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Capítulo XXXV O FERMENTO DOS FARISEUS Eliazim: Bem, já estou aqui. Teria muito interesse em trocarmos impressões... Josafá: Fique à vontade, dom Eliazim. Este almofadão estava esperando por você, he, he! Eliazim: E o mestre Abiel? Ainda não chegou? Josafá: Está pra chegar. Quando reza suas orações, esquece até do chão em que pisa, he, he! Alguns momentos depois, o escriba Abiel chegou à casa de seu amigo o fariseu Josafá. Ali se reuniram naquela manhã com dom Eliazim, o poderoso latifundiário de Cafarnaum. Queriam falar sem pressa sobre algo que os preocupava há algum tempo. Eliazim: Isso não se pode permitir. Desde que esse homem chegou a Cafarnaum, tudo anda de pernas para o ar. Não há mais lei, não há mais religião, não há mais respeito por nada! E tudo por culpa dele! Esta gentalha com quem ele se reúne é capaz de tudo. Com esse homem aqui, alvoroçando as pessoas com essas idéias, estamos todos em perigo. Ouçam-me bem: todos. Vocês também... Abiel: Então, dom Eliazim, você propõe que... Eliazim: Sim, nada de panos quentes... Que se faça uma acusação formal diante das autoridades romanas. Eles não estão aqui para manter a ordem e meter na cadeia os revoltosos? Pois não há nenhum maior que ele!... O que aconteceu outro dia na sinagoga transbordou o caneco... Josafá: Mas veja só, dom Eliazim: os romanos apareceram por lá mas não fizeram nada. Abiel: Bah, os romanos não nos levam a sério. Eles nos desprezam demais. Para eles, tanto faz se nos esfolamos uns aos outros. Contanto que não toquemos em nada do que é deles... Josafá: Além disso, se nós o acusarmos, eles empurrarão o caso para o rei Herodes. Herodes é supersticioso e vai demorar pelo menos um ano para cortar-lhe a cabeça, como fez com João, o batizador. Eu creio que é de interesse de todos nós acabar logo com esse assunto... Eliazim: Pois então vamos provoca-lo, e que ele mesmo acabe se enfrentando diretamente com os romanos. Abiel: Ele não fará isso. Permita que lhe diga, dom Eliazim, que esse sujeito é tão astuto como as serpentes. Eliazim: E então...? Abiel: Está me ocorrendo outra idéia. Deixemos quietos Herodes e os romanos. Talvez nem façam falta. Talvez seja ele mesmo quem nos dará a saída... Eliazim: O que está querendo dizer, mestre Abiel? Abiel: Quero dizer que todos os homens têm seu preço. E Jesus de Nazaré o terá também, não lhe parece? Eliazim: De que se trata? Abiel: Trata-se de jogar o anzol com uma isca bem gorda... e o peixe a beliscará... estou certo que beliscará... Pedro: Tiago, escute só: faz pouco tempo que a velha Salomé foi lá pelas bandas do cais. Disse que esta manhã o fariseu Josafá esteve procurando por Jesus lá em sua casa. Tiago: E o que queria essa ave de mau agouro? Pedro: Falar com ele. Assunto importante. Salomé foi procurar o Moreno na casa grande. Lá estava ele pregando uma porta. Tiago: Isso não me cheira nada bem. Onde esses abutres metem o bico, há carniça no meio... Jesus chegou à casa do mestre Josafá antes do meio dia... Jesus: Muito bem, aqui estou eu. Disposto a escutá-los... Abiel: Você fez muito bem em vir, Jesus. É melhor para você que falemos de uma vez claramente, sem rodeios... Josafá: Trata-se do seu futuro, Jesus. Um homem como você, que vale tanto, que é capaz de incendiar as pessoas só com umas quantas palavras bem faladas, é um homem que pode aspirar a vôos mais altos... Abiel: Sabemos que seu pai morreu faz uns quantos anos, que você é filho único e que sua mãe agora vive sozinha, lá em Nazaré. Jesus: Estou vendo que sabem muita coisa a meu respeito... Abiel: O que acontecerá com sua mãe se você continuar pelo