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Capítulo XXXVII O BASTÃO DO MESSIAS Por aqueles dias, viajamos para o Norte, para a região montanhosa de Cesaréia de Felipe, nas nascentes do Jordão. Os moradores que viviam por lá queriam ouvir falar do Reino de Deus que traz justiça e paz para a terra. Jesus: ... E se seu filho lhe pede pão, você vai lhe dar uma pedra? É claro que não!... E se ele lhe pede um peixe, você vai lhe dar uma cobra? De jeito nenhum, porque ele é seu filho! Pois é bem isso que anunciamos, que Deus é nosso Pai e nos ama. E nós, seus filhos e filhas, lhe pedimos que nos dê uma mãozinha! E Deus não nos vai falhar! Jesus, como sempre, logo ganhava a atenção das pessoas. Emendava uma história com outra e o povo de Cesaréia não se cansava de ouvi-lo... Jesus: Amigos, o Reino de Deus já está chegando! Já está chegando a libertação! O Messias está à porta. E quando ele vier, trará em uma das mãos a balança para fazer justiça e na outra um bastão para governar sem privilégios. Um homem: Muito bem falado! Que viva o Reino de Deus! Uma mulher: E que nós o vejamos depressa! Então, entre os aplausos e gritos das pessoas, apareceu um homem imenso, com a pele muito queimada pelo sol e uma barba longa, longuíssima, como a dos antigos patriarcas. Foi abrindo caminho entre todos e se aproximou de Jesus. Era um velho beduíno das estepes de Galaad... Melquíades: Não fale mais, irmão. Já é suficiente... Sou Melquíades, pastor de ovelhas, neto de Ianodab, da tribo dos recabitas, todos pastores de ovelhas, como Deus nos mandou. Atravessando o deserto aprendemos a ler o céu e também os olhos dos homens. Você tem olhos negros como a noite e brilhantes como as estrelas. Sei olhar neles... O velho beduíno se aproximou de Jesus e colocou uma mão sobre seu ombro... Melquíades: Escute, irmão. Nossas tribos andam dispersas já faz muito tempo, muitos anos, muitas gerações de anos... Andamos como ovelhas sem pastor. Obrigado por ter vindo. Tome, isto é para você. Melquíades, o recabita, levantou em sua mão direita um longo e nodoso bastão de oliveira... Melquíades: Com este bastão pastoreei meu rebanho desde que era jovem. Com ele espantei os lobos e encaminhei minhas ovelhas pelas estepes. Era do meu avô. Olhe-o: é um cajado de pastor, como o que tinha Davi em suas mãos quando o velho Samuel o foi procurar e o pôs à frente de seu povo. Jesus: E o que você quer que eu faça com este bastão...? Melquíades: É seu. Pastoreie seu povo. Você é o homem que precisamos para que as coisas mudem. Jesus: Mas o que você está dizendo, vovô...? Eu... Melquíades: Tome o bastão. E aperte-o forte entre suas mãos para que o calor de seu sangue dê vida aos nervos mortos da madeira. E o velho beduíno entregou a Jesus aquele bastão gasto e amarelo como um osso seco... Jesus: Mas, vovô, eu... Um homem: Muito bem, Melquíades. Bem falado e bem feito! Uma mulher: Estamos com você, Jesus! Conte conosco! Homem: E conosco também! Nesta noite, os treze do grupo ficamos conversando até muito tarde. O céu logo se cobriu de estrelas. Ao fundo, iluminado por uma débil luz da lua, descansava o monte Hermon. Suas encostas nevadas já começavam a derreter com a primavera... Jesus: Esse pastor recabita está maluco! Pedro: O maluco é você, Jesus, se não aproveitar o momento. O povo está entusiasmado com você! Jesus: Pedro, o povo está entusiasmado com o Reino de Deus. Tiago: E com você, moreno, com você! Jesus: Mas, Tiago, escute... Tiago: Nada disso, Jesus, não queria tapar o sol com a peneira. Você tem o povo nas mãos, igual a esse bastão. A uma ordem sua, todos se porão em marcha. Jesus fazia rabiscos na terra com o cajado longo e nodoso que o velho Melquíades lhe havia presenteado naquela tarde... André: As pessoas esperam muito de você, Jesus. Não as decepcione. Jesus: E o que é que as pessoas