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Capítulo XL COM AS LÂMPADAS ACESAS Rabino: ... Foi o próprio Senhor quem disse: não é bom que o homem fique só. E lhe deu a mulher por companheira. Rafael, recebe a Lulina. Recebe-a pois ela se entrega como esposa segundo a lei e a sentença escrita no Livro de Moisés. Tome-a e leve-a carinhosamente para a casa de seu pai. E que Deus do Alto os guie sempre pelo caminho da paz! Naquela noite, o bairro dos pescadores de Cafarnaum estava em festa. Rafael, um dos gêmeos da casa grande, estava se cansando com Lulina, a filha do velho barqueiro. As cítaras e os tamboretes já soavam convidando a todos para o baile em honra dos noivos... Mulheres: A noiva é uma rosa bonita / o noivo um cravo garboso / e sempre que a noiva pode / dá nele um beijo gostoso. As mulheres dançavam ao redor de Lulina e os homens faziam a roda com Rafael. Depois de um bom tempo, começou a refeição que o pai do noivo nos oferecia... Sentamo-nos no chão, junto às bandejas cheias de pastéis e jarras de vinho. Os músicos continuavam tocando... Os rostos de todos, muito saudáveis, resplandeciam de alegria... Tiago: Morrer, morrer num casamento, camaradas! Que minha hora chegue dançando! E comendo! João: E bebendo! Eu brindo Rafael e Lulina, que hoje estão se casando! Pedro: Pois eu brindo aqueles que já têm a metade de sua laranja há uns tantos anos! Um homem: E pelos que estão na fila para casar-se mas não se decidem! Pedro: Ei, Jesus, essa última foi para você! Puxa vida, moreno, você já esteve em tantos casamentos e... por que não se anima, heim? Jesus: Deixe disso, Pedro, não estou a fim de beliscar nenhum anzol... João: Eu digo que este casamento está melhor que o do compadre Rubem... Tiago: Eu sei o porque. Não foi nele que queimaram sua túnica, João? João: Foi, homem. É que demoraram tanto para chegar que logo se armou aquele alvoroço com as lâmpadas de azeite. Está lembrado, Jesus? Jesus: Claro que me lembro, eu estava com o noivo e os amigos da casa. E então saímos juntos para um parreiral que havia perto dali até que aparecesse a noiva... Um amigo: Está tremendo, rapaz? Esta é a noite mais importante da sua vida! Rubem: Não, não estou tremendo... Brrr... É que... estou com frio e... Outro amigo: Aqui não se deve falar de tremores e sim de amores, caramba! E os amores entram melhor com vinho! À sua saúde, grande sem-vergonha! Amigo: Viva o noivo! Amigo: E viva mais ainda a noiva! Jesus: Do lugar onde estávamos reunidos, vimos passar o grupo de moças, iluminando a noite com suas lamparinas de azeite... Moças: ... Me roubaste o coração, esposo meu, me roubaste o coração, com seu olhar tão caloroso, com palavrinhas de amor... Jesus: As moças acompanharam a noiva até a casa do noivo. E voltaram a sair para fora, junto à porta, esperando nossa chegada... Rubem: Iremos para lá, quando todas as estrelas estiverem brilhando no céu! Um amigo: Pois ainda temos tempo! Até agora só saiu o luzeiro da tarde. Outro amigo: Não tenham pressa, companheiros. As mulheres que esperem! Antes temos de acabar com esse barril! Jesus: À porta da casa, as dez amigas da noiva esperavam com as lâmpadas acesas... Uma moça: Se você se sentar no chão, vai manchar o vestido, Anita. Lembre-se de que ele é emprestado... Anita: Mas é que até que chegue a noite... Não vamos ficar de pé esse tempo todo... Minhas pernas estão doendo de tanto dançar... Outra moça: Pois eu estou com sono... Hummm... Tomamos muito vinho... Moça: Ai, mas como vocês são bobas! Uma dorminhoca, outra cansada... Esses pães estão sem sal. Venham, vamos cantar, pois quem canta o sono espanta! Vamos! Anita: Sim, vamos cantar trovinhas... Ei, vejam, minha lâmpada está se apagando... e eu não trouxe mais azeite... Moça: E nem eu, mas não se preocupem que este aqui deve dar... Moça: Ei, parem de discutir e vamos às trovas! Jesus: As amigas da noiva se puseram a cantar para passar o tempo. Suas vozes jovens e alegres chegavam até nós... Moças: ... Já vem o meu amor, pelo campo ele já vem / pelo campo ele já vem, já escuto sua voz... Jesus: Quando o céu já estava salpicado de estrelas, a cantoria da moças, cansadas pela espera, tornou-se mais lenta... De longe, vimos que algumas das lamparinas haviam deixado de brilhar... Uma moça: Ei, Anita, veja só essas aqui, dormiram e suas lâmpadas se apagaram... Outra moça: Elas disseram que não tinham mais azeite... Moça: Pois deixem-nas pra lá... Que continuem sonhando com os anjinhos! Anita: