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Capítulo XXVIII A TABERNA DE BETÂNIA A pouca distância de Jerusalém, do outro lado do Monte das Oliveiras, está Betânia, um povoado pequeno e branco, rodeado de tamareiras. Aliás, seu nome quer dizer isso mesmo: terra das tâmaras. Quando os galileus iam a Jerusalém, terminavam sempre buscando pousada ali, em algumas das pensões de Betânia. Lázaro: Marta, veja esse pão que você pôs no forno! Está cheirando a queimado! E você, Maria, pare de falar e prepare outras seis esteiras! Lá, lá, rá, lá, ri! Esta é a melhor época do ano, sim senhor! Jerusalém arrebenta de peregrinos! Maria: E eu vou arrebentar os meus rins! Não faço outra coisa que agachar-me e levantar-me preparando esteiras. Escute, irmão, isso já está muito cheio. Não cabe mais nem uma agulha. Se alguém chegar pedindo pousada, diga que não, que não há mais lugar. Lázaro: Mas, menina, você não sabe que quem diz não a um galileu fica com a língua seca e começa a sair lombrigas pelas orelhas? Dá azar dizer não a um galileu. Aqui há lugar para mais uns vinte, pelo que eu sei, e eu conheço esta taberna melhor que a palma de minha mão! Epa, Marta, me ajude com esta sopa, que os clientes estão esperando! Marta: Já vou, homem, já vou! Não tenho sete mãos! “A Palmeira Bonita” era o nome da taberna de Lázaro em Betânia. Nela se amontoavam, mulas, homens e camelos nas grandes festas que ocorriam em Jerusalém, três vezes ao ano. E, sobretudo, na Páscoa. Então, quando a taberna estava transbordando de gente e de animais e o ar ficava espesso com o cheiro de vinho, suor e estrume, era quando Lázaro se sentia completamente feliz. Lázaro: Que me dizem dessa sopa, hein? Sirvam-se, sirvam-se um pouco mais, que ainda tenho outro caldeirão cheio! Não quero que ninguém passe fome na minha casa! Aqui se dorme bem e se come melhor ainda! Depois, espalhem isso por todo o norte! Lázaro era um homem gordo e alto, com uma tamanha barba que terminava onde começava sua abundante barriga. Tinha nascido na Galileia, em Séforis, e foi muito jovem para a Judéia. Desde então, se encarregou de levantar aquele negócio. Não tinha mulher. Quando lhe perguntavam, dizia sempre que ele estava casado com sua taberna e retorcia com gosto seus bigodes negros. Lázaro: Marta, vai preparando quatro cabeças de cordeiro! Estes conterrâneos querem provar a especialidade da casa! Marta: Vou avisando que demora um pouco para ficar pronto. Não posso estar em toda parte ao mesmo tempo. Lázaro: Não tenha pressa, mulher, não se afobe. Marta: Você não tem pressa, mas estes aí estão com fome. E eu não gosto de fazer as pessoas ficarem esperando. Lázaro: Prepare as cabeças de cordeiro e cale essa matraca. Se eles não quiserem, a gente mesmo manda para dentro. Marta: Mas você acabou de comer Lázaro! Parece um saco sem fundo! Marta, a irmã mais velha de Lázaro, era uma mulher forte, de braços robustos e pernas ágeis. Trabalhava na pensão fazia já alguns anos, desde que ficara viúva. E trabalhava muito. Lázaro confiava plenamente e gostava muito dela. Desde que Marta começou a ajudá-lo na taberna, o negócio cresceu como a espuma do vinho ao fermentar. Maria, a outra irmã de Lázaro, era muito diferente. Maria: Ai, Lázaro, ai! Lázaro: O que foi, Maria? Maria: Você nem sabe o que me contou o Salim, o mercador de camelos que acaba de chegar. Diz que por Samaria encontrou-se com uma dezena de ladrões. Levavam uma faca na boca e saiam debaixo das pedras, como caranguejeiras! Lázaro: Conversa, conversa... Maria: Mas, Lázaro, imagine se algum dos que chegaram ontem do norte for um deles! Há um manco que não me cheira nada bem. Lázaro: Se é manco, como pode ser ladrão, Maria? Maria: Sobram-lhe as mãos, Lázaro! Esse homem é muito estranho, olhe o que estou dizendo. Estive observando seu casaco e lá no fundo brilhava uma coisa. Não será desse bando? Esse mercador de camelos