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Capítulo XXXI Diante da sinagoga de Cafarnaum Aquele dia era sábado. E, como todos os sábados, nós nos reuníamos na sinagoga de Cafarnaum. Ali, na assembleia, estavam muitos dos que haviam comido conosco em Betzaida, quando repartimos os pães e os peixes. Ali estavam também os familiares dos presos e alguns mendigos. Depois das orações rituais, Fanuel, um dos proprietários mais ricos da cidade, levantou-se para fazer a leitura. Fanuel: “Então apareceu no deserto uma coisa pequena como grãos, semelhante ao orvalho. E Moisés disse aos filhos de Israel: Este é o maná, o pão que Deus nos dá por alimento. E isto é o que Deus manda: que cada um recolha o que necessite para comer ele e sua família. Assim o fizeram os filhos de Israel. Mas alguns recolheram muito e outros recolheram pouco. Então o dividiram para que não sobrasse aos que tinham mais, nem faltasse a quem tinha menos. E assim todos tiveram o necessário para o sustento. Moisés também disse: que ninguém guarde maná para o dia seguinte. Mas alguns não obedeceram a Moisés e começaram a guardar e estocar o alimento. Mas ele se encheu de vermes e apodreceu. Porque Moisés havia mandado que cada um recolhesse o que necessitasse para o sustento.” Esta é a palavra de Deus no livro santo da Lei. Todos: Amém. Amém! Então, o rabino Eliab, com sua voz fanhosa de sempre se dirigiu a todos que estavam na sinagoga. Rabino: Irmãos, quem quer vir explicar esta leitura? Vamos, vamos, não tenham vergonha de fazer um comentário sobre estas palavras santas que acabamos de escutar. Amós: Quem devia sentir vergonha é esse que a leu. Amós, um dos tantos assalariados que trabalhavam na fazenda de Fanuel, rompeu o silêncio. Amós: Eu não quero comentar nada. O que eu quero é gritar a esse pão-duro: cumpre você mesmo o que acabou de ler. Ouçam todos vocês e julguem se não tenho razão: Fanuel não me paga um centavo já faz quatro luas. Eu me mato trabalhando em sua fazenda, e depois não me paga... Ladrão! Rabino: Cale-se e vai protestar em outro canto. Isto não é um tribunal, mas a Casa de Deus. Amós: Se não ligam para mim no tribunal, aonde eu vou, heim? Rabino: Estou dizendo para se calar. Repito: algum irmão quer comentar a palavra de Deus que acabamos de escutar? Simeão: Sim, sim, eu quero comentá-la, rabino. Todos os olhos se voltaram dessa vez para o corcunda Simeão, um pobre homem que vivia junto ao mercado. Rabino: O que você tem a dizer? Simeão: Bem, na realidade, não vou dizer nada. Moisés já falou tudo. Vocês não ouviram? Que ninguém tenha demais, que ninguém tenha de menos. Que a ninguém sobre o pão, que a ninguém falte o pão. Esta é a lei de Moisés. E eu sou filho de Moisés, não é verdade? E aquele que está ali, dom Eliazim, também... E por que ele tem os celeiros cheios, arrebentando de trigo e cevada, e eu estou morrendo de fome, heim? Rabino: Cale-se você também, impertinente! O que você está dizendo não tem nada a ver com a palavra de Deus. Se está a fim de falar de política, vá à taberna. Simeão: Eu não estou falando de política, rabino. Eu estou dizendo que meus filhos não têm um naco de pão para comer. Rabino: Comer, comer! Vocês só pensam em comer. Irmãos, estamos na casa de Deus. Esqueçamos por um momento as preocupações materiais e falemos das coisas do espírito. Uma mulher: Claro, porque você come quente todos os dias. Se tivesse fome, você venderia seu espírito por um prato de lentilhas. Rabino: Tirem essa gritona da sinagoga! Não vou permitir nenhuma falta de respeito neste lugar santo! Hã hã... Falemos das coisas santas, do pão divino, do maná. Como nos disse a leitura, o maná caía do céu sobre os israelitas. Mulher: Pois a nós, o que nos está caindo em cima são as porradas dos guardas. Meus dois filhos estão presos já faz uma semana, e bateram neles como se fossem cachorros. E sabem por quê? Porque esse canalha saduceu que está aí, os denunciou. Sim, sim, Gedeão, foi você. Vão vire a