Hummm...! Ui, Miriam, estou com tanto sono que meus olhos estão fechando...! Hummm...! Rubem: Bem, companheiros, acabou-se o barril e acabou-se a despedida de solteiro! Um amigo: Chegou o momento, Rubem. Firme bem os joelhos, que agora você é o rei da festa! Outro amigo: Hip! O último brinde por este homem que até que enfim vai encontrar a costela que lhe faltava! Jesus: Então, quando já era meia-noite, nos pusemos a caminho para a casa onde se ia celebrar a grande festa, o encontro dos dois noivos... As moças estavam adormecidas, junto à porta, recostadas umas sobre as outras... Amigo: Ei, vocês, o noivo já está chegando!... Não vão recebe-lo? Moça: Ah... ai, o noivo está chegando!... Acorde, Anita!... Você também, Miriam! Anita: Ui, minha lâmpada se apagou! Moça: E a minha também! Outra moça: E também a minha! E agora, o que vamos fazer? Ai, meu Deus! Moça: Arrumem-se como puderem! Eu não tenho nem mais uma gota de azeite! Outra moça: É isso que dá serem descuidadas! Corram, vão comprar mais na barraca de dom Sabas, quem sabe ele lhes vende um pouco! Moça: E vejam se chegam a tempo para entrar na festa! Outra moça: Corre, Anita, corre!... Ai, Deus santo! Jesus: As cinco moças que não haviam levado azeite suficiente saíram correndo à toda para compra-lo na praça. Enquanto ainda estavam longe, nós chegamos à casa, cantando e aplaudindo o noivo... Moças: Abre a porta, amada, que o noivo pede entrada! Rapazes: Abre a porta, amor, que chegou o seu senhor! Moças: Abre a porta, donzela, entre todas a mais bela! Rapazes: Abre a porta, amor meu, que aqui fora está um breu! Jesus: As outras cinco moças, com suas lâmpadas acesas, nos abriram a porta e nos acompanharam até dentro de casa, onde a noiva esperava ansiosa, vestida de azul, com uma coroa de flores de laranjeira na fronte... Um homem: Vamos lá, que comece a grande festa! Jesus: A porta da casa foi trancada. E começou o baile, o jantar e a alegria de todos os convidados... poucos minutos depois, chegaram correndo as cinco moças descuidadas que haviam ido comprar azeite na barraca... Anita: Ei, vocês, abram a porta!... Já estamos aqui! Moça: Abram a porta, por favor!... Deixem-nos entrar! Empregado: Quem está esmurrando a porta, heim? Moça: São as outras cinco companheiras. Não trouxeram azeite suficiente e agora chegaram atrasadas! Anita: Abram a porta, por favor, queremos entrar! Empregado: Fora, fora, a porta já está trancada! Anita: Por favor, deixem-nos entrar, por favor! Empregado: Não amolem, caramba! Caiam fora daqui! A culpa foi de vocês! Quem mandou vocês dormirem e chagar tarde? Pedro: E o que aconteceu então, Jesus? Depois de tanto esperar tiveram que ficar do lado de fora sem entrar na festa? Jesus: Bem, Pedro, acontece que essas moças não souberam ficar alertas. É como se diz: Deus só ajuda, quem cedo madruga. Tiago: Bem feito para elas. Por serem tontas e dorminhocas. Pedro: Sim, está bem, está bem, as moças não foram lá essas coisas. Mas... e o noivo... o que o noivo fez, Jesus? Afinal, não abriu a porta? Jesus: O noivo fez o que fazem todos os noivos, Pedro. Quando ficou sabendo do que estava acontecendo lá fora... Rafael: Ei, rapazes, como estão passando esta noite? Os pastéis estão bons? E o vinho? João: Está tudo muito gostoso, Rafael. Brindamos por você e por Lulina! Rafael: E eu brindo por vocês, meus amigos! Brindo por todos! Rafael, o noivo, se aproximou de onde estávamos comendo... Vinha radiante de alegria... Rafael: E aí? Já estão preparando o casamento de algum de vocês? Jesus: Não, de verdade, não. Estamos aqui contando histórias de casamento, que dá menos trabalho. Escute, Rafael, a propósito, suponha você que nesta noite, cinco das moças, das amigas de Lulina, tivessem chegado tarde à festa porque não tinham azeite. E quando voltaram da compra, encontraram a porta trancada. O que você faria, Rafael? Deixaria entrar ou não? Rafael: Mas, é claro que sim, Jesus! Como poderia deixa-las ali fora, com esse frio? As portas da minha casa estão abertas e não se fecham a noite toda. Hoje é o dia mais feliz da minha vida e não quero que ninguém fique de fora! Bem, continuem se divertindo, amigos! Tiago: Até daqui a pouco, Rafael! Jesus: Está vendo, Pedro? Foi isso mesmo que o outro fez. Todos os noivos fazem o mesmo... Anita: Por favor, deixem-nos entrar, por favor! Empregado: Não amolem mais, caramba! Sumam daqui! A culpa é de vocês. Quem as mandou dormir e chegar tarde? Rubem: Mas, o que está acontecendo aqui, Teodoro? Com quem você