Apresentação
Fale Conosco
Veja Também:
Capítulo XXV UMA PERGUNTA QUE CHEGOU DA CADEIA João, o profeta do deserto, continuava preso na cadeia de Maqueronte. O rei Herodes não se atrevia a matá-lo por medo de uma sublevação popular. Também não se atrevia a deixá-lo em liberdade por medo de Herodíades, sua mulher. E assim, João passou meses sem ver a luz do sol, apodrecendo numa masmorra úmida e escura, perto das montanhas de Moab... Matias: Psiu! Carcereiro! Carcereiro: Vocês outra vez! Matias: Queremos ver o profeta. Carcereiro: Mas vocês estão achando o quê? Vão pro inferno e deixem-me em paz! Tomé: Que-que-queremos levar um po-pouco de comida ao pro-profeta João. Carcereiro: Está proibido. A lei é a lei. Matias: Cinco? Carcereiro: Cinco! Hum! Arriscar a minha vida por cinco míseros denários! Tomé: Uff... Te-te-te daremos sete. Certo? Carcereiro: Malditos sejam. Está bem, passe as moedas. E você, infeliz, tome com cuidado! Qualquer dia cortam a metade da língua que lhe sobra! E ligeiro, hein! Não quero problemas! Matias: João, João, que alegria em vê-lo! João Batista: Tomé... Matias... Que surpresa! Como conseguiram entrar? Matias: Ora, não se preocupe, sempre se encontra uma alma generosa... Tomé: Co-co-mo você está, João? João Batista: Não muito bem, Tomé. A doença continua me corroendo por dentro. Estou cuspindo muito sangue. Matias: Trouxemos alguma coisas para você comer. Veja, não é muito, mas... E este xarope de folhas de figueira que uma comadre minha disse que é muito bom para os pulmões. João Batista: Obrigado. Se não fosse por vocês, o que seria de mim? Acho que até Deus se esquece dos presos... Tomé: Não fale assim, João. Di-di-diga o que vo-você precisa e faremos o po-po-possível para arrumar. João Batista: Sim, quero pedir-lhes um favor. Algo muito importante para mim. Preciso... preciso saber se posso morrer tranquilo. Matias: O que está dizendo, João? Tenha confiança. Herodes vai soltar você logo, logo. Tem de fazê-lo. O povo tem protestado muito e... João Batista: As pessoas se esquecem do que não veem. E já faz muito tempo que não me veem. Matias: Logo sairá daqui, estou certo disso. Voltará ao rio e o povo virá escutá-lo e você continuará batizando o povo de Israel. João Batista: Não, Matias. Não... Esta doença acabará comigo antes. Estou me sentindo muito mal. Tenho os dias contados... Tomé: Não di-diga isso, João. João Batista: A morte não me assusta, Tomé. Quando comecei a falar de justiça, já sabia que isso acabaria... assim. Nenhum profeta morre na cama. Mas não me importa... Fiz o que tinha de fazer. Matias: Fala, João. O que é que você quer pedir para nós? João Batista: Lá no Jordão, conheci um galileu que veio se batizar. Quero saber o que aconteceu com ele. Se chama Jesus. E é de Nazaré... Ouviram alguma coisa sobre ele? Matias: Sim. Os rumores sobre esse sujeito chegaram à Judéia e até a Jerusalém. Tomé: Uns di-di-dizem que é um curandeiro. Matias: Outros dizem que é um bruxo. Ou um agitador. Tomé: Alguns di-di-dizem que é um novo pro-profeta. João Batista: Para mim não importa o que as pessoas dizem, mas o que ele diz. Preciso saber o que está fazendo, o que pensa... Matias: Quer que vamos vê-lo e trazer notícias dele para você? João Batista: Sim, é isso o que eu quero. Vão para Galileia. Mas que ninguém fique sabendo. Seria perigoso para ele e também para vocês. Tomé: Acho que-que-que ele vive em Cafarnaum. João Batista: Pois vão até