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Capítulo XXXIX AS PERGUNTAS DE ISMAEL Ao pé do monte Tabor há um povoado pequeno e rodeado de palmeiras chamado Deboria, em lembrança a Débora, aquela mulher valente que lutou ali pela liberdade de seu povo... Em Deboria vivia Ismael. Ele tinha uma oficina de peles e um único filho, Alexandre... Naquele dia havia festa na casa de Ismael. Seu filho havia se comprometido em casamento com Rute, uma vizinha jovem e bonita. E já pensavam em marcar a data do casamento... Uma mulher: Pode crer, essa moça tem sorte. Alexandre é um excelente partido para ela. Vizinha: É verdade! Bom moço, trabalhador e com um pai tão religioso, não é mesmo? Mulher: Que Deus os abençoe e que sejam sempre muito felizes! Alexandre dançava na roda dos homens. Seus companheiros o empurraram ao centro e começaram a aplaudir para que ele dedicasse uma trova à sua noiva... Era um rapaz muito alto e forte, cheio de vida... Alexandre: “As estrelas no céu / não terão tanta alegria / como eu quando lhe canto / adorada... aaii!” Então aconteceu aquilo. Alexandre, como que fulminado por um raio, despencou no chão debatendo-se e soltando espuma pela boca... Seus companheiros se lançaram sobre ele sem saber como ajuda-lo... Um amigo: Ei, avisem logo o velho Ismael! Seu filho teve um ataque! Uma mulher: Alexandre está passando mal! Amigo: Mas, por Deus, deixem-no respirar!... Não empurrem!... Uma vizinha: Já está mais tranqüilo. Vamos, Ismael, ajude-me a leva-lo para dentro... Pobre rapaz! Ismael: Já aconteceu uma vez quando era menino... Eu pensei que estivesse curado e, veja só, justamente hoje quando ia anunciar seu casamento... Vizinha: Não se preocupe, Ismael! Se Deus quiser, não haverá de acontecer de novo. Tenha confiança. Ismael: É, assim espero. Que Deus te ouça, Sara, que Deus te ouça... Mas a partir de então, a doença se agravou. Os ataques se repetiram uma e outra vez. Durante a refeição, ou na oficina de peles onde trabalhava com seu pai, ou caminhando pelo povoado, a qualquer momento, o mais inesperado, Alexandre ficava com os olhos em branco, pulava como que ferido por um chicote e caía no chão, rangendo os dentes e retorcendo-se com tanta força que quatro homens não conseguiam segura-lo... Depois, quando se levantava, muito cansado, o rapaz não se lembrava de nada do que aconteceu... Ismael: Deus meu, ajude-me... É meu único filho, minha única alegria. Cura-o, Senhor... eu te peço, suplico-te com todas as minhas forças... Diga que ele nunca mais terá esses ataques!... A cada noite a mesma oração. E depois, sempre, o mesmo desengano. A enfermidade de Alexandre ia de mal a pior... Médico: Sinto muito, Ismael, mas o que lhe podemos dizer? Ismael: Vocês estudaram, conhecerão algum remédio, alguma erva... Médico: Esta é uma doença tão ruim que não sabemos nem como se chama. Tão ruim que deve ter sido inventada pelo próprio demônio. Ismael: Mas vocês são médicos, caramba... Médico: Ismael, a doença nasceu muito antes da medicina. Corre sempre com vantagem... Uma vizinha: Conforme-se, Ismael. A vida é assim. Ismael: Conforme-se, conforme-se! É fácil dizer isso, não é mesmo? Acontece que não é seu filho... Vizinha: Está bem, mas o que se vai fazer? Continuar cutucando o aguilhão para que doa mais a espetada?... Você não é o único que sofre, Ismael... Veja minha pobre comadre Lia, com o filho que nasceu bobo. Está pior que você, não? E o Rubinho. Da pedrada que lhe deram, ficou cego. E a Rebeca, essa pobre infeliz, com mais corcundas que um camelo... Ismael: Está bem, está bem, não precisa fazer a lista dos doentes do povoado. Eu já a conheço: Rebeca, aleijada, o neto do meu compare com o rosto queimado, o filho da Anita, sem pernas, o outro sem braços... E daí? É esse o consolo que me dá? Vizinha: Bom, dizem que mal de muitos, consolo de... Ismael: De tontos, sim. De tontos! Que há outros piores que meu filho Alexandre, que sofrem mais que eu? E o que isso me