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Capítulo XXIX OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE Toda Jerusalém estremeceu ao saber da morte de João, o profeta do deserto, degolado como um cordeiro de páscoa no cárcere de Maqueronte. Muitos o choravam como quem chora a um pai, como se houvessem ficado órfãos. A notícia correu de porta em porta. Pôncio Pilatos, governador romano, ordenou que se redobrasse a vigilância nas ruas da cidade para impedir qualquer revolta popular. Mas os zelotas não se acovardaram por isso. Um zelota: Companheiros, o sangue do filho de Zacarias tem de ser vingado. Herodes cortou a cabeça de João. Que caiam as cabeças dos herodianos! Os revolucionários zelotas esconderam os punhais debaixo das túnicas. E foram de noite ao bairro dos ourives, perto da torre do Ângulo, onde Herodes Antipas tinha seu palácio e onde viviam os herodianos, partidários do rei da Galileia. Herodiano: Agghhh! Um zelota: Um a menos. Vamos, depressa. No dia seguinte, amanheceram as cabeças de quatro herodianos, balançando-se entre os arcos do aqueduto. Uma mulher: Maldição! Agora degolarão nossos filhos! Outra mulher: Que Deus ampare minha comadre Rute. Ela tem seu filho preso na Torre Antônia. A represália dos romanos, instigados pelos cortesãos do rei Herodes, não se fez esperar. Na primeira hora da tarde, quando o sol fazia ferver a terra e ondeavam as bandeiras amarelas e pretas na Torre Antônia, dez jovens israelitas simpatizantes dos zelotas foram levados para serem crucificados no Calvário, a macabra colina onde se justiçava os presos políticos. Um homem: Malditos romanos! Um dia pagarão por todas essas coisas! Outro homem: Cale-se imbecil, se não quer que lhe preguem as mãos como a esses infelizes. Diante dos dez condenados à morte, um arauto gritava com as mãos em concha junto à boca para que todos ouvissem e temessem. Um soldado: Assim terminam todos aqueles que se rebelam contra Roma! Assim acabarão seus filhos, se continuarem a conspirar contra a águia imperial! Viva César e morram os rebeldes! Um homem: Um dia vocês vão pagar, filhos de uma cadela, um dia! Os dez crucificados ficaram agonizando toda aquela noite. Seus gritos desesperados e suas maldições eram ouvidas desde os muros da cidade. As mães dos justiçados arrancavam-se os cabelos e se arranhavam o rosto junto às cruzes, pedindo clemência para seus filhos, sem poder fazer nada por eles. Jerusalém não pôde dormir naquela noite. Um zelota: Escute, Simão. Vamos nos reunir na casa de Marcos quando escurecer. De acordo? Avise Jesus, o de Nazaré e os de seu grupo. Que não cheguem todos juntos para não levantar suspeitas. Vai depressa! Judas, de Kariot, e Simão o sardento, que tinham contatos com os zelotas da capital, nos trouxeram a mensagem. O grupo de Barrabás tinha um plano e queria saber se podia contar conosco. Jesus: O que foi, Felipe? Está com medo? Felipe: Medo não, estou aterrorizado... Uff... Quem me mandou vir a esta cidade? Jesus: Quem não se arrisca nunca faz nada, cabeção. Eia, companheiros, vamos até lá ver o que querem de nós. Quando o sol se escondeu atrás do monte Sion, saímos de dois em dois e fomos chegando, por diferentes vielas, à casa de Marcos, o amigo de Pedro, também simpatizante do movimento, que vivia perto da Porta do Vale. Todas as lâmpadas estavam apagadas para não chamar a atenção dos soldados que patrulhavam sem descanso até o último rincão da cidade. Os cumprimentos foram em silêncio. Depois nos sentamos sobre o chão de terra e assim, entre sombras, Barrabás, o dirigente zelota, começou a falar. Barrabás: Cabeça por cabeça, companheiros. Herodes degolou o profeta João em Maqueronte e nós vingamos seu sangue com as cabeças de quatro traidores. Todavia, ainda nem limpamos os punhais e já temos de usá-los de novo. Crucificaram dez dos nossos