esperam de mim, André? André: O que esperam? Muito. Que você continue abrindo os olhos delas, que você se ponha à sua frente para que este país se endireite e que se acabem de uma vez tantos abusos e possamos viver em paz... É isso que elas esperam. Jesus: Mas, vocês estão loucos? Quem eles acham que eu sou? Judas: Eles o têm como a um profeta, Jesus. Felipe: Sabe o que uma mulher disse hoje? Que quando ela o olhava assim, meio de lado, se recordava muito de João o batizador. Que ela apostava cinco contra um que o profeta João havia ressuscitado e se colado a você pelo cabelo. Tomé: Isso é uma pi-pi-piada. Vão lhe cor-cor-cortar a cabeça de novo! André: Não, não, o que eu ouvi foi outra coisa. Dizem que o profeta Elias desceu do carro e lhe emprestou o chicote com que fustiga seus cavalos de fogo. Que sua língua tem o mesmo estalido que a do profeta do Carmelo! Jesus: Bah, bobagens das pessoas... Judas: Outro dia me perguntaram se você tinha mulher... E eu lhes disse que não. Jesus: E para que queriam saber isso? Judas: Bem, porque o profeta Jeremias também não se casou. Dizem que você se parece muito com ele. Jesus: Sim, claro. E também me pareço com o profeta Amós porque sou camponês. E com o profeta Oséias, porque sou do Norte. E daqui a pouco vão dizer que uma baleia me engoliu e me vomitou como ao profeta Jonas. E não sei de onde as pessoas inventam tantas coisas... Tiago: Não são as pessoas, Jesus, não são as pessoas... Jesus: Ah, não? Quem é então?... Não vão me dizer que vocês também... Pedro: Veja só, moreno. Já faz um bom tempo que estamos juntos... Muitos meses... Formamos um grupo... Podemos falar com confiança, não é mesmo? Jesus: Claro que sim, Pedro, para isso somos amigos... O que acontece? André: Jesus, você tem feito cada coisa diante de nós que... a bem da verdade... Bem, sem querer ir longe demais, aquela história do surdo-mudo de outro dia, lá em Corozaim. Tiago: E aquela menina, filha de Jairo... estava morta, eu vi... Felipe: E o empregado do capitão romano. André: E Floro, o paralítico. E Caleb, o leproso. E o louco Trifon. E a ... Jesus: Está bem, está bem... E daí? Deus é o único que tem o poder para curar. Deus toma minhas mãos, ou as suas ou as de quem quer que seja e faz o que bem entende. Há muita gente que faz coisas maiores ainda... Judas: Mas... não é somente isso, Jesus. É... é sua maneira de falar. Reconheça: suas palavras são como as pedras que Davi lançava com sua funda. Pedro: Você cheira a profeta, moreno. E nem com sabão se consegue tirar esse cheiro. André: Você sabe como falar ao povo. As pessoas o escutam e o levam a sério... Jesus: As pessoas, as pessoas!... Hoje dizem branco e amanhã, preto. Vocês... o que dizem vocês?... Estamos os treze reunidos agora. Falemos claramente então. O que vocês esperam de mim? Pedro: O mesmo que todos esperam, Jesus. Que você levante o bastão e se ponha à frente do povo! Jesus: Você não sabe o que diz, Pedro. Quem sou eu para fazer isso, hein? Quem sou eu? Pedro: Você? Você é o Libertador que Israel espera! Jesus: Pedro, Pedro, você está ficando louco? Como pode dizer isso? Pedro: Eu digo porque acredito, caramba! E minha língua fica coçando para dizer isso. Já disse isso à Rufina e à minha sogra. E elas duas me disseram que pensam a mesma coisa. Jesus: Pedro, Pedro, por favor... Pedro: Sim, Jesus. Você se lembra daquela noite? Eu vi com toda a clareza.. Olhe, íamos na barca, na minha. De repente, começaram os raios e o vento do Grande Mar. Uma tormenta horrível. E você apareceu caminhando sobre as ondas. E o vento se acalmou. E você me deu a mão e eu também caminhei sobre o lado, não compreende? Jesus: Sim, sim, compreendo. Continue sonhando com água, que um dia você amanhece afogado... Pedro: Você é o Messias, Jesus. Você libertará nosso povo! Quando Pedro disse aquelas