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Capítulo IV OS CANIÇOS RACHADOS A voz do profeta João estremecia o deserto de Judá e ressoava no coração da multidão que se reunia para escutá-lo às margens do Jordão. João anunciava um mundo novo com que todos nós sonhávamos. Batista: O fogo do Senhor limpará os crimes e os abusos que cobrem esta terra como uma lepra. E Deus fará então coisas maravilhosas, nunca ouvidas. Criará novos céus e uma terra nova e neles reinará por fim a justiça. Não se escutarão mais prantos nem gemidos... Enquanto João falava, Jesus se afastou de nós e se pôs a caminhar. Foi se distanciado das margens abarrotadas do Jordão até onde não havia tanta gente... André e eu nos olhamos e nos pusemos a segui-lo... Eu me lembro que eram quatro horas da tarde... João: Pra onde será que ele vai agora, André? André: Eu não sei... talvez queira tomar um pouco de ar... Ali embaixo não há quem consiga respirar, João... Escute, o que foi mesmo que Felipe disse que ele fazia?... Em que ele disse que trabalhava?... João: Bah!, disse que era um “conserta-tudo”, imagine só, naquela biboca de Nazaré, pouco trabalho terá... Lá até os ratos morrem de fome... Ah... ah... atchim!!! Quando espirrei, Jesus olhou para trás e viu que André e eu o seguíamos... Jesus: Caramba, nem tinha percebido vocês... João: Ahtchim!... Maldição!... Acho que peguei esse resfriado quando me meti no rio para batizar-me... Ah...Ah... Quando saí tinha um arzinho frio que... Ahtchim!... Maldição! Jesus: Aonde vocês estão indo? André: E você pra onde ia? Jesus: Não, não ia pra lugar nenhum... Faz muito calor ali... E esses mosquitos acabam com qualquer um... Saí pra dar uma volta... André: É, pois nós também... João: Pedro tem razão... Essa peste de rio enjoa qualquer um... Aqui pelo menos se pode respirar... André: É, a verdade é que está fazendo um calor... João: Preste atenção no que eu digo: isso aqui é como o forno da Babilônia... André: Bem... é um calor que... hum hum... Jesus: Escutem, porque não nos sentamos um pouquinho ali em baixo daquelas palmeiras? João: Boa ideia, Jesus, porque... pense bem, com este calor... Nós dois queríamos conversar com Jesus. Mas, claro, não sobre o calor. Não sei, aquele moreno de Nazaré nos pareceu simpático desde que o vimos chegar com Natanael e Felipe. Queríamos saber mais coisas a respeito dele... João: Então, o Felipe disse que você é uma espécie de “conserta-tudo”... Como é isso, um tipo de pedreiro? Jesus: Pedreiro não... bem, pedreiro sim...e ferreiro e carpinteiro. Um faz-remendos, vamos. O que aparecer. Em Nazaré é difícil ter um trabalho fixo... Vocês já estiveram lá?... Aquilo é muito pequenino. Tem de se ter o olho aberto e pegar o que vier. André: Mas você... vive com quem?... é casado?... Jesus: Não, eu não. Eu vivo com minha mãe. André: E seu pai?... Jesus: Bem, ele morreu há algum tempo, quando eu tinha uns dezoito anos... João: E aí?... Não pensa em se casar? Jesus: Pois, olhe rapaz, eu conheci uma garota... Mas, como lhe dizer... não via claro... João: É, eu imagino. Em Nazaré, com meia dúzia de mulher feia, deve ser difícil encontrar alguma que valha a pena. O que você tem de fazer é vir para Cafarnaum. Lá a vida é bem diferente. Há bom trabalho, mais ambiente... Jesus: Vocês quatro são pescadores, não é isso? André: Sim, temos um negócio com Zebedeu, o pai deste aqui, e que tem um gênio pra lá de ruim, o condenado! João: Espere aí, ô magricela, vai se meter com o pai de outro... deixe o meu tranquilo!... André: Bem, Jesus, mas você... como é?... trabalhando nesse tipo de serviço e... e nada mais?... Jesus: Como nada mais?... Nada menos!... Escute, você sabe o que é sair todos os dias em busca de trabalho? Isso não é fácil. André: Sim, claro, não quis dizer que... bem, você sabe.. o movimento... não funciona lá em Nazaré? Jesus: Vocês são zelotas? João: Não, nós não... Bem, sim... quer dizer... O movimento é a única esperança que nos resta de tirarmos esses malditos romanos de cima de nós! Você não acha, Jesus? Jesus: Pois eu não sei... francamente não sei. João: Como não sabe? Você tem de saber. Jesus: Está bem. Há que saber também qual é o animal que tem as patas na cabeça. João: Eu não sei... qual é? Jesus: O piolho! João: Como o piolho? Ah, sim, as patas dele na minha cabeça! Essa foi muito boa, sim! Jesus: E essa é pra