está brigando, com os fantasmas? Empregado: Com fantasmas, não, meu senhor. Com cinco mulheres irresponsáveis que não chegaram a tempo. Pior para elas. Que se agüentem lá fora. Porque é isto que foi ordenado: trancar a porta. Rubem: Pois vai abrindo, ande! Empregado: Como disse, meu senhor? Rubem: Para abrir as portas de par em par! E que entrem essas cinco moças, que devem estar muito cansadas! Já esperaram muito tempo! Vamos, apresse-se, abre a porta e que entrem todos os que quiserem entrar! Hoje é um dia alegre e quero que todos estejam comigo! Isto é um casamento, sim senhor, e a festa é para todos. Jesus: Sim, todos os noivos fazem a mesma coisa. Porque a alegria do casamento torna seu coração deste tamanho... E eu penso que Deus fará a mesma coisa, ao final, à meia-noite, quando chegarmos à sua casa com pouco azeite em nossas lâmpadas... As cítaras e os tamboretes da festa continuaram tocando até de madrugada. E até de madrugada continuamos dançando e celebrando a alegria grande daquele casamento, com as portas abertas, de par em par... As bodas eram festa de grande alegria em Israel. Ordinariamente, duravam sete dias, em que se passava comendo, cantando, dançando. Embora os costumes variassem em muitos detalhes de região para região, havia sempre um momento culminante: o encontro dos noivos. Na tarde do primeiro dia da festa levavam a noiva para a casa dos pais do noivo, onde ordinariamente se celebrava o banquete e onde se preparava o quarto dos novos esposos. O noivo saía ao encontro de sua mulher com um turbante especial que sua mãe lhe havia confeccionado: a “coroa”. Seus amigos o acompanhavam e era costume que um grupo de moças, com cânticos e tochas, saíssem ao seu encontro, para todos se reunirem depois na casa onde se celebrava a festa. A noiva aparecia diante de seu futuro esposo coberta com véus e muito enfeitada. Na celebração, era costume que homens e mulheres dançassem e comessem separados. A chamada “parábola das dez virgens” só é contada no evangelho de Mateus. Com ela o evangelista quer fazer uma catequese à comunidade sobre a vigilância. Correm tempos difíceis e quando chegar a hora do julgamento definitivo de Deus, ninguém deve se sentir seguro. É preciso ter azeite para reposição, é preciso estar preparados, que ninguém durma em seus lauréis mas que vele alerta. Mateus quis dizer tudo isso nesta parábola, que termina dramaticamente com a porta trancada, para indicar a seriedade do tema de que está falando. Neste episódio, sem contrariar o sentido catequético da parábola, ao final a porta fica aberta. Dos muitos elementos simbólicos que entram em jogo nesta história, mais que reforçar os do azeite ou o da noite de vigília, coloca-se a tônica em outros: o noivo, o casamento. Do ponto de vista de uma catequese cara aos cristãos, deve-se insistir nos primeiros. Mas do ponto de vista missionário, para mostrar como Deus é, que seu modo de agir a respeito de nossas categorias humanas é sempre surpreendente, é válido destacar outros. O homem deve vigiar e levar isso muito a sério, mas Deus, seu amor, sua misericórdia, sempre superarão nosso coração (1 João 3, 20). Certamente, nesta parábola, se está falando do final dos tempos, do dia do juízo e do acerto de contas. É uma parábola escatológica. Durante muito tempo, uma pregação unilateral aterrorizou o povo frente a este dia final. O medo do inferno, o fogo e seus castigos, foram constante tema dos pregadores para pressionar as pessoas a mudar de vida, a “converter-se”. Esta crosta pesa ainda sobre os cristãos. A partir destas idéias tenebrosas, a imagem que muitos fazem de Deus é bem mesquinha: um policial que leva em conta os atos bons e os atos maus e que, para nos amolar, nos enviará a morte quando menos esperarmos, quase que gozando por pegar-nos em falta nesse dia e mandar-nos de cabeça para as caldeiras de azeite fervendo. A vigilância cristã se reduz assim ao temor e à necessidade de acumular méritos para quando chegar a hora má (morrer com o escapulário pendurado, fazer as nove primeiras sextas-feiras, ganhar indulgências, podem nos salvar no último momento dos caprichos de um deus vingativo). Diante de tudo isso, precisamos nos abrir para a realidade do Deus de Jesus. Um Deus alegre, que prepara um banquete de casamento para nos receber na outra vida, capaz de compreender nossas fraquezas, que quer nossa felicidade, “sempre maior que nosso coração”. (Mateus 25, 1-13)
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