melhores homens. Um zelota: Que seu sangue caia sobre a cabeça de Pôncio Pilatos! A maldição de Deus para ele e para Herodes Antipas! Barrabás: Pilatos pensa que vai nos assustar com isso. Pois terá de cortar toda a madeira dos bosques da Fenícia para preparar cruzes para todos os homens de Israel! Para todos nós, quando chegar o momento! Barrabás tinha experiência do cárcere. Duas vezes os romanos o haviam agarrado e duas vezes tinha conseguido escapar, quando estava a ponto de perder a pele. Mas ainda o andavam procurando pela Pereia. Barrabás: E então, galileus? Podemos contar com vocês? Felipe: Contar para quê? Barrabás: E pra que seria? Para tirar de circulação uma dúzia de romanos e outro tanto de judeus traidores. Não podemos permitir que esses esbirros levem vantagem. Muito bem, o que acham? Contamos com vocês, sim ou não? Jesus: E depois, o que acontece? Barrabás: O que está dizendo, nazareno? Jesus: Digo o que acontece depois? A pergunta de Jesus soou um pouco estranha para todos nós. Jesus: Não sei, Barrabás. Eu o escuto falar e me recordo do pastor quando está em cima da montanha e atira uma pedra, e essa pedra rola e empurra outra pedra, e as duas empurram outras duas, e quatro e dez. E, ao final, não há quem possa deter a avalanche. A violência de que você fala é perigosa, é como uma pedra jogada do cume de uma montanha. Barrabás: Não me venha agora com histórias, Jesus. Quem está praticando a violência são eles, não compreende? Jesus: Claro que compreendo. Sim, eles são os que golpeiam, os que destroem, os que semeiam a morte. Mas nós não podemos nos contagiar com sua febre de sangue. Seria o cúmulo se conseguissem fazer de nós sua imagem, gente que só sabe de vingança. Zelota: Esta bem, mas o que você quer então? Que cruzemos os braços? Jesus: Quem cruza os braços também faz o jogo deles. Não, Moisés não cruzou os braços diante do Faraó. Barrabás: Moisés disse: olho por olho, dente por dente. Jesus: Sim, Barrabás. Mas que olhos e que dentes? Os dos quatro herodianos que vocês degolaram ontem? Quem eram esses homens, diga-me? Foram eles que assassinaram o profeta João? Eram eles os culpados por toda essa injustiça em que vivemos? Ou, ao contrário, eram uns pobres diabos, iguais a você e a mim, desses que os grandes levam e trazem e jogam pra brigar contra nós? Barrabás: Maldição, mas como você pode falar assim? Você, precisamente, você. Será que você não se lembra de como morreu seu pai, José? Jesus: É por isso mesmo que eu falo, Barrabás, porque sofri na própria carne a dor de ver meu pai surrado como um cachorro por ter escondido alguns conterrâneos quando da confusão em Séforis. Senti também em minha carne o desejo de vingança. Mas não. Agora penso que esse caminho não leva a parte alguma. Zelota: E que outro caminho existe, nazareno? Nosso país precisa encontrar uma saída. E a única saída passa pelo fio do punhal. Jesus: Tem certeza disso? Não sei, vocês do movimento querem a rebelião do povo. Mas o que eu percebo é que as pessoas estão demasiadamente resignadas. Ainda temos muitas vendas sobre os olhos. Não será necessário trabalhar primeiro para que os cegos possam ver e os surdos escutar? O que ganhamos com revanches de sangue se o povo não entende o que está acontecendo? Barrabás: Nós somos os guias do povo. As pessoas vão aonde as levam. Jesus: E você não acha que isso não seria mais que mudar de jugo? É o povo que tem de levantar-se sobre seus pés e aprender a andar seu próprio caminho. A saída terá de ser buscada entre todos, a saída verdadeira, a única que nos fará livres. Barrabás: Suas palavras são as de um sonhador. Mas Deus não sonha tanto quanto você. É Deus que pede vingança. Em nome de Deus acabaremos com nossos inimigos. Jesus: Você degola os herodianos em nome de Deus. E os herodianos nos crucificam em nome desse mesmo Deus. Quantos