palavras, fez-se um grande silêncio entre nós. Esperávamos a resposta de Jesus. Tínhamos os olhos cravados nele que agora apertava nervosamente o bastão do velho beduíno... Tomé: Não se pr-pr-preocupe, moreno... Nós o apo-po-poiaremos. Judas: Conte conosco. Foi para isso que formamos esse grupo, não é? André: Decida-se, Jesus. Se a coisa vem de Deus, não poderá escapar dele. Pedro: Não são as pessoas, nem nós. É Deus que lhe deu o bastão de mando. Jesus foi nos olhando um a um, lentamente, como que pedindo licença para dizer aquelas palavras que lhe subiam pela garganta... Jesus: Sim, é verdade. Aos homens a gente pode enganar, mas a Deus não. Faz dias e noites que isso que vocês acabaram de dizer fica dando voltas na minha cabeça. Desde que o profeta João morreu, senti que alguma coisa havia mudado. Como se Deus me dissesse: sua hora chegou, o caminho está pronto. Pedro: Mas dizem que Deus não dá a um burro mais carga do que ele pode carregar. Vamos lá, moreno, tenha confiança! Deus não lhe faltará! Judas: E nós, muito menos! Tiago: Você não ouviu o que o velho Melquíades disse? Aperte o bastão e levante-o!... Com você iremos pra frente! Então Jesus levantou o longo e nodoso cajado do recabita, o agarrou com as duas mãos... e, de um golpe só, o partiu ao meio. Felipe: Ei, moreno, o que acontece? Por que você fez isso? Jesus: Porque... porque perseguiram Elias, Jeremias foi atirado num buraco e a João cortaram a cabeça... Olhem todos... O bastão de mando está quebrado: assim acabam os profetas, partidos. Assim acabará também o Messias. Pedro: Não fale assim, Jesus. Nós o defenderemos, caramba! Não é verdade, companheiros?... Pela boa estrela de Jacó, nada de mal acontecerá com você! Jesus: Primeiro você me empurra pra frente, e agora quer me passar uma rasteira? Não, Pedro, vamos falar claramente. Vão me partir como a este bastão. E vocês também, se lutarem até o fim. Que cada um ponha desde agora no ombro sua cruz, para depois não sermos pegos de surpresa. Pedro: Bom, Jesus, não fale mais sobre isso. Amarre firme a correia da sandália, e seja valente! Jesus: Você também, Pedro. Você vem depois de mim. Pedro: Como você disse, moreno? Jesus: Pedro... pedrada... Agora eles vão atira-las sobre você. Mas não se preocupe. Você é uma boa pedra de cimento. Não o romperão nem a marteladas. Judas: Bem, bem, não falemos de coisas tristes... O importante agora é que estamos juntos e estamos unidos! Tiago: E que vamos para frente desse jeito, às duras penas, e às moles também! André: E aconteça o que acontecer, este grupo não se esfacelará! Felipe: Isso mesmo, André! Nem o diabo, com o seu tridente, poderá alguma coisa contra nós, não é mesmo? Jesus: Claro que sim, Felipe. A amizade que nos amarrou aqui nesta terra, não iremos desamarrar nem no céu. De acordo? Tomé: De acordo! Uma boa fechadura e treze chaves, uma para cada um! Jesus: E você, Pedro, guarde o chaveiro para que as chaves não se percam! Pedro: Então, mão com mão, para sempre! Tiago: Mão com mão, companheiros! Amanheceu em Cesaréia de Felipe. Passamos a noite conversando e agora tínhamos umas quantas milhas adiante... Esticamos as pernas e nos pusemos a caminho para o Sul, rumo a Cafarnaum... O monte Hermon brilhava branco às nossas costas... A cidade de Cesaréia de Felipe foi fundada por Felipe, irmão do rei Herodes, uns três anos antes de Jesus nascer. Colocou o nome de Cesaréia em honra a César Augusto, o imperador que então governava em Roma. A cidade estava situada bem ao norte, na fronteira com a Síria. Em Cesaréia nasce o rio Jordão, que a partir dali desce e atravessa todo o país de Israel. O rio é formado por três mananciais de água, sendo um deles a fonte de Dan, que dá o nome ao rio: Jor-Dan (“o que desce de Dan”). Na linguagem bíblica, para precisar os limites geográficos da Terra Prometida por Deus