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Capítulo XXII O CAPITÃO ROMANO Cornélio era o capitão que comandava a tropa romana em Cafarnaum. Sua casa, muito grande, era sempre vigiada por soldados. Ali ia visitá-lo com frequência, Mateus, o publicano, que era amigo seu. Cornélio: Mais vinho, Mateus? Mateus: Sim, mais um pouquinho. Tá bom. É de Caná, não é mesmo? Cornélio: Sim, de Caná. Mateus: Escute, mas você não bebeu quase nada. O que é que há? Cornélio: Estou preocupado, Mateus. Mateus: O que está acontecendo? Esses zelotes estão preparando alguma conspiração? Cornélio: Não, não é coisa de política. Mateus: O que está acontecendo então? Precisa que lhe empreste algum dinheiro? Se quiser... Cornélio: Não é isso, Mateus. Trata-se de... de Marcos. Mateus: E quem é Marcos? Cornélio: Um dos meus criados. Já está há dez anos comigo. Mateus: E o que acontece? Está querendo servir a outro? Cornélio: Não, está doente. Faz alguns dias que não se move nem come nada. Está com umas dores terríveis. Mandei chamar todos os médicos de Cafarnaum e dizem que é grave, que ele vai morrer. Não faço outra coisa que pensar nisso, Mateus. Mateus: Pelo trono do Altíssimo, mas como pode se preocupar tanto por causa de um criado, Cornélio? Venha, coloque mais vinho, que estou com o copo seco. Cornélio: É que eu o amo como a um filho, entende? Confio nele mais que em minha própria sombra. Não quero que Marcos morra. Mateus: Pois, não sei não. Se ele tem uma doença grave. Não sei não. Escute... Talvez... Cornélio: Talvez o quê? Mateus: Nada, este vinho me meteu uma ideia na cabeça. Sei lá, ouvi dizer que Jesus, o de Nazaré, bem, você o conhece também. Dizem que é curandeiro. Ouvi dizer que limpou a carne de um leproso e que curou um louco e dizem. Bem, dizem também que lá em Naim até levantou a um morto da maca quando o levavam para enterrar. Isto eu acho que são histórias que o povo conta. Mas parece que o nazareno tem algum dom para curar. Existem camponeses que conhecem muitas ervas. Cornélio: E... E daí? Mateus: Peça que venha ver seu criado. Não custa nada tentar. O que você acha? Não me diga que é uma ideia idiota, pô! Cornélio: Eu também pensei nisso à noite, Mateus, mas... Mateus: Mas, o quê? Cornélio: Esse Jesus é boa gente, mas... tem feito duras críticas aos romanos. Nós estamos sabendo. Temos espiões em toda parte. E esses com quem ele anda. Bom, já sabemos no que estão metidos. Mateus: São uns agitadores e Jesus não fica atrás. Mas isso é farinha de outro saco. Não disse que se preocupava tanto com o criado? Pois diga a Jesus para vir vê-lo. Cornélio: E ele? Ele vai querer vir, Mateus? Eu sou um soldado romano. Vocês judeus são muito fanáticos, não sei não. Mateus: Bom, se você não se atreve a pedir-lhe que venha, então peço eu, pronto! Ele é meu amigo. O convidei para comer na minha casa e ele foi. Eu acho que ele pode ajudá-lo, Cornélio. Cornélio: Sim, Mateus. Eu também acho. Ao meio-dia, quando Mateus terminou de cobrar os impostos das caravanas do norte, foi ao bairro dos pescadores, junto ao cais, procurar por Jesus na casa do meu pai, Zebedeu. Vizinhos: Publicano do diabo! Vai procurar sua turma, nojento! Traidor! Como sempre, por estar cheio de álcool andava cambaleando. E como sempre também, o povo cuspia por onde ele passava e o insultava. Mas o efeito do vinho lhe tapava as orelhas. Quando Mateus chegou à nossa casa, estávamos comendo. João: Ei, você, nojento, o que está procurando por aqui? Mateus: Procuro o Nazareno. João: E para quê, se é que se pode saber? Mateus: Isso é particular. Ele está aí? Jesus: Estou aqui, Mateus. Qual é o problema? Atrás de Jesus, saíram meus pais e Tiago com sua mulher. Na estreita rua, o povo também começou a se juntar. Queriam saber o que Mateus estava procurando no bairro. Meu pai, Zebedeu, foi o primeiro a levantar a voz. Depois a gritaria cresceu como espuma. Zebedeu: Que faz você aqui, filho de uma cadela? Não se atreva a pôr o pé na minha casa! Tiago: Aqui você não perdeu nada, bebum! Vai vomitar em outra esquina! Vizinhos: Fora, fora! Mateus: Vão pro inferno vocês todos! Eu vim procurar Jesus! Zebedeu: Jesus, o que você tem a ver com esse tipo de gente, hein? Jesus: Não