fui comprar frutas. O que há de errado em comprar frutas? Tiago: Comprar frutas, tudo bem! Mas piscar para o fruteiro, aí é demais! Ester: Era só o que faltava! Ciúmes de novo! Deus do céu, que marido o Senhor me deu! Tiago: Você estava paquerando Rupio, o fruteiro. Confesse. Ester: Rupio, o fruteiro, tem mais de sessenta anos e não tem sequer um dente na boca. Tiago: Para isso, dentes não fazem falta! Ester: Ah, é mesmo? Então você acha que esse velho e eu...? Tiago: Eu não acho nada. Eu estou certo. Meu compadre Zabulon me disse. Olhe aqui, escute bem, não torne a pôr um pé nesse mercado! Ester: Ah, é? Para mim tudo bem. A partir de hoje, você vai fazer as compras. Tiago: Não torne a sair de casa! Ester: Arranje um cachorro para garantir isso! Tiago: Não estou disposto a virar motivo de gozação em Cafarnaum, está entendendo? Isso nenhum filho de Zebedeu agüenta! Ester: Claro, mas essa pobre coitada aqui tem de agüentar que seu marido entre e saia na hora em que bem quiser... Tiago: Eu sou o homem, pombas! Ester: E eu não valho nada? Tiago: Você, cale a boca, desavergonhada! E não me levante a voz! Ester: Ai, meu Deus...! Tiago: Acabou-se, está me ouvindo? Acabou-se. Recolhe seus trapos, e some para a casa da sua mãe!... Não preciso de você para coisa nenhuma, está ouvindo? Para coisa nenhuma! Ester: Você acordou a menina com seus gritos!... Vai lá e dê de mamar para ela, ande, vamos ver como fica...! Meu irmão Tiago era casado com Ester, uma moça de Betsaida, já fazia cinco anos. Durante este tempo, tiveram três meninas. E tiveram também muitas brigas... Salomé: Mas, Tiago, filho, como é que você foi fazer isso? Ester é uma boa moça... Tiago: Ester é uma boa raposa, isso sim é que ela é. Salomé: Não fale assim da mãe de suas filhas. Ester é sua esposa. Tiago: Esta corda já se rompeu. Não tenho mais mulher. E lhe disse para pegar suas coisas e se mandar. Zebedeu: Espere, espere, Tiago, vamos por partes. O que aconteceu. Ela o enganou com outro? Tiago: Se ela me enganar com outro, eu lhe dou uma surra de vara que os vergões vão ficar até o dia do juízo final! Zebedeu: E o que ela lhe fez, então? Tiago: Ela tem os cascos ligeiros, só isso. E pisca o olho para todo homem que vê. Salomé: Pois não serão muitos os que ela vê, porque você a mantém fechada em casa como se fosse uma leprosa. Pobre infeliz! Nem aqui você a traz. Tiago: Pobre infeliz... Olhe, mamãe não a defenda. Zebedeu: Mas, afinal de contas, o que aconteceu? Tiago: Meu compadre Zabulon a viu sorrindo para o Rupio, o fruteiro, é isso! Salomé: Mas, Tiago, pelas cãs da minha avó, o que você quer que a pobre faça? Que cuspa na cara dele? Tiago: Não seja ingênua, mamãe. Todas começam com um sorrizinho. Você se vira e zás! Saltou a lebre. Jesus: Que lebre saltou por aqui, heim?... Como está, Zebedeu? Zebedeu: Estamos vivos, Jesus, o que neste país não é pouca coisa! Jesus ... Epa, o que está havendo?... O que houve, Salomé? Cabelo-de-fogo, você está com uma cara de vinagre! Tiago: E com razão, Jesus. Jesus: Ah, é? E o que aconteceu? Tiago: Que me divorciei de minha mulher. Se casa e descasa, cada um para sua casa, como diz a canção. Jesus: Mas, por que? Salomé: Por nada, Jesus, esse meu filho meteu uma cisma na cabeça de que sua mulher piscou um olho para o fruteiro... Tiago: Não é cisma, mamãe. Foi o compadre Zabulon quem me disse. Zebedeu: E em toda Cafarnaum não há um fofoqueiro maior que ele... Tiago: E não é só isso. Zabulon também a viu na praça, e na rua dos curtidores, e a viu outro dia lá no cais... Jesus: Escute, será que não é o tal Zabulon que “anda atrás” da sua mulher? Ele a segue por onde quer que ela vá... Tiago: Não me amole, moreno... Jesus: Afinal de contas, por causa de uma piscada, cinco anos de casamento vão pro buraco? Tiago: Isso mesmo, pro buraco. Melhor só do que mal acompanhado. Esta corda já se rompeu. Ester: É claro que se rompeu! Tiago: Chegou quem faltava... Salomé: Ester, filha, Tiago nos contou que... Ester: