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Capítulo XXX CINCO PÃES E DOIS PEIXES Quando o rei Herodes matou o profeta João em Maqueronte, as pessoas ficaram cheias de medo e de raiva. Nós estávamos então em Jerusalém. Ao saber o que havia se passado, regressamos depressa à Galileia pelo caminho das montanhas. Natanael: Ai, Felipe já não aguento mais. Meus pés estão muito inchados. Felipe: Não se queixe tanto, Nata. Afinal, só falta um pouco. Natanael: Como pouco se ainda nem chegamos a Magdala? Felipe: Não homem, digo que falta pouco para que nos cortem o pescoço como a João o batizador. E então, os calos não ficaram ainda mais doloridos? Natanael: Se é uma piada, não acho graça nenhuma. Ao fim, depois de muitas horas de caminho. João: Ei, companheiros, já dá para ver Cafarnaum. Olhem lá. Pedro: Que viva nosso lago da Galileia. Felipe: E que vivam estes treze malucos que voltam a molhar os pés nele. Depois de três dias de caminho, voltamos para casa. Apesar do cansaço, íamos contentes. Como sempre, Pedro e eu nos pusemos a correr na última milha, para ver quem chegava primeiro. João: Condenado Pedro-pedrada, você não será o primeiro desta vez. Pedro: Isso é o que você acha. Já estou quase lá, já estou quase lá. Quando chegamos a Cafarnaum, a família de Pedro, a nossa e a metade do bairro saíram para dar-nos as boas vindas e inteirar-se de como estavam as coisas lá por Jerusalém. Um vizinho: Escute, Pedro, é verdade o que dizem que Pôncio Pilatos roubou outra vez o dinheiro do templo para o seu maldito aqueduto? Pedro: Se fosse só isso. As cadeias estão cheias. Do átrio do templo dá para ouvir os gritos dos que estão sendo torturados na Torre Antônia. Outro vizinho: Canalhas! João: Antes de nós sairmos de lá, crucificaram mais dez zelotas. Dez rapagões cheios de vida e com ganas de lutar. Zebedeu: Pois por aqui as coisas não estão muito melhores. Pedro: O que? Houve problemas? Zebedeu: Sim, prenderam o Lino e o Manasses. E o filho do velho Sixto. Salomé: O marido da sua comadre Cloé estava sendo procurado e teve de se esconder lá pelas cavernas dos leprosos. Foi Gedeão, o saduceu, que o denunciou. João: Esse traidor! Um vizinho: Um grupo de ferreiros fez um protesto por causa do último imposto sobre o bronze e, zaz. Todos pra cadeia. Salomé: E todos apanharam. Zebedeu: E isso já faz seis dias, e até agora não foram soltos. Salomé: Bem, creio que há mais gente na cadeia do que na rua. Jesus: E as famílias dos presos? Zebedeu: Você pode imaginar, Jesus. Passando fome. O que é que vão fazer? Entre os mendigos e os camponeses que perderam a colheita e agora os filhos dos presos, Cafarnaum está que é uma lástima. João: Temos de fazer alguma coisa, Jesus. Não podemos cruzar os braços. Felipe: É o que eu sempre digo: Fomos a Jerusalém, voltamos de Jerusalém, e daí? Pedro: Agora estamos os treze juntos. Entre todos podemos pensar um plano. Salomé: Não comece a agitar mais ainda, Pedro, se não quiser que o pendurem em um pau. A polícia de Herodes anda bisbilhotando na taberna e diz que se alguém estiver conspirando será pego. Jesus: Pois vamos para fora da cidade, para não levantar suspeitas. Sim, é isso, amanhã podemos sair para dar uma volta e procurar um lugar tranquilo para falarmos sobre isso tudo. De acordo? Natanael: Amanhã, sim, amanhã de manhã. E se for de tarde ainda melhor. Estou de um jeito que não consigo dar nem mais um passo. Ai, minha avó, estou com os rins feitos pó. No dia seguinte, pela tarde, Tiago pediu ao velho Gaspar sua barca grande. Nela cabíamos os treze. Remamos em direção a Betzaida. Com a primavera, a orla do lago estava