sei o que ele quer, Zebedeu. Vocês não o deixaram falar ainda. Diga, por que estava me procurando, Mateus? Mateus: Sim, você mesmo! E estes que vão se danar todos juntos! Jesus: Bom, já chega! Qual é o seu problema, Mateus? Mateus: Cornélio, o capitão romano, quer que você vá à casa dele. Jesus: Para que quer que eu vá? João: Isso é uma cilada, Jesus. Não confie nesse cara. Mateus: O criado dele está doente. Quer que você vá vê-lo. Tiago: Pros diabos com o capitão romano e com seu criado e com você! Mateus: Sim, sim, agora está gritando, galego, mas quando foram construir a sinagoga, bem que todos vocês se lembraram do capitão para conseguir logo a permissão. João: Isso já faz muito tempo! Mateus: Sim, e no ano passado, aqueles presos. Então, foram chamar o capitão para os tirar daquela fria, hein? Zebedeu: Cale a boca, nojento! Mal abriu a boca e já está lambendo as botas dos romanos! Fora, suma daqui antes que eu torça o seu pescoço como a uma galinha! Não quero ver você passar nem na frente da minha porta! Suma daqui! Mas Mateus, não se foi. Limpou a cusparada com a manga da túnica e olhou para Jesus. Mateus: Então? Vem ou não vem? Tiago: Mas é claro que ele não vai! Jesus: Olhe, Tiago, eu tenho boca para responder, não é? Sim, vou com você, Mateus. Zebedeu: Jesus, se você se atrever a pôr o pé na casa desse cachorro romano, não voltará a pô-lo na minha casa! Aqui você não entra mais! Esta á ouvindo? Entendeu bem? Jesus e Mateus abriram caminho entre as pessoas e foram rua abaixo. Meu pai, roxo de raiva, deu um murro com a mão fechada na parede e entrou em casa novamente. Nós entramos atrás dele. Lá fora, o bairro inteiro ficou falando sobre o que tinha acontecido. O fuxico levou apenas alguns minutos para dar a volta no bairro dos pescadores. A casa do capitão Cornélio era fora de Cafarnaum, junto ao quartel. Jesus e Mateus, seguidos muito de perto por um monte de curiosos, saíram da cidade e se dirigiram para lá. Mateus: Detesto os seus amigos, nazareno. Jesus: E eles detestam você, Mateus. Ódio gera ódio. Assim acontece sempre. Mateus: Pois verá que isso que você diz não vale para Cornélio. Esses seus amigos o odeiam, mas ele sempre que pode os ajuda. Quando já estavam chegando à casa do capitão, Cornélio saiu ao encontro deles. O povo se aproximou de Jesus e Mateus procurando não perder uma só das palavras que iam dizer. Cornélio: Saudações, Jesus! Conseguiu convencê-lo, Mateus. Mateus: Meu trabalho custou caro, senhor capitão. Esse velho Zebedeu me jogou sete maldições porque eu ia vir à sua casa. Disse não me deixará entrar outra vez na dele. Cornélio: Zebedeu falou isso? Mateus: Isso, mais uma cusparada que eu ganhei por lhe bater à porta. Cornélio: E toda essa gente que veio com vocês? Mateus: Os curiosos de sempre. Como aqui em Cafarnaum não tem teatro, eles se distraem com qualquer coisa. Cornélio: Desculpe-me, Jesus, não pensei que ia lhe causar tantos problemas. Jesus: Não se preocupe, Cornélio. E muito menos com Zebedeu. Cão que late não morde. Cornélio: Também dizem: é melhor prevenir que remediar. Olhe, Jesus, não vale a pena que arrume nenhuma confusão por entrar em minha casa. Eu não valho tanto por isso. Como você vê, sequer me atrevi a ir procurá-lo. Jesus: Mateus me disse que você tinha um criado doente. Cornélio: Sim, Marcos. Você já curou muitos doentes. É o que ouvi dizer. Não posso fazer mais nada por ele. Está ardendo em febre. E pensei que... Mateus: Cornélio quer que você cure o criado. Quer dizer, se você puder. Jesus: Mas eu gostaria de vê-lo. Vamos... Cornélio: Não, Jesus. Já lhe disse que não quero arrumar problemas para você. Veja, o Deus em que você crê – assim dizem vocês, judeus – é dono da vida e da morte. Se Ele der uma ordem à doença, Marcos ficará curado. Jesus: Você acredita que é assim, Cornélio? Cornélio: Bom, quando me dão uma ordem, eu tenho de obedecer. E eu também, quando digo a um dos meus soldados: venha cá, ele vem. E quando digo que vá, ele vai. Seu Deus não é o chefe de todos nós? Então você não precisa entrar. Dê uma ordem em nome desse Deus em que você crê e a doença obedecerá. Quando Jesus ouviu o que dizia o capitão Cornélio, ficou admirado e se voltou em