Eu sei, eu sei, a história do Zabulon. Por que você não vai dormir com ele esta noite, já que o ama tanto! Tiago: Olhe aqui, mulher do diabo, não comece outra vez. Já lhe disse para juntar os trapos e cair fora! Ester: Foi para isso que vim aqui... para dizer-lhes adeus... Zebedeu: Ester, minha menina, fique calma... Venha, sente-se aqui... vamos conversar um pouco... Ester: Conversar? Conversar sobre o quê? Este seu filho só sabe gritar e dar ordens como se fosse um sargento... Não, não, eu não agüento mais esse energúmeno... Já me cansei. Estou indo... Tiago: O que você disse? Que se cansou? Se cansou de quê, se você já nasceu cansada? Eu dando o maior duro na barca e você sentada em casa, tranqüila da silva?! E ainda está cansada! Ester: Ah, é mesmo? Sentada, não é? Cuidar de três meninas não é trabalho, certo? E a cozinha, e comprar tomates, e lavar a roupa e sair correndo porque a Mila caiu e varrer a casa e essas coisas que não acabam nunca... Isso não é trabalho, certo? Tiago: Sim, sim, e andar choramingando com todo mundo que passa em frente à porta! Ester: E depois chega o dono da casa e se senta e cruza os braços e é preciso servir-lhe o jantar como a um grande rei porque ele não se presta nem mesmo a pegar seu prato! Tiago: Era só o que me faltava ouvir! Passo o dia trabalhando como um burro por você e pelas crianças e não tenho direito a um prato de lentilhas? Ester: Sim, a um prato de lentilhas e a quatro jarras de vinho, que para onde se vai todo o dinheiro, nesta maldita taberna! Tiago: Com meu dinheiro eu faço o que bem quiser e você não tem nada com isso! Ester: Sim, é claro, e essa escrava aqui servindo você calada. Em cinco anos de casada, você nunca me deu um centavo para comprar um lenço sequer! Tiago: O que vou lhe dar é um pescoção, se continuar me faltando com o respeito! Ester: O que acontece é que... Tiago: O que acontece é que já chega! Mulher só deve falar quando a galinha mijar!... Você ouviu, Jesus? Diga-me, tenho ou não tenho direito de me divorciar deste tribufu?... Responda, não fique calado... Jesus: Bem, Tiago, eu creio que... que ela é quem tem o direito de mandar você para o lixo. Tiago: O que você disse? Jesus: O que você ouviu. O que eu não entendo é como Ester agüentou tanto tempo. Tiago: Ah, é...? Até você está contra mim...? Tudo bem, não há de ser nada. Vai pro diabo, você e o resto do mundo! E você é a primeira, Ester: vamos, some daqui, vai piscar o olho para aquele maldito fruteiro! Jesus: Pra ver como são as coisas... Nós homens coamos até o último mosquito do que nos fazem as mulheres e elas têm de engolir nossos camelos deste tamanho... Tiago: Por que está dizendo isso agora? Jesus: Por que estou dizendo? Olhe, Tiago, a gente já se conhece... É melhor não falar, certo? Tiago: Bem, é isso aí. É por isso que sou homem, não é? Jesus: Sim, claro... estava esquecendo que Deus deu os mandamentos não a Moisés, mas à sua senhora... Tiago: Olhe, Jesus, não comece...! Foi Moisés quem deu a nós, os varões, o direito de abandonar a mulher e nos divorciarmos. Algum motivo deve ter, não é? Jesus: Sim, deve haver uma razão. Talvez pela brutalidade e dureza dos homens. Moisés deve ter pensado: é melhor que o marido a mande embora de casa; assim, pelo menos, não a moerá de pauladas... Mas no começo não era assim, está ouvindo? Porque Deus quis que o homem e a mulher vivessem unidos com os mesmos direitos e as mesmas obrigações para os dois. E o que Deus uniu, nem você nem qualquer outro homem pode separar assim sem mais nem menos, só porque dá vontade. Salomé: Bem crianças, porque em vez de discutir não conversamos um pouco. Conversando é que a gente se entende, não é mesmo?... O que você acha, Ester? Ester: Conversar!... Com esse seu filho não se pode conversar, Salomé. Ele grita e eu tenho de abaixar a cabeça: é só desse jeito que ele sabe conversar. Tiago: Ora, é o marido quem deve ter a última palavra, não é?... Ou isso também já mudou? Ester: Sim, sim, e você tem a última, a primeira e a do meio também. Jesus: A primeira palavra foi Deus quem disse quando tirou a mulher da costela de Adão. Não a tirou da sola do pé nem de outro barro diferente, certo? Tirou-a daqui, de perto do coração... Porque Deus não queria dar a Adão uma escrava, mas uma companheira... Uma menina: A bênção, vozinha! Outra menina: Vovó! Vovó! Nesse momento, entraram na casa as três filhas de Tiago e Ester. A primeira, Mila, de quatro anos, tinha umas tranças bem compridas. Terina, a segunda, dava a mão a Noemi, a menorzinha, que apenas sabia andar... Tiago: Para que você trouxe as meninas, Ester? Ester: Como para que? Elas vão comigo. Tiago: Vão para onde? Ester: Ora, vão comigo para Betsaida. São minhas filhas, não? Fui eu quem as pari! Tiago: Ah, claro, e eu não fiz nada, certo? Foi um anjinho que veio e entrou pela janela... Olhe só os cabelos delas, são vermelhos como os meus... A meninas ficam comigo. Minha mãe, Salomé, cuidará delas. Ester: As meninas são minhas e elas vão comigo! Tiago: As meninas ficam aqui, está entendendo? Aqui, aqui e aqui!!! Jesus: Está bem, Tiago, já chega de gritos!... Você diz que elas têm os cabelos vermelhos como os seus... Não se fixe nos cabelos. Olhe os olhos delas... Olhe-os... Venha, Mila, venha cá... Olhe os olhos, Tiago. Eles o olham com medo. Porque desde que nasceram só ouviram você gritar e dar porradas. Você mesmo disse antes: antes só do que mal acompanhado. E é verdade. É melhor ficar órfão do que ter um pai que mais parece um centurião do exército. Vai, Ester, leve suas filhas. E que Deus a ajude a ser mãe e pai ao mesmo tempo. Tiago: Calma aí, o que você está dizendo, Jesus...? Isso... isso não pode acabar assim... Espere, Ester, espere... Ester: E agora, o que é? Tiago: Eu... bem, eu... Ester: Você, sim, você que enche a boca protestando contra os abusos dos que governam, contra o rei Herodes, é um tirano pior que eles com sua família. Tiago, o filho de Zebedeu, o que fala de justiça e de repartir as riquezas do mundo entre todos os homens... Sim, sim, e com sua mulher não é capaz sequer de repartir o salário do dia...! É essa a justiça que você prega, não é mesmo? A justiça do funil: o cano mais largo para você e o mais estreito para os outros... Jesus: Ester tem razão, cabelo-de-fogo. Estamos dizendo que as coisas têm de mudar em nosso país. Então vamos varrer primeiro nossa própria casa, não acha? Tiago: Mas, eu... Eu... O que tenho que fazer para...? Na verdade, eu... eu... Jesus: Esquecer-se do eu-eu-eu! É isso que você tem de fazer, Tiago! Esquecer-se de si e pensar um pouco nela, faze-la feliz! Tiago: Bem, Ester... Então eu... digo, você... Puff... Se você quiser, nós podemos... Caramba, como é difícil a gente pedir perdão... Veja só, você está me entendendo, é isso que eu quero pedir-lhe... pois até o rei Davi meteu os pés pelas mãos e, veja só, depois acabou até cantando salmos... Salomé: Bem, o resto vocês conversam em casa, porque estas três criaturinhas estão com fome e já está na hora da sopa! Ester foi alegrando o rosto e, logo depois as meninas saíram correndo para a casa, bagunçando como sempre. A verdade é que meu irmão Tiago era um homem difícil e custava bastante dar o braço a torcer. Mas naquele dia ele conseguiu. E, pouco a pouco, ele e todos nós fomos compreendendo que é preciso tratar os outros como a gente gosta de ser tratado. Os evangelhos não nos contam quase nada da vida cotidiana dos discípulos de Jesus. Mas como acontece em outras vidas, eles também viveram suas alegrias e suas tristezas, e passaram por momentos difíceis, mais ou menos grandes. Como todo ser humano, teriam momentos de mau humor, discutiriam, cairiam no ridículo. E, como todo ser humano, lutariam para ser melhores, para superarem-se. Tiago, discutindo com sua mulher – brigas tão corriqueiras entre esposos – dará oportunidade para que Jesus possa compartilhar com ele e com o resto de sua família suas idéias sobre o