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Capítulo XXXII O FANTASMA DO LAGO Era noite fechada sobre o grande lago da Galiléia. A lua, feito uma metade de laranja pendurada no céu, apenas nos iluminava os rostos. Com Pedro, em sua velha barca pintada de verde, íamos seis. Na outra barca, dirigida por André, iam os outros do grupo... Jesus não estava conosco naquela noite. Quando nós doze subimos à barca, disse que não queria vir e se afastou em silêncio por uma das vielas escuras que saíam do cais... Pedro: Companheiros... isto está muito esquisito... Por que ele ficou na cidade, heim? Por que? Tomé: Jesus te-te-te-tem medo da água à no-no-noite! Não é por isso? Tiago: Conversa fiada, Tomé! Aqui tem coisa mais séria. Medo da água não. Isso é uma idiotice. Mas medo sim. Jesus tem medo. Dá pra ver em seus olhos! Pedro: Mas, medo de quê, Tiago? Vai ter medo por que? Tiago: As coisas estão ficando feias, Pedro. A cada dia o Moreno está mais fechado. Os fariseus o odeiam e o procuram. Este queijo está apodrecendo... Pedro: Mas, o que vocês estão dizendo? Isso não pode ser. Jesus é valente. Já demonstrou isso. Por que vocês têm tanta certeza disso? Tiago: Ninguém tem certeza de nada, Pedro, de nada... Estamos só falando. Mas você não vai negar que é muito esquisito ele nos ter deixado sozinhos... Tomé: E na-na-na-não será que ele foi rezar? Jesus é muito rezador. Pedro: Mas para que tipo de santo se vai ficar rezando lá? Não, Tomé, isso não explica o que está acontecendo esta noite... Tiago: Será que ele nos traiu...? Estará passando pro outro lado e não se atreve a dizer? Pedro: Mas, como é que ele vai fazer isso, cabelo-de-fogo. Jesus é direito como um remo!... Você está maluco! Não, isso não pode ser! Felipe: A idéia que anda dando voltas na minha cabeça é outra... Acho que ele está farto de falar que o Reino de Deus está próximo, que já vem... mas não chega nunca. Ele deu uma de profeta, ficou sem saliva na boca dizendo que as coisas vão mudar... e vocês estão vendo, tudo continua igual! E então... Pedro: E então o que? O que você quer dizer com isso, Felipe? Felipe: Quero dizer que um dia desses – hoje por exemplo – Jesus vai dizer: “mundo ingrato, que se apodreça!” E ao diabo com o grupo, com a justiça, com o Reino de Deus e com tudo!... E aí ele se vai por um caminho escuro como fez esta noite e a gente nunca mais vai tornar a ver sua barba. Pedro: Mas, o que você está dizendo?! De onde tirou esta idéia, cabeção do demônio?... Jesus não pode fazer isso com a gente. Ele não é assim! Ele não é assim! Tiago: Está bem, Pedro, ele não é assim. Mas por que ele não veio conosco esta noite, heim? Todas as palavras daquela conversa foram se colando dentro do peito como o vento frio da noite que inflava as velas e começava a revolver as tranqüilas águas do lago. Na outra barca, André, Judas, Simão e os demais, falavam sobre a mesma coisa, com as mesmas palavras, com as mesmas perguntas. Depois de um tempo, todos ficamos em silêncio... Só se ouvia o rumor do vento cada vez mais forte... Pedro: Pelos mil demônios do sheol, digam alguma coisa! Prefiro uma tempestade do que esta história de todo mundo ir com a boca fechada, como mortos! Então, como se tivesse ouvido o grito irado de Pedro, o vento começou a agitar com fúria as duas barcas e as nuvens começaram a descarregar sobre o lago os raios e trovões que guardavam escondidos em suas negras barrigas. Tiago: Maldição! Meu nariz já me dizia que iria haver tempestade! Agarre