coberta de flores e o capim estava muito verde. João: Ei, Pedro, você se lembrou de pegar algumas azeitonas para enganar as tripas? Pedro: Azeitonas e pão. Pegue. Felipe: Vejam, e aquelas pessoas que estão na margem? O que será que acontece? João: No mínimo alguém se afogou. O mar rebenta muito nesses lugares. Homem: Ei, vocês, da barca, venham aqui. Venham. Natanael: Acho que os afogados seremos nós. Veja, Pedro, aqueles que estão fazendo sinais não são os gêmeos da casa grande? Pedro: Sim, são eles mesmos. Como é que vieram parar aqui? João: Devem ter vindo a pé de Cafarnaum. Seguramente o velho Gaspar lhes disse que viemos para cá. E chegaram primeiro que nós. Uma mulher: Pedro, Jesus não veio com vocês? Pedro: Veio. O que você quer com ele? Um homem: Com ele e com vocês. As coisas andam mal em Cafarnaum. Já lhes contaram? Uma mulher: Estamos passando fome. Nossos maridos presos e nós sem um pedaço de pão para dar às crianças. Um homem: E nós que estamos livres, não achamos onde ganhar uma porcaria de denário. Não há trabalho nem para Deus se ele se sentasse na praça. Pedro: E o que nós podemos fazer, se estamos quase que nem vocês? Outro homem: Venham, venham, amarrem a barca aqui. Venham. João: Escute, Jesus, não seria melhor embicar para outro lado? Há gente demais. Jesus: É que o povo está desesperado, João. As pessoas não sabem nem o que fazer nem para onde ir, estão como um rebanho sem pastor. Eram muitos esperando-nos na orla. Alguns vieram de Betzaida. Outros do casario de Dalmanuta. E também vieram muitos de Cafarnaum. Um homem: Vocês sempre dizem que as coisas vão melhorar, que vamos por fim levantar a cabeça. E vejam vocês, quando o profeta João a levantou, a cortaram. Uma mulher: Já não temos ninguém que responda por nós. Que esperança nos resta, heim? Estamos perdidos. Jesus: Não, dona Ana, não diga isso. Deus não vai deixar-nos desamparados. Se lhe pedirmos, ele nos dará. Se buscarmos uma saída, a encontraremos. Não ficaram sabendo o que fez Bartolo outro dia, quando lhe chegaram alguns parentes no meio da noite? Um homem: Bartolo? Que Bartolo? Jesus: Bartolo, homem, o que antes dava aqueles gritos na sinagoga, lembram? Uma mulher: Ah, sim, e o que aconteceu com esse lunático? Jesus: Para não perder o costume, continuou gritando. Afinal, que outra coisa esse coitado poderia fazer? Jesus, como sempre, acabava contando histórias para fazer-se entender melhor. Pouco a pouco, todos fomos nos sentando. Havia muita grama naquele lugar. Jesus: Pois vejam, acontece que outra noite, seus parentes vieram de visita e Bartolo não tinha nada em seu casebre para oferecer-lhes. Então foi até um vizinho: “Vizinho, abre-me, tum, tum, tum. Vizinho, não lhe sobrou nenhum pão do jantar?”. Mas o outro já estava roncando. “Tum, tum, tum. Vizinho, por favor.” E o outro da cama respondeu: “Deixe-me em paz! Não vê que estou deitado com meus filhos e minha mulher?”. Mas Bartolo continuava a bater, chamando à porta. Era um que não me amole, e outro que me empreste três pães. Resultado, o primeiro a se cansar foi o vizinho de Bartolo. E se levantou e lhe deu os pães que pedia para tirá-lo de cima. Uma mulher: Bom, e daí? Jesus: Que assim acontece com Deus. Se chamarmos ele acabará abrindo-nos a porta. E nos ajudará a ir adiante apesar de todas as dificuldades que temos agora. Vocês não acham? Quando Jesus acabou de contar aquela história, uma mulher magra, com uma cesta de figos na cabeça e um avental muito sujo, se aproximou de nós. Melânia: Vocês me perdoem, eu sou uma mulher rude, mas... Não sei, eu penso que a coisa também acontece ao contrário. Muitas vezes