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Capítulo XXIV A VENDEDORA DE FIGOS Naquele dia, ao cair da tarde, Tiago, Pedro e eu estávamos com Jesus na taberna, perto do cais. Jogávamos dados, sentados no chão. Tiago: Cinco e três! Esta rodada já está no papo! Pedro: Um momento, Ruivo, que ainda falta eu! Passe os dados. Jesus: Vamos, Pedro, defende a honra do filho de Jonas! Pedro: Segurem a respiração, companheiros, que lá vou eu. Cinco e quatro! Ganhei! João: Esse Pedro é problema! Parece que tira os dados da manga! Taberneiro: Então, o que está acontecendo aqui? Quem está ganhando? João: Por enquanto, o Ruivo e este Narigão. Mas dizem que quem ri por último ri melhor. Taberneiro: Se beberem bem, melhor ainda! Ei, vocês, perdedores, não desanimem! Logo trago para vocês uma jarra cheia do melhor vinho galileu e poderão fazer um bom brinde! Para ter sorte com os dados no jogo, e com os peixes no lago, e com as mulheres na cama! João: Esse Joaquim, sempre com suas histórias. Melânia: Olha o figo, figo! Delícia de figo! Doce como o mel, olha o figo! Tiago: E aquela com as suas. Era Melânia, a vendedora de figos, quem chegara nesse momento. Melânia: Olha o figo, figo, delícia de figo! Tiago: Outra vez essa fulana por aqui! Jesus: Quem, Tiago? Tiago: Essa dona aí, dos figos. Jesus: Eu sempre a vejo no mercado. Pedro: E pelas ruas e por todas as esquinas! Se você se descuida ela se mete até no banheiro para vender seus malditos figos! Melânia começou a dar voltas pela taberna com sua velha e suja cesta de figos na cabeça. Era uma mulher muito magra que sempre se vestia de negro. Anunciava sua mercadoria com a sua voz de taquara rachada e sorria de um lado a outro tentando encontrar um comprador para seus figos maduros. Tiago: Farrapo de mulher! Olha como está acabada. Jesus: Por que, Tiago? Que aconteceu com ela? João: Ah, isso todo mundo sabe. Algo incrível, Jesus! Escute só, essa aí não é como as outras mulheres, que uma vez por mês têm seus incômodos. Ela desde há muitos anos está como o mesmo problema. Pedro: Por isso que está acabada. E olhe que nenhum médico pode curá-la. Parece que a mulher tinha seu dinheirinho antigamente, mas gastou tudo indo de médico em médico. E nada! João: Todos os curandeiros da Galileia a conhecem. Mas nenhum achou o remédio que lhe dê jeito! Pedro: Mas ela, dá um duro danado com esses figos, para conseguir mais dinheiro e mais médicos. Melânia: Olha o figo, figo! Delícia de figo! Doces como o mel, olha o figo, figo! Tiago: Não, não queremos figos. Dá nojo os teus figos. Melânia: Estão bons, moço. Olhe só... Cheios de mel. Olhe. Tiago: Vai com os seus figos para outro canto! Não queremos. Melânia: E você, forasteiro. Não quer prová-los? Jesus: Não tenho um tostão furado, mulher. Melânia: Escute, você não é aquele que... Tiago: Caia fora, já disse! Vamos, chispa, anda! A vendedora de figos continuou dando voltas na taberna. E nós continuamos rindo dela e de seus males. Jesus: E não tem marido? Tiago: Mas, Jesus, que homem vai arcar com essa calamidade? Essa não é mulher nem nada. Nem sequer serve para parir um filho. Jesus: Mas, trabalhar ela trabalha. Pois ela passa o dia inteiro de lá pra cá com sua cesta de figos. Pedro: Sim, claro, xeretando e metendo o nariz em todas as partes. Esse é o único trabalho que fazem as mulheres: conversar. Eu creio que Deus não as fabricou de uma costela, mas da língua de Adão! Ai, as mulheres! É que são muito frouxas, isso é o que eu lhe digo, se cansam fácil. Jesus: Rufina não é frouxa, Pedro. Se não fosse ela, que seria de sua casa, heim? Pedro: Isso sim, Rufi trabalha, mas... Mas sempre anda se queixando. Sempre preciso fazer-lhe uns carinhos, você sabe. Se não, não funciona. Uma coisa eu lhe digo, as mulheres são palha que o vento leva. Jesus: Não diria isso de Salomé. Salomé é uma mulher forte e esperta. João: Bom, Moreno, essa é minha mãe. Isso é uma coisa à parte. Tiago: As mulheres são fracas, caramba. Veja agora a menina do Jairo. Jesus: Que tem a filha do Jairo? Tiago: Pois, rapaz, essa menina já estava um brotinho. Estava se desenvolvendo muito bem, a condenada. Mas, veja você, o caso é que, faz uns dias, parece que a menina pegou um resfriado, e pronto: já está morrendo! Por um catarro de nada! É o que eu estou lhe dizendo, são frouxas. Jesus: Como morrendo? Está mal assim? Tiago: De manhã me disseram que de hoje não passava. Pedro: É que as mulheres se partem mais fácil que as tiras