caminho que vai indo? A quem ela se agarrará se você vier lhe faltar? Jesus: Dissemos que íamos falar claramente. O que minha mãe tem a ver com isso? Josafá: Queremos ajuda-lo, Jesus. E ajudar a ela também. Desde que você chegou a esta cidade, consegue trabalho um dia sim e dois não. Uns quantos bicos aqui e ali e depois fica perdendo tempo nas tabernas... Para um homem como você, isso é realmente penoso... Abiel: Nós poderíamos conseguir-lhe algo melhor. Um trabalho fixo. Não precisaria sair a cada manhã e esperar na praça para ver o que acontece. Um trabalho. Sim, muito trabalho, he, he..., cômodo, interessante... Temos influência, você sabe muito bem. Jesus: E quanto vai custar esse favor? Porque imagino que não irão querer fazer isso de graça. Abiel: Olhe, nazareno, falemos sem rodeios. Você alvoroçou muito por Cafarnaum. Isso todo mundo sabe. Os romanos também sabem. Não seria difícil faze-los ver que você é um sujeito perigoso para Roma. E então, você já sabe... eles cortarão sua língua. Mas, ainda há tempo... Josafá: Deixe sua língua quieta. E nós deixaremos você quieto também. E para que você perceba que sabemos apreciar o que você vale... lhe daremos em troca um grande posto, onde ganhará muito dinheiro... Abiel: Sim, já sabemos que o dinheiro não é tudo... Mas nesse trabalho, você terá muita gente às suas ordens... Estou certo que um prato assim abrirá seu apetite... Você é ambicioso, não se conforma com pouco. Veja, Herodes quer reorganizar a administração da Galiléia. Precisa de gente inteligente, habilidosa... Gente como você... Josafá: Pense bem, Jesus... Convém a você dizer que sim... Jesus: E se eu disser não...? Josafá: Bem, neste caso... você estaria em perigo, entende?... E não só você... esse grupinho de pescadores que anda com você por todo lado também... pobres rapazes... Por outro lado, eles são jovens e sabem se defender melhor... mas ela... sua pobre mãe poderia ser molestada também... você imagina como as coisas podem se complicar... Abiel: Está compreendendo, Jesus? Todos esses sonhos que você tem na cabeça são como as nuvens. Aparecem e somem e, de um momento para o outro, não resta mais nada delas. Ponha os pés no chão, rapaz, e pare de olhar as nuvens... Jesus: Não posso deixar de olha-las. Aprendi a fazer isso desde pequeno. Camponeses como eu mal sabemos ler nos livros, por isso, aprendemos a ler no céu o que dizem as nuvens. Abiel: Deixe sua ironia para outra hora. Agora é sua vez de falar claramente. Jesus: Isto está bem claro. E vocês sabem tanto quanto eu ler as nuvens. Se à tarde o céu fica vermelho como o sangue, é porque vai fazer tempo bom, não é assim?... E se as nuvens se escondem e começa a soprar os ventos do sul, o que você diriam que vai acontecer? Josafá: He, he... É sinal que fará calor... Jesus: E você, mestre Abiel, se vir que as nuvens se agitam no poente, o que diria? Abiel: Diria que vem tempestade... Josafá: Muito bem, já chega. Aonde você quer chegar com essas histórias? Jesus: Hipócritas! Como é que vocês conhecem os sinais do céu e não conseguem ver os sinais da terra!?... Sim, vai haver tempestade, mas aqui em baixo!... Hipócritas! Não estão se dando conta do que está acontecendo? O povo desperta e vocês continuam dormindo. E aqueles que não se vendem a vocês por dinheiro, chamam de louco e sonhador. Hipócritas! Quando veio João, o profeta, que não comia nem bebia, disseram que era um endemoniado. De mim, que ando pelas tabernas, dirão que sou um bêbado, um glutão. Vocês são como esses meninos bobões que fazem tudo fora de hora: nem dançam quando há casamento, nem choram quando há velório. E estes são os sábios e os