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Capítulo XXVI DO JEJUM E DO PÃO NOSSO Na Bíblia, o jejum aparece como uma forma de humilhação do homem ante Deus. Era praticado para dar mais eficácia à oração, em momentos de perigo ou prova. Havia dias de jejum, nos quais a lei religiosa determinava que todo o povo devia abster-se de comer, em memória de grandes calamidades nacionais ou para pedir a ajuda divina. Também se podia jejuar por devoção pessoal. No tempo de Jesus, essa prática estava ganhando cada vez mais importância. Os fariseus e os homens piedosos tinham costume de jejuar duas vezes por semana: às segundas e quintas-feiras.. O jejum, como outras devoções religiosas, foi criticado duramente pelos profetas de Israel. Tinha se convertido em uma espécie de chantagem espiritual pela qual os homens injustos pensavam conquistar a graça de Deus, esquecendo o essencial da atitude religiosa: a justiça. Com o culto, com incenso e orações, com duras penitências, buscavam obter méritos ante Deus e assim salvar-se. Os profetas clamaram contra esta caricatura de Deus e da religião e deixaram bem claro qual é “o jejum que Deus quer”: libertar os oprimidos, compartilhar o pão, abrir as portas das prisões (Is. 58, 1-12). Jesus consagrou definitivamente esta mensagem profética. Uma equivocada ideia religiosa pode nos fazer crer que Deus gosta mais da gente ou nos concede mais favores se fazemos penitências. Às vezes, não há nisto má intenção. Quando o ser humano se sente doente, quando está diante de um grande problema que não sabe como resolver, quando tem medo, recorre ao céu. E como estas crenças, nascem as promessas (peregrinações, votos, rezas...), os sacrifícios (o jejum, outras mortificações do corpo, os cilícios, as flagelações...). Mas todas estas práticas refletem uma ideia de um Deus realmente horrível: Deus seria um sádico que só se aplaca com nossas dores, que só se abranda quando nos vê sofrer. Este Deus não se parece em nada com o Deus da Bíblia, com o Deus de Jesus. Parece mais com estes ídolos de pedra diante dos quais os homens primitivos sacrificavam animais para que o cheiro do sangue acalmasse a sua ira. O Deus de quem falou Jesus, o Deus a que ele chama “papai” não quer nos ver sofrer, não quer nos ver com medo, deseja que sejamos livres, nos compreende e nos espera. É um Deus que não se compra, quer que o amemos. Só pede de nós justiça e humildade: que não nos sintamos superiores nem inferiores a ninguém (Miquéias 6, 8). Na primeira comunidade cristã, aceitou-se a prática do jejum como uma preparação para a eleição dos dirigentes da Igreja (At. 13, 2-3). Mas em nenhuma das cartas dos apóstolos se menciona o jejum. Depois, na civilização cristã, com o passar dos séculos, se impôs esse costume. Deve-se ter em conta que o jejum é uma prática habitual em muitas religiões orientais, como uma medida higiênica para manter a saúde. Considera-se que jejuar uma vez por semana pode ser benéfico para o bom funcionamento do corpo. Isto é recomendado por muitos médicos hoje em dia. A abstinência (deixar de comer carne e comer peixe em seu lugar), costume que durou até os nossos dias, tem uma origem mais econômica que religiosa. No século XII era necessário dar saída, nos mercados europeus, a grandes quantidades de peixe salgado que eram armazenadas nos mosteiros, os quais tinham o monopólio deste produto. Daí, a lei religiosa da abstinência. São só dois exemplos, mas indicam que sempre devemos analisar e tratar de saber de onde vêm estas práticas de penitência. Nenhuma delas tem suas raízes em Jesus. A mensagem do evangelho é exigente, mas não nestas coisas. Exige justiça, igualdade, liberdade. De Deus, Jesus ressalta a misericórdia com os pecadores e seu amor especial pelos miseráveis, jamais sua mesquinhez com relação aos méritos que podemos acumular. Jesus foi um homem alegre, a quem os que jejuavam acusaram de beberão e comilão. E nos disse que o Reino de Deus era semelhante a um banquete, a uma boda, a uma festa. Isto sim que é autenticamente cristão (Mateus 9, 14-17; Marcos 2, 18-22 e 4, 26-29; Lucas 5, 33-39). Em várias ocasiões o evangelho se refere ao costume de Jesus de rezar no silêncio da noite (Lc. 5, 16). Jesus cumpria, com toda probabilidade, com as orações tradicionais em seu povo: Ao amanhecer, antes das refeições, na sinagoga aos sábados, etc. Mas não se limitava