a Israel, é freqüente a expressão: “De Dan até Bersheba”. Do norte, onde estava a fonte de Dan, até o ponto situado mais ao sul, a cidade beduína de Bersheba. Cesaréia de Felipe atualmente se chama Banias. Os recabitas eram um grupo de israelitas que, desde séculos, e por fidelidade a seus princípios religiosos, viviam como pastores, rechaçando a vida de agricultores sedentários. Não tomavam vinho, eram muito zelosos de suas tradições e só entravam nas cidades de passagem e em momentos muito especiais. Representavam a oposição à civilização urbana e a lembrança da velha tradição religiosa do deserto, quando Israel era um povo errante (Jr, 35, 1-19). Assim como o momento do batismo e o da proclamação da boa notícia na sinagoga de Nazaré, são momentos decisivos na consciência que Jesus vai tendo de sua missão profética, este episódio de Cesaréia de Felipe aponta também um marco em sua vida. Até este momento, Jesus, impulsionado pelo exemplo do Batista, apoiado por seus discípulos e continuamente interpelado pela dor e esperança de seu povo, se mostrou diante de seus compatriotas como um profeta. Como profeta falou e agiu. Sente-se herdeiro da tradição profética de Israel e opera com essa convicção. Em Cesaréia dá um passo a mais. De fato, a liberdade com que ele falava da Lei e a interpretava e a certeza com que se apresentava como emissário do Reino de Deus que ia mudar a história, o aproximaram cada vez mais da consciência de ser o Messias. Como é impossível determinar um lugar e um momento concreto, fixa-se em Cesaréia este “salto” da consciência de Jesus. Jesus aceita sua missão messiânica em comunidade. Deus escolheu Jesus como Messias de Israel. Mas esta escolha não estava à margem do povo de quem foi o servidor. Igualmente na Igreja e na comunidade cristã, nenhuma vocação deve vir “de cima”, nem deve ser decidida “solitariamente”. Toda vocação, carisma e serviço, por se entender que são “para” a comunidade, devem ser avaliados pelos que integram a comunidade. Assim se continuará cumprindo na história o que foi o ministério de Jesus. Quando nos evangelhos Jesus fala de sua futura paixão, de sua morte, não se deve entender isso como “profecia” no sentido mais limitado desta palavra, como se Jesus fosse um adivinho de seu próprio futuro. Se assim o entendêssemos, o final dramático que teve sua vida, não seria um fato histórico. Tudo teria estado predeterminado de fora e sabido desde o início. O que essas palavras indicam é que, a esta altura de sua atividade, Jesus já contava com uma morte violenta. Havia violado a lei do sábado – eixo do sistema – e isso era motivo suficiente para ser condenado à morte; havia sido acusado de estar endemoniado pelos poderosos sacerdotes e isto também era penalizado com a morte; havia enfrentado as autoridades, os latifundiários, havia se relacionado com pessoas que os poderosos desprezavam, e lhes havia aberto os olhos sobre sua condição de explorados, e com outros, temidos como subversivos – os zelotas - , estava levantando um autêntico movimento popular... Tanto os chefes religiosos como as autoridades políticas o consideravam cada vez mais como um elemento perigoso, um revoltoso... E isso Jesus também sabia. Por isso, tinha que considerar a possibilidade – quase a certeza – de que o matariam, como haviam matado os profetas. Sua fidelidade à missão que Deus e o povo lhe haviam confiado, fizeram-no seguir adiante apesar deste risco. E esta crescente consciência de sua importante missão não o afastou de seus amigos. Ao contrário, Jesus foi um líder que inspirava confiança, que tinha humor, que não se dava importância demasiada nem marcava “as distâncias”. Também nisto, sendo “um de muitos”, nos revelou a proximidade de Deus. (Mt 16, 13-24; Mc 8, 27-33; Lc 9, 18-22)
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