resolve? Nem a minha alivia a deles, nem a deles alivia a minha. Vizinha: Mas é preciso se conformar, Ismael. Ismael: Pois eu não me conformo! Não! Não posso ver meu filho, de dezoito anos, transformado num trapo qualquer. Seus amigos já não se aproximam dele. Têm pena. A noiva o deixou plantado. Tem medo dele... Resignar-me a ver meu filho jogado ao chão como um cão raivoso? Vizinha: Conforme-se com a vontade de Deus. Ismael: A vontade de Deus! Então foi Deus quem mandou esta doença para meu filho? E por que, pode-se saber, por que? Um amigo: Porque você é um pecador, Ismael. E Deus o castigou do jeito que lhe dói mais. É isso que acontece. Ismael: Ah, é mesmo? É essa então a justiça de Deus? Os pais comem uvas verdes e os dentes dos filhos ficam cariados. Que ele castigue a mim, se quiser. Mas meu filho não fez nada de mal! Amigo: Isso é o que você não sabe. Ninguém é inocente diante dos olhos de Deus. Ismael: Pois se ninguém é inocente que ele nos castigue todos juntos. Mas por que meu filho e não o seu? Por que, diga-me, por que? Amigo: Porque Deus faz o que quer. O que ele faz está bem feito. Quem é você para pedir contas a Deus? Ismael: E a quem vou pedir, se não a ele? Quem tem a culpa por meu filho estar doente? Vamos, diga-me, quem? Rabino: Deus não tem a culpa, filho. Como pode falar assim de Deus. Deus é bom... É nosso pai e quer nossa felicidade. Ismael: Se ele é tão bom, por que não cura o Alexandre? Eu já pedi a ele, supliquei dia e noite. E ele não me ouve. Rabino: Sim, ele ouve, Ismael, mas... Ismael: Mas, o que? Ele não é Deus? Não pode tudo? Por que não cura meu filho, se pode fazê-lo? Rabino: Às vezes, de um mal, Deus tira um bem. Ismael: E não seria mais fácil tirar o mal? Assim acabaria mais de pressa. Rabino: Muitos males e muitos sofrimentos são causados por nós mesmos. Veja o louco Saul, se apodreceu as tripas de tanto beber. E agora a viúva vem jogar a culpa em Deus! Ismael: Meu filho se chama Alexandre e não Saul! Meu filho não fez nada de mal para ficar doente! Rabino: Quem sabe o que Deus estará planejando! Os caminhos de Deus são misteriosos. Ismael: Claro, e com tantos mistérios você quer me tapar a boca. Mas não, escute bem, não me calarei. Pois Deus não tem direito de fazer isso com meu filho. Você diz que Deus é Pai. Será que o coração dele não fica apertado vendo sofrer tantos filhos seus? Que Pai é esse então? Será que não sofre vendo meu filho se debatendo no chão? Rabino: Deus não pode sofrer, Ismael, porque... porque é Deus. Ismael: Então não é pai coisa nenhuma! Que vá cantar em outra freguesia! Rabino: Você não sabe o que está dizendo, Ismael. Tranqüilize-se... Ismael: Não, eu sei muito bem o que estou dizendo. Tenho rezado dia e noite e Deus não me responde. Levantei meu rosto ao céu e disse: por que? Por que maltratas meu filho? O que ele fez?... Se ele é mau, faça sofrer a mim e não a ele. Se é bom, por que não o curas? O que custaria a ti que tudo podes?... Mas Deus não me responde nada. Ele se faz de surdo. Ele se tapa os ouvidos. Rabino: Vamos, Ismael, vai para casa. Descanse um pouco. Esse momento ruim vai passar. Ismael: Sim, este meu momento ruim vai passar. Mas meu filho Alexandre continuará doente. Você voltará ao seu trabalho e à sua vida. Mas Alexandre continuará doente. E Deus continuará ouvindo os anjos cantarem lá em cima. Mas meu filho, doente e amargurado aqui em baixo! Por que, por que, por que?... Rabino: Tenha paciência, Ismael. Só isso eu posso lhe dizer: paciência e mais paciência. Ismael: Não. Guarde sua paciência para você mesmo, pois ela não me serve de nada. Não se preocupe, já não vou perguntar mais. Eu já sei a resposta. Sabe por que Deus não cura meu filho? Sabe por que?... Por que ele não existe!... E não me olhe com essa cara. Esta é a única desculpa que ele pode dar a nós homens, que não existe. Esta é a verdade. O céu está vazio. E quando rezamos, a oração volta e cai na nossa cara, como quem cospe para cima. Aquele