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Capítulo XXXVI Em Betsaida: Cura do cego Barnabé ; em Corozaim: cura do surdo-mudo Serápio A praça de Betsaida estava semeada de amendoeiras. À sombra de uma delas, a mais frondosa de todas, se recostava cada manhã Barnabé, um pobre velho que levava sempre sobre os ombros um grosso manto preto, cheio de manchas e buracos... Betsaida, que significa “casa do pescado”, era uma pequena cidade situada ao norte do lago da Galiléia, Nela nasceram Felipe, Pedro e seu irmão André. O tetrarca Felipe a chamou de Julia, em honra à família imperial romana que tinha esse sobrenome. Hoje não há restos desta cidade. Supõe-se que os aluviões depositados pelo rio Jordão ao desembocar no lago sepultaram a antiga aldeia pesqueira. A cegueira era uma enfermidade muito comum em Israel no tempo de Jesus. O clima seco e o sol forte influíam nisso. Em geral, a cegueira abundou em todo o mundo antigo, devido também à falta de condições higiênicas e ao desconhecimento de quais eram as causas que originavam a enfermidade.Era tida sempre por incurável e acreditava-se que era um especial castigo de Deus. O cego, por isso e pela invalidez a que o submergia seu mal, era marginalizado. Nem sempre o enfermo desperta em seus semelhantes compaixão e misericórdia. Em muitas ocasiões é motivo de chacota e é tratado com crueldade. Aquele que não serve, o diferente, o anormal, se transforma muitas vezes em motivo de riso para todos. Acontece na escola onde sempre há uma criança mais débil, ou mais gorda, ou mais feia para que os demais façam chacota dela. É uma reação humana bastante freqüente. Quando Jesus se aproxima de Barnabé e lhe devolve a visão, mostra com este sinal a proximidade de Deus com todos os desditosos e ridicularizados. Deus sente por eles um carinho especial. Ainda que aplicando normas bem críticas ao ler as histórias de milagres do evangelho – algumas duplicadas, outras excessivamente adornadas, outras com base em relatos similares de outros povos – sempre reste um núcleo absolutamente histórico. Jesus realizou curas que foram assombrosas para seus contemporâneos. Tratou-se fundamentalmente de doenças reais, ainda que relacionadas a situações sociológicas especiais. Entre elas estariam a chamadas expulsões de demônios, loucuras, histerias, epilepsia e as curas de leprosos (na ampla gama de enfermidades que esta palavra abarcava), de paralíticos, de cegos. Essas curas estariam na linha do que hoje com linguagem moderna a medicina chamaria de “terapia de superação”. Fazer aos demais o que gostaríamos que nos fizessem: esta é a chamada “regra de ouro do evangelho” (Mt 6,12). Com ela, Mateus resume todas as palavras pronunciadas por Jesus no monte das bem-aventuranças. Certamente, é uma conclusão muito prática, pois toda a Lei pode ser condensada no amor – de obras, não de palavras – que tenhamos para com nossos semelhantes. (Mc 8, 22-26) Depois de passarmos pelas cidades fenícias de Tiro e Sidon, demos uma volta por diversos povoados da Decápolis e chegamos novamente ao lago da Galiléia. Lembro-me que estávamos chegando a Corozaim quando nos deparamos com um tumulto de camponeses que corriam e gritavam furiosos... Diante de todos, à pouca distância, ia mancando e dando tropeções um homem baixinho e sujo, com uma túnica feita de retalhos. Atrás dele, encurralando-o como a um animal, corriam os homens com rastelos e pedras nas mãos... Os surdo-mudos deveriam ser abundantes em Israel, já que o livro do Levítico dá uma lei especial para esses doentes. É proibido lançar contra eles uma maldição; como não ouvem, ficariam sem defesa diante dela (Lv. 19,14). Como acontecia com muitas outras enfermidades, esta era atribuída ao demônio e a espíritos malignos. Acreditava-se que nos tempos messiânicos os ouvidos tapados se abririam e as línguas mudas se desatariam (Is 32, 1-4). Todas as enfermidades diante das quais o homem se sentia especialmente impotente, aumentavam a crença no poder dos demônios. Para enfrentar estes espíritos, faziam-se exorcismos – orações, gestos, invocações – com os quais se conjurava o diabo a sair do corpo do enfermo. Muitas vezes, esses exorcismos eram cruéis, pois como se pensava que se estava lutando diretamente com o diabo, usavam-se métodos de grande violência. Na atualidade, muitas pessoas ainda atribuem ao diabo a conduta estranha de algumas pessoas. E também hoje continua-se a fazer exorcismos aparatosos, espetaculares, com a finalidade de ganhar a batalha contra o diabo. Esta mentalidade deve ser superada, e o evangelho de Jesus é uma ajuda para libertar-se dessas crenças. No evangelho se fala de Satanás (Satan = o adversário), um dos nomes do diabo, a quem também se chama de Lúcifer, Belzebu... Mas os evangelistas usam dele precisamente quando se quer realçar fatos negativos que não podem ser queridos por Deus, mas que, tampouco, sabem bem como explicar. Ao escrever sobre o poder dos demônios, apresentam-se como homens daquela época – com todas as limitações que se tinha então em tantos campos do saber - , manifestando seu desconcerto, sua desorientação. Em seus textos, no entanto, tentam se expressar, vez por outra, usando uma linguagem simbólica, o que para eles é decisivo: Jesus tem todo o poder sobre o diabo e sua confiança ilimitada em Deus o fez ocupar-se muito pouco em combatê-lo. O evangelho vem libertar-nos do temor do demônio, desta falsa idéia, arraigada em tantas pessoas, de que há dois deuses: um bom – Deus – e outro mau – o Diabo - , com poderes parecidos, embora com intenções opostas. Toda a vida de Jesus é a alegre proclamação de que o único Deus é Pai e nos ama. A “fé” tradicional no demônio tem sido nefasta. Semeou no coração do homem o terror, nos fez acreditar que somos um joguete que os anjos maus e bons disputam entre si, até que ganhe o mais forte. É fácil lançar sobre o diabo a culpa do mal. Daquele que nós mesmos provocamos – porque queremos – e que abunda no mundo, na forma das injustiças. Neste sentido, a fé no diabo é absolutamente contrária à mensagem de Jesus, que é palavra de libertação, que reafirma a bondade de Deus que envolve o homem e a história e que exige de cada um a tomada de consciência da responsabilidade de seus atos. Outros horríveis frutos da “fé” no diabo foram as perseguições contra os endemoniados e bruxas. A caça e a queima de bruxas é um dos capítulos mais tenebrosos da Igreja européia. Desde o século XI até o XVI essas perseguições se espalharam como uma peste por todas as regiões das Europa e calcula-se que houve milhões de vítimas. A maioria eram pobres mulheres camponesas, seja porque eram as mais feias, ou por serem as mais bonitas, ou porque eram muito alegres ou por serem muito silenciosas, eram acusadas de estarem possuídas pelo demônio, torturadas e queimadas. Se, a bem da verdade, como disse Jesus, “pelos frutos se conhece a árvore”, a árvore da fé no diabo deu na história frutos tão podres e amargos, que só por isso merece ser arrancado pela raiz. Jesus foi acusado de estar endemoniado, precisamente pela enorme liberdade que mostrava diante destas e outras falsas crenças e por sua oposição aos sacerdotes e demais autoridades que escravizavam o povo com elas. Os poderosos deste mundo sempre transformam em inimigos aqueles que os denunciam como autênticos demônios. Quantas calúnias e suspeitas se acumulam sobre aqueles que lutam por um mundo diferente e melhor, apresentando-os como os próprios agentes das forças do mal. O mecanismo desta difamação sistemática é o mesmo que se usou contra Jesus. Um mecanismo que não pretende outra coisa que encobrir a verdade. O “demônio” está em outro lugar. O homem não-solidário, o homem cruel, o sanguinário e o injusto: esses são os demônios, ou na melhor das hipóteses, seus melhores cúmplices. É muito fácil recorrer ao diabo para explicar o mal deste mundo, havendo tantos e tantos homens injustos, criminosos e inimigos da vida. (Mt 12, 22-29; Mc 3,20-26; Lc 11, 14-23)
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