o que bate à porta é Deus. E nós somos os que estamos deitados, dormindo a sono solto. E Deus vem e nos esmurra a porta para darmos o pão que nos sobra aos que não o tem. As palavras de Melânia, a vendedora de figos, surpreenderam a todos nós. Melânia: Não é verdade o que digo, amigos? Pedir a Deus, sim, isso é bom, mas do céu, que eu saiba, não chove pão. Isso dizem que era antes, quando nossos avós iam caminhando por aquele deserto. Mas agora, já não acontecem esses milagres. Jesus: Esta mulher tem razão. Escutem, amigos: a situação está ruim. Há muitas famílias passando fome em Cafarnaum e em Betzaida e em toda a Galileia. Mas, se nos unirmos, se colocarmos o pouco que temos em comum, as coisas vão melhorar, vocês não acham? João: O que eu acho, Jesus é que já está muito tarde. Vai cortando o fio e vamos embora. Ei, amigos, já não é um pouco tarde? Nós estamos voltando a Cafarnaum. Um homem: Não, não, vocês não podem ir agora. Temos de discutir a questão das mulheres dos presos e o que vão comer os que estão sem trabalho. Pedro: Deixe isso para outro dia, amigo. Já está ficando escuro e, de verdade, vocês devem ter as tripas coladas à espinha. Uma mulher: E vocês também, que porcaria! Se formos agora desmaiaremos pelo caminho. Jesus: Escute, Felipe, não há nenhum lugar por aqui onde se possa comprar alguma coisa? Felipe: Um pouco de pão poderia ser comprado em Dalmanuta, mas eu creio que para tanta gente seriam precisos duzentos denários. Jesus: Vejam o que são as coisas, amigos. Vocês têm fome. Nós também. Nós trouxemos algumas azeitonas, mas não queremos mostrá-las porque não bastariam para todos. Penso que alguns de vocês também trouxeram seu pão por baixo da túnica e, tampouco se atrevem a mordê-lo para que o do lado não lhes peça um pedaço. João: É assim mesmo, Jesus e, sem ir mais longe, há aqui um menino que trouxe alguma comida. Jesus: O que você tem aí, garoto? Um menino: Cinco pães de cevada e dois peixes. Jesus: Ouçam, vizinhos, por que não fazemos o que a Melânia disse há alguns instantes? Por que não nos sentirmos como uma grande família e repartimos com todos o que temos? Na melhor das hipóteses isso dará. Um homem: Sim, é isso, vamos fazer isso. Ei, você, garoto, traga aqui os cinco pães que você tem. Eu tenho aqui dois ou três mais. Jesus: Você, Pedro, pegue as azeitonas e coloque-as no meio, para todos. Quem tem alguma coisa mais? Outro homem: Por aqui há uns quantos dourados. Com os dois do garoto e outros mais que apareçam. Melânia: Aqui está meu cesto de figos, pessoal. Quem tiver fome, pode ir comendo sem pagar. Tudo foi muito simples. Os que levavam um pão o puseram para todos. Os que tinham queijo ou tâmaras, o repartiram entre todos. As mulheres improvisaram algumas fogueiras e assaram os peixes. E assim, às margens do lago de Tiberíades, todos puderam comer naquela noite. Uma mulher: Escutem, se alguém quiser mais pão ou mais peixe. Ainda tem. Você quer, Pedro? Pedro: Eu? Não, estou mais estufado que um hipopótamo. Comi até demais. Outra mulher: Você, garoto, recolhe os pedaços de pão que sobraram. Sempre se aproveita... João: Agora, sim, companheiros, ao barco. Temos que voltar para casa. Um homem: Esperem, esperem, não vão ainda. Não acabamos de discutir a questão das mulheres dos presos e... Sim, claro, estou entendendo. O que temos que fazer é... Melânia: O que se tem que fazer é compartilhar. Jesus: Sim. Compartilhar hoje e amanhã também. E assim, o pão será suficiente para todos. E nós treze montamos na barca de Gaspar e começamos rema que rema no meio da noite rumo a Cafarnaum. Eu ia pensando enquanto cruzávamos o lago