deuses há então, diga-me? Barrabás: Há um só, Jesus. O Deus dos pobres. Se você está com Deus, está com os pobres. Se está com os pobres, está com Deus. Jesus: Tem razão, Barrabás. Eu também creio no Deus dos pobres. O que libertou nossos antepassados da escravidão no Egito. É o único Deus que existe. Os demais são ídolos que os faraós inventam para continuarem abusando de seus escravos. Mas... Barrabás: Mas, o quê? A luz mortiça da lua se pendurava pelas frestas da casa e deixava ver, na penumbra, os rostos severos dos dirigentes zelotas. Barrabás: Mas, o quê? Jesus: Que é preciso amar a eles também. Zelota: Amá-los? Quem? Jesus: Os romanos. Os herodianos. Os nossos inimigos. Barrabás: Isso é uma piada ou... Ou não o entendemos bem? Jesus: Escutem-me. E me desculpem se não expliquei bem. Mas eu penso que Deus faz nascer todos os dias o mesmo sol sobre os bons e sobre os maus. Nós, que cremos no Deus dos pobres, temos de nos parecer um pouco com ele. Não podemos cair na armadilha do ódio. Barrabás: Nesta escuridão, apenas lhe vejo o rosto, nazareno. Não sei se é você mesmo que me fala, este que dizem que é um profeta da justiça, ou se é um louco que está se fazendo passar por ele. Jesus: Olhe, Barrabás. Se lutarmos pela justiça, teremos inimigos, isso já se sabe. E teremos que combatê-los, despojá-los de suas riquezas e de seu poder como fizeram nossos avós ao sair do Egito. Sim, teremos inimigos, mas não podemos fazer como eles, não podemos nos deixar levar pelo afã da revanche. Barrabás: Vamos acabar com isso de uma vez. Isso tudo é história pra fazer criança dormir. Diga-me se está disposto a matar. Jesus: Matar? Eu não, Barrabás. Zelota: Então matarão você, imbecil. E você terá perdido tudo! Jesus: Quando se ganha? Quando se perde? Você sabe? Barrabás: Vai pro diabo, Jesus de Nazaré. Você está louco, completamente louco. Ou talvez não passe de um covarde vulgar, não sei. E vocês? Pensam como ele, estão tão loucos como ele? Pedro ia tomar a palavra para responder, mas nesse momento se nos gelou o sangue a todos. Um zelota: Os soldados! Os soldados estão vindo! Outro zelota: A polícia de Pilatos! Fomos descobertos! Outro zelota: Maldição. Estamos perdidos. Barrabás: Depressa. Fujam pelo pátio. Jesus: Pedro, vão vocês por aquela porta. Pedro: E você, Jesus? Jesus: Deixem-me aqui. Eu aguentarei os soldados até que vocês estejam longe. Pedro: Está louco. Eles o matarão. Jesus: Vai, vai logo. Pedro: Mas o que você vai fazer? Jesus: O mesmo que fez Davi com os filisteus. Os soldados já esmurravam a porta. Um soldado: Ei, quem está aí? Abram! Jesus: Depressa, vão embora! Os da turma de Barrabás saltaram com agilidade as cercas que davam para outra rua. Nós corremos pelo pátio da casa de Marcos e desaparecemos entre as sombras. Jesus ficou sozinho. Quando abriu a porta, tremia de medo. Um soldado: O que acontece aqui onde se ouve tanto barulho? Jesus: Agu, agu, agu! Rá, rá, rá... ré, ré! Outro soldado: Quem é esse sujeito? Olhe, o que está fazendo aqui? Jesus: Abaixo os soldados, vivam os capitães, abaixo os centuriões, vivam os generais! Rá, rá, rá! Jesus tamborilava com os dedos sobre o batente da porta e olhava os soldados com um sorriso estúpido, deixando cair a saliva sobre a barba. Um soldado: Não tem vergonha? Tão grande e tão imbecil! Tome, para ver se aprende! Outro soldado: Este homem é louco. Como se não tivéssemos já bastante em Jerusalém! Para com isso, vamos embora daqui! Jesus: Rá, rá, ré, ré! Uff... Dessa, nós nos livramos. Ainda era noite fechada quando voltamos a encontrar todo o pessoal do grupo na taberna de Lázaro, lá em Betânia. E quando os galos cantaram, ainda estávamos conversando, trocando mil ideias. O rei Davi se fez de louco para salvar a pele. E o Moreno, com o mesmo truque, nos salvou a todos naquele dia. Sim, às vezes a astúcia