cara porque aqui todo mundo já sabe, traidor. Rabino: Mas o que está acontecendo hoje por aqui, heim? O que vocês vieram fazer aqui? Rezar ou molestar alguns irmãos da comunidade? Amós: Irmãos? Como vai ser meu irmão o usurário que ontem mesmo me agarrou pelo cangote para que eu lhe pagasse seus malditos juros? Você mesmo, Rubem, não adianta disfarçar, você mesmo. Rabino: Já chega. Já chega! Esta é a casa de Deus. E à casa de Deus se vem para rezar. Simeão: Mas, rabino, você não compreende o que estamos dizendo? Como podem rezar juntos o leão e a ovelha? O leão pede a Deus que a ovelha durma para poder comê-la. A ovelha também pede a Deus para que o leão durma para que lhe cortem a juba. Amós: Bem falado, Simeão. Como vou rezar junto de dom Eliazim, eu que não tenho nem sete palmos de terra para morrer? Um dos dois está sobrando. Um homem: O velho Benjamim lhe rouba vinte e em seguida suborna os juízes, e os juízes lhe roubam mais vinte. E vou ficar rezando com ele debaixo do mesmo teto? Eu digo o mesmo que este meu vizinho: um dos dois está sobrando. Outro homem: Sim, sim, é preciso falar claro e rasgado para que entendam de uma vez. Olhe, olhe aquele ali com carinha de piedoso. Com o trigo que ele tem armazenado poderiam comer quarenta famílias daqui do povoado. E com os colares da mulher dele, se consertaria todas as casas do bairro. Digo o que já disseram: ou eles, ou nós. O alvoroço subiu como a maré. Os dedos se levantavam acusadores e abríamos a boca sem medo de denunciar os abusos que cometiam os grandes de Cafarnaum. Então, o rabino Eliab, roxo de raiva, subiu ao estrado das leituras e começou a gritar. Rabino: Vocês são os únicos que estão sobrando, malditos! Vocês que não respeitam a palavra de Deus e só querem fazer política. Sim, sim, eu sei o que está se passando. O mesmo que aconteceu outra vez, no caso das espigas. Um agitador lhes está enchendo a cabeça de sonhos. Mas, escutem bem, eu não vou repetir mais: ou calam a boca de uma vez, ou ponho todo mundo pra fora. Jesus: Não é necessário, rabino. Nós já estamos indo. Um dos dois está sobrando. Jesus se levantou, deu meia volta e saiu da sinagoga. Rabino: Você, maldito, você! Você é o culpado de tudo isso. Você está dividindo a comunidade. Mas você pagará muito caro, rebelde. Atrás de Jesus também saímos nós, os do grupo. E os camponeses, os assalariados de Eliazim, os desempregados de Fanuel, as mulheres dos presos e muitos outros mais, abandonaram em silêncio a casa de Deus. Pouco depois, dentro da sinagoga, só ficou o rabino Eliab, andando de um lado para outro em cima do estrado, com os dentes e os punhos apertados. Ficaram também os amigos dos latifundiários e dos agiotas. E alguns outros que, por medo da maldição do rabino, não se atreveram a sair. Lá fora, num canto da praça, todos nós rodeamos Jesus. Uma velha: Olhe, você, de Nazaré, não fizemos algo de errado saindo assim da sinagoga? Jesus: Não, vovó, não se preocupe. O profeta Jeremias também teve de se colocar diante das portas do Templo para denunciar que a casa de Deus havia se transformado numa toca de ladrões. Um homem: E agora, Jesus? O que vai acontecer? Jesus: O que sempre acontece, vizinho. Eles atiram a pedra e escondem a mão. E em seguida, quando a gente reclama da pedrada, dizem que estamos agitando, semeando discórdia na comunidade. Enquanto isso eles dão uma de cordeiros mansos. Mas não nos deixemos enganar. Isso é só um disfarce. Por dentro são lobos com caninos afiados. O que querem é roubar, estocar e ficar com tudo. Uma mulher: E nós, o que temos de fazer, Jesus? Jesus: O contrário do que eles fazem: compartilhar. Deus nos pede isso: repartir. Isso escreveu Moisés: ninguém com mais, ninguém com menos. Este é o sinal de que o Reino de Deus começou entre nós. Escutem, amigos: por que ontem o pão deu para todos? Porque repartimos o que tínhamos. Esta é a vontade de Deus. Se compartilharmos o pão nesta vida, Deus compartilhará conosco a vida eterna. Se