que um milagre, um grande milagre havia acontecido naquela tarde diante dos nossos olhos. A uns três quilômetros de Cafarnaum, bem próximo do lago da Galileia, está Tabgha, onde a tradição fixou há muito tempo o lugar em que Jesus comeu pães e peixes com uma multidão de conterrâneos. Tabgha é a contração em árabe da palavra grega “Heptapegon”, que quer dizer “Sete Fontes”. A igreja que hoje se visita em Tabgha está construída sobre a que já existia ali há mil e quatrocentos anos. Os mosaicos existentes no piso desta chamada “igreja da multiplicação” são os do antigo templo e têm um grande valor artístico e arqueológico. Em um destes antiquíssimos mosaicos se representa um cesto com cinco pães; e a seu lado há dois peixes. Desde a remota antiguidade, pães e peixes foram um símbolo eucarístico, por referência a este texto do evangelho no qual se realiza o essencial do que celebramos na eucaristia. Uma comunidade que compartilha sua fé, sua esperança e seu pão na presença de Jesus. Jesus conta a seus vizinhos, neste episódio, a parábola do amigo a quem pede ajuda de noite (Lc. 11,5-8). Com esta história quer ressaltar a confiança que devemos ter em Deus, que escuta nossas vozes quando clamamos a ele em nossa necessidade. Cedo ou tarde ele lhes abrirá a porta. Por outro lado, Jesus está tecendo uma história humorística com um ensinamento bem prático. Esta insistência ao pedir, esta cabeça dura que não cede, este impertinência tão oriental de saber insistir, esta astúcia que tem aquele que nada possui para conseguir o que procura, para surrupiar, tudo isso são valores que devemos saber usar para construir o Reino da Justiça. O pão era o alimento básico no tempo de Jesus. Até há pouco tempo, na maioria dos países do mundo, também o era. Algumas revoluções e revoltas populares estouraram precisamente quando faltou o pão ou quando subiu tanto de preço que aos pobres se tornou impossível comprá-lo. A falta de pão – que é o mesmo que dizer a fome – acendeu em muitas ocasiões o estopim da rebeldia dos pobres. Pelos escritos da época, podemos saber com muita aproximação o preço do pão no tempo de Jesus. O que uma pessoa comia diariamente equivalia a 1/12 de denário, isto é, 1/12 do salário de uma jornada, pois o mais frequente era que, na maioria dos ofícios, se ganhasse um denário por dia. O pão era comido na forma de tortas chatas, pouco grossas, como as que ainda hoje se usam nos países orientais. Para sua alimentação, um adulto, consumia pelo menos três dessas tortas. Deus não dá de comer diretamente aos homens. E a prova mais palpável é a fome do mundo, padecida pela maioria da humanidade e não querida por Deus. Os famintos não devem esperar do céu a solução de sua miséria. O evangelho nos indica outra alternativa: Compartilhar. Não é necessário “comprar” – como propõem os discípulos. Basta “dar”, pôr em comum o que cada um tem. E assim haverá para todos. Este seria o maior dos milagres. Se se compartilha tudo, “todos ficam saciados” e inclusive sobra. A missão da comunidade cristã no mundo dominado pela injustiça e regida pelo dinheiro e pela acumulação de bens, será sempre o amor. Mas não um amor de palavra, de bonitos discursos, mas um amor expresso no compartilhar. Deus é generoso e quer que todos comam, vivam, estejam saciados. Mas essa sua vontade se torna realidade unicamente através da generosidade da comunidade. Tudo isso é o que a comunidade expressa e celebra quando se reúne na eucaristia para compartilhar o pão. Mateus 14,13-21 e 15,32-39; Marcos 6,30-44 e 8,1-10; Lucas 9,10-17; João 6,1-14)
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