serve mais que o gume do punhal. Ainda que os zelotas tivessem seu centro de atividade nas terras galileias, região onde havia nascido o Movimento, atuavam também em Jerusalém. As peregrinações durante as festas lhes serviam para estabelecer alianças na capital e tinham ali grupos de simpatizantes que seguiam suas propostas. Entre os revolucionários influenciados pelo zelotismo, era muito conhecido o grupo dos sicários – terroristas armados de punhais -, que viam facilitados seus atentados nos tumultos próprios das festas. Zelotas e sicários praticavam sequestros de personagens importantes, assaltavam fazendas e casas dos ricos e saqueavam arsenais de armas. Entendiam sua luta como uma autêntica “guerra santa”. O Deus zeloso que não tolera outros deuses (o dinheiro, o imperador, a lei injusta) lhes dava seu nome: Zelosos = zelotas. O castigo para todos estes delitos políticos contra o império romano era a morte na cruz. Barrabás (nome aramaico que significa “filho do pai”), aparece nos evangelhos unicamente nos textos da paixão, como um delinquente político que durante uma revolta havia matado um soldado romano. O relato o apresenta como um dos líderes zelotas de maior importância em Jerusalém. Conheceria Jesus, porque naquelas alturas, Jesus já era um homem popular, a quem começavam a escutar com esperança os pobres da capital. Sendo o movimento zelota um movimento também popular, nada tem de estranho que Barrabás buscasse se relacionar com Jesus e com seu grupo. A chamada “lei de talião” (Ex. 21,23-25): “Olho por olho...” não deve ser interpretada simplistamente como uma lei de vingança. Às vezes se pretendeu contrapor o Deus que deu a Israel esta lei “selvagem”, com Jesus, todo amor e misericórdia. É equivocada esta contraposição. A lei de talião no mundo de quatro mil anos ou mais, era uma lei de respeito à vida: ao impor um castigo que fosse exatamente igual à ofensa, buscava precisamente pôr um limite à vingança e frear a violência. O mundo antigo no qual se promulgou esta lei, era um mundo sanguinário, com povos que se impunham uns sobre os outros, nunca pelo direito, mas sempre pela força. Tudo isso deve ser levado em conta para entender qual é a posição de Jesus e qual a dos zelotas. Estes não eram animais ávidos de sangue. Eram fiéis a uma longa tradição legal e, de certo modo, válida para seu tempo. Jesus vai contrapor-lhes outro caminho. Vai empurrar ainda mais para a frente as fronteiras da possibilidade da convivência humana, falando não de uma vingança limitada, mas de outros valores. O poder da debilidade e o amor aos inimigos. Jesus não foi um zelota. Os zelotas eram intolerantemente nacionalistas. Queriam a libertação de Israel do jugo romano, mas paravam por aí. Jesus foi um patriota, porque amou sua terra, mas não foi nacionalista, seu projeto não admitia fronteiras nem discriminações. Os zelotas eram profundamente religiosos, mas seu Deus era um Deus exclusivo do povo escolhido de Israel, que em seu reino vingar-se-ia das nações pagãs. Este nunca foi o Deus de Jesus. Os zelotas eram fervorosos defensores do cumprimento estrito da lei, ponto no qual Jesus se diferenciou deles por sua total liberdade diante da lei e da autoridade, ainda que estas fossem judaicas. No entanto, opor absolutamente Jesus e os zelotas pode nos fazer perder de vista realidades importantes: Jesus se relacionou com eles, sem nenhum tipo de reticências – alguns de seus discípulos provavelmente foram zelotas – Jesus compartilhou muitas das reivindicações sociais deste grupo, num comum e ardente desejo de que chegasse o reino de justiça, usaram inclusive expressões parecidas. As relações de Jesus com este movimento popular não podem ser despachadas com afirmações rotundas. Poderíamos dizer que o mais exato neste ponto é afirmar que o que Jesus propõe, vai mais além, inclui e