dia era dia de feira no povoado de Deboria. Pedro e Tiago, Jesus e eu, passamos por lá quando descemos do monte... Em uma barraca, um homem já de idade, com umas olheiras muito grandes, como quem havia chorado muito, nos mostrava umas sandálias de couro... Ismael: É de couro bom, forasteiros, reparem bem... Ao seu lado, um rapaz alto, de olhos assustados, nos fazia sinais para mostrar-nos outras mercadorias... Ismael: Dois denários e você as leva já calçadas. Animem-se... Alexandre: Aiii...! Ismael: Alexandre, filho... filho...! Alexandre: Aggg...! Aggg...! O rapaz havia dado um pulo caindo sobre uma barraca de frutas ao lado. Retorcia-se entre espasmos. Ismael, o pai, tentava separar-lhe os dentes e colocar um pano em sua boca para que não mordesse a língua... Um amigo: Para que você o traz à feira, caramba? Deixe-o em casa ou tranque-o. É perigo, maldição! Ismael: Não, não amaldiçoe meu filho que não fez nada. Amaldiçoe a Deus que tem culpa dele estar assim! Então Jesus se aproximou do pai do rapaz... Jesus: Há quanto tempo ele tem esta doença? Ismael: Desde criança. Passou uns anos bem, mas agora... Uma mulher: Ismael, este homem que está lhe perguntando é o nazareno do qual tanto se fala. Dizem que é um profeta de Deus e que já curou muita gente... Ismael: Profeta? Você é profeta? Você fala com Deus? Pois vai e pergunte isto da minha parte: por que meu filho sofre, por que, porque...? Perdoe-me forasteiro, é que... é que eu já não agüento mais... estou cansado. Cansado de rezar. Mas Deus não faz caso de mim... Se você é um profeta... talvez possa fazer alguma coisa por meu filho. Jesus: Você tem fé? Acredita em Deus? Ismael: Eu já nem sei mais em que acredito... Jesus se agachou, pôs-se junto ao rapaz que respirava entrecortadamente e lhe enxugou o rosto banhado de suor... Jesus: Apesar de tudo, há esperança... Ismael: Não vai me dizer mais nada? Jesus olhou longamente o pai do rapaz. Estava, como ele, com os olhos marejados... Jesus: Se lhe dissesse que Deus também sofre por seu filho, você acreditaria?... E que de seus olhos também saltam lágrimas, vendo a dor de tantos doentes... Não, você não está só, irmão. Deus está com você. Ele se põe ao seu lado e o sustenta... Que mais posso lhe dizer?... Venha, vamos leva-lo para casa. E deita-lo para que descanse. Vamos, ele já está mais tranqüilo... Ismael: Ele voltará a ter outro ataque? Jesus: Embora possa acontecer, a esperança é possível... Jesus ajudou o velho Ismael a levantar seu filho do chão para acompanha-lo até sua casa. Depois, colocou um braço nos ombros de Alexandre e foi caminhando em silêncio com ele e com seu pai pelo caminho empoeirado que atravessa o pequeno povoado de Deboria, junto ao monte Tabor... Ao pé do monte Tabor estava situada Deboria, uma cidade pertencente aos israelitas da tribo de Zabulon. Tinha esse nome em memória de Débora, profetiza e “mãe de Israel”, que atuou como juíza nos primeiros tempos da história do povo e ganhou batalhas para sua pátria. Seu canto de Vitória (Juizes 5, 1-31) é uma das obras primas da literatura hebraica. Atualmente Deboria é uma pequena aldeia habitada só por árabes. Pela descrição que o evangelho faz dos sintomas deste moço doente, pode-se deduzir que o mal de que padecia era a epilepsia. Hoje sabemos que a causa destes ataques e convulsões repentinos é geralmente uma lesão em uma parte do cérebro e que, sem poder cura-la totalmente, a epilepsia é uma enfermidade que se pode controlar. Nos tempos de Jesus nada disso era conhecido e os doentes desse tipo eram especialmente temidos. Por não conhecer de onde podia vir a doença ou o que fazer diante dela, tornava a situação angustiosa. O mais freqüente era atribuir a causa ao demônio. Também se falava do castigo de Deus por algum pecado oculto do doente ou de sua família. Diante da dor de seu filho, Ismael, o pai, reza, busca, pergunta. Não se resigna. Acaba rebelando-se, pedindo aos gritos uma resposta a Deus, que é o