das sandálias! Bah! Se devemos dar graças a Deus por alguma coisa, é por termos nascido homens! Não é assim? João: Ouçam, a jarra já secou! Vamos à taberna do lado. Lá o vinho é melhor. Tiago: Isso mesmo. Vamos fazer outro brinde. Porque tivemos a sorte de ter nascido machos! Venham, vamos! Pedro: Boa ideia, esse vinho de passas já está me queimando a goela. João: Vem, Jesus? Jesus: Não, vão vocês se quiserem. Eu gostaria de ir ver essa menina. João: Que menina? Jesus: A filha do Jairo. Conheço o seu pai. É boa gente. Ele e sua mulher devem estar muito preocupados. Se a menina está tão mal... Tiago: Bah, deixa isso para outro momento, Moreno. Estamos cansados. Jesus: Cansados? Ah, eu pensei que os homens não se cansavam nunca. Se vocês não quiserem ir, não precisam. Eu vou. Pedro: Está bem, vamos lá. Muito a contragosto, nos decidimos a acompanhar Jesus. Quando saímos da taberna, Melânia, a vendedora de figos, estava outra vez ali. Melânia: Olha o figo, figo, delícia de figo, doce como o mel! Tiago: Lá vem ela com os figos! Não ouviu que seus figos nos dão nojo? Saia daqui! Os olhos de Melânia, fundos e brilhantes, se voltaram para Jesus. Melânia: E você, forasteiro? Jesus: Já lhe disse que não tenho nem um centavo. Outro dia eu compro. Melânia: Forasteiro, espere, me disseram que você tem mãos de médico, que curou algumas pessoas. Eu... Eu estou doente. Eu queria que... João: Vamos, Jesus, não dê confiança! Caia fora com seus figos e nos deixe em paz! Pedro: Escute, mas que gritos são esses? As carpideiras de Cafarnaum, aquelas mulheres que tinham por ofício chorar pelos nossos mortos, atravessaram a rua correndo e lamentando-se com seus cabelos desgrenhados. Ao ouvir seus gritos, o povo saiu de suas casas e foi enchendo a rua. Uma Mulher: É Jairo! Morreu a filha dele! Morreu a filha dele! Morreu a filha de Jairo! Jairo era um dos encarregados da sinagoga de Cafarnaum. Todos nós gostávamos dele e, ao saber o que tinha acontecido, o bairro inteiro saiu correndo para sua casa. Nós também fomos. E muito próximo de nós, ia também Melânia, a vendedora de figos. Na frente da casa de Jairo, as pessoas se apertavam para entrar. Tiago: Essa mulher está nos seguindo desde a taberna, Jesus, reparou? Jesus: Sim, reparei. Tiago: É mais chata que uma mosca no nariz. Jesus: É valente, Tiago. Não se importa que riam na cara dela. Sabe o que quer. Tiago: E o que é que ela quer? Jesus: Quer ficar curada. Só isso. Não tem marido, não tem filhos. Quer, ao menos, ter saúde. Enquanto esperávamos para entrar na casa de Jairo, Melânia foi abrindo espaço aos empurrões e, por trás, começou a chamar a Jesus. Jesus: Escute, mas, quem é que está me tirando da túnica? Tiago: Quem poderia ser? Olha ali... a asquerosa! Melânia tinha conseguido por fim se aproximar de Jesus. Olhava-o com esperança. Melânia: Você pode me curar! Você pode me curar! Jesus: Como você se chama, mulher? Tiago: A chamam de “mija-sangue”! Ra, rá. Assim é como todo mundo a conhece. Jesus: Agora ninguém mais voltará a chamá-la com esse nome, Melânia. Fazia anos que aquela mulher não ouvia seu nome dito com tanto respeito e carinho. Fazia também muitos anos que não sentia tanta vida em seu corpo, cansado pela enfermidade e pelo sofrimento. Quando se levantou do chão, parecia com uma árvore que desperta de seu inverno e começa a soltar suas flores. Jesus: Vai em paz, mulher. Nós a vimos seguindo pelo caminho cheio de gente, com a cabeça alta e firme, ligeira, como se tivesse asas. João: O que aconteceu com ela agora, Jesus? Está louca ou o quê? Jesus: Não, João, os loucos somos nós. A vida da mulher pesa tanto como a do homem na balança de Deus. Mas nós desnivelamos essa balança. Vamos! Vamos ver essa menina! Entramos na casa de Jairo. Os lamentos e as choradeiras e a fumaça de incenso recém-queimado, enchiam o pouco ar que havia para respirar. Um Homem: Afinal de contas, Jairo teve sorte! Sobraram todos os varões. Se alguém tinha de morrer, melhor que fosse a menina, não é mesmo? Tiago: Isso mesmo, dos males o menor. Pedro: Vamos daqui, Jesus. Esse lugar está sufocante. Além disso, a morto, morta está. Já não há mais nada a fazer, senão chorar. E já há mulher demais chorando. Jesus: Não sei por que choram, Pedro. Essa menina não está morta, só está dormindo. As pessoas que estavam perto de nós e escutaram Jesus dizer isso, começaram a rir. Um Homem: Escutem, vejam só o que ele disse! Que a menina está dormindo! Pouco a pouco, Jesus