direção às pessoas que o tinham seguido. Jesus: Puxa, esse homem que é um estrangeiro tem mais fé em nosso Deus que todos os que estão aqui! Uma Mulher: O que disse, nazareno? Jesus: Digo que um dia muitos virão de fora, como Cornélio, e se sentarão para comer na mesma mesa de nosso pai Abraão. Um Homem: Escutem esta agora! Quanto será que o capitão lhe paga para que lhe faça esses elogios? Jesus: Sim, escutem o que digo: eles entrarão. E muitos dos que estão dentro e se acham muito seguros, ficarão de fora. Mulher: Mas, o que está dizendo este aí? Onde já se viu! Homem: Passou para o outro lado, Jesus?! Mateus: Pro diabo com esta gente! Se não armam uma confusão não ficam satisfeitos. Saiam daqui, arruaceiros e desordeiros, fora daqui, todos! Mulher: Fora você, bebum traidor! Jesus: Deixe-os Mateus. Vamos. E você, Cornélio, não se preocupe mais por seu criado. Deus lhe dará o que você espera Dele. Cornélio voltou para casa entre os assobios e as vaias do povo. Então Jesus levantou a voz, muito irritado. Jesus: Vocês têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem. Homem: Que diabos que isso tem a ver? Esse capitão é um cachorro romano. E os romanos são nossos inimigos! E o que puxa o saco dos romanos é tão cachorro quanto eles! Jesus: Vocês têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem. Mulher: Lá vem ele de novo com essa ladainha! Você é que está cego, nazareno, você! Homem: Cego não, vendido! Vamos ver se ele mostra o bolso, para ver quanto dinheiro lhe deu o capitãozinho! Mulher: Abaixo Roma e abaixo os traidores! A confusão durou ainda um bom tempo. Quando as pessoas se cansaram de gritar, regressaram a Cafarnaum levando o boato do que havia acontecido. Jesus voltou mais tarde, por outro caminho, ao bairro dos pescadores. Nós estávamos ali estávamos esperando. Enquanto isso, na casa do capitão Cornélio, a febre de Marco já havia baixado. Embora Mateus não fosse funcionário do império romano, mas do rei Herodes – por ter seus postos alfandegários na Galileia – tinha muito boas relações com os soldados romanos. Era Roma quem mantinha Herodes no trono. Pela importância estratégica de Cafarnaum, havia na cidade uma guarnição romana sob o comando de um centurião. O centurião (capitão ou comandante em nossa linguagem) era a autoridade militar que mandava sobre a centúria, a menor unidade da infantaria romana (= 100 soldados). Os militares romanos eram vistos pelo povo israelita com o ódio com que as nações olham as tropas de ocupação que invadem seu país. Aqueles soldados eram os representantes do poderio imperialista de Roma, dona, naquele tempo, da maior parte do mundo conhecido. O orgulho nacional e os desejos de liberdade dos israelitas entravam continuamente em conflito com esses militares estrangeiros. Para os amigos de Jesus, que estavam muito influenciados pelo espírito zelota – marcadamente nacionalista e antirromano – este ódio e esta repulsa eram difícil de superar. Se a acolhida de Jesus ao publicano Mateus determinou o primeiro conflito sério no grupo dos apóstolos, a atitude aberta de Jesus para com o capitão romano seria seguramente motivo de outra grave discussão entre eles. À margem da ocupação romana, o povo israelita foi – e ainda hoje é – um povo excessivamente nacionalista. A consciência que tinha de ser um povo eleito de Deus estava na raiz desse sentimento, que era na maioria das ocasiões excludente de outras nações e dele nascia o desprezo aos estrangeiros. No tempo de Jesus havia uma crença bastante generalizada de que quando o Messias chegasse, seria a hora de um grande juízo de Deus sobre todas as nações e então, haveria vingança contra elas. Jesus rompe absolutamente com estas ideias. No evangelho, o nacionalismo é substituído pelo universalismo. E, embora Jesus se relacione somente em ocasiões isoladas com estrangeiros – uma delas é esta – sua acolhida a eles é um sinal de que Deus não é de nenhuma raça, nem de nenhuma nação. Neste episódio não se insiste tanto na cura do rapaz, mas no que significa para nossa fé: a necessidade de superar as barreiras nacionalistas. (Mateus 8, 5-13; Lucas 7, 1-10; João 4, 43-54)
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