bem a vela, João! Tomé: Que-que-que é isso? Pedro: O que poderia ser, Tomé? Você não está achando que isto é uma festa, não é mesmo? Tomé: Nos afo-fo-fogaremos! Tiago: Sim, caramba, nos afogaremos. E você será o primeiro se não fechar este bico! André: Ei, Pedro, solte um pouco a vela!... Pedro! Pedro: Afaste-se um pouco magrão! Vamos bater! As ondas, gigantescas como montanhas, saltavam por cima de nossas cabeças, ensopando-nos vez por outra até os ossos. A barca que André dirigia, envolta num redemoinho de vento, começou a se aproximar demais da nossa, girando loucamente como um pião. Pedro: Porcaria, Tiago, solte mais esta vela! Vamos nos arrebentar! Tiago: Caia fora daí, Tomé!... Agarre bem, João!... Mais forte, mais forte! A quilha rangia como uma alma penada. As ondas levantavam as barcas deixando-as cair com estrépito sobre a superfície. Enquanto Felipe e Natanael tiravam a toda pressa a água que entrava sem cessar pelos costados, Tomé, dando um grito espantoso, abriu os braços e desmaiou, caindo sobre as cordas da popa... Tomé: Aiii...! Tiago: Um a menos!... Agarre bem, João!... Ei, cuidado, cuidado...!!! Tiago e eu tratávamos de controlar a vela, mas então o vento fez estalar o mastro, partindo-o pela metade. Pedro: Estamos perdidos! Vamos todos para o fundo do lago! Jesus sabia, por isso nos deixou sozinhos! Nos deixou sozinhos!... Estamos perdidos. Quando nossa barca começava a fazer água pelos quatro costados, André berrou com mais força que os próprios trovões... André: Ei, olhem lá,! Olhem lá! Lá na direção da orla!! Felipe: É um fantasma! É o fantasma do lago! Ele vem buscar a gente! Pedro: Que é isso, Tiago? Você também está vendo?... E você, João? Tiago: Claro que estou vendo...! E ele vem vindo pra cá! Felipe: Vai embora, fantasma, vai embora...! Esperem, eu sei uma oração contra fantasmas... Ai, como é mesmo que ela começa... Ah, sim!...”Fantasma, te digo, que Deus está comigo! Fantasma, te digo, que Deus está comigo!” Tiago: Não seja estúpido, Felipe! Caminhando sobre as revoltas águas do lago, uma figura branca e luminosa avançava bem devagar em direção de nossas arrebentadas barcas. A lua havia apagado de repente sua tênue luz. E o mar parecia uma imensa boca negra disposta a engolir-nos. Tomé, que já havia despertado, tremia agarrado ao pedaço de mastro que ficara de pé. Estávamos aterrorizados e não tínhamos olhos senão para aquela misteriosa figura... De repente, o fantasma falou... Jesus: Não tenham medo!... Sou eu!... Sou eu!... Tomé: E qu-qu-qu-quem é eu? Felipe: “Fantasma corre, que Deus me socorre! Fantasma corre, que Deus me socorre!...” Jesus: Rapazes, sou eu!... Não tenham medo! Tiago: Pedro, esta voz é de Jesus! É ele! É ele! Quando reconhecemos Jesus, as águas do lago se tranqüilizaram e o vento deixou de soprar. Nossas barcas voltaram a mexer-se suavemente sobre as ondas... Pedro: Jesus, se é você, diga para eu ir até onde você está!... Jesus: Vem, Pedro, vem! Ao ouvir a ordem, Pedro saltou da barca e começou a andar sobre o lago ao encontro de Jesus.... Pedro: Olhem!... Eu posso andar sobre a água!... Olhem!... Com um pé!... Com o outro!... Yupiii!... Sou o sujeito mais maravilhoso de toda Cafarnaum e de toda a Galiléia!... Yupiii!... Olhem isso, senhores. Pedro fazia piruetas sobre as ondas, aproximando-se de Jesus, quando, de repente, um relâmpago abriu de lado a lado a abóboda do céu e o vento começou a bater as águas em um louco torvelinho... Pedro, amedrontado, começou a