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Capítulo XXIII O TRIGO E A ERVA DANINHA Naquela tarde, depois da pesca, todos nos reunimos em casa. A visita de Jesus a Cornélio, o capitão romano de Cafarnaum, fez ferver o nosso sangue. Durante umas boas de horas não fizemos outra coisa senão falar e falar sobre aquilo. Meu pai, Zebedeu, era quem mais estava com a língua mais solta. Zebedeu: Podem deixar, quando ele chegar terá de ouvir poucas e boas, puxa vida, porque eu vou lhe dizer as sete coisas que ninguém lhe disse, porque esta vergonha eu não aguento, e não aguento porque é um desaforo, porque não estou disposto a dar abrigo em minha casa aos que vão lamber as patas dos cachorros romanos, que são tão cachorros quanto eles porque apoiam suas cachorradas, maldito seja! João: Tome um pouco de fôlego, velho. Vamos, acalme-se. Quando já era noite, Jesus se aproximou da porta. Jesus: Zebedeu. Zebedeu, posso entrar? Ninguém respondeu. Jesus: Perguntei se posso entrar. Zebedeu: Vai pro diabo, nazareno! Jesus: Como aqui se sabe de tudo, suponho que já lhe contaram que não pus o pé na casa do capitão. Não cheguei a entrar. “Não manchei minhas sandálias pisando o pátio de um romano”. Zebedeu: Mas o que você está pensando, moreno do diabo? Que pode ir e vir sem dar explicações a ninguém? Será que não sabe quem é esse Mateus, publicano almofadinha? E não sabe quem é Cornélio, esse capitãozinho? Que Satanás se ocupe dele e de todos os seus! Já faz seis meses que está morando em Cafarnaum e ainda não conhece esses vermes, heim? Vamos lá, responde! Jesus: Creio que conheço melhor que você, Zebedeu. Zebedeu: Melhor que eu, verdade? Pois então vai dormir na toca deles e roer os ossos com os traidores do povo! Eu não dou abrigo em minha casa aos camaleões como você que trocam de cor de acordo com o prato em que comem! Jesus: Então... Não posso entrar? Zebedeu: Entre, condenado, entre. Não vai ficar aí como um mendigo. Além disso, já estou com as tripas reviradas desde o meio-dia, quando esse porco do Mateus veio procurá-lo. Jesus entrou na casa e nos olhou a todos. Depois se sentou no chão, com as pernas cruzadas. Nós esperamos que nos desse uma explicação. Mas ele não disse nada. Zebedeu: Que coisa, Jesus, engoliu a língua? Tiago: Jesus, como é que você explica: estamos todos os dias aqui discutindo o que se pode fazer para tirar esses romanos das nossas costas, e você vai, nada menos, que à casa do chefe deles, desse Cornélio, vai pro raio que o parta! João: Um dia você disse que os romanos têm a espada posta no nosso pescoço e que as coisas têm de mudar, e hoje todo o bairro o viu junto com esse traidor do Mateus indo visitar o romano. E aí? O que é que há com você? Zebedeu: Que o inferno o engula, Jesus! Não há quem o entenda! E, então, não vai abrir a boca? Jesus: Zebedeu, esse capitão Cornélio não é má pessoa. Verdade! Tiago: Não é má pessoa, caramba, mas é um romano! E isso é o bastante! Jesus: Sim, é romano. E daí? João: Como e daí? Os romanos são nossos inimigos. Jesus: Cornélio é romano. Nós somos judeus. E os outros são gregos. E daí? Da fruta a gente não come a casca, mas a parte de dentro, não é? Esse capitão tem casca de romano. Mas há boa fruta dentro dele. Tiago: Pois tenha cuidado para não se engasgar com essa fruta! Zebedeu: Bobagens, Jesus, bobagens. Está parecendo que você tem muitas caraminholas na cabeça. Se dizemos que temos de acabar com os romanos, é que temos de acabar com eles! Não fique dando voltas no assunto! Jesus: Mas veja, velho Zebedeu, para mim, vai acontecer com você igual ao que ocorreu com Tito e Abdón. Zebedeu: Que Tito e que Abdón? Que diabos são esses? Jesus: Esses eram os companheiros de Renato. Zebedeu: Mas, de quem você está falando, peste? Jesus: De Renato, um lavrador que tinha um pedacinho de terra por lá, detrás da colina de Nazaré. Jesus: Quando chegou o tempo das chuvas, Renato semeou todo seu terreno de trigo. Mulher: Então, velho? Cansado? Renato: Sim, mulher, estou cansado. Mas contente. Espero uma boa colheita este ano, espere só pra ver. Mulher: Poderemos comprar uma ovelha. Não é, Renato? Renato: Uma ovelha? Não uma, mulher, mas quatro. E também uma cabra. Será uma boa colheita, você vai ver, vai ver. Jesus: Mas Renato tinha um vizinho encrenqueiro que tinha muita inveja quando os outros estavam indo bem. E este vizinho