às “obrigações”. Falava como Deus de forma pessoal, à margem das leis litúrgicas, quando sentia essa necessidade, quando tinha um problema, quando devia tomar uma decisão. Não rezava por obrigação, mas porque vivia uma relação com Deus que o impelia a falar com ele como se fala com um pai. Ao ensinar a seus discípulos o Pai-Nosso, Jesus também se afasta do costume. As orações que rezavam os israelitas eram recitadas em hebraico. O Pai-Nosso é, ao contrário, uma oração em aramaico, a língua em uso, o dialeto que o povo falava. Jesus chama a Deus de “Abba”, palavra da linguagem familiar em aramaico. Isto indica que Jesus rezava a Deus em sua língua materna. E quando ensina os seus amigos a orar, lhes entregou uma oração comunitária em aramaico. Com isto, Jesus tirou a oração do ambiente litúrgico e sagrado onde preferencialmente a havia colocado o povo de Israel, para situá-la no meio da vida, no ambiente familiar e cotidiano. Na língua materna de Jesus o Pai-Nosso soa assim: “Abba, yitqaddás semaj, teté maljutáj...” Jesus ensina a seus amigos a invocar a Deus como “Abba”, como “papai”, “papaizinho”. Usa a mesma palavra com a qual os filhos chamavam a seu pai. “Abba” é, por sua origem, uma palavra típica dos primeiros balbucios infantis. Em aramaico, o bebê começa a falar dizendo “abba”, “imma” (papai, mamãe). Nos tempos de Jesus usavam esta palavra não só os filhos quando eram pequenos, mas também os maiores, como sinal de confiança em seus pais. Mas para os contemporâneos de Jesus era inconcebível dirigir-se a Deus com esta palavra tão comum. Era considerado um desrespeito. Não devemos, porém, considerar que para Jesus “Abba” era uma palavra vulgar. Ao contrário, era um termo muito importante. Quando diz a seus discípulos que não chamem ninguém de pai (Mt. 23, 9), não se refere ao pai carnal, mas indica que não se deve abusar de uma palavra tão significativa. “Pai”, “Abba”, deve ficar reservado, fora do familiar, só para Deus. O Pai-Nosso, como oração, mais que uma fórmula fixa, reúne umas palavras nas quais se resume uma atitude de vida. Das duas versões que dão os evangelhos (Mt. 6, 9-13 e Lc. 11, 2-4), a de Lucas é a mais antiga e a que conserva as palavras mais originais de Jesus. O Pai-Nosso é uma oração que ressalta a atitude de confiança total em Deus: Podemos chamar a Deus “Abba” porque temos a certeza de que somos seus filhos e que Ele nos ama. (Rm 8, 15; Gl 4,6). No Pai-Nosso é central a ideia do perdão, porque toda a oração orienta o coração de quem reza para o futuro: para o Reino que vem, para a justiça de Deus no dia final do ajuste de contas, para o pão definitivo que saciará toda fome. Nesse momento, só Deus e só o perdão poderão salvar os homens. Toda a oração pede que chegue logo o reino de igualdade, de justiça, de liberdade, o Reino de Deus. Repetir uma e outra vez o Pai-Nosso sem se aprofundar nestas atitudes, falseia a mensagem de Jesus, tão oposta às orações rotineiras, ditas com a boca e não com o coração. Na oração de Jesus, o pedir pelos outros foi muito importante. Assim consta várias vezes nos evangelhos (Lc. 22, 31-32; Jo. 14, 15-16). Embora não pareça à primeira vista, isto é muito significativo. Em Israel não era frequente o costume de que uns pedissem pelos outros. Interceder pelos demais era típico do profeta, do homem que sentia, de forma especial, responsabilidade e preocupação pelos problemas de seu povo. Essa forma de oração de Jesus indica a consciência que estava amadurecendo nele e que o aproximava cada vez mais da herança dos profetas de Israel. Em geral, Deus era visto na oração como um rei distante. Rezar era entendido como uma forma de render-lhe homenagens. E assim como diante dos reis tinha-se que cumprir com todo um cerimonial, assim também na oração. Por isso se tendia a usar fórmulas fixas, solenes, estabelecidas por antigas tradições. Naturalmente, a oração estava também ligada à ideia de mérito. Entendia-se que rezando se conseguiam favores de Deus. E se se recomendava a oração comunitária era, sobretudo, porque assim chegava com mais força ao céu. Quando Jesus busca na espontaneidade da criança, em sua simplicidade, em sua insistência confiada, o modelo de nossa oração, está revolucionando a ideia de oração que tinha Israel e as religiões dos demais povos. (Mateus 6, 5-15; Lucas 11, 1-4)
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