único que crê poder dá-la. Sua atitude, suas perguntas, são as mesmas que as de Jó. Uns quinhentos anos antes de Jesus, um autor anônimo escreveu um dos livros mais importantes e bonitos da Bíblia: o Livro de Jó. Nele se conta a história de um homem bom, que sofreu toda sorte de calamidades. As páginas do livro recolhem suas reflexões diante da dor, que considera absurda, injusta, imerecida. Confronta-se com três amigos que lhe fazem considerações piedosas, buscando as razões de sua desgraça. E, sobretudo, confronta-se com Deus, a quem torna o responsável último por seus males. Este Jó rebelde diante do sofrimento e que interpela o próprio Deus, significou uma autêntica revolução no pensamento religioso de Israel. Até então acreditava-se que já na terra o homem recebia o prêmio ou o castigo por seus atos. Ao bom, tudo ia bem, era feliz, prosperava. Ao mal, lhe tocava cedo ou tarde, fracassos e sofrimentos. O Livro de Jó vinha contradizer radicalmente essas idéias. Seu tema pode ser reduzido a um só pergunta-chave: porque os bons sofrem, que sentido tem a dor dos inocentes? Ao longo de 38 capítulos, e de todas as maneiras possíveis, Jó coloca diversas vezes a mesma questão. A partir deste livro, a reflexão do povo de Israel sobre a dor, a responsabilidade individual e os projetos de Deus, variaria substancialmente. O caso de Jó abriu caminho teórico para se começar a compreender uma possível imortalidade, a transcendência da vida humana para além desta terra. As razões de seus amigos não convencem nem Jó, nem Ismael. Diante da dor dos inocentes, não houve então, nem há hoje “razões” válidas. Nem Deus as dá. É um simplismo dizer que no sofrimento Deus sempre consola quem sofre, pois há muitas pessoas que não sentem esse consolo, que se desesperam e se amarguram, incapazes de superar a dor que padecem em si mesmas ou naqueles que amam. A dor dos inocentes é um mistério. Jesus não dá a Ismael nenhuma “razão”, não busca nem motivos nem culpados. Só lhe dá sua presença. Fica ali, junto do pai dolorido e do filho doente. Nada mais. A fé cristã não dá respostas “convincentes” para tudo e menos ainda para a dor “absurda”. E não porque proponha uma aceitação resignada, mas porque, sempre, a dor se tornará um terreno misterioso, onde talvez a única coisa que podemos fazer por nossos irmãos seja acompanha-los, compartilhando seu sofrimento (Rm. 12, 15). Evidentemente, há dores e sofrimentos diante dos quais podemos sim “fazer alguma coisa”. A morte por fome, o sofrimento das pessoas sem emprego, a dor de tantas mulheres exploradas por seus maridos, a falta de cultura de tantas crianças, a falta de moradia, de atenção médica etc., são dor e geram dores. Diante deste tipo de sofrimento não basta a presença nem a companhia. A fé cristã nos empurra a fazer muito mais. Tentar eliminar esse sofrimento, combate-lo, lutar contra ele. São outras as dores que nos deixam impotentes e reclamam do cristão uma fé e uma esperança nada fáceis. Há doenças que não se podem vencer por mais meios sanitários que se tenha. Há acidentes nos quais morrem pessoas boas, cuja previsão escapa ao controle humano. Há crianças e jovens que morrem antes de terem vivido e a causa de sua morte nos surpreende, por inesperada. Acontece o mesmo com a dor do coração humano (sentimentos não correspondidos, traições de amigos, incompreensões, fracassos, solidão). Ao final de tudo está a morte que, embora chegue “no tempo certo” sempre se torna dolorosa... São dores que nos confrontam com nossa limitação e impotência. A fé então não é um consolo, como se fosse uma aspirina. Talvez sirva unicamente como uma frágil bengala saber que Deus sofre ao nos ver sofrer, que seu coração de Pai se comove com a dor de seus filhos, que ele resgatará também nossos sofrimentos e um dia enxugará todas as lágrimas de nossos olhos (Apocalipse 21, 1-5). (Mateus 17, 14-21; Marcos 9, 14-29; Lucas 9, 37-43)
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