lá. E digam-lhe isso de minha parte: João, o filho de Zacarias, pergunta: Tenho os dias contados. Posso morrer tranquilo? Semeei uma semente: Alguém a regará? Tinha um machado nas mãos. Alguém dará com ele o golpe necessário? Acendi uma luz... Alguém soprará a chama e acenderá o fogo? Digam-lhe que estou doente, e já não tenho mais forças nem voz para falar. Gritei, gritei anunciando o Libertador... Meu grito se perdeu no deserto? Matias: Algo mais, João? João Batista: Sim... Pergunte se temos de continuar esperando ou... ou se já veio aquele que tinha de vir. Oxalá não tenha me iludido em vão! Tomé: Hoje mesmo vi-vi-viajaremos para Galileia. João Batista: Vão agora. E prometo que não morrerei antes que vocês voltem. Tomé e Matias tinham sido do grupo de discípulos de João, quando o profeta gritava no deserto, na margem do rio. Agora viviam em Jericó e sempre que podiam iam a Maqueronte para visitá-lo. Naquela mesma manhã saíram em direção ao norte, à Galileia dos gentios, para cumprir o desejo do profeta encarcerado... Tomé: Te-te-temos de andar com cautela, Matias. As coisas vão mal. Matias: E como vão! Na verdade, eu é que não queria acabar como João e que meus ossos apodrecessem num calabouço como aquele... Tomé: Nem eu. Devemos falar po-po-pouco com esse Jesus. Só o necessário. Matias: Bom, isso não vai ser problema pra você. Passaram a noite em Pereia e depois em Decápole. E no terceiro dia, chegaram a Tiberíades. Margearam o lago e subiram até Cafarnaum... Matias: Psiu... Amigo, por favor, sabe onde vive um tal Jesus, um nazareno? Um Homem: O que-que-que dizem? Matias: Não tenha medo. Somos de confiança. Tomé: Queremos saber a-a-aonde está o nazareno? Homem: Eu-eu-eu-eu... Matias: Vamos, Tomé. Este está pior que você. Perguntando aqui e ali, encontraram nossa casa. E Salomé, minha mãe, lhes disse que Jesus estava no cais, como todas as tardes, esperando que nós voltássemos da pesca... Tomé e Matias se aproximaram pelas costas... Matias: Psiu... Ei, você... Jesus: O quê? É comigo? Tomé: Sim, é con-con-com você... Jesus: E o que é que há comigo? Tomé: Quem é você? Jesus: Eu é que pergunto: quem são vocês? Matias: Estamos procurando um tal Jesus, de Nazaré. Jesus: Pois já o encontraram. Sou eu. Tomé: Tem certeza de que-que-que é você? Jesus: Até hoje tenho certeza. Não sei se amanhã mudarei de ideia. Matias: Finalmente o encontramos. Viemos do Sul... Tomé: De-de-de Jericó... Matias: Quer dizer, viemos de Maqueronte. Jesus: De Maqueronte? Matias: Shh! Não grite. Podem nos ouvir. A situação está muito ruim. Como a Páscoa está próxima, há mais vigilância do que nunca. Jesus: Mas, é verdade que vieram de Maqueronte? Matias: Sim, de lá mesmo. Jesus: São do grupo de João, amigos dele? Tomé: Sim. Vimos o pro-pro-profeta João na cadeia. Jesus: E como ele está? Matias: Está bem. Bom, está mal. Está mais branco que uma lombriga depois de tantos meses sem ver a luz do sol. Um homem que era alto e forte como um cedro, agora está um farrapo. Acabaram com ele. Jesus: Está doente? Matias: Sim, muito doente. Cospe muito sangue. Não vai durar muito... Jesus: Preciso vê-lo antes que morra. Tem alguma maneira de ir até lá e falar com ele? Matias: Você não poderia entrar. Além disso, reconhecem logo que você é galileu. E os galileus estão muito manjados. Tomé: Nós damos uns denários ao car-car-carcereiro e ele nos deixa passar e conversar uns minutos com o profeta. Jesus: Eu tenho