você, André: em que um piolho se parece com um romano, eh? André: Um piolho... com um romano? Jesus: Tá na cara, homem! Os romanos também têm as patas colocadas na nossa cabeça! João: E são uns animais também!... Muito bom! Muito bom! Conta outra, Jesus... Eu me lembro daquele dia como se fosse hoje. Fecho os olhos e ainda vejo diante de mim Jesus com aquele sorriso largo que tantos amigos ganhava. Bastou meia dúzia de piadas, umas histórias bem contadas, a confiança que teve em compartilhar conosco as preocupações que lhe faziam comichões por dentro e que o haviam trazido até João o batizador... e já era como se nos conhecêssemos desde sempre. O moreno era um desses homens com quem a gente topa uma única vez e depois não esquece nunca mais na vida. João: Quando eu contar essas piadas pro Pedro...! André: E de onde você tira todas essas histórias, Jesus? Jesus: Bah!, como em Nazaré as noites são muito longas, nos juntamos num grupo de amigos e cada um inventa uma história, o outro conta uma lenda... para matar o tempo, entende? André: E agora, o que vai fazer? Voltar a Nazaré e continuar matando o tempo? Jesus: Bem, isso é o que eu não sei. Por um lado eu gosto da vidinha de lá. E tenho de preocupar-me com minha mãe que está sozinha... Mas, por outro lado, não sei, às vezes sinto vontade de me pôr a correr, de escapar... André: De escapar de quem? Jesus: Não, escapar não... Não sei, viajar, ir a Jerusalém, conhecer o mundo, entende? João: Pois faça que nem o Felipe. Compre uma carroça e uma corneta e se ponha a vender amuletos e badulaques por todas as cidades. Jesus: Mas isso deve ser complicado, não?... Não sei, eu queria fazer outra coisa... Quando ouço o profeta João, digo para mim mesmo: Isto sim é que vale a pena, esse homem está ajudando as pessoas... Mas eu, o que estou fazendo pelos outros? João: E o que faço eu? E o que faz esse magricela...Bah, aqui somos todos uma calamidade. Mas veja, você que tem uma lábia tão boa, podia comprar uma pele de camelo e se pôr a batizar na outra margem do rio... Isso, mete-se a profeta! Jesus: Não fale bobagem, João. E eu tenho lá cara de profeta? Um camponês como eu, que nem estudou as Escrituras e que treme os joelhos quando tem de ler na sinagoga... João: Bah, isso é no começo. Qualquer um se acostuma a tudo. No começo o mar me dava medo. E já levo mais de quinze anos lançando a rede no lago! André: Você não gostaria de ser pescador como nós, Jesus? Jesus: Sim, mas... acontece que nem sei nadar. Na primeira e vocês me tiram afogado! João: Não, homem, venha a Cafarnaum. Só os gatos têm medo de água! Jesus: Pois se você soubesse... na noite passada sonhei com o mar... André: Ah, sim? Conte, conte esse sonho. Jesus: Foi um sonho esquisito. Me deixou preocupado. Olhem só: eu estava assim, como agora, diante do mar. Então, de dentro da água saiu o profeta João. Olhou-me, mostrou-me uns caniços na margem e se afastou para o deserto. E eu não o vi mais. André: E daí, o que aconteceu? Jesus: Depois veio um vento muito forte que balançava os caniços da margem, os rachava, os partia... E se armou um redemoinho com o vento e eu senti que o vento me agarrava por todos os cabelos, como quando João agarra os que vêm se batizar, e me levantou e me levou até os caniços que estavam rachados e partidos... João: E o que você fez? Jesus: Agachei-me e me pus a consertá-los. Eram muitos caniços rachados... Eu os ia levantando um a um. Era um trabalho difícil, mas eu gostava, me sentia contente. E então acordei. João: Veja lá, homem! E por que esse sonho o preocupa? É um sonho até meio aborrecido, eu acho... Suas piadas são melhores... Jesus: Mas eu estava contente arrumando os caniços rachados, me sentia feliz, nunca havia me sentido assim... João: Bem, está certo, cada um se diverte como pode... Jesus: Não. O que acontece é que, quando o profeta João, agora pouco, estava falando do novo céu e da nova terra, voltei a sentir a mesma alegria... Por isso acordei do sonho... João: É, acho que de tanto ouvir João o batizador falar de Messias, de Libertação, todos nos pusemos a sonhar com isso. E, pelas cabeleiras desse João, esse libertador há de ser um grande sujeito! Esse sim construirá a terra nova... Vocês sabem como eu imagino a nova terra do Messias? Primeiro de tudo, sem romanos. Esses, fora. Sem eles acabarão os impostos e os abusos. Fora