sacerdotes de Israel! Hipócritas!... Abiel: Espere um momento, nazareno, escute... Mas Jesus lhes deu as costas e saiu da casa... Abiel: Imbecil. Algum dia se arrependerá. Pedro: O que aconteceu, Moreno? O que querias esses caras? Jesus: O de sempre, Pedro. Desde o que aconteceu na sinagoga, estão doidos para pegar no nosso pé. Tiago: Temos que ter muito cuidado, Jesus. Essa gente é perigosa. Jesus: Pois veja, Tiago, eles dizem que os perigosos somos nós. Tiago: Ah, é? E por que estão com medo de nós? Estou gostando disso, caramba! Felipe: Pois eu não estou gostando nada... Também tinham medo do profeta João... e veja como acabou... Jesus: João tinha que acabar assim... O que ele era? Um caniço que o vento agita como quer? Não, ele não se dobrou diante de ninguém. Pedro: A bem da verdade, nem mesmo diante do próprio Herodes... Jesus: Por isso o cortaram ao meio, como a uma árvore que crescia reta, sem torcer-se. Era a única forma de acabar com ele. Também a ele propuseram luxos e influências e dinheiro. Mas ele não se curvou diante de nada... Tiago: Isso porque João era um profeta, caramba! Jesus: Sim, e muito mais que profeta. Foi o maior homem que tivemos entre nós. Pedro: Bem, mas, o que foi que aconteceu, Jesus? Para que esses caras chamaram você? Para falar do profeta João...? Será que mesmo depois de morto o batizador ainda os preocupa? Jesus: Não, Pedro, agora estão preocupados conosco. Estão preocupados que as pessoas abram os olhos e despertem e se dêem conta que esta religião que eles ensinam não é mais que um punhado de leis humanas e preceitos inventados por eles mesmos. Por isso, querem tapar nossa boca na marra, ou com astúcia, quem sabe... Felipe: E... o que vão fazer? Jesus: Usar de violência, Felipe. Eles são violentos. Eles ganharam assim todos os privilégios que têm, pela violência, esmagando os outros. E agora também querem ganhar pela violência. Querem comprar o Reino de Deus, conquista-lo à força... Tiago: Eles lhe ofereceram dinheiro, Jesus? Jesus: Dinheiro, sim. E um bom emprego. E qualquer outra coisa, desde que nos calemos. Sabem o que eu penso?... Que a partir de hoje devemos ter o olho bem aberto com o fermento dos fariseus. Basta um punhado de fermento velho para estragar toda a massa. Essa gente está podre, e o que eles procuram é isso, apodrecer tudo... Tiago: E usarão todas as suas artimanhas contra nós... Jesus: Hoje armaram a arapuca para mim. Amanhã a armarão para Natanael ou Tomé ou Judas... a qualquer um de nós. Felipe: Então, pelo que estou vendo, esse negócio de Reino de Deus está ficando complicado... Pedro: Temos que avisar as pessoas para que fiquem ligadas. Esses caras têm espiões por tudo que é esquina. Com um par de denários compram um dedo-duro. Podem estragar tudo. Tiago: Isso é bem a cara deles, trabalhar na sombra. Vermes malditos! Jesus: E o nosso jeito será trabalhar à luz do dia. E jogaremos pra cima todos os planos deles, e tudo o que andam dizendo a portas fechadas, gritaremos de cima das cumieiras das casas... Se acham que vão nos assustar, estão muito enganados... Não daremos um passo atrás sequer. Eliazim: E então, mestre Josafá? Conseguiu meter medo nele? Josafá: Medo? Aquele lá está tão cheio de orgulho que não lhe cabe outra coisa no corpo! Eliazim: O que ele disse? Josafá: Charlatão! E por cima de tudo, quer dar uma de profeta! Abiel: A única coisa que sabe fazer é comer e embebedar-se e carregar atrás de si aquela chusma de Cafarnaum... Eliazim: Então, o que podemos fazer, mestre Josafá? Josafá: Esperar, dom Eliazim. O peixe morre pela boca, não é assim que diz o povo do mar. Pois esse peixe também morrerá pela boca. É