de ir lá. Preciso falar com João e perguntar-lhe algumas coisas. Matias: João também quer perguntar algo a você. Jesus: Vocês me trazem alguma mensagem dele? Tomé: Sim. João man-man-manda-nos dizer-lhe: Tenho os dias contados. Po-po-posso morrer tranquilo? Matias: Gritei anunciando o Libertador. Meu grito se perdeu no deserto? Temos de continuar esperando ou já veio aquele que tinha de vir? Jesus ficou pensativo, com o olhar perdido nas pedras negras do cais... Tomé: O que po-po-podemos dizer a João de sua parte? Jesus: Digam-lhe que... que a coisa vai indo bem. Lenta, mas bem. Começamos aqui em Cafarnaum. Somos poucos ainda, mas... mas anunciamos o Reino de Deus, lutamos contra as injustiças e procuramos fazer algo para que as coisas mudem. Tomé: E o povo, como reage? Jesus: O povo está despertando. Os que estavam cegos, vão abrindo os olhos. Os que estavam surdos, vão abrindo os ouvidos. Os que estavam derrotados, sem esperança, se levantam e começam a andar. E os mais pobres, os mortos de fome, compartilham o pouco que têm e se ajudam uns aos outros. O povo está se pondo de pé, sim, o povo ressuscita. Matias: Quem se uniu a vocês? Jesus: Muitos. Desses que sempre estiveram por baixo, claro. Digam a João que no Reino de Deus os últimos são os primeiros a entrar. Os que não têm lugar em parte alguma, os doentes, as prostitutas, os publicanos, os leprosos, os mais pisoteados... Estes têm um lugar conosco... Tomé: Não teve pro-pro-problema com a gente graúda? Jesus: Sim, claro. Isso já se sabe...Quem procura acha... Matias: E então? Jesus: Então, nada. Seguimos adiante. Seguimos anunciando aos pobres a boa notícia da libertação. Que Deus está do nosso lado. Que a Deus revolve o coração ver como está este mundo torcido e quer endireitá-lo... Matias: João se alegrará de ouvir todas essas coisas. Ficará muito feliz. Jesus: Digam-lhe de minha parte. Digam-lhe que o machado não perdeu o fio, que o fogo não se apagou, que sua semente dará o fruto a seu tempo. João entenderá. João é dos que sabem compreender o caminho de Deus. Tem bom olfato para isso. Estou seguro que ele não se desiludirá do que temos feito até agora. Nem do que ainda nos falta fazer. Pedro: Ei, Moreno, já estamos aqui! Matias: Quem são esses? Jesus: São do grupo que lhe falei. Pedro: Caramba, e estes seus amigos? Quem são, Jesus? Jesus: Olhe só! Pra falar a verdade, nem perguntei o nome deles ainda... Matias: Eu me chamo Matias. Tomé: E eu me chamo To-to-Tomé. Jesus: Sabe Pedro? Eles acabaram de falar com o profeta João, lá na cadeia. Pedro: É mesmo? Ei, rapazes, digam logo, têm notícias do profeta João! Matias: Por Deus santo, não grite, olhe que os guardas... Pedro: Que os guardas vão à merda! Andem, vamos tomar uma boa sopa de peixe para que nos contem o que sabem do profeta João. Que viva o movimento! Chegou André. Chegou Tiago. Chegamos nós da outra barca, com o velho Zebedeu. E todos nós fomos com Tomé e Matias para que nos contassem como estavam as coisas pelo Sul e por lá, na cadeia de Maqueronte. Os evangelhos falam pouco do apóstolo Tomé. João é o que o cita em mais ocasiões, dá-lhe o sobrenome de “Dídimo” e o apresenta como um incrédulo. De Matias se sabe pelo livro dos Atos dos Apóstolos que foi eleito no lugar de Judas para completar o grupo dos doze, depois da ressurreição de Jesus. Nesse relato, Tomé e Matias aparecem como discípulos de João Batista, incorporados depois ao grupo de