afundar... Pedro: Dê-me sua mão, Moreno!... Jesus, salve-me, que estou me afogando!... Ahgg...! Jesus, caminhando tranqüilamente sobre as ondas se aproximou de Pedro e o agarrou por uma mão... Jesus: Que pouca fé você tem, Pedro! Diga, por que você teve medo? Por que teve medo?... Pedro: Tive medo porque me afogava! Me afogava! Me afoga... mãe afoga... me afo...!!! Rufina: Pedro, Pedro, o que acontece? Você vai acordar as crianças!... Pedro, veja como você se enrolou na esteira, feito um caracol!... Acorde, homem! Pedro: Ah... é que o mastro... era horrível... Ai, Rufi, você está aqui... puff!, que alívio... Ele nos salvou! Ele nos salvou! Rufina: Mas, homem, tranqüilize-se, Pedro. E pare de gritar que a avó Rufa tem o sono mais leve que uma mosca... Pedro: Ai, Rufi, ai, que alívio...Estamos a salvo!... Rufina, esta noite eu entendi tudo. Ele é o homem. Rufina: Mas, o que você está dizendo? Pedro: Rufi, veja só, nós íamos na barca. Veio uma tempestade espantosa. Tínhamos medo. Estávamos sós. A vela se rompeu, o mastro quebrou... Rompeu-se também nossa confiança. Tudo estava perdido. Então ele veio... Rufina: Mas de quem demônios você está me falando? Pedro: De Jesus, Rufi. Quando eu me afogava, ele me agarrou pela mão e me salvou. A tempestade acabou. E também acabou-se o medo. Estávamos salvos. Rufina: Muito bonito, muito bonito... Farreando a noite toda, não? Pode-se saber, grande sem-vergonha, a que horas você veio se deitar, que eu nem percebi? Pedro: Mas, Rufi, você não entende? Isto foi um sinal! Jesus é o homem! Rufina: Que homem, Pedro? O que você quer dizer com tanto mistério? Pedro: Escute o que lhe digo, Rufi. Abre bem as orelhas e guarda bem dentro de você o que vou lhe dizer, sob sete chaves, só para você. Eu creio que Jesus é o Messias. Rufina: Mas, o que você está dizendo, diabo de homem? Vamos ver... está com febre? Pedro: Não! Nunca estive mais contente! Acabaram-se as tempestades, Rufi! Acabou-se o medo! Rufina: Pare de gritar, condenado! Olhe, esqueça isso, desenrole esta esteira e volte a dormir. Amanhã você terá outra vez a cabeça no lugar. Pedro se jogou sobre a esteira. Mas, ao deitar-se, sentou-se de novo, como que empurrado por uma mola. Pedro: Rufina! E se isso não foi só um sonho. E se for algo mais? Rufina: Claro que é algo mais... É um pesadelo... Pedro: Não, Rufi. Nunca em minha vida vi uma tempestade tão espantosa, nem um mar tão revolto. Nunca em minha vida tive tanto medo e tampouco me senti mais seguro do que quando ele me agarrou pela mão... E se não foi só um sonho?... Olhe, Rufi, você está aqui, não é? Está ao meu lado? Rufina: Mas é claro que estou aqui... E com os olhos quase fechando... Pedro: Mas, tem certeza?... Não será que agora é que estamos sonhando? Rufina: Ouça, Pedro, o primeiro galo. Pare com essa conversa fiada. Ande, deite de uma vez e tire outra soneca até que voltem a cantar.E deixe que eu tire a minha também... Estou moída... Pedro: Está bem, amanhã eu lhe conto o resto... E não conte isso para ninguém... Eu creio que isso não foi um sonho... eu creio... Rufina: Hummmm... Sim, está bem, amanhã você me conta... amanhã... Pedro fechou os olhos e voltou novamente a dormir. Mais tarde, muitos anos depois, contou-me tudo isso. Então ainda não sabia dizer-me o que havia acontecido naquela noite. Mas lembrava disso como algo vivo e quente, tão vivo e tão quente como a mão de Jesus em que se havia apoiado para não afundar nas águas revoltas do lago. No lago da Galiléia, por