abriu caminho até o quarto onde a filha de Jairo estava estendida. Pedro, Tiago e eu fomos com ele. Ao lado da menina, sua mãe chorava, arranhando o rosto e rasgando a roupa. Jairo, recostado contra a parede, levantou os olhos e viu Jesus entrar. Jairo: Jesus... Está vendo... Aí a tem. Começava a viver e nós a perdemos. Jesus: Não chores, Jairo. Jairo: Não me importo de chorar. Os homens também choram. As pessoas me dizem para me consolar que me sobraram outros três filhos homens, que são as mulheres as que choram pelas mulheres, que, afinal, por uma menina... Mas eu... Eu a queria muito. Jesus: Deus também a queria muito. Deus o compreende, Jairo. Ele também chora, o mesmo tanto quando morre um filho do que quando morre uma filha. Jesus se aproximou da esteira e olhou devagar a menina. Parecia que ela estava dormindo. Ninguém diria que ela estava morta. Agachou-se e tomou a mão dela. Jesus: Vamos, menina, acorde, levanta-se. E como se tivesse saído de um sono profundo, a filha de Jairo se levantou e sorriu. Nas leis civis e religiosas e nos costumes de Israel, a mulher era um ser inferior ao homem. As leis civis a igualavam ao escravo e à criança menor de idade, já que, como eles, devia ter um homem como dono. Seu testemunho não era válido em um julgamento, pois era considerada como mentirosa. Também era marginalizada no campo religioso. Não podia ler as Escrituras na sinagoga e não podia abençoar as refeições. Um detalhe da própria linguagem: as palavras hebraicas para “piedoso”, “justo” e “santo” não têm feminino. Supõe-se, pois, que uma mulher nunca pode ser o que essas palavras indicam. Existia uma oração, que se recomendava que os homens a rezassem todos os dias: “Louvado seja Deus por não me ter feito mulher”. A exclusão da mulher da vida social era muito maior entre as classes altas e nas cidades grandes, que no campo e em povoados pequenos. No entanto, em todo país, a escassa importância que se dava a mulher, lhe era concedida por sua habilidade nas tarefas da casa. A mulher era apreciada fundamentalmente pela sua fecundidade. Uma mulher incapaz de ter filhos não tinha valor algum. Nesse sentido, naturalmente, era mais apreciada aquela que dava a luz a um varão que a uma menina. O nascimento de uma menina produzia, às vezes, indiferença ou tristeza. “Desgraçado aquele cujos filhos são mulheres!”, afirmava um ditado popular. Influenciados por esse ambiente, inculcado desde a infância, os discípulos de Jesus seriam machistas e menosprezavam as mulheres. Mais ainda uma mulher como a vendedora de figos que aparece nesse episódio. Entre as mulheres das classes pobres era comum o ofício de vendedora. No caso de Melânia seria sua forma de sobreviver, pois como não dependia de nenhum homem, era mais desvalida do que qualquer mulher. Sua doença – o evangelho diz que ela era “hemorroíssa” – é a menorragia: uma menstruação irregular, que a fazia padecer de um fluxo contínuo de sangue. Além dos incômodos e da debilidade que uma doença assim produz, Melânia era uma mulher sempre “impura”, já que toda mulher era considerada impura durante os dias de sua menstruação (Lv. 15, 19-30). O caso da vendedora de figos era, pois, por muitas razões, um caso de extrema marginalização social: por ser mulher, por sua doença, por sua esterilidade, por sua solidão. Isto explica também a vergonha de se aproximar para pedir ajuda a Jesus. A ajuda que Jesus dá a Melânia ao curá-la e o milagre que faz sobre a filha de Jairo, são sinais de que para Deus não há diferença entre os sexos, de que o homem e a mulher são iguais. O evangelho é feminista, pois reivindica a igualdade fundamental da mulher em relação ao homem e a igual dignidade de ambos frente a Deus (Gl. 3, 28). Este é um dos aspectos mais revolucionários da mensagem de Jesus. Somente levando em conta o machismo fundamental da sociedade do tempo de Jesus, se pode apreciar plenamente a novidade que significa o evangelho, a profunda surpresa que deve ter causado a atitude de Jesus para com as mulheres. Em muitos países, o machismo é um componente social que tem um peso enorme. O Reino de Deus chegará a sua plenitude só quando a mulher for apreciada ao lado do homem, tenha as mesmas oportunidades e os mesmos direitos, só quando possa se desenvolver em plenitude como ser humano, sem nenhum obstáculo social, econômico ou religioso. (Mateus 9, 18-26; Marcos 5, 21-43; Lucas 8, 40-56)
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