compartilharmos o pão da terra, Deus nos dará um pão ainda melhor, um pão do céu, como aquele maná que caía no deserto. Um homem: Escute: E onde se consegue este pão do céu? Jesus: Deixe isso pra lá, Simeão. Primeiro, temos de repartir o pão da terra, não é mesmo? Enquanto Jesus falava lá fora, o latifundiário Eliazim saiu da sinagoga e se aproximou do nosso grupo, ameaçando-nos com o punho. Eliazim: Escutem bem, todos vocês. Nós não vamos tolerar isso. O rabino já deu sua aprovação. Vou agora mesmo ao quartel denunciar todos vocês. E você será o primeiro, nazareno, você que é o “cabeça” de toda essa agitação. Uma mulher: Se você se coça tanto é porque foi muito bem picado. Eliazim: Podem rir, imbecis. Quando vierem os soldados, quando estiverem presos, quando agarrarem seus filhos e os açoitarem numa coluna e os pregarem na cruz romana, então não terão tanta vontade de rir. Depois, não venham me dizer que não avisei. Houve um silêncio carregado de maus presságios. As ameaças de Eliazim gelaram o riso em nossa boca. Porque era verdade. Os romanos não perdoavam. Cada dia, levantavam-se novas cruzes em todo o país para afogar o grito de protesto dos pobres de Israel. Um homem: Bom, vizinhos, vamos deixar essa conversa pra outra hora, não? Outro homem: Sim, já é um pouco tarde e... Enfim, até mais pra todo mundo. Amós: Eu também tenho de ir. Nos vemos outro dia. Um a um, da mesma forma que haviam saído da sinagoga, foram indo agora para suas casas. Tiago: Covardes! É isso que são todos vocês, covardes! Jesus: Claro que sim, Tiago. Na hora da verdade, todos sentimos medo. Ninguém gosta de arriscar a própria pele. Mas é preciso fazê-lo. Temos de repartir o pão. Mas temos de repartir também nosso corpo e nosso sangue. A muitos de nós romperão a carne como se rasga um pão. Derramarão nosso sangue como se derrama o vinho. E então, quando tenhamos dado a vida por nosso povo, seremos dignos do Reino de Deus. João: Bem, Jesus, estas palavras são fáceis de falar, mas... Mas muito duras de engolir. Um menino: Os soldados, os soldados estão chegando. Corram, corram, eles estão trazendo lanças e garrotes. Muitos saíram correndo quando ouviram que os soldados estavam chegando. Nós também começamos a nos olhar com inquietação. Pedro: Bem, Jesus, então... Então... Jesus: O que foi, Pedro? Quer ir? Vai. Vocês também querem ir? Pedro: Bem, por querer-querer. Uff... Está bem, moreno, ficamos com você. O que você disse é a verdade. Acontece que esta verdade engasga a gente como uma espinha de peixe. Jesus: Agora somos treze. Qualquer um de nós pode falhar. Por isso, temos de nos apoiar uns nos outros. E que Deus nos dê força para repartirmos tudo... Até o próprio medo. Pedro: Os soldados já estão aí, Jesus. Um soldado: Ei, vocês, circulando, circulando. Não queremos nenhuma desordem. Vamos, vamos, andando. E você, forasteiro, você mesmo, tome cuidado com o que faz. Estamos por dentro de tudo, entendeu? Você e seu grupo já estão fichados. Vamos, vamos, voltem para suas casas. Por sorte, os soldados não fizeram muito caso da denúncia de Eliazim. E nos deixaram ir naquela vez sem maiores problemas. Tudo isso aconteceu num sábado, o dia de descanso, diante da sinagoga de Cafarnaum. Até o final do século passado ainda não haviam sido descobertas as ruínas de Cafarnaum dos tempos do Evangelho. Uns seiscentos anos depois da morte de Jesus, Cafarnaum foi destruída e, pouco a pouco, todos os cenários do evangelho ficaram reduzidos a escombros. Um dos trabalhos levados a cabo com maior cuidado depois do descobrimento foi a restauração da sinagoga. Não era a que Jesus conheceu, mas estava construída em cima da daqueles tempos. O atual edifício é do século IV, muito espaçoso, com grossas colunas e formosos adornos nas paredes. Está muito próxima da casa de Pedro. No culto que se celebra a cada sábado na sinagoga e ao qual Jesus assistia habitualmente com seus conterrâneos, lia-se um trecho das Escrituras e os próprios