que eu falei, me contou que esses ladrões procuram joias. Lázaro: Bom, pois se é isso o que procuram, vão sair com as mãos abanando. Aqui a única coisa que encontrarão são caldeirões de sopa e ratos! Maria: Lázaro... Lázaro: O que é, Maria? Não me assustam suas histórias de ladrões. Maria: Não, não é isso. Olhe, esse mercador de que falei... Eu acho que seria um bom marido para Marta, não acha? Parece muito honrado. E tem as mãos grandes e fortes. Saberia defendê-la. Lázaro: Defendê-la de quem? Marta sabe se defender sozinha! Vamos, chega de fuxico. Já preparou as esteiras que eu mandei? Maria: Ui, tinha me esquecido! Conversando com o mercador de camelos. Lázaro: Que diabo, você esquece de tudo! Corre prepará-las! Anda, corre! Maria era a outra irmã de Lázaro. Tinha os olhos grandes e um pouco vesgos, como dois pássaros soltos que iam atrás de tudo o que viam. Era feia, mas tão alegre, que pouco tempo depois de estar conversando com ela, a gente só tinha olhos para sua boca, que sorria sempre. Seu marido a tinha abandonado há alguns meses. E desde então, também trabalhava com Lázaro na taberna. Lázaro: Maria, vai preparando mais esteiras, além daquelas que lhe disse! Aí vêm outros galileus! Era pouco mais de meio-dia quando chegamos à Palmeira Bonita. Em Jerusalém nos disseram que lá poderíamos encontrar pousada. Chegamos cansados da caminhada, cheios de pó e com as tripas vazias. Quando nos aproximamos da taberna, Lázaro saiu para nos receber à porta. Lázaro: Ei, vocês, quantos são? João: Conte, conte... todos os que você vê aqui. Lázaro: Seis, oito, doze... treze. Treze: dizem que este número dá azar. Tomé: É o que eu di-di-disse. Lázaro: Mas para mim um galileu nunca trouxe má sorte! Ao contrário! São das bandas de lá, não? Pedro: Quase todos. Bom, este do lenço amarelo, não. E o de sardas, também não. Tomé: Eu sou da Judeia, tam-tam-também. Jesus: Bom, amigo, há lugar para nós ou não? Lázaro: Pois é claro que sim, galileus, claro que há! Onde cabem sete ovelhas, cabe um rebanho inteiro, não é assim? Além disso, vocês chegaram na hora de fincar os dentes em umas cabeças de cordeiro que estão saindo. Ó? Estão sentindo o cheiro? Outros clientes iam comê-las, mas não tiveram paciência de esperar até que os miolos ficassem bem macios! Estava escrito no livro dos céus que essas cabeças iriam parar na pança de vocês! Vamos, entrem! Quando entramos na taberna de Lázaro, Marta estava recolhendo as sobras de comida que tinha sido servida pouco antes a quatro dezenas de conterrâneos. Pelos cantos do amplo pátio ainda ficaram alguns bebendo e jogando dados. Os bodes mordiscavam pedaços de pão no chão e um camelo passava lentamente com suas corcovas diante de nossos olhos. Lázaro: Ei, Marta, prepare também uma panela de grão-de-bico! E traga o vinho! Chegaram mais fregueses e estão com fome! E você, Maria, venha cá correndo! Sentem-se por aí, camaradas, a comida já está saindo. Bom, e contem-me, que novidades trazem da Galileia? Quando vão cortar o pescoço de Herodes? De onde estão vindo agora? João: De Cafarnaum. Nos juntamos lá para vir celebrar a Páscoa. Pedro: E conte-nos você o que há por Jerusalém. Vimos muitos soldados. Lázaro: Todos os anos é a mesma coisa. Mas este ano há mais guardas que ratos. E cada um tem quatro olhos na frente e outros quatro atrás. Temos de andar com muito cuidado! Maria: Como, Lázaro? Quantos vieram? Lázaro: São treze, Maria. Vai preparar treze esteiras. Maria: Mas, Lázaro, não sabe como está isso? Estão pisando uns nos outros. Lázaro: Procure treze brechas onde Deus quiser, Maria. Mas antes atende estes compatriotas enquanto eu vou recolhendo os pratos por aí. E vocês, não deem bola para esta minha irmã. Se se descuidam, os enreda em seu novelo e daí não saem mais. Maria: De onde você é? Galileu, não é mesmo? João: Sim. Vivo em Cafarnaum. Maria: Ai, Cafarnaum! Foi lá que conheci um tal