suas características geográficas, são freqüentes as tempestades repentinas, que se apresentam às vezes com uma força de autêntico furacão. Os pescadores saíam ordinariamente com suas barcas quando ainda estava escuro, pois as últimas horas da noite e as primeiras da madrugada favoreciam o achado de certos cardumes de peixes. Na Galiléia, como em qualquer outro lugar do mundo, o pescador é um trabalhador que sabe muito de madrugadas. Ao longo de toda a Bíblia o sonho aparece como espaço em que Deus se revela ao homem. Ao contar-nos os sonhos de que Deus se valeu para dar a conhecer seus projetos, as Escrituras refletem um ponto de vista sobre a vida, habitual em Israel e na maioria dos povos antigos. Acreditava-se realmente que também pelo caminho obscuro dos sonhos Deus podia se achegar ao homem e o homem a Deus. São importantes no Antigo Testamento os exemplos de sonhos que revelam ao homem o que Deus quer deles (Gn 28,10-22 e 37,5-11;Num 12,6-8). Não devemos interpretar isso como uma coisa supersticiosa ou infantil. Ela encerra algo de verdade para nós ainda hoje se soubermos, como então aconselhavam os sábios de Israel, discernir o sentido do sonho (Eclesiástico 34,1-8). Não se trata de acreditar de pés juntos no que sonhamos, mas sim em abrirmos o coração a realidades que não se esgotam no que tocamos ou medimos ou contamos. Grandes experiências interiores são tão reais quanto um tapa que nos dão ou um prato de comida que comemos, mas não podemos senti-las da mesma forma, nem sequer expressá-las da mesma maneira. Os limites do consciente e do inconsciente são também difíceis de precisar. E é possível também, pelas vias do inconsciente, chegar a descobrir verdades, experimentar com força sentimentos duradouros e inclusive tomar decisões importantes. É preciso levar em conta que os evangelistas, ao escreverem, utilizaram diferentes estilos. E assim, nas páginas do evangelho encontramos narrações históricas, esquemas de catequese, relatos baseados em histórias do Antigo Testamento, relatos simbólicos... Este texto de Jesus caminhando sobre as águas contém uma mensagem simbólica. O mar para a mentalidade israelita era como o cárcere onde haviam ido parar, derrotados por Deus no começo do mundo, os demônios e os espíritos malignos. Entre eles, o poderoso Leviatã, monstro terrivelmente perigoso para o homem. Esta idéia negativa sobre o mar atravessa a Escritura até o último livro bíblico. Quando o Apocalipse nos descreve como será o mundo futuro, o Reino de Deus, diz que ali não haverá mar (Ap 21,1). Naturalmente, Deus tem poder sobre todos os espíritos do mar e Leviatã é para ele como um brinquedo (Jô 40,25-32). Pois bem, Jesus tem também este poder. Deus o deu a ele. E o entregou, não a um sábio, nem a um teólogo, nem a um exorcista, mas a um humilde camponês. Este texto, é, pois, a proclamação de que Jesus é o Messias de Deus. Exatamente o mesmo que Pedro descobre. Como os demais discípulos, Pedro foi vendo pouco a pouco em Jesus o profeta que ressuscitava no país a esperança no Deus de Israel. O Messias anunciado durante tantos anos. Isto foi nele, como em todos os demais, fruto de um processo. Conhecer Jesus, entender sua mensagem e, sobretudo, comprometer-se a segui-lo, não é algo que acontece sem mais nem menos no batismo, nem nas horas de oração, nem nas reflexões comunitárias com nossos irmãos. É um longo processo. (Mateus 14,24-33; Marcos 6,45-52; João 6,15-21)
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