matrimônio, idéias que foram imensamente novas para o seu tempo. As leis e costumes israelitas com relação à mulher eram marcadamente machistas. Até os doze anos, a menina ficava sob o poder do pai. A partir desta idade já podia se casar – o pai determinava muitas vezes com quem – e o matrimônio se tornava algo como a transposição da mulher do poder do pai, para o poder do marido. Uma vez casada, a mulher tinha direito de ser sustentada pelo seu marido, mas os direitos do esposo eram muito superiores. A mulher se via obrigada aos trabalhos domésticos e a obedecer ao esposo com uma obediência que era entendida como dever religioso. Era praticamente sua empregada. O marido tinha, sobretudo, os direitos que desnivelavam totalmente a inexistente igualdade conjugal: o direito de ter tantas amantes quantas quisesse, se pudesse sustenta-las, e o direito ao divórcio, que dependia exclusivamente de sua vontade. Em Israel existia a prática do divórcio. E o “mal” que existia nesta prática vinha basicamente do fato de depender unilateralmente do homem, tornando a situação totalmente injusta para com a mulher. A lei de Moisés permitia o repúdio da esposa (Deuteronômio 24, 1). Mas no tempo de Jesus o que estava em questão eram as razões para repudia-la, os motivos legais para o divórcio. E havia duas correntes na interpretação desta antiga lei. Para uns, só causas graves (o adultério principalmente) justificavam que um homem se divorciasse de sua mulher. Mas para outros, bastavam bem poucas razões: o fato de a mulher ter deixado queimar a comida, ou que passasse muito tempo na rua conversando com as vizinhas etc. Na prática, e pelo fato de a sociedade ser fortemente machista, esta corrente é que se havia imposto. Deste modo, havia divórcios motivados por quaisquer razões. A mulher repudiada ficava numa situação de abandono muito séria, por causa da má fama com que retornava à sociedade, já que de saída, iria viver sem depender de um homem. O que fundamentalmente Jesus ensina sobre o matrimônio, tem muito a ver com esses costumes de seu país. A famosa frase “o que Deus uniu o homem não separe”, não enuncia um princípio abstrato sobre o matrimônio. “O homem” deve ser lido como “o varão”. Jesus está fazendo uma denúncia concreta contra a arbitrariedade machista: que “o varão” não separe o que Deus uniu. Que a família não fique sob o capricho do varão, que a mulher não fique desamparada por causa da intransigência do marido. Diante do emaranhado de interpretações legais sobre o divórcio, que favoreciam sempre o esposo, Jesus volta às origens, e ao recordar a história da criação, tal como é contada no Gênesis, ressalta que Deus fez, tanto o homem como a mulher à sua imagem e que por isso, o macho e a fêmea são iguais em dignidade, direitos e oportunidades. Isso não para dizer que se a mulher também pode decidir o divórcio, a separação é válida. Não, o ideal cristão é, evidentemente, o matrimônio “para toda a vida”, uma vez que isso supõe responsabilidade e amor entre os que se casam, o que é o desejável. E isso não só do ponto de vista cristão, mas a partir do ponto de vista da maturidade humana. A separação dos esposos nunca deixará de ser um remédio para uma doença. Mas como todo remédio, deve ser usado com precaução, só quando realmente seja necessário e não haja outra saída. É uma decisão dolorosa e com muitas conseqüências sociais – principalmente para os filhos – que não pode ser tomada levianamente. Acontece a mesma coisa com os remédios: se se abusa deles, podem destruir o organismo. (Mateus 19, 1-9; Marcos 10, 1-12)
Capítulos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII XXIX XXX XXXI XXXII XXXIII XXXIV XXXV XXXVI XXXVII XXXVIII XXXIX XL XLI XLII XLIII XLIV XLV XLVI XLVII XLVII XLIX L LI LII LIII LIV LV LVI LVII LVIII LIX LX LXI LXII LXIII LXIV LXV LXVI LXVII LXVIII LXIX LXX LXXI LXXII LXXIII LXXIV LXXV LXXVI LXXVII LXXVIII LXXIX LXXX LXXXI LXXXII LXXXIII LXXXIV LXXXV LXXXVI LXXXVII LXXXVIII