Panfílio. Me contava cada coisa! Dizia que Cafarnaum é uma cidade muito bonita e com mais jardins que a Babilônia, e tão grande que só um par de sandálias não dá para percorrê-la de uma ponta a outra. E me dizia também que no lago tem uns peixes assim de grandes, de quatro cores – bendito seja Deus –, e umas palmeiras assim de altas, que tapam o sol com suas folhas. Puxa vida, eu adoraria ir ao norte e conhecer tudo aquilo! Mas, imaginem, compadres, a gente aqui, amarrada nessa taberna para tocar os negócios. Ah, mas quando eu ficar velha, vocês vão ver, então eu vou dar a volta no país inteiro, nem que seja montada nesse camelo. Então você é de Cafarnaum como Panfílio. E você, de onde é? Também é de lá? Pedro: Não, eu sou de um lugar mais pra cima. De Betzaida. Maria: Da grande ou da pequena? Esteve por aqui um tipo de Betzaida que andava me paquerando. Mas era vesgo, assim como eu. Bom, um pouco pior que eu. Não nos entendíamos. Quando eu olhava para um lado, ele olhava para o outro. Era uma confusão só! Dois vesgos não podem se casar! Escute, e você de onde é? Jesus: De Nazaré. Maria: De Nazaré? Ui, nunca tinha ouvido falar desse lugar! Jesus: Eu também não, Maria, até ter nascido nele. Maria: E onde fica isso? Jesus: Longe, muito longe. Onde o diabo deu os três berros e ninguém escutou. Maria: Ai, que piada! Jesus: Aquilo é muito pequeno, sabe? Não é como Cafarnaum. Mas as coisas pequenas também são importantes, não acha? Escute esta: O que é o que é: pequeno como um camundongo e guarda a casa como um leão. Maria: Pequeno como um camundongo e... A chave! Adivinhei, adivinhei! Jesus: Escute esta então: Pequeno como uma noz, sobe o monte e não tem pés. Maria: Espera. Uma noz sobe o monte. O caracol! Rá, rá, rá, Outra, outra! Jesus: Esta você não acerta. Escute bem: Não tem osso, nunca está quieta, e com mais fio que uma tesoura. Maria: Não tem osso. Esta eu não sei. Jesus: A sua língua, Maria, a sua língua que não se cansa de falar! Maria: Ah, não, isso não vale, não. Que engraçado! Escute, como você se chama? Jesus: Jesus. Tomé: O cha-cha-chamam de mo-mo-moreno. Maria: Está com alguma coisa na garganta? Se quiser, lhe dou uma receita: duas medidas de água e duas de erva-doce que já ficou de molho durante três dias. Faça gargarejos e a língua se solta para falar com gosto. João: Essa aí já deve ter tomado muito deste xarope, não? No fundo da taberna, Marta começou a ficar impaciente. Marta: Lázaro, Lázaro! Mas você não percebe que Maria não para de conversar e me deixa todo o trabalho que há na cozinha? Diga-lhe que me ajude! Lázaro: Que diacho de mulheres! Arrumem-se como bem entenderem! Então Marta se aproximou de onde estávamos sentados. Sobre o seu vestido listrado tinha um avental grande, engordurado, que cheirava a cebola e alho. Marta: Olhem, vocês me perdoem, mas é preciso preparar comida para treze e se esta minha irmã não faz mais do que tagarelar, não vamos acabar nunca. Não falem mais com ela, para ver se ela vem me dar uma mão. Maria: Marta, escute isso: “pequeno como um camundongo e guarda a casa como um leão”. Hein? A chave! Marta: Venha, Maria, pelo amor de Deus, senão não acabamos nunca. Jesus: Mas, Marta, não se preocupe tanto. Temos fome e para boa fome não tem pão duro. Com qualquer coisa nos arranjamos. Não se aflija, não é necessário. Olhe, Maria, escute esta agora: pequeno como um pepino e vai dando gritos pelo caminho. Maria ficou ainda um bom tempo conversando. Ria conosco e a gente ria com ela. Sua alegria contagiante era mais necessária que o pão e o sal. De qualquer forma, quando Marta nos trouxe aquelas cabeças de cordeiro que Lázaro tinha elogiado tanto, engolimos tudo em um segundo. Lembro-me que não deixamos nem os ossos. Nos dias de festa era difícil encontrar alojamento em Jerusalém, tamanha a aglomeração de peregrinos. Reunia-se tanta gente que um ditado popular da época afirmava