supera a revolução proposta pelos zelotas. Quanto à tática, Jesus também se diferenciou dos zelotas em sua postura frente à violência. Tanto por sua palavra quanto por sua atitude, Jesus pôs em questão a violência enquanto método. Mas este é um tema suficientemente complexo para que se queira liquidar com duas palavras, afirmando simplistamente que Jesus foi um não-violento e que o evangelho condena a violência venha de onde vier. Primeiro é preciso levar em conta que há violência tanto no ato de matar quanto no de não deixar viver, que não só existem atos de violência mas também estruturas e situações violentas. Que existem homens violentos, mas mais perigosas ainda são as sociedades violentas, nas quais a injustiça mata muitos de fome, de desemprego, de doenças, de miséria. Por outro lado, Jesus também foi violento quando enfrentou as autoridades. Sua palavra foi então duramente violenta. O foi também em alguns momentos, especialmente no ato massivo que protagonizou na esplanada do Templo. No entanto, ele não matou, foi morto; nunca instigou os seus a nenhuma forma de violência e não usou de resistência armada para salvar-se, quando seguramente poderia fazê-lo. Nesta época, na conjuntura concreta de Israel, a violência propugnada pelo zelotismo não tinha nenhuma saída, estava fadada ao fracasso e era contínuo pretexto para que os romanos desencadeassem seu poderosíssimo aparato de repressão contra o povo, tal como ocorreu no ano 70, depois de Jesus, quando Roma arrasou Jerusalém na guerra contra a subversão zelota. É evidente que à prepotência das armas, o cristianismo opõe principalmente a força da debilidade que se esconde na palavra verdadeira e na liberdade que dá na luta o não estar apegado a nada e, portanto, o não ter nada a perder. É certo que se respondermos ao violento com violência, podemos acabar sendo tão violentos como aquele a quem pretendíamos combater. Por outro lado, é preciso recordar que desde os Padres da Igreja, passando por Santo Tomás, até Paulo VI, a Igreja defendeu o direito à insurreição armada quando se prolonga uma situação injusta e se hajam esgotado todos os meios pacíficos de superá-la. Levando em conta todo este marco, Jesus fala do amor aos inimigos. Se não dermos um contexto a esta frase, corremos o perigo de evaporá-la, de convertê-la numa receita adocicada, carente de significado. Neste episódio, Jesus diz esta difícil palavra de amor aos inimigos, partindo de sua própria experiência. É que talvez só sabe amar de verdade o inimigo, aquele que se viu tentado a odiá-lo. Só sabe perdoar quem sofreu na própria carne o ódio do inimigo em forma de tortura, humilhação ou morte. Quem só prega o perdão e o amor de ouvido ou de palavras, tem pouca autoridade ao falar e não convence. A palavra evangélica sobre o amor ao inimigo deve ser levada muito a sério. Não se pode manipular, não se deve abusar dela. Por um lado o evangelho não nos diz que não tenhamos inimigos, mas que, tendo-os, sejamos capazes de amá-los. Isto é, o evangelho não foge do conflito. Não cria a luta, nem sequer a fomenta. Aceita-a e pretende orientá-la para o amor. Neste episódio, Jesus não diz que se deve apresentar a outra face, mas que ele próprio a apresenta. E faz isto inspirando-se no que o rei Davi fez na terra dos filisteus para escapar dos que o perseguiam (1Sam 21,11-16). É um gesto profético, e por isto, libertador. Com ele salva seus companheiros. É uma forma de dizer que, se isto de apresentar a outra face é pregada como passividade ou resignação, não somos fiéis ao evangelho. Por isso se fazemos da atitude não-violenta uma forma de busca de eficácia, uma estratégia, uma astúcia, estaremos muito mais próximos de entender o que é a não-violência na mensagem de Jesus. (Mateus 5, 38-48; Lucas 6, 27-36)
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