Jesus. Tomé é gago, ingênuo, um pouco cabeça dura e covarde. A personalidade de seu amigo Matias está menos definida. João Batista, o profeta, que tanta influência teve sobre Jesus e que inspiraria decisivamente os primeiros tempos de sua atividade na Galileia, quer saber, desde as masmorras do palácio de Herodes em Maqueronte onde estava preso, o que está fazendo o galileu que ele tinha conhecido no Jordão. A resposta que Jesus dá a seus mensageiros indica a consciência que ele já tinha de ser herdeiro da tradição profética de seu povo e, cada vez mais, a de estar construindo com seus amigos, com suas palavras e com sua atividade, o reino messiânico que João mesmo e os demais profetas haviam anunciado. Foi na sinagoga de Nazaré onde Jesus anunciou pela primeira vez a mensagem de libertação a seus conterrâneos. Naquela ocasião Jesus descreveu os sinais que caracterizam essa libertação. Agora, depois de um tempo de atividade na Galileia manda que digam a João que o anunciado começa a se cumprir. Até aquele momento, a atividade de Jesus havia sido o que hoje chamaríamos uma tarefa de “conscientização”. Com sinais e com palavras, Jesus havia despertado entre os pobres de Cafarnaum e das aldeias, a esperança de sua libertação e a consciência de sua dignidade. O Reino de Deus começa precisamente quando no coração do Homem se abre caminho para certeza de que todos somos iguais, de que as diferenças entre os seres humanos são contrárias à vontade de Deus, e a partir desta convicção, o homem acha forças para lutar por um mundo justo e livre. Antes de passar a qualquer ação libertadora, o cristão tem de tomar consciência desta mensagem, essencial ao evangelho. Não há ação libertadora sem uma prévia conscientização libertadora. O texto profético de Isaías no qual Jesus baseou sua missão (Is. 61, 1-2) falava de cegos, de surdos, de mortos... Uma interpretação que reduz os sinais do Reino Messiânico a simples e isoladas curas com as quais Jesus demonstrava quanto poder tinha, falseia o evangelho. Cegos eram os que não viam, os que Jesus – com sua capacidade de fazer com que o homem se supere – fez com que voltassem a ver. Mas cego é, também, o pobre que, mergulhado na injustiça e vítima dela, não vê como sair dessa situação e chega a se cegar, quando pensa que sempre foi assim, assim será sempre. Surdo é o que não escuta com seus ouvidos e mais ainda o pobre que não escuta as vozes que falam de libertação, porque sua dor o fez perder as esperanças de que tudo possa mudar. Surdo é o que acaba se tornando fatalista e passivo. Mortos estão os que nunca viveram uma vida humana e só suaram e choraram, oprimidos por outros homens que os trataram como animais. Quando estes cegos veem, estes surdos são capazes de ouvir e estes mortos se levantam de suas tumbas de miséria, o Reino de Deus está chegando. Porque o evangelho é uma boa notícia de libertação. Uma libertação integral que irá mais além desse mundo, libertando-nos da própria morte, mas que começa já nesta terra. (Mateus 11, 2-6; Lucas 7, 18-23)
Capítulos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII XXIX XXX XXXI XXXII XXXIII XXXIV XXXV XXXVI XXXVII XXXVIII XXXIX XL XLI XLII XLIII XLIV XLV XLVI XLVII XLVII XLIX L LI LII LIII LIV LV LVI LVII LVIII LIX LX LXI LXII LXIII LXIV LXV LXVI LXVII LXVIII LXIX LXX LXXI LXXII LXXIII LXXIV LXXV LXXVI LXXVII LXXVIII LXXIX LXXX LXXXI LXXXII LXXXIII LXXXIV LXXXV LXXXVI LXXXVII LXXXVIII