que um dos dez milagres que Deus realizava de seu templo era que todos coubessem na cidade. Embora fosse impossível que todos se alojassem nos albergues situados dentro das muralhas, tendo que ir alojar-se nos povoados vizinhos. Por outro lado, é improvável que acampassem ao relento, pois no tempo da Páscoa, as noites em Jerusalém, próxima do deserto, são muito frias. Sabe-se que assim como os diferentes setores da população tinham seus bairros fixos na capital, assim também os diferentes grupos de peregrinos tinham seus lugares habituais de hospedagem. Tudo leva a crer que o acampamento dos que vinham da Galileia estava situado na parte ocidental da cidade, onde fica Betânia. Betânia é um pequeno povoado situado a uns seis quilômetros a leste de Jerusalém, pouco além do Monte das Oliveiras, no caminho que vai para Jericó. Atualmente se chama também El-Azariye, em homenagem a Lázaro. No porão de uma igreja dedicada a Marta, Maria e Lázaro, conserva-se uma grande prensa de azeitonas e um poço da época de Jesus. Em toda cidade israelita relativamente grande havia albergues para alojar os peregrinos que iam a pé ou as caravanas de comerciantes. Estas hospedarias – os hotéis daquela época – consistiam em um grande pátio cercado, com pequenos quartos ao redor, onde encontravam abrigo tanto os homens como as cavalgaduras e outros animais. Atualmente, nos países orientais há ainda hospedarias deste tipo, as chamadas “kans” (caravassares). Em Israel há uma construção antiga na cidade portuária de São João de Arce (Akko), lugar histórico durante o tempo das Cruzadas. Em uma destas tabernas, cheia de desordem e algazarra em contínuo trânsito de gente, é que situamos o relato de Lázaro e suas irmãs, Marta e Maria. Embora os evangelhos nos deem poucos dados sobre os três, uma tradição piedosa bastante antiga, os apresenta como uma família de classe média, ou média alta, que recebia Jesus, em uma casa cômoda e tranquila, como um conselheiro espiritual que lá iria quando estivesse cansado de se misturar com o povo. Esta imagem não tem base alguma nos textos evangélicos. Ao contrário, os dados históricos sobre as hospedarias que havia na região de Betânia, dão base para situá-los em outro marco: gente do povo, que vivia de seu trabalho e certamente, sem refinamentos. Sua amizade com Jesus era fruto do frequente contato que tiveram com ele e seus amigos quando viajavam à capital. No relato, Lázaro aprece como um homem vitalista, expansivo e generoso, feliz com o seu trabalho, bom comedor e ainda melhor bebedor. Marta é viúva. Uma mulher prática, trabalhadora e séria. Maria, a irmã mais nova, – a quem o marido abandonou – é alegre, faladeira, espontânea, atrapalhada. Os três irmãos dedicam todos os seus esforços para tocar “A Palmeira Bonita”, que é seu negócio e seu lar. O texto de Lucas que serve de base a este episódio serviu em muitas ocasiões para contrapor oração e ação, vida contemplativa e vida ativa e, inclusive, chegou-se a limitar a mensagem destas palavras aos religiosos: os de vida ativa, frente aos da clausura. No episódio procuramos evitar deliberadamente semelhante contraposição que não tem nada de cristã. Para o crente não há uma dupla alternativa. Enquanto falarmos de oração e ação como realidades separadas ou contrapostas, estamos separando a fé da vida. E isso não tem nenhuma base, nem na atuação de Jesus nem em sua mensagem. O desafio para o cristão que luta pela libertação de seus irmãos é o de viver a oração na ação. Não se trata de orar por um lado e atuar por outro, mas de orar no próprio processo de libertação, de contemplar a Deus ali onde Ele está: no rosto do pobre. A coragem necessária para “dar a vida” pelo povo e a paciência necessária para acompanhar, por dentro, a caminhada dos pobres rumo à libertação, amadurecem na oração. (Lucas 10, 38-42)
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