também Herodes e sua turma... vermes podres! Esses têm de ser esmagados! Fora também os publicanos traidores...! Jesus: Epa, vai devagar, que na nova terra tem de caber muita gente dentro. E o que você está fazendo é jogar gente fora... João: Já disse o profeta: O Messias queimará todo o lixo e arrancará pela raiz os ramos velhos... Jesus: E os caniços que ficam dobrados, quase quebrados? João: E para que serve um caniço rachado? Não acredito que o Messias se ponha a consertá-los como você em seu sonho... André: E você, Jesus, como imagina que será a nova terra? Pedro: Eh!! Onde vocês estão...? Onde se meteram!? André: É meu irmão Pedro. Já está dando as caras por aqui... Pedro: Eh! Pessoal de Cafarnaum! Cadê vocês? João: Aqui, Pedro! Pedro: Mas, onde é que vocês se meteram nesse tempo todo? André: Estávamos aqui falando do Messias... João: Ô, narigão, esse moreno Jesus sabe cada piada... Pedro: Bah, piadas!. Aqui a gente tem de aproveitar o tempo. Nós descemos pelo rio e descobrimos um lugar cheio de caranguejos. Natanael fez uma sopa que está... hum... Vocês não têm fome? Vamos lá. Jesus: Ei, Pedro, você se chama Pedro, não é? Estive pensando ontem. Eu nunca havia ouvido esse nome... João: Que nada! Ele se chama Simão! Jesus: E por aqui se diz Pedro? Pedro: Ah, Jesus essa é uma outra história... Falaram pra Jesus do Movimento? João: Bem, você sabe. Este aqui se mete em todas as brigas e confusões. Não faz mais que gritar e atirar pedras... Por isso lhe pusemos o apelido de Pedro: pedro-pedra, pedra-pedro, entendeu? Jesus: Ah, então você é Simão, mas por isso o chamam de Pedro... Pedro: Bem, parem de ficar falando de mim e vamos com os outros tomar uma sopa de caranguejos... Hum... o cheirinho está chegando até aqui... Hummm... Ao ataque, companheiros! A noite caía sobre Betabara. A margem do rio começava a ficar salpicada de fogueiras e todo o campo cheirava a comida feita na hora. O fato é que André e eu então não entendemos muito o sonho que havia impressionado tanto a Jesus. Agora, já velho, recordando aquele dia em que Jesus começou a ser meu amigo, e longe daquela terra em que conheci o moreno, tudo fica claro. Os antigos escritos de Isaias já o anunciavam: ele endireitou os caniços rachados e não apagou uma só das mechas que ainda davam uma chispa de luz. Jesus, como qualquer um de nós, foi um homem de busca. Buscou resposta às perguntas que a vida e a realidade iam lhe colocando. E buscou, fundamentalmente, como orientar seu serviço a Deus e aos homens nas circunstâncias de conflito em que viviam seus compatriotas. Jesus realizou esta busca por meio da reflexão e da oração, mas também compartilhando com seus amigos inquietações e perguntas. A busca da própria vocação não é um processo individualista. A comunidade, os irmãos ajudam a ver mais claro e nos dão forças com sua solidariedade para que tomemos as decisões que Deus, através da realidade, exige de nós. O estilo de muitas expressões de Jesus que o evangelho nos conservou, nos permite ver nele um homem espirituoso, simpático, agudo. Um homem com anedotas, valendo-se de histórias e contos. Também com aquilo que hoje chamamos chistes ou jogos de palavras. Todos os povos da antiguidade, e ainda muitos atualmente, atribuem uma grande importância aos sonhos. Acredita-se que os sonhos permitem ao homem colocar-se em contato com Deus e descobrir neles anúncios do que acontecerá no futuro. Em Israel também estava espalhada essa crença e se dava uma significação especial a determinados sonhos. Nas Escrituras, tanto no Antigo como no Novo Testamento, contam-se alguns desses sonhos, reveladores do futuro ou dos planos de Deus sobre os homens (Gn 27,5-10; Dan 7,1-28; Mt 1,18-25). Sem cairmos na superstição, essas crenças apontam para algo profundamente verdadeiro: Deus se aproxima do homem, na vigília ou em sonho, através daquele que vê, como através de sua psicologia e dos caminhos complexos de seu cérebro. E um crente deve saber descobrir isso através de qualquer experiência. O sonho que Jesus conta a João e André, recolhe uma das mais lindas profecias messiânicas de Isaias (42,1-4), na qual o profeta descreve o Messias como um mensageiro da infinita misericórdia e paciência de Deus, justo, porém não intolerante, lutador mas não dominador. (João 1,35-39)
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