se levantou à meia-noite e foi às terras em que Renato tinha semeado o trigo. Vizinho: Re, re! Vou semear erva daninha na roça e estragarei toda colheita. E depois vou estourar de rir vendo a cara do imbecil do Renato, rá, rá, rá! Jesus: E enquanto todos dormiam, aquele malvado se dedicou a espalhar sementes de joio no terreno do pobre Renato. Poucos dias depois brotaram as sementes e a terra começou a vestir-se de verde com as folhinhas novas. O trigo e a erva daninha começaram a crescer juntos. Então passaram por ali Tito e Abdón, os companheiros de Renato, e viram aquele desastre. E foram correndo contar a seu amigo. Renato: Que foi, o que foi? Tito: Abre, Renato, somos nós? Renato: Mas, que ventos os trazem? Abdón: Mas, ainda não percebeu, Renato? Renato: Perceber o quê? Abdón: Tem erva daninha na sua roça! Nós observamos bem, está saindo muito joio. Renato: Como? Joio? Não pode ser. Eu escolhi bem a semente. Semeei trigo de boa qualidade. Tito: Pois o campo está infestado de erva daninha. Renato: Demônios! Quem será que fez isso? Abdón: Pois já pode imaginar. O que todos conhecemos. Renato: Você acha que ele seria capaz de fazer uma coisa dessas? Abdón: Pois é claro. É capaz disso e de muito mais. Esse seu vizinho é um safado. Renato: Tenho vontade de agarrá-lo pelos bigodes e... Tito: Aguente aí, Renato. Deixe disso. Olhe, não se preocupe. Amanhã mesmo, Abdón e eu vamos lhe dar uma mão. Juntos, nós três limparemos bem a roça. Arrancaremos todo o joio que está nascendo no terreno, e assunto encerrado. Renato: Obrigado, amigos, obrigado. Conto com vocês. Jesus: E na manhã seguinte... Renato: Escute, espere aí, o que você está arrancando? Deixe eu ver. Tito: É joio, olha. Renato: Não, homem não, isso é trigo. Tito: É joio, Renato, olhe bem! Renato: Não seja imbecil, Tito, estou dizendo que esta folha é de trigo! Tito: O que você acha, Abdón? Abdón: Deixe eu ver. Não sei, é que se parecem muito uma com a outra. Tito: Pelos calos de Abraão, digo que isto é joio, Renato! Renato: Pois eu digo que é trigo, Tito, e que você está arrancando o meu trigo! Ufa! Um problema atrás do outro. Aquele vizinho me estragou a roça e agora vocês vão me estragar a colheita. Abdón: Bom, Renato, e o que você quer que a gente faça? Renato: Escutem, companheiros, vocês me perdoem. Eu lhes agradeço que tenham vindo. Mas, vamos deixar isto para outro dia, que acham? Porque enquanto não se vê o fruto, é muito difícil saber qual é trigo e qual é joio. Vamos deixar que cresçam juntos, que tal? E em breve, já será o tempo de separá-los. Assim, a colheita não se estragará. Somente que, no final, teremos mais trabalho para escolher as espigas boas e tirar as más. Tito: Tem razão, Renato. Pior seria arrancar o trigo pensando que é joio. Agora é muito cedo para sabê-lo. Renato: Quando chegar o tempo da colheita, eu avisarei vocês. Então se verá bem qual é trigo e qual é joio. O joio, queimaremos. E o trigo, guardaremos no celeiro. Certo? Abdón: Certo, Renato. Jesus: E se passaram os dias, e o trigo e o joio cresciam juntos. E quando chegou a colheita, Renato e seus companheiros separaram facilmente as espigas de trigo e as espigas de joio. Desta vez, não se enganaram. Souberam ter paciência e não se equivocaram. Zebedeu: Então eu me pareço com Tito e Abdón, os companheiros desse Renato? Jesus: Eu penso que sim, Zebedeu. Você disse: “Cornélio é joio, fora com ele! Temos de arrancá-lo!” Zebedeu: Eu disse e volto a dizer! Jesus: Pois veja você: Deus não é assim. Deus tem um pouco mais de paciência, porque sabe que os homens são como as plantas: se conhece pelo fruto. Se uma árvore dá bom fruto, essa árvore é boa, embora tenha a casca feia. Mas se o fruto é ruim, a árvore é má, embora tenha muito boa aparência. O que conta é o fruto, Zebedeu. Então, me diga uma coisa, você já viu alguma vez uma touceira de espinhos dando uvas? Zebedeu: Não! Jesus: E viu alguma moita de cardos com figos nos ramos? Zebedeu: Também não! Jesus: Então... Zebedeu: Então continuo insistindo que Cornélio é um cachorro romano, e me diga com quem andas que eu te direi quem és! Jesus: Claro, assim é mais fácil. Nós apontamos o dedo, lhe colocamos um letreiro no pescoço, na frente de todo mundo e pronto: vocês são os maus, nós, os bons. “Deus meu, que chova fogo do céu e queime os chifres de todos esses safados!” Mas Deus ri e diz: escute, e como você sabe qual é o trigo e qual é o joio? “Porque este é romano, e aquele é judeu, e este fariseu piedoso e aquele um revolucionário zelote, e este um saduceu vendido, e este outro, um sacerdote do templo!” E Deus recolhe todos os letreiros que levamos pendurados e os queima no lixo. Mostrem-me os frutos. Mostrem-me os frutos, e então conversamos. Não acha, Zebedeu, que temos de prestar mais atenção no que a pessoa faz do que no título que ostenta? Zebedeu: Eu só acho uma coisa, Jesus! Jesus: Que coisa, Zebedeu? Zebedeu: Que esse capitão é romano! E que só de vê-lo já me revira as tripas! Assim, que eu acho muito ruim que tenha ido à casa dele! E continuarei pensando assim até o dia em que me fechem os olhos e esteja no fundo do lago comido pelos caranguejos!! João: Vamos lá, pai, sossegue. Assim vai ter um piripaque. Vai com calma. Jesus: Quando chegar esse dia, você entenderá tudo Zebedeu. Só no final é quando se veem as coisas claras. Isso de separar o trigo do joio é assunto de Deus, não nosso. Meu pai, Zebedeu, continuou resmungando. E meu irmão Tiago também. E Pedro. E eu. Fomos até às tantas da noite discutindo com Jesus. Nenhum de nós entendeu então aquela história do trigo e da erva daninha. O nacionalismo intolerante que tinham Zebedeu, seus filhos e, seguramente, a maioria dos discípulos de Jesus, os enchia de preconceitos. Nesse caso, em particular, preconceitos políticos contra as autoridades romanas e os colaboracionistas, como Mateus. Por sua condição social, os preconceitos dos amigos de Jesus não seriam nem de tipo moral nem religioso. Mas eram bastante intransigentes em questões políticas. Se o nacionalismo é entendido em um sentido excludente, de superioridade ou prepotência, pode ser um sentimento muito perigoso e estar em contradição com o universalismo cristão. O evangelho de Jesus é uma mensagem que tende a apagar as fronteiras entre as nações em favor de uma profunda solidariedade entre os homens. Frente a esta intransigência, Jesus conta a seus amigos uma parábola. A parábola do joio e do trigo é um chamado à compreensão e à tolerância. Jesus os faz ver como é arriscado julgar antes do tempo e o quão útil pode ser a paciência até o momento da colheita. Na Palestina cresce uma variedade de joio, que é uma erva daninha muito parecida com o trigo. Quando está crescendo mal se distingue deste. Se – como conta a parábola – há muita erva daninha no campo por culpa do vizinho malvado, é perigoso arrancar o joio antes do tempo. É melhor esperar e, no momento da colheita, tirar o joio entre as espigas do trigo. Pois então é bem mais difícil de se enganar. É costume dos camponeses aproveitar o joio deixando-o secar e usá-lo depois para o fogo. A Palestina é uma terra pobre em matas e, portanto, escassa de material combustível. Com esta parábola Jesus quer dizer que ninguém está capacitado para estabelecer claramente quem é quem, para pregar etiquetas e, com base nisso, discriminar aos demais. Os homens não podem ver dentro do coração e se pretendem classificar em “bons” e “maus” os outros, podem cair em grandes erros. Só nos filmes – e não precisamente nos melhores – está bem claro desde o início quem são os bons e quem são os maus. A parábola se refere também ao juízo que Deus fará no final da história, quando será a hora da colheita e se saberá, sem erro, quem era trigo e quem era joio. E ao falar do juízo, Jesus fala também da paciência de Deus. Deus é paciente porque é bom, porque sempre dá oportunidades aos homens. E também o é porque é sábio, porque não cai na armadilha das aparências: Julga o homem por sua atuação e não pelo cargo, vestimenta ou a função que tenha. Durante muito tempo, nós cristãos evitamos compromissos concretos no processo histórico, esperando sempre ter bem claro quem é bom e quem é mau. Esta forma de agir indica pouco realismo e, além disso, orgulho. Pretendemos ser “deuses”. Só Deus é capaz de diferenciar realmente o trigo do joio e só no final separará um do outro. Enquanto isso, no meio da história, tudo está misturado. Os que não se comprometem com nada por causa desses escrúpulos de pureza são os mais condenáveis de todos. Não fizeram nada mal, certamente, mas deixaram de fazer o bem – muito ou pouco – e por isso terão de prestar contas. (Mateus 13, 24-30
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