assistentes o comentavam. Nem a leitura, nem o comentário eram tarefas específicas do rabino. Ordinariamente, as mulheres nunca falavam publicamente na sinagoga, embora neste episódio se faz compreensível sua participação levando-se em conta a evolução do diálogo entre os vizinhos. No episódio, o texto que se lê foi extraído do capítulo 16 do livro do Êxodo. O maná “o pão do céu” havia sido o alimento que os israelitas encontraram no deserto em sua longa marcha até a Terra Prometida. As normas dadas por Deus para a colheita do maná tratavam de evitar a acumulação e a desigualdade na partilha da comida, para que ela bastasse a todos. Por mais que o culto judaico da sinagoga não seja equivalente ao culto cristão, nem a celebração do sábado possa ser colocada em paralelo com a celebração eucarística dos domingos, neste capítulo busca-se uma certa semelhança para se colocar o tema básico culto-justiça. O tema Eucaristia-justiça é um problema tão velho como o cristianismo. São Paulo afirma que onde existe desigualdade e esta é ostentosa, não se está celebrando a eucaristia, mas um ato que o Senhor condena. Sua denúncia neste sentido é ardente (1 Cor 11, 17-34). Nos primeiros séculos cristãos havia uma evangélica sensibilidade para captar a relação Eucaristia-justiça. Só celebravam a Eucaristia e repartiam o Pão os que antes punham os seus bens em comum com seus irmãos. E ainda mais: o bispo tinha a obrigação de vigiar os que levavam oferendas para a missa. Se se tratava de pessoas que oprimiam os pobres, era proibido receber qualquer coisa delas. (Const. Apost. II, 17, 1-5 e III, 8 e IV,5-9). Isso era levado com tanto rigor que a Didascália (século III) dispõe que, se para alimentar os pobres não houver outro meio que receber dinheiro dos ricos que cometem injustiças, é preferível que a comunidade morra de fome antes que aceitar dinheiro desses opressores (Didasc. IV, 8, 2). As disposições deste tipo se multiplicam nos escritos dos Santos Padres e das Igrejas de diferentes lugares ao longo dos séculos. Outro exemplo desta radicalidade é o do bispo de Milão, Santo Ambrósio, que, inteirado da matança de milhares de pessoas cuja responsabilidade era do imperador Teodósio, além de denunciá-lo, enviou-lhe uma carta dizendo que “não oferecerá o Sacrifício da Missa diante dele, se ele se atrever a assistir” (Epist. LI, 13). Foi a partir do século IX, que a Igreja oficial foi se esquecendo disso tudo e começou a fixar-se unicamente no tema da presença real de Cristo no pão e no como explicar este sublime mistério. Assim, se perdeu de vista a outra dimensão eucarística. Os profetas de Israel também estão nesta linha. Nas mesmas portas do Templo de Jerusalém, lugar muitíssimo mais “sagrado” que a sinagoga de um povoado de pescadores, o profeta Jeremias “escandalizou” os homens religiosos de seu tempo e o próprio rei denunciando a falsa segurança dos que se amparam no culto, esquecendo os deveres da justiça (Jr 7, 1-15; 26, 1-24). Com esta liberdade, característica dos grandes profetas, Jesus antepõe a justiça ao culto e no lugar santo fala do que é mais sagrado para Deus: a vida dos homens, a justiça entre eles. Ninguém pode levar oferendas ao altar se existir outro homem que tenha algo contra ele. Primeiro deve reconciliar-se (Mt 5,23-24). Na Eucaristia dos crentes celebramos o memorial daquele que por sua fidelidade a Deus mataram e ao qual Deus fez Senhor ressuscitando-o da morte. Na Eucaristia se celebra esta fé comum, que se prolonga na história vivendo esta mesma fidelidade. Celebra-se a comum esperança de que as coisas podem mudar até a vida, até a igualdade e a fraternidade entre os homens. Celebra-se o amor que nos impulsiona a compartilhar, a arriscar a vida por esta causa e a criar comunidade. A celebração da Eucaristia – a palavra dos profetas e de Jesus, o pão partido e partilhado – sustenta esta fé, esta esperança e este amor. (João 6, 22-71)
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