imprudente e altaneiro. Não quer se calar. Pior para ele. Você vai ver, amigo, é tudo uma questão de tempo... Deixe que ele continue... Estará levantando sua própria cruz, he, he... Dom Eliazim, o rico latifundiário e o fariseu Josafá, mestre e fiel cumpridor da lei de Moisés, continuaram conversando. Enquanto isso, as nuvens, agitando-se no poente, anunciavam uma forte tempestade... Mais cedo ou mais tarde, foram se aliando contra Jesus os grupos sociais que tinham o poder econômico, político e religioso daquela sociedade. Neste episódio, perfilam-se as primeiras dessas alianças. De um lado está Eliazim, o latifundiário. Na Galiléia, a estrutura agrária chegou a ser, depois da dominação romana, claramente latifundiária. Esses grandes fazendeiros, naturalmente, opunham a qualquer movimento popular que apresentassem reivindicações sociais. Junto dele aparecem dois mestres fariseus. Embora nem sempre os fariseus fossem da classe dominante, muito porém pertenciam a ela. Todos tinham poder religioso: “salvavam” ou “condenavam” com sua interpretação da Lei. Para esse grupo piedoso, Jesus – que se relacionava com os “malditos” e não respeitava a Lei – era sumamente perigoso. Ele questionava todo o aparato religioso. Por fim, estes dois grupos de poder, que se envolveram com o poder político e militar de Roma, percebem que Jesus começava a se tornar um elemento incômodo, por causa das esperanças de libertação que despertava entre os pobres. Entre as inumeráveis táticas que os poderosos utilizam para combater os que lhes oferece resistência, está o suborno. Em geral, antes de se liquidar um líder, tenta-se “compra-lo”. A chantagem – um bom emprego, dinheiro – ou as ameaças são métodos usados para debilitar a vontade daquele que se compromete com uma causa que exige sacrifícios. A esta altura de sua vida, Jesus já era um homem com muita popularidade entre seus conterrâneos. Era um líder e é muito possível, por isso, que sofresse também pressões desse tipo. Jesus fala a seus inimigos de “sinais no céu”, que eles não sabem ler. Nestes últimos anos, o grande profeta que foi o papa João XXIII, se referiu muitas vezes ao que ele chamava “sinais dos tempos”. Dizia que era preciso estar atentos ao que acontecia ao nosso redor, na história, para enxergar por onde vai o futuro e trabalhar nessa direção. Assim como Jesus despertou o povo de Israel de sua passividade, lhe deu uma esperança e pôs em marcha uma comunidade que compartilhasse e trabalhasse pela justiça, também em nosso tempo aparece esse sinal. E cada vez com mais força. As comunidades cristãs de base, as organizações populares, multiplicam-se, amadurecem e crescem. Elas são um sinal dos tempos. Elas farão o futuro. Para os homens “decentes” de sua época, Jesus foi um homem mal afamado e sua vida lhes parecia um verdadeiro escândalo. O evangelho conservou o que dele se dizia: “comilão, beberrão, amigo das prostitutas”. Em outra ocasião o chamaram de “samaritano” (Jo 8, 48), insulto muito pesado, equivalente a “bastardo”, “filho de prostituta”. Todo o evangelho dá testemunho de que Jesus não foi um homem insociável, de que sua vida nada tem a ver com a dos beatos, dos santarrões, dos ascetas que castigam o corpo para libertar o espírito. Muito menos se parecia com o profeta solene e sóbrio que foi João Batista. Jesus foi um homem do povo. Seu ambiente natural era a praça, a rua, o bairro. Nele fica para sempre santificada a vida cotidiana, a alegria das pessoas, a simplicidade sem complicações, como caminho para chegar a Deus. (Mt 11,7